{"id":162,"date":"2008-03-07T12:33:28","date_gmt":"2008-03-07T14:33:28","guid":{"rendered":"http:\/\/colunistas.ig.com.br\/revoluttion\/2008\/03\/07\/bob-dylan-e-o-retrato-borrado-da-era-de-ouro-do-rock-n-roll\/"},"modified":"2025-02-27T23:12:43","modified_gmt":"2025-02-28T02:12:43","slug":"bob-dylan-e-o-retrato-borrado-da-era-de-ouro-do-rock-n-roll","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2008\/03\/07\/bob-dylan-e-o-retrato-borrado-da-era-de-ouro-do-rock-n-roll\/","title":{"rendered":"Bob Dylan e o retrato borrado da era de ouro do rock &#8216;n roll"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-29329\" title=\"dylan1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/dylan1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"496\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/dylan1.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/dylan1-300x198.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><strong><br \/>\nTexto por Marcelo Costa<br \/>\nFotos por Liliane Callegari<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00daltima m\u00fasica. George Receli, o baterista, d\u00e1 duas marteladas no bumbo e a banda entra jogando no colo da audi\u00eancia &#8220;Like a Rolling Stone&#8221;, a can\u00e7\u00e3o que tirou Bob Dylan de vez da ala folk e o transformou em \u00edcone pop em 1965. O homem n\u00e3o est\u00e1 olhando a plateia. O teclado (em que Bob passa 80% do show) fica posicionado na lateral do palco, para que ele comande com olhares as baquetadas de Receli e coordene &#8211; junto ao baixista Tony Garnier &#8211; os improvisos da banda. No lado direito da plateia, uma garota de estatura mediana consegue &#8211; numa falha da seguran\u00e7a &#8211; escalar o palco e parte correndo em dire\u00e7\u00e3o ao homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bob Dylan est\u00e1 imerso na can\u00e7\u00e3o, buscando na mem\u00f3ria a letra que vai saindo pelos l\u00e1bios em fiapos desgastados de voz. A menina corre, para em frente a ele e abre os bra\u00e7os. Assim que v\u00ea a garota, Dylan toma um susto e faz um gesto autom\u00e1tico de &#8220;pare&#8221; com a m\u00e3o esquerda estirada e o bra\u00e7o retra\u00eddo, enquanto a m\u00e3o direita continua intercalando teclas pretas e brancas. A menina fica petrificada at\u00e9 ser agarrada por um seguran\u00e7a brutamontes que, ao inv\u00e9s de portar uma cara de poucos amigos, ri de toda a cena enquanto a retira do palco. O p\u00fablico vai ao del\u00edrio e deixa as cadeiras &#8211; de R$ 250 at\u00e9 R$ 900 &#8211; para ficar em p\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um princ\u00edpio de desordem se instala no recinto com berros, gritos e urros saldando a invasora, o homem e aquela can\u00e7\u00e3o. Dylan n\u00e3o se perde na melodia, olha para Garnier, que aproximou-se para \u201cprotege-lo\u201d, e retorna ao andamento do refr\u00e3o buscando a garota com o olhar. O p\u00fablico vai junto e canta &#8220;How does it feel \/ How does it feel \/ To be without a home \/ Like a complete unknown \/ Like a rolling stone?&#8221; a plenos pulm\u00f5es sem o acompanhamento de Bob, que volta a cantar o refr\u00e3o na seq\u00fc\u00eancia e encaminha a m\u00fasica &#8211; e o show &#8211; para o final com um olhar em dire\u00e7\u00e3o a Receli e Garnier. A m\u00fasica acaba. Ele se curva em dire\u00e7\u00e3o a plat\u00e9ia, vira de costas e caminha para o backstage. Parece pensar, at\u00f4nito, num lapso de deja vu: &#8220;Isso foi t\u00e3o anos 60?.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-29331\" title=\"dylan2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/dylan2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"496\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 este momento o show alternava cl\u00e1ssicos interpretados de forma incompreens\u00edvel (&#8220;Masters Of War&#8221;, &#8220;I&#8217;ll Be Your Baby Tonight&#8221;, &#8220;It Ain&#8217;t Me, Babe&#8221;) com vers\u00f5es bem distingu\u00edveis de &#8220;Leopard-Skin Pill-Box Hat&#8221; e &#8220;Highway 61 Revisited&#8221; (metalizada, um dos grandes n\u00fameros da noite), sem contar can\u00e7\u00f5es mais recentes (o repert\u00f3rio trouxe nove m\u00fasicas p\u00f3s anos 2000 e oito dos anos 60), como a vers\u00e3o poderosa de &#8220;High Water (For Charlie Patton)&#8221; (com o grisalho Denny Freeman atacando com f\u00faria sua Fender Stratocaster) e as bem recebidas (seis) can\u00e7\u00f5es do \u00e1lbum &#8220;Modern Times&#8221; (com destaque para &#8220;Spirit On The Water&#8221;, com Dylan introduzindo a can\u00e7\u00e3o com uma gaita; e &#8220;Thunder On The Mountain&#8221;). Decep\u00e7\u00e3o mesmo s\u00f3 &#8220;Stuck Inside Of Mobile With The Memphis Blues Again&#8221;, um mero rascunho da original.