{"id":15706,"date":"2012-09-12T23:38:26","date_gmt":"2012-09-13T02:38:26","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=15706"},"modified":"2016-09-28T19:56:10","modified_gmt":"2016-09-28T22:56:10","slug":"scream-yell-recomenda-lestics","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/09\/12\/scream-yell-recomenda-lestics\/","title":{"rendered":"Scream &#038; Yell recomenda: Lestics"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15707\" title=\"lestics\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/lestics.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"393\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/lestics.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/lestics-300x194.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <strong><a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\">Bruno Capelas<\/a><\/strong><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cQuatro caras, cinco discos e cinquenta m\u00fasicas, feitas ao longo de cinco anos\u201d. \u00c9 dessa maneira simples que Olavo Rocha, vocalista da banda Lestics, resume a carreira do grupo paulistano at\u00e9 os dias de hoje. Passando por mais uma etapa de uma trajet\u00f3ria que come\u00e7ou em 2007, no quartinho da casa do guitarrista e tecladista Umberto Serpieri, o grupo mostra ao mundo o seu rec\u00e9m-lan\u00e7ado quinto \u00e1lbum, \u201cHist\u00f3ria Universal do Esquecimento\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de Olavo e Umberto, que integram a banda desde seu come\u00e7o, quando os dois ainda faziam parte do Gianoukas Papoulas, o Lestics conta om Marcelo Patu (baixo) e Marcos \u2018Xuxa\u2019 (bateria). Parceiro do grupo em algumas can\u00e7\u00f5es de \u201cHist\u00f3ria Universal do Esquecimento\u201d, o guitarrista Lirinha deixou a banda h\u00e1 alguns meses. Os cinco discos: &#8220;9 Sonhos&#8221; e &#8220;LesTics&#8221;, os dois de 2007; &#8220;Hoje&#8221; (2009), &#8220;Aos Abutres&#8221; (2010) e \u201cHist\u00f3ria Universal do Esquecimento\u201d (2012), todos liberados de forma gratuita no site oficial da banda: <a href=\"http:\/\/www.lestics.com.br\/\" target=\"_blank\">http:\/\/www.lestics.com.br\/<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cHist\u00f3ria Universal do Esquecimento\u201d foi antecipado pelo clipe de \u201cO Baile\u201d, gravado com a participa\u00e7\u00e3o do bicampe\u00e3o mundial de boxe \u00c9der Jofre \u2013 e produzido pela Cron\u00f3pios TV, respons\u00e1vel tamb\u00e9m por um document\u00e1rio da banda lan\u00e7ado em 2011. \u201cNo clipe de \u2018O baile\u2019, existe um contraponto entre o \u00c9der, do alto dos seus 76 anos, se preparando para uma luta, e a gente se preparando para fazer um show. Fiquei muito feliz com o resultado\u201d, conta o vocalista do Lestics.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A entrevista que voc\u00ea l\u00ea a seguir foi concebida em duas partes: durante maio e julho de 2012, e-mails foram trocados entre rep\u00f3rter e os integrantes da banda, que responderam a diversas perguntas, e, no come\u00e7o do m\u00eas de agosto, o vocalista Olavo Rocha comentou alguns pontos importantes sobre o trabalho da banda em um caf\u00e9 de uma travessa da Rua Augusta, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No papo, Olavo escancara o processo de composi\u00e7\u00e3o dentro da banda, fala sobre a trajet\u00f3ria do Lestics at\u00e9 aqui, tra\u00e7ando evolu\u00e7\u00f5es e projetos para o futuro, al\u00e9m de comentar a cover