{"id":16059,"date":"2012-10-12T20:21:23","date_gmt":"2012-10-12T23:21:23","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=16059"},"modified":"2017-07-14T10:46:04","modified_gmt":"2017-07-14T13:46:04","slug":"sobre-buffalo-tom-veroes-e-tristeza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/10\/12\/sobre-buffalo-tom-veroes-e-tristeza\/","title":{"rendered":"Sobre Buffalo Tom, ver\u00f5es e tristeza"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16060\" title=\"bufallo1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/bufallo1.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"598\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/bufallo1.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/bufallo1-300x296.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><br \/>\n<strong>Sob o CEL 21<br \/>\nSobre Buffalo Tom, ver\u00f5es e tristeza<br \/>\npor Carlos Eduardo Lima<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o incont\u00e1veis as can\u00e7\u00f5es de Ver\u00e3o. Eu, que sempre fui um quase-socialista de carteirinha, lamentei de forma perene a aus\u00eancia em nossa literatura\/cultura dessa face redentora do Ver\u00e3o, t\u00e3o t\u00edpica da mitologia ianque. L\u00e1 em cima, na parte norte da bolota azul e branca, \u00e9 a \u00e9poca da felicidade materializada, do fim das nuvens e do frio, da chegada do sol, da Suderj informando a substitui\u00e7\u00e3o do cinza pelo azul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por conta desses eventos, digamos, naturais, a vida humana, sobretudo a vida humana mais jovem, se v\u00ea energizada de tal forma que o imposs\u00edvel parece facilmente alcan\u00e7\u00e1vel. At\u00e9 gente mais ou menos carrancuda, como o escritor franco-argelino Albert Camus, um dos pais do existencialismo, capaz de escrever uma obra t\u00e3o contundente e seca como &#8220;O Estrangeiro&#8221;, manifestou sua rela\u00e7\u00e3o com o Ver\u00e3o na bela frase: &#8220;nas profundezas do Inverno foi que percebi que existe em mim um Ver\u00e3o invenc\u00edvel&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso quer dizer que o Ver\u00e3o \u00e9 uma met\u00e1fora da for\u00e7a vital que existe em todos n\u00f3s, sem a qual, simplesmente n\u00e3o damos um passo fora de casa. O Ver\u00e3o \u00e9 t\u00e3o forte e perfeito que nele n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de algo ruim acontecer. Quando isso \u2013 por conta de algum alinhamento planet\u00e1rio em que o retorno de Saturno est\u00e1 envolvido \u2013 acontece, a vulnerabilidade \u00e9 total. Stevie Wonder, um homem muito mais doce que Camus, descreveu essa sensa\u00e7\u00e3o em &#8220;Never Dreamed You&#8217;d Leave On Summer&#8221;, em seu disco \u201cWhere I Coming From\u201d, no distante ano de 1971 (e que anos depois foi interpretada de forma emocional pelo pr\u00f3prio compositor no funeral de Michael Jackson).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/cxPtkwhsaOI\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/cxPtkwhsaOI\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como h\u00e1 o Ver\u00e3o, onde tudo pode, h\u00e1 algo que compensa tamanha felicidade sem amanh\u00e3. \u00c9 o Fim do Ver\u00e3o. Como a pr\u00f3pria morte em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida, o Fim do Ver\u00e3o \u00e9 l\u00edquido e certo. Com ele terminar\u00e3o o amor de Ver\u00e3o, o emprego de Ver\u00e3o, todos os ritos de passagem que essa esta\u00e7\u00e3o do ano pode trazer para nossa exist\u00eancia. E j\u00e1 te aviso que vai doer, filho\/a. Sinto falta de n\u00e3o ter um Ver\u00e3o para lembrar. A vida sempre foi uma constante, uma linha pr\u00f3xima do reto, o mais tem\u00edvel desenho que se pode pensar em termos da associa\u00e7\u00e3o da matem\u00e1tica com o cotidiano. O gr\u00e1fico ideal \u00e9 uma curva, cheia de idas e vindas, felicidades que varam o eixo Y e que fazem pequeno o eixo X, balanceadas por descidas igualmente vertiginosas, que levam a curva quase para fim da p\u00e1gina. Se voc\u00ea est\u00e1 numa