{"id":15782,"date":"2012-09-16T16:40:36","date_gmt":"2012-09-16T19:40:36","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=15782"},"modified":"2012-11-22T11:05:44","modified_gmt":"2012-11-22T14:05:44","slug":"o-novo-livro-de-jeffrey-eugenides","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/09\/16\/o-novo-livro-de-jeffrey-eugenides\/","title":{"rendered":"O grande desafio de Jeffrey Eugenides"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-15783  aligncenter\" title=\"trama1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/trama1.jpg\" alt=\"\" width=\"279\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/trama1.jpg 279w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/trama1-209x300.jpg 209w\" sizes=\"(max-width: 279px) 100vw, 279px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por\u00a0<a href=\"http:\/\/twitter.com\/#!\/alegarcia\" target=\"_blank\">Alessandro Garcia<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No final da d\u00e9cada de 80, quando Jonathan Franzen e David Foster Wallace j\u00e1 eram, aos vinte e poucos anos, dois jovens escritores com seus romances de estreia sendo comentados (\u201cThe Twentyseventh City\u201d, de Franzen, e \u201cThe Broom of the System\u201d, de Wallace, ambos in\u00e9ditos no Brasil), Jeffrey Eugenides era somente um secret\u00e1rio executivo de uma associa\u00e7\u00e3o de poetas, tentando desesperadamente emplacar seus contos na consagrada revista The Paris Review.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns anos e muito esfor\u00e7o depois, Eugenides finalmente lan\u00e7a, em 1993, \u201cAs Virgens Suicidas\u201d. O autor sempre declarou confiar no conselho de Virginia Woolf: n\u00e3o lan\u00e7ar um livro antes dos 30. Talvez a espera explique sua madura obra de estreia, retrato sens\u00edvel dos aspectos mais dolorosos da adolesc\u00eancia. \u201cAs Virgens Suicidas\u201d foi apresentando a Sofia Copolla por Kim Gordon (Sonic Youth), que decidiu adaptar a obra para o cinema. N\u00e3o tardou a tornar-se obra de culto, com sua narrativa l\u00edrica que traz uma esp\u00e9cie de coro de vozes dos ent\u00e3o vizinhos das irm\u00e3s Lisbon, que mesmo muitos anos ap\u00f3s a trag\u00e9dia, ainda tentam compreender o suic\u00eddio das cinco adolescentes em uma Detroit dos anos 70. Eugenides foi saudado pela cr\u00edtica como uma das grandes vozes da jovem literatura americana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2002, quando lan\u00e7a \u201cMiddlesex\u201d, o escritor comprova o talento extremamente inventivo de sua literatura. O romance conta a fant\u00e1stica hist\u00f3ria de um gene que atravessa tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia de gregos americanos Stephanides, at\u00e9 florescer no quinto cromossomo de um hermafrodita, a menina Calliope, que, ao crescer, revela-se no seu contr\u00e1rio. Esp\u00e9cie de investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica narrada de forma intimista por uma Cal aos 41 anos de idade, o livro \u00e9 um caldeir\u00e3o no qual a protagonista joga detalhes sobre suas perip\u00e9cias de inf\u00e2ncia, a adolesc\u00eancia conturbada e as muta\u00e7\u00f5es do seu corpo. Tudo isto encadeado por uma saga que se estende por oito d\u00e9cadas de vida da sua fam\u00edlia e \u00e9 permeada por fatos pol\u00edticos, sociais e culturais, como a queda do Imp\u00e9rio Otomano, os anos 20 de uma Detroit industrial, a 2\u00aa Guerra Mundial e uma liberal S\u00e3o Francisco dos anos 70. Mais elogios da cr\u00edtica em todo o mundo e \u201cMiddlesex\u201d ganha, al\u00e9m do National Book Award, o Pulitzer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jeffrey Eugenides parecia ent\u00e3o fadado a igualar-se, ou at\u00e9 superar, Franzen e Wallace. Eram eles as duas maiores estrelas entre os escritores que, com menos de 40 anos, estavam envolvidos em uma luta de supera\u00e7\u00e3o do legado de seus antecessores. Se a p\u00f3s modernidade e o hermetismo de nomes como Thomas Pynchon e John Barth eram, para estes jovens autores, insatisfat\u00f3rios em traduzir as ang\u00fastias de uma Am\u00e9rica contempor\u00e2nea, qual deles ent\u00e3o escreveria o romance que consagraria sua gera\u00e7\u00e3o? O romance que romperia com a onipresente ironia \u2014 t\u00e3o intimamente ligada ao p\u00f3s-modernismo \u2014 e reabilitaria a literatura \u201cemocional e sincera\u201d, como David Foster Wallace defende em seu ensaio \u201cE Unibus Pluram\u201d, do livro \u201cA supposedly fun thing I\u2019ll never do again\u201d, de 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pr\u00f3prio Wallace ambicionou ocupar a posi\u00e7\u00e3o, em 1996, com seu enciclop\u00e9dico \u201cInfnite Jest\u201d. No entanto, apesar do culto (e inveja) dos seus pr\u00f3prios pares, o livro ainda pode ser encarado com uma s\u00e1tira e n\u00e3o somente como a hist\u00f3ria \u201ctriste\u201d que o autor estava querendo escrever desde que estreara, como declarou \u00e0 revista virtual Salon. N\u00e3o obstante o New York Times ter definido Wallace como \u201cum virtuose que parece capaz de fazer qualquer coisa\u201d, \u201cInfnite Jest\u201d n\u00e3o rompeu seu elo com a persona mordaz que os brasileiros s\u00f3 puderam conhecer, at\u00e9 agora, pela publica\u00e7\u00e3o de \u201cBreves Entrevistas com Homens Hediondos\u201d (Companhia das Letras, 2005).