que fizeram para \u201cPoor Places\u201d, do Wilco, em um tributo ao d\u00e9cimo anivers\u00e1rio de \u201cYankee Hotel Foxtrot\u201d (ou\u00e7a e baixe <a href=\"http:\/\/clubedosoutsiders.blogspot.com.br\/2012\/07\/yankee-hotel-foxtrot-tribute-box-full.html\" target=\"_blank\">aqui<\/a>); revela seus discos e diretores favoritos e comenta sobre a pol\u00edtica cultural brasileira e o cen\u00e1rio atual da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO pa\u00eds precisa investir em cultura, fomentando caminhos para que a arte seja produzida e chegue \u00e0s pessoas. N\u00e3o adianta pegar o dinheiro p\u00fablico, resolver seu problema e a sua mensagem n\u00e3o chegar para ningu\u00e9m\u201d, avalia o vocalista dos Lestics. \u201cConsigo me ver passando o chap\u00e9u para gravar um disco, mas n\u00e3o consigo pensar em me inscrever em um edital\u201d, completa Olavo, que avisa que a banda ainda tem muita lenha para queimar, uma vez que \u201ccomo diriam Shakespeare e os gregos, tudo vale a pena se a alma n\u00e3o \u00e9 pequena\u201d.<\/p>\n<p>Com voc\u00eas, Lestics:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object width=\"750\" height=\"440\" classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/TUs8m7f2Z5o\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"750\" height=\"440\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/TUs8m7f2Z5o\" \/><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas est\u00e3o lan\u00e7ando um disco novo agora, o \u201cHist\u00f3ria Universal do Esquecimento\u201d. \u00c9 o terceiro trabalho do Lestics com forma\u00e7\u00e3o de banda completa. Como voc\u00eas se sentem quanto a isso?<\/strong><br \/>\nOlavo: Acho que a evolu\u00e7\u00e3o mais legal que a banda alcan\u00e7ou no \u201cHist\u00f3ria Universal do Esquecimento\u201d \u00e9 em termos de composi\u00e7\u00e3o. As m\u00fasicas est\u00e3o mais ricas, mais fortes. Meu filho diz que \u00e9 o disco mais maduro do Lestics. Acho que \u00e9 por a\u00ed mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Umberto: At\u00e9 o nosso quarto disco, \u201cAos Abutres\u201d, sempre compus a grande maioria das m\u00fasicas no viol\u00e3o. Quando decidimos rumar para o quinto disco eu simplesmente larguei o viol\u00e3o e fui compor no piano, e assim segui tanto para as minhas m\u00fasicas quanto para as parcerias com o Patu e com o Lirinha, nosso ex-guitarrista. Isso definitivamente levou a banda para outros territ\u00f3rios, fazendo com que todos tivessem novas possibilidades em termos de arranjo. Hoje me sinto mais tranquilo com o som da banda ao vivo. Ainda estamos longe do que gostar\u00edamos, mas estamos trabalhando forte para chegarmos l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Patu: Foram dois discos em apenas um ano, depois se passaram quatro anos com mais tr\u00eas discos, ou seja, na m\u00e9dia, cinco discos em cinco anos. Esse [novo \u00e1lbum] retrata o melhor momento da banda em termos de composi\u00e7\u00e3o e arranjos. Sem d\u00favida, para mim, \u201cHistoria Universal do Esquecimento\u201d \u00e9 o disco mais bem produzido do Lestics.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Al\u00e9m da forma\u00e7\u00e3o, que foi de um duo para um quinteto, e hoje \u00e9 um quarteto, o que mudou do Lestics de &#8220;9 sonhos&#8221; pro Lestics do \u201cHist\u00f3ria Universal do Esquecimento?