reta, pr\u00f3xima, controlada, pac\u00edfica, sua vida, certamente, n\u00e3o teve Ver\u00e3o ou Fim de Ver\u00e3o nos arquivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa lenga-lenga \u00e9 motivada pela redescoberta de uma m\u00fasica t\u00e3o bela que a mem\u00f3ria n\u00e3o nos lembra dela o tempo todo. Nos concede a sensa\u00e7\u00e3o de, mesmo sem ouvi-la por muito tempo, ter a certeza de que a \u00faltima audi\u00e7\u00e3o foi ontem, no m\u00e1ximo, anteontem. &#8220;Summer&#8221;, do Buffalo Tom. Se voc\u00ea ainda n\u00e3o conhece esse trio de Boston, fa\u00e7a de tudo para conseguir, no m\u00ednimo, as duas colet\u00e2neas \u201cA-Sides\u201d e \u201cB-Sides\u201d, suficientes para uma apresenta\u00e7\u00e3o de credenciais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Buffalo Tom nunca foi uma banda de sucesso, permanecendo na categoria dos tesouros bem guardados da d\u00e9cada de 1990. &#8220;Summer&#8221; \u00e9 de 1995, do disco \u201cSleepy Eyed\u201d, cuja capa mostra uma garotinha deitada num sof\u00e1 ostentando caveirinhas no lugar dos olhos. N\u00e3o se engane, o \u00fanico dem\u00f4nio presente nesse disco e na obra do Buffalo Tom \u00e9 o do cotidiano, que torna as coisas mais cinzentas de quando em quando. Bill Janovitz, o vocalista-guitarrista-c\u00e9rebro da banda, \u00e9 um erudito. O m\u00e1ximo de sucesso que ele obteve foi associar a imagem da banda a uma s\u00e9rie teen americana chamada \u201cMy So-Called Life\u201d. S\u00e9rie e banda s\u00e3o iguais: geniais e underrated. A trilha sonora para uma Claire Danes adolescente, ruivinha, inteligente mas infeliz no amor s\u00f3 poderia ser alguma can\u00e7\u00e3o do Buffalo Tom, no caso, nada menos que &#8220;Taillights Fade&#8221; (do \u00e1lbum &#8220;Let Me Come Over&#8221;), uma balada cortante e rara no c\u00e2non das bandas noventistas. Balada no sentido de andamento da m\u00fasica, zero sacarina, zero firula, apenas o necess\u00e1rio. \u00c9 sobre rompimentos, partidas, luzes traseiras sumindo na dist\u00e2ncia escura da noite, conforme o t\u00edtulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Summer&#8221; veio dois anos depois da safra de &#8220;Taillights Fade&#8221;, que puxou \u201cRed Letter Day\u201d, terceiro disco do grupo, com pinta de que iria arrombar a banca em meio ao estouro grunge daquela \u00e9poca. Qual o qu\u00ea. Ficou, ao lado de outro Buffalo, o Grant Lee, como privil\u00e9gio dos que se lembram daqueles tempos, em que bandas legais pipocavam aqui e ali, com seus disquinhos saltitando nas prateleiras da Video Game Center, prontos para serem alugados enquanto o fim do m\u00eas n\u00e3o chegava e os discos propriamente ditos n\u00e3o davam as caras nas encarvalhadas estantes da Modern Sound.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/sg1rFsrCrZ8\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/sg1rFsrCrZ8\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Summer&#8221; \u00e9 uma porrada na cara. O pr\u00f3prio Bill Janovitz diz que ela \u00e9 um amontoado de mem\u00f3rias da adolesc\u00eancia envoltas pela aura do Fim do Ver\u00e3o. Que inveja. Her\u00f3is perdidos em desilus\u00e3o, fragmentos de discursos amorosos nunca ditos, mas ensaiados em frente ao espelho. Meninas que estavam no fim da sala mas que pareciam habitar gal\u00e1xias distantes, tamanho o abismo entre eu e elas. \u00c9 cena em cinza e branco, mesmo que o ver\u00e3o brasileiro nos force a uma felicidade tropical de araras azuis voando pelo c\u00e9u que n\u00e3o combine nem um pouco com a tristeza. E, caramba, o ver\u00e3o aqui \u00e9 sem fim, o calor \u00e9 sem fim. N\u00e3o h\u00e1 nada que sobreviva \u00e0 banaliza\u00e7\u00e3o neoliberalista dos sentimentos, ainda mais quando ela \u00e9 clim\u00e1tica, meridi\u00e2nica, sentencianda em Greenwich desde que o primeiro barquinho ousou sair do T\u00e2misa rumo ao Novo Mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ver\u00e3o daqui drena for\u00e7as, n\u00e3o as traz. Ele enfraquece, tira do ambiente o ar puro, como se fosse colocado um imenso exaustor