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Emocional e sincero, \u201cMiddlesex\u201d parecia, at\u00e9 o momento, o dono do cetro de romance de sua gera\u00e7\u00e3o. Mas eis que, em 2011, Jonathan Franzen descobre o mapa da mina. Depois do sucesso de \u201cAs Corre\u00e7\u00f5es\u201d, de 2001, Franzen continuaria investindo em uma forma tradicional de narrativa realista e, em 2010, lan\u00e7a \u201cLiberdade\u201d. Romance mais comentado daquele ano e do seguinte, colocou o autor na capa da Times sob o ep\u00edteto de \u201cO Grande Romancista americano\u201d e foi considerado o livro do s\u00e9culo para o The Guardian. Ambicioso at\u00e9 a medula, \u201cLiberdade\u201d usa o tri\u00e2ngulo formado pelo casal Walter e Patty Berglund e o roqueiro Richard Katz, desde seus anos na universidade at\u00e9 os dias atuais, para construir um grande painel social que abarca o choque entre o liberalismo e o conservadorismo nos governos Reagan, Clinton e Bush, a superpopula\u00e7\u00e3o, as amea\u00e7as ecol\u00f3gicas, a derrocada do politicamente correto, o individualismo, a crise entre gera\u00e7\u00f5es, a globaliza\u00e7\u00e3o. Ufa! Franzen, atrav\u00e9s do mergulho na trag\u00e9dia familiar pretende tocar nos pontos nevr\u00e1lgicos da classe m\u00e9dia norte-americana, com seu registro herdeiro da literatura do s\u00e9culo XIX. Uma escolha est\u00e9tica que agradou da cr\u00edtica empertigada at\u00e9 uma Oprah Winfrey histri\u00f4nica, tornando-se um dos livros mais vendidos no mundo inteiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As press\u00f5es de um mercado editorial p\u00f3s-\u201cLiberdade\u201d devem ter tocado fundo em Jeffrey Eugenides, e isto transparece em \u201cA Trama de Casamento\u201d (Companhia das Letras. 440 p\u00e1gs., R$ 46), seu rec\u00e9m-lan\u00e7ado livro no Brasil. Se entre todos os autores daquela \u201cpanelinha\u201d geracional, na qual se pode incluir tamb\u00e9m Michael Chabon, Chuck Palahniuk e Dave Eggers, Eugenides parecia o mais capaz de renovar a forma do romance (porque preocupado com assuntos mais sens\u00edveis que Chabon e Palahniuk, porque capaz de uma inventividade que n\u00e3o chegava a assustar como um Wallace), em \u201cA Trama do Casamento\u201d ele cede ao convencionalismo de um livro que parece ter sido escrito com a press\u00e3o de um Jonathan Franzen nos ombros e a obsess\u00e3o por um David Foster Wallace no tema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A press\u00e3o de Franzen sente-se ao nos darmos conta de que Eugenides abandona a inventividade extrema que vinha marcando sua obra, e cede lugar a um romance painel\u00edstico convencional que n\u00e3o faz jus ao trabalho do autor at\u00e9 ent\u00e3o. J\u00e1 a obsess\u00e3o por Wallace \u00e9 um fantasma que se apresenta de duas formas: al\u00e9m de parecer querer responder a um desabafo feito por este no j\u00e1 citado ensaio \u201cE Unibus Pluram\u201d \u2014 ser um \u201cantirebelde\u201d da literatura, um autor sem medo de ser tachado de melodram\u00e1tico e sentimental\u00f3ide \u2014, em seu livro ele constr\u00f3i um personagem que \u00e9 simplesmente um decalque de David Foster Wallace (tal qual Franzen e seu Richard Katz, outro simulacro de Wallace), incluindo a bandana, o tabaco de mascar, a especializa\u00e7\u00e3o em filosofia e a luta com a depress\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O personagem em quest\u00e3o \u00e9 o estudante de biologia Leonard Bankhead, o mais interessante, pelos motivos supracitados, da trindade formada neste livro. Ela inclui, ainda, o estudante de religi\u00e3o Mitchell Grammaticus e Madeleine Hanna. \u00c9 em torno dela que orbitam os dois personagens masculinos, pretendentes rom\u00e2nticos que rivalizam em estilos para conquistar a estudante de letras apaixonada por romances de casamento do s\u00e9culo XIX. Ao bom leitor, basta somente a exposi\u00e7\u00e3o desta sinopse para perceber que, mais do que com a metaliteratura (a hero\u00edna casadoira apaixonada por personagens casadoiras em d\u00favidas quanto aos dois pretendentes), Eugenides flerta com o roman \u00e0 clef, numa forma narrativa que inspira-se em pessoas reais por meio de personagens fict\u00edcio: ent\u00e3o, se Bankhead \u00e9 Wallace, o rom\u00e2ntico Grammaticus, greco-americano de Detroit, seria o pr\u00f3prio Eugenides? O autor, j\u00e1 confrontado com esta hip\u00f3tese, afirma que n\u00e3o. Agora, que fique claro: Jeffrey Eugenides \u00e9 um talento, com dom\u00ednio indiscut\u00edvel de sua prosa e grande habilidade para a constru\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es que avan\u00e7am e regridem no tempo, intercaladas sutilmente entre seus protagonistas. Cria di\u00e1logos c\u00f4micos e repletos de coloquialidade \u2014 \u00e9 um livro engra\u00e7ado e com \u00f3timos momentos. Mas com o defeito de seu mote esgotar-se antes de seu fim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abandonando o divertido argumento a que se dedicava, sobre o cen\u00e1rio acad\u00eamico americano nos anos 80, quando a difus\u00e3o da semi\u00f3tica implodiu com a ideia que se tinha de romance, \u201cA Trama do Casamento&#8221; converte-se em bildungsroman, ao alternar focos narrativos para contar a \u201cjornada\u201d de forma\u00e7\u00e3o de seus tr\u00eas personagens (quando, mais uma vez, o preciosismo da derrocada depressiva de Bankhead oblitera os outros dois, mesmo o inspirado processo de descoberta religiosa de Grammaticus), afinal revelando-se uma insossa hist\u00f3ria de amor. E o que deveria ser uma moderniza\u00e7\u00e3o dos romances vitorianos beira a ingenuidade de um tri\u00e2ngulo amoroso p\u00f3s-adolescente. O que mais se destaca, no fim das contas, \u00e9 a indecis\u00e3o de Jeffrey Eugenides entre dedicar-se \u00e0 ambi\u00e7\u00e3o metaficcional com que amea\u00e7a desde o t\u00edtulo ou \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de mais um romance realista, painel\u00edstico \u2014 e que \u00e9 contradi\u00e7\u00e3o \u00e0 voz \u00edmpar e inventiva de sua obra, at\u00e9 ent\u00e3o. Se livros s\u00e3o sobre outros livros, como diz um personagem de \u201cA Trama de Casamento\u201d, talvez este seja sobre o livro metaficcional que gostar\u00edamos que David Foster Wallace tivesse escrito ou o livro painel\u00edstico que, at\u00e9 agora, Jonathan Franzen tem escrito melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15785\" title=\"jeffewy\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/jeffewy.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*****<br \/>\nAlessandro Garcia (<a href=\"http:\/\/twitter.com\/#!\/alegarcia\" target=\"_blank\">@alegarcia<\/a>) \u00e9 escritor, autor de &#8220;A Sordidez das Pequenas Coisas&#8221; (N\u00e3o Editora, 2010), finalista do Pr\u00eamio Jabuti e um dos vencedores do Pr\u00eamio Funda\u00e7\u00e3o Biblioteca Nacional.<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; &#8220;As Virgens Suicidas&#8221;, de Sofia Coppola: para (tentar) entender as mulher (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/cinema\/virgens.html\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; The Ugly Club homenageia escritor com o single \u201cDavid Foster Wallace\u201d (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/05\/16\/entrevista-the-ugly-club\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cCalamity Song\u201d, do Decemberists, \u00e9 inspirado em David Foster Wallace (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/07\/26\/cd-the-king-is-dead-decemberists\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Leia as primeiras p\u00e1ginas de &#8220;A Trama de Casamento&#8221;, de Jeffrey Eugenides (<a href=\"http:\/\/www.blogdacompanhia.com.br\/2012\/04\/a-trama-do-casamento-novo-livro-de-jeffrey-eugenides\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Alessandro Garcia\nEis um livro escrito com a press\u00e3o de um Jonathan Franzen nos ombros e a obsess\u00e3o por um David Foster Wallace no tema\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/09\/16\/o-novo-livro-de-jeffrey-eugenides\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15782"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15782"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15782\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16473,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15782\/revisions\/16473"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15782"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15782"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15782"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}