<\/strong><br \/>\nOlavo: O \u201c9 sonhos\u201d era um projeto. A gente nem tinha certeza de que havia uma banda ali. Com o \u201clestics\u201d (o segundo \u00e1lbum) o projeto cresceu, mas s\u00f3 virou uma banda de verdade com a chegada dos outros m\u00fasicos. A forma\u00e7\u00e3o que est\u00e1 estabelecida hoje \u2013 Umberto, Patu, Xuxa e Olavo \u2013 tem uma tremenda afinidade. N\u00f3s amamos tocar, compor e gravar juntos. E vamos tratando de fazer a m\u00fasica que nos interessa no momento. \u00c9 por isso que o som vai mudando bastante tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Xuxa: Sempre mudou, desde o come\u00e7o, e essa \u00e9 a gra\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Umberto: Tirando a quest\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o, muita coisa mudou. Nossos objetivos est\u00e3o mais claros. Nosso comprometimento com a banda aumentou muito, bem como nossas horas de ensaio, nossa vontade de crescer musicalmente e principalmente nossa consci\u00eancia de onde queremos chegar artisticamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que motivou a sa\u00edda do Lirinha? Como est\u00e3o as coisas com ele e a banda?<\/strong><br \/>\nOlavo: O que rolou foi um desencontro com o caminho musical que o Lestics estava seguindo. N\u00e3o \u00e9 o tipo de coisa que acontece de uma hora para a outra, \u00e9 um processo. Mas \u00e9 doloroso, porque a gente se gosta muito&#8230; E o Lirinha \u00e9 um cara especialmente bacana e sens\u00edvel, que trouxe contribui\u00e7\u00f5es muito importantes para a banda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Xuxa: Diverg\u00eancias musicais&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Umberto: O Lira foi um grande parceiro no Lestics. Juntos, fizemos lindas can\u00e7\u00f5es e passamos um tempo maravilhoso de conviv\u00eancia. Ele \u00e9 acima de tudo um grande amigo. Quando ele saiu da banda eu j\u00e1 esperava, mas pessoalmente lutei muito pela perman\u00eancia dele. Infelizmente, ele tomou a decis\u00e3o de sair. Fico triste pela banda, mas fico contente por ele ter conseguido tomar uma posi\u00e7\u00e3o firme e decidir o que ele julgou melhor para ele. Desejo tudo de melhor para ele, que sempre estar\u00e1 na lista dos meus melhores amigos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas fizeram um show na \u00faltima semana, j\u00e1 sem o Lirinha. \u00c9 diferente n\u00e3o t\u00ea-lo no palco?<\/strong><br \/>\nOlavo: Estamos tocando com um guitarrista convidado, mas fazemos metade do show como um quarteto. A ideia \u00e9 que, quando for preciso, esse guitarrista venha ao palco e fa\u00e7a as guitarras da maneira como elas foram arranjadas. Essa lacuna \u00e9 uma coisa que n\u00f3s tentamos n\u00e3o deixar em aberto. A ideia, por enquanto, \u00e9 namorar alguns guitarristas e depois pensar melhor essa formata\u00e7\u00e3o. Por agora, estamos focados em lan\u00e7ar o disco novo e trabalhar nesse lan\u00e7amento. Na sequ\u00eancia, com calma, vamos tentar resolver de uma vez por todas essa quest\u00e3o. Mas, na verdade, faz falta sim. Para entregar as m\u00fasicas da maneira como n\u00f3s queremos, \u00e9 preciso mais uma guitarra, embora eventualmente toquemos como um quarteto, ou s\u00f3 voz e viol\u00e3o, e as m\u00fasicas at\u00e9 podem acontecer ali. S\u00e3o can\u00e7\u00f5es, n\u00e3o s\u00e3o m\u00fasicas muito dependentes de arranjos. Mas, repito: nos shows, queremos faz\u00ea-las com mais corpo, com mais arranjos, e para isso \u00e9 importante ter aquela segunda guitarra l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas pretendem fazer clipes das m\u00fasicas do &#8220;Hist\u00f3ria Universal do Esquecimento&#8221;?<\/strong><br \/>\nOlavo: Sim. Antes de o disco sair oficialmente, vamos lan\u00e7ar o primeiro clipe, da m\u00fasica \u201cO Baile\u201d. Fiquei feliz com o resultado. Quem fez foi o Pipol, da Cron\u00f3pios TV, que foi o cara que tamb\u00e9m produziu o document\u00e1rio sobre a banda, em 2010. A coisa legal desse clipe \u00e9 a participa\u00e7\u00e3o do boxeador \u00c9der Jofre. No v\u00eddeo, tem um contraponto entre ele, do alto dos seus 76 anos, se preparando para uma luta, e a gente se preparando para fazer um show. Foi muito legal gravar com ele, \u00e9 um cara que foi bicampe\u00e3o mundial de boxe, e eu sempre gostei do esporte. A letra dessa m\u00fasica \u00e9 muito metaf\u00f3rica, e foi legal ter encontrado uma leitura diferente para esse roteiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Olavo e Umberto, voc\u00eas eram parte do Gianoukas Papoulas quando saiu o &#8220;9 sonhos&#8221; e o \u201clestics\u201d (ambos de 2007). Como foi o processo do fim do Gianoukas? E por que voc\u00eas resolveram montar o Lestics?<\/strong><br \/>\nOlavo: O Gianoukas Papoulas era uma banda incr\u00edvel, tenho um puta orgulho de ter feito parte dela. Duramos uns bons anos e produzimos bastante, apesar de n\u00e3o termos lan\u00e7ado muitos \u00e1lbuns. Gravar era bem mais complicado na \u00e9poca, dava mais trabalho, demorava mais. O projeto do Lestics surgiu porque eu e o Umberto quer\u00edamos fazer uma grava\u00e7\u00e3o simples e r\u00e1pida. Decidimos compor um disco e gravar em casa, um neg\u00f3cio sem qualquer compromisso. T\u00ednhamos uma mesinha de som, um computador zoado e um microfone. Compusemos e gravamos o \u201c9 sonhos\u201d em um m\u00eas. E foi uma del\u00edcia. Foi t\u00e3o f\u00e1cil que, depois de uns meses, logo falamos: \u201cvamos fazer outro\u201d. Saiu o \u201clestics\u201d, que deve ter levado uns dois meses entre composi\u00e7\u00e3o e grava\u00e7\u00e3o. Nessa altura, o Gianoukas Papoulas estava em outro pique, bem mais sossegado. N\u00f3s nos demos conta de que o ciclo do Gianoukas estava fechado, e ela acabou naturalmente, na boa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Umberto: Foi a minha primeira banda que conseguiu registrar seu trabalho com qualidade. Quando entrei, a banda j\u00e1 tinha certo tempo de atividade. Foi tudo muito bom! Tenho muito orgulho dos Gianoukas e no fundo uma ponta de esperan\u00e7a de uma retomada, mesmo que seja s\u00f3 para n\u00f3s mesmos, uns ensaios, sei l\u00e1. Somos grandes amigos independente da banda. Quando o Olavo mandou as letras do \u201c9 sonhos\u201d, com a ideia de realizar um processo mais caseiro, pois eu tinha armado um esqueminha de gravar l\u00e1 na minha casa, a turma dos Gianoukas n\u00e3o estava no pique de encarar esse processo. Da\u00ed, abracei a causa e tocamos o barco eu e o Olavo. Gravamos e soltamos o disco online, e logo j\u00e1 veio o segundo. Durante esse processo, o nosso baterista, o Cameron, resolveu sair da banda. Ainda tentamos outros bateras, mas n\u00e3o rolou, da\u00ed resolvemos gravar as composi\u00e7\u00f5es que t\u00ednhamos com um batera convidado. Fizemos as guias, gravamos a batera. Mas o processo todo deu uma travada e a banda tamb\u00e9m&#8230; Ainda tentamos retomar as grava\u00e7\u00f5es algumas vezes, mas n\u00e3o rolou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Muita coisa mudou de cinco anos para c\u00e1 no que diz respeito ao acesso \u00e0 tecnologia necess\u00e1ria para uma boa grava\u00e7\u00e3o. Uma banda como o Gianoukas teria gravado de maneira mais f\u00e1cil se estivesse nessa situa\u00e7\u00e3o hoje?<\/strong><br \/>\nOlavo: Acho que sim. Quando n\u00f3s come\u00e7amos a banda, em 1995, 1996, gravamos em quatro canais, depois gravamos ao vivo. Foram v\u00e1rias tentativas de fazer grava\u00e7\u00f5es simples ao longo da hist\u00f3ria da banda, mas com dificuldade de tirar um resultado razo\u00e1vel. Depois, gravamos o EP (2003), em est\u00fadio, com um esquema legal, mas que leva grana e tempo. Quando fizemos o &#8220;Panor\u00e2mica&#8221; (2005), tamb\u00e9m fizemos em um bom est\u00fadio, mas a gente tinha um selo que estava bancando, foi um lance bem bacana. Quando come\u00e7amos a pensar no sucessor do \u201cPanor\u00e2mica\u201d, saiu o baterista, e o esquema do selo n\u00e3o existia mais, precisava de grana e tempo para gravar, era uma coisa bem complicada. E n\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos um esquema de home studio para gravar legal. N\u00e3o quer\u00edamos dar um passo atr\u00e1s na produ\u00e7\u00e3o, porque j\u00e1 t\u00ednhamos passado por muita coisa. O Lestics come\u00e7ou muito na humildade, enquanto o Gianoukas n\u00e3o podia mais gravar sem infraestrutura. E, na verdade, tudo foi muito demorado, com um timing mais complicado, e a\u00ed acabamos terminando. \u00c9 uma banda que acho admir\u00e1vel, e que conseguiu ter a proeza de ser menos conhecida que o Lestics. Tocando o \u201cfoda-se\u201d na mod\u00e9stia, acho que o Gianoukas tinha um potencial muito bom. Mas acho que faz um pouco de sentido as coisas terem terminado. Nada \u00e9 feito para durar. \u00c9 legal que ela encerrou o ciclo dela em um ponto bom, e isso \u00e9 importante. Eventualmente, o Lestics tamb\u00e9m vai se encerrar, e espero que isso demore a acontecer, mas que quando vier a acontecer, que tamb\u00e9m seja na hora certa. Que n\u00e3o seja algo que passe da hora ou que aconte\u00e7a mais cedo do que deveria.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15739\" title=\"lestics23\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/lestics23.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"403\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/lestics23.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/lestics23-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E quando foi que o Lestics resolveu que tinha de deixar de ser uma dupla para ter forma\u00e7\u00e3o de banda?<\/strong><br \/>\nOlavo: Foi logo depois do &#8220;LesTics&#8221;. N\u00f3s t\u00ednhamos m\u00fasicas legais, e quer\u00edamos muito tocar essas m\u00fasicas ao vivo. E n\u00f3s n\u00e3o quer\u00edamos fazer o formato de dupla para elas, porque as m\u00fasicas tinham arranjos legais, com baixo, guitarra, viol\u00e3o, programa\u00e7\u00e3o de bateria. Resolvemos ent\u00e3o chamar gente para tocar conosco. Primeiro chegou o Patu, depois passamos por algumas mudan\u00e7as de forma\u00e7\u00e3o, mas a partir do momento que resolvemos nos assumir como banda e fazer shows dessa maneira, n\u00e3o tinha mais volta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que o &#8220;Hist\u00f3ria Universal do Esquecimento&#8221; traz de novo?<\/strong><br \/>\nOlavo: Acho que n\u00f3s somos uma banda que n\u00e3o se acomoda. Entre todos os nossos discos, consigo ver uma tentativa de evolu\u00e7\u00e3o sempre, do ponto de vista de produ\u00e7\u00e3o, de composi\u00e7\u00e3o, de acabamento, mesmo que exista em todos os discos algo de caseiro e de tosco. Existe uma tentativa de n\u00e3o se repetir, n\u00e3o faz sentido para n\u00f3s fazer m\u00fasica que a gente j\u00e1 fez, mesmo que isso tenha sido bem sucedido. Queremos fazer outras coisas. No pr\u00f3ximo disco, vamos tentar fazer as coisas ainda mais do caralho. O segundo ponto \u00e9 tentar cada vez mais melhorar um pouco a divulga\u00e7\u00e3o, descolando lugares mais legais para tocar, ter uma apresenta\u00e7\u00e3o bacana. Tentar sempre tocar em lugares com estrutura legal, com t\u00e9cnico de som, e tentar melhorar o nosso show, entregando melhor as m\u00fasicas ao vivo. Estou tentando melhorar o que eu fa\u00e7o. Quero ainda fazer a letra que eu acho do caralho. N\u00e3o estou perseguindo uma coisa imposs\u00edvel. Eu quero mesmo fazer essa letra, essa grande can\u00e7\u00e3o. \u00c9 isso que nos move.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que \u00e9 o Lestics para voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nOlavo: Quatro caras, cinco discos, cinquenta m\u00fasicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Xuxa: Uns caras que sempre me imaginei tocando junto&#8230; \u00c0s vezes quero mat\u00e1-los, mas passa!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Umberto: Vontade de fazer m\u00fasica como a gente gosta e como a gente sabe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Patu: \u00c9 a minha banda. Com certeza, a minha vida teria muito menos gra\u00e7a sem o Lestics.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como surgiu o nome da banda?<\/strong><br \/>\nOlavo: Tirei esse nome de um livro m\u00e9dico antigo, que trata de tiques nervosos. Na \u00e9poca, a ideia de um impulso involunt\u00e1rio e incontrol\u00e1vel me pareceu ilustrativa da minha rela\u00e7\u00e3o com m\u00fasica. O que fiz foi juntar as duas palavras, \u201clestics\u201d, para que o nome n\u00e3o tivesse com um significado t\u00e3o fechado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Umberto: Olavo sugeriu o nome, gostei, nem perguntei o que queria dizer. Gostei do som, achei que tinha boa vibe, da\u00ed ficou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas j\u00e1 pensaram em regravar as can\u00e7\u00f5es dos dois primeiros discos com a forma\u00e7\u00e3o atual?<\/strong><br \/>\nXuxa: Penso em regravar algumas das m\u00fasicas que n\u00e3o gravei e que eu adoro ouvir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Umberto: Gosto do som lo-fi do \u201c9 sonhos\u201d e do \u201clestics\u201d. Se eu pudesse regravar algo, refaria o disco \u201cHoje\u201d. Adoro as can\u00e7\u00f5es, por\u00e9m n\u00e3o ou\u00e7o muito esse disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Patu: Como diria Lennon, \u201ca vida \u00e9 aquilo que acontece enquanto voc\u00ea est\u00e1 fazendo outros planos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 uma pergunta ingrata, mas como voc\u00eas definiriam o som do Lestics? D\u00e1 para chamar de folk? Ou rock? Ou pop?<\/strong><br \/>\nOlavo: Tem um tanto de rock, de folk, de country, de blues, de coisas brasileiras. Mas, aqui para mim, o que n\u00f3s fazemos mesmo \u00e9 pop. \u00c9 um pop imperfeito, mas n\u00e3o deixa de ser pop.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Xuxa: Pop no melhor sentido da palavra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Umberto: O som do Lestics sempre foi muito definido pelo meu jeito de tocar viol\u00e3o, aliado \u00e0 maneira com que o Olavo escreve e canta. A sonoridade da banda sempre girou em torno do viol\u00e3o, com todos sempre buscando criar um clima gostoso pro Olavo cantar. N\u00e3o seguimos f\u00f3rmulas ou g\u00eaneros musicais. Fa\u00e7o m\u00fasica sem pensar nisso. Sempre ouvi de tudo, portanto tudo para mim \u00e9 refer\u00eancia e fonte de inspira\u00e7\u00e3o. Fujo dos r\u00f3tulos, mas no final das contas acho que temos um som meio \u201csoft-rock\u201d. Para mim, \u201cpop\u201d n\u00e3o \u00e9 g\u00eanero, \u00e9 uma qualidade. O Lestics tem muita coisa pop e muita coisa que n\u00e3o tem essa pegada, mas certamente n\u00e3o \u00e9 algo que buscamos, acontece naturalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Patu: O que importa \u00e9 a can\u00e7\u00e3o&#8230; Tudo gira em torno dela e a alimentamos de tudo que ela precisa. \u00c9 um processo natural. Estamos sempre em busca da melhor can\u00e7\u00e3o que ainda n\u00e3o fizemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object width=\"750\" height=\"440\" classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/khJfFKlKhv4\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"750\" height=\"440\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/khJfFKlKhv4\" \/><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acompanhando a banda ao longo dos anos, percebo que voc\u00eas s\u00e3o um grupo que faz poucos shows. Por que isso acontece?<\/strong><br \/>\nOlavo: A grande quest\u00e3o \u00e9 que a gente n\u00e3o consegue se dedicar integralmente \u00e0 banda. Logo, o nosso tempo pro Lestics \u00e9 meio cronometrado. Al\u00e9m disso, para fazermos muitos shows, eles teriam de ser espalhados pelo Brasil, porque n\u00e3o adianta ficar s\u00f3 fazendo show em S\u00e3o Paulo. Uma hora as pessoas v\u00e3o se encher da gente. N\u00e3o queremos saturar de shows por aqui, ent\u00e3o sempre fazemos coisas quando estamos lan\u00e7ando trabalhos, e fazemos apresenta\u00e7\u00f5es esparsas entre discos. Al\u00e9m disso, n\u00f3s n\u00e3o conseguimos fazer shows enquanto estamos em processo de grava\u00e7\u00e3o, porque dedicamos todo o nosso tempo para a grava\u00e7\u00e3o nesse per\u00edodo. Enquanto estamos compondo, d\u00e1 para fazer shows, mas assim que come\u00e7amos a fazer os arranjos, n\u00e3o d\u00e1 mais. Nos pr\u00f3ximos meses, vamos voltar aos palcos, e estamos testando j\u00e1 as m\u00fasicas novas ao vivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tem uma m\u00e9dia de shows por ano?<\/strong><br \/>\nOlavo: Fazemos uns quinze, vinte shows por ano. O que \u00e9 pouco. Mesmo considerando que a banda tem per\u00edodos de inatividade, \u00e9 pouco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Faz falta?<\/strong><br \/>\nOlavo: Claro que faz. \u00c9 importante para uma banda se apresentar. Quando conseguimos engatar uma sequ\u00eancia de shows, \u00e9 evidente que os \u00faltimos s\u00e3o mais legais que os primeiros. E \u00e9 muito legal fazer show. Adoramos estar no palco, mostrar as m\u00fasicas. Eu e o Umberto gravamos os nossos dois primeiros discos em um quartinho, com uma infra muito ruim, e o som ficou OK dentro daquela limita\u00e7\u00e3o. Nos shows, conseguimos fazer as m\u00fasicas daquela \u00e9poca com uma pegada de banda completa. Tocar essas m\u00fasicas para as pessoas com mais for\u00e7a \u00e9 bem interessante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E a ideia de gravar um disco ao vivo, est\u00e1 de p\u00e9?<\/strong><br \/>\nOlavo: N\u00f3s costumamos brincar: &#8220;ah, o sexto disco do Lestics vai ser um disco ao vivo&#8221;. Mas n\u00e3o sei n\u00e3o, porque a gente fica se co\u00e7ando para compor, e se me largarem sozinho j\u00e1 saio escrevendo letras. Talvez a gente fa\u00e7a, mas precisa de uma infraestrutura legal. N\u00e3o \u00e9 uma ideia descartada, talvez role no ano que vem, mas n\u00e3o fa\u00e7o a m\u00ednima ideia de quando isso vai acontecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como \u00e9 o processo de composi\u00e7\u00e3o dentro da banda? Existe uma receita?<\/strong><br \/>\nUmberto: O Olavo escreve livre. N\u00e3o temos influ\u00eancia na escolha dos temas e assuntos abordados por ele nas letras. Tenho pessoalmente uma liga\u00e7\u00e3o muito forte com as letras dele, muitas vezes leio e choro, ele fala por mim. Procuro sim, e sempre, criar um elo entre a letra e a m\u00fasica. Esse \u00e9 o meu trabalho no Lestics \u2013 traduzir em harmonia as letras do Olavo e criar junto com ele as nossas can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olavo: Na maior parte das vezes, o que acontece \u00e9 o seguinte: n\u00f3s resolvemos que vamos fazer um disco novo, e a\u00ed come\u00e7amos a escrever. Eu funciono meio que sob encomenda. Come\u00e7o a escrever as letras, e vou acumulando, tr\u00eas, quatro, cinco letras. Paralelamente, o Umberto e o Patu come\u00e7avam a fazer as m\u00fasicas. Eventualmente, n\u00f3s nos reunimos na casa de algu\u00e9m ou no est\u00fadio, ou grava a m\u00fasica numa base de viol\u00e3o e de piano, manda para mim, e a\u00ed come\u00e7o a pensar letra que caberia naquela m\u00fasica. Procuro nunca escrever uma letra em cima de uma m\u00fasica, at\u00e9 para evitar uma m\u00e9trica j\u00e1 determinada, porque sou eu que costumo fechar as melodias vocais e prefiro fazer isso com mais liberdade. Fazer uma m\u00e9trica muito fechada seria algo tosco para mim. Prefiro fazer a melodia com alguma dificuldade, para que a m\u00fasica me imponha algum desafio. Esse desafio me ajuda a criar melodias menos \u00f3bvias. \u00c0s vezes, acontece de eu chegar com uma melodia j\u00e1 feita \u2013 no \u201cHist\u00f3ria\u201d, isso rolou em apenas uma m\u00fasica. N\u00e3o consigo chegar a algum lugar e fazer uma letra na hora. N\u00e3o tenho facilidade para escrever letras do nada. Puxo um fio, uma ideia mais ou menos tosca, e vou trabalhando at\u00e9 chegar a alguma coisa boa. N\u00e3o \u00e9 que eu n\u00e3o fa\u00e7a letras ruins: fa\u00e7o muitas, mas n\u00e3o deixo as ruins chegarem at\u00e9 os outros. Jogo muita letra fora, mesmo que tenha me dado um baita trabalho. Se a letra vem a ver a luz do dia, \u00e9 porque acho que ela vale a pena. Mas mesmo as letras mais simples n\u00e3o s\u00e3o facilmente constru\u00eddas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15744\" title=\"lestics25\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/lestics25.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como os temas para as letras chegam \u00e0 tua cabe\u00e7a?<\/strong><br \/>\nOlavo: Cara, com rela\u00e7\u00e3o a temas, n\u00e3o \u00e9 muito \u00e9 uma escolha. S\u00e3o coisas que est\u00e3o em mim, que vieram de f\u00e1brica. S\u00e3o quest\u00f5es que me movem. N\u00e3o escolho um tema. Poderia fazer isso, acho leg\u00edtimo, mas n\u00e3o \u00e9 meu modo de trabalhar. Tem temas que eu adoraria abordar, mas isso n\u00e3o flui na minha maneira de escrever.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que temas s\u00e3o esses?<\/strong><br \/>\nOlavo: Na verdade, n\