na atmosfera, levando tudo para cima, deixando apenas o azul acalorado e abafado de uma cidade \u00e0 beira-mar como o Rio, que se transforma numa passarela de sambas, blocos e micaretas nada compat\u00edveis com algum tra\u00e7o de tristeza que voc\u00ea possa sentir. Lob\u00e3o, logo ele, foi s\u00e1bio em gravar &#8220;Ipanema No Ar&#8221; em 2000, justamente para fazer uma defesa est\u00e9tica do valor que tardes de chuva e cinzentas alcan\u00e7am em nossa retina, ainda mais quando t\u00eam como pano de fundo a Lagoa Rodrigo de Freitas e chegam ao m\u00e1ximo da ousadia anti-est\u00e9tica em termos de Rio: cobrir o Cristo Redentor. \u00c9 o Anti-Ver\u00e3o, algo que nos d\u00e1 for\u00e7a tamanha, equivalente ao Ver\u00e3o l\u00e1 de cima. \u00c9 o sagrado direito da auto-comisera\u00e7\u00e3o garantido por lei, por clima, por S\u00e3o Pedro. \u00c9 a hora e a vez de sentir um pouco de n\u00e3o-calor, uma vez que eu respeito a lenda de que o carioca n\u00e3o sente frio, sente frescura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que &#8220;Summer&#8221; tem a ver com isso \u00e9 que ela fornece um passaporte sensorial imediato para quem a ouve. N\u00e3o importa onde voc\u00ea nasceu, ser\u00e1 imposs\u00edvel evitar a porretada do Ver\u00e3o\/Anti-Ver\u00e3o em sua vida e os efeitos que isso poder\u00e1 ter. Essas can\u00e7\u00f5es s\u00e3o momentos raros em que a gente se sente ing\u00eanuo o bastante a ponto de parecer um adolescente bobo em busca de referenciais enquanto escreve um texto tristinho. Mas o fato \u00e9 que, talvez desde o in\u00edcio dessa minha nova colabora\u00e7\u00e3o com o S&amp;Y, eu n\u00e3o escrevo um texto, digamos, triste. Hoje o clima \u00e9 esse. Dizem, e eu fa\u00e7o parte desse coro de opini\u00f5es, que os sujeitos que se metem a escrever e compor, o fazem melhor quando est\u00e3o nessa condi\u00e7\u00e3o, v\u00e1 saber.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ps. Bufallo Tom continua lan\u00e7ando discos e \u00e9 uma das atra\u00e7\u00f5es do Rockers Noise Festival II, em S\u00e3o Paulo, ao lado de Wedding Present. O festival acontecer\u00e1 em fevereiro do pr\u00f3ximo ano em S\u00e3o Paulo (e dever\u00e1 respingar no Circo Voador. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2012\/09\/19\/tres-perguntas-rockers-noise-festival\/\">Fique atento<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16068\" title=\"buffalo2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/buffalo2.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>CEL \u00e9 Carlos Eduardo Lima (siga\u00a0<a href=\"http:\/\/twitter.com\/#%21\/celeolimite\" target=\"_blank\">@celeolimite<\/a>), historiador, jornalista, f\u00e3 de m\u00fasica e respons\u00e1vel pela coluna Sob o CEL no Scream &amp; Yell e pelo podcast <a href=\"http:\/\/atemporal.podomatic.com\/\" target=\"_blank\">Atemporal<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/sob_o_ceu\/\"><strong>LEIA OUTRAS COLUNAS DE CARLOS EDUARDO LIMA NO SCREAM &amp; YELL<\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Sob O CEL #21\nAssim como h\u00e1 o Ver\u00e3o, onde tudo pode, h\u00e1 algo que compensa tamanha felicidade sem amanh\u00e3. \u00c9 o Fim do Ver\u00e3o. \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/10\/12\/sobre-buffalo-tom-veroes-e-tristeza\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":44,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[46],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16059"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/44"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16059"}],"version-history":[{"count":17,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16059\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":43479,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16059\/revisions\/43479"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16059"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16059"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16059"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}