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Turn\u00ea Que Nunca Termina chegou a S\u00e3o Paulo precedida de muita expectativa. O alto pre\u00e7o dos ingressos, a fama de dif\u00edcil do compositor e sua (falta de) voz castigada por anos e anos de excessos dividiam o p\u00fablico. Na hora do show, no entanto, 90% da casa estava tomada. Bob n\u00e3o falou uma palavra sequer com a plat\u00e9ia (a n\u00e3o ser quando apresentou incompreensivelmente sua banda &#8211; um quinteto &#8211; ao final do show), mas est\u00e1 muito longe de ser a pessoa dif\u00edcil que tantos pintam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De cal\u00e7a preta com uma listra branca, terno prateado (que parece ser duas vezes maior do que ele) e chap\u00e9u de cowboy com uma pena colorida, no Via Funchal, em S\u00e3o Paulo, Bob Dylan, 67 anos, fez com que duas garotas invadissem o palco (a primeira tentou subir pelo lado esquerdo da plat\u00e9ia, no in\u00edcio da apresenta\u00e7\u00e3o), e com que o \u00edcone teen do momento, Mallu Magalh\u00e3es, 15 anos, fosse conversar com os seguran\u00e7as antes do show pedindo-lhes permiss\u00e3o para entregar ao m\u00fasico algo que ela carregava em uma caixa. Isso diz muito sobre a m\u00fasica deste homem, sua influ\u00eancia e seu carisma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">F\u00e3s de primeira e \u00faltima hora (que s\u00f3 conhecem &#8220;Blowin&#8217; in The Wind&#8221; e n\u00e3o ouviram os recentes &#8220;Love and Theft&#8221; e &#8220;Modern Times&#8221;) e artistas globais (como Bruna Lombardi, que perguntada sobre qual m\u00fasica de Dylan ela mais gostava, respondeu: &#8220;Aquela que o Caetano canta&#8221;) se assustaram com a voz deteriorada do compositor. Nos anos 60, quando come\u00e7ou sua carreira, Dylan j\u00e1 n\u00e3o tinha a melhor voz da m\u00fasica pop. Esse nunca foi o seu cart\u00e3o de visitas. Natural que em 2008, sabem-se l\u00e1 quantas vidas depois, sua voz esteja esgani\u00e7ada, pequena e ardida. Pela idade e pelo descuido. Dylan envelheceu, e sua voz tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O show \u00e9 um retrato borrado da era de ouro do rock and roll, algo fora de moda, distante dos tempos modernos. Por\u00e9m, ao contr\u00e1rio de muitos outros m\u00e1rtires daquele ver\u00e3o do amor, Dylan foi ao inferno, sobreviveu a si mesmo, e voltou para contar\/cantar. Sua voz enrugada \u00e9 perfeitamente aceit\u00e1vel. O show \u00e9 um passeio sombrio entre passado, presente e futuro. Por mais que aquele momento da garota petrificada frente ao \u00eddolo tenha sido muito anos 60, n\u00e3o h\u00e1 nada mais 2008 que recusar o amargo, o ardido, o esgani\u00e7ado, aquilo que n\u00e3o soa limpo (at\u00e9 o punk e o metal soam melodiosos hoje em dia).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quase cinquenta anos se passaram, e Dylan continua na contram\u00e3o da m\u00fasica pop, caminhando sozinho em uma estrada longa e solit\u00e1ria. Na plateia, menos afortunados tentam capturar um fragmento de um tempo que se foi, sem perceber que Dylan est\u00e1 muito mais preocupado com o que vir\u00e1. Neste desencontro entre plateia e artista encontra-se o cr\u00e8me de la cr\u00e8me da arte moderna. Poucos shows no mundo podem simbolizar tanto sem serem explicitamente hist\u00f3ricos. E foi isso que aconteceu. Dylan fez uma apresenta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica em S\u00e3o Paulo, mas pouca gente percebeu.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-29332\" title=\"dylan4\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/dylan4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"496\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/dylan4.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/dylan4-300x198.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p>&#8211; Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Calmantes com Champagne<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Discografia Comentada: todos os discos de Bob Dylan (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/11\/09\/discografia-comentada-bob-dylan-parte-1\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n<div style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/colunistas.ig.com.br\/revoluttion\/files\/2008\/03\/bob029a.jpg\" alt=\"\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Quase cinquenta anos se passaram, e Dylan continua na contram\u00e3o da m\u00fasica pop, caminhando sozinho em uma estrada longa e solit\u00e1ria\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2008\/03\/07\/bob-dylan-e-o-retrato-borrado-da-era-de-ouro-do-rock-n-roll\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1320],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/162"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=162"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/162\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":87830,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/162\/revisions\/87830"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=162"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=162"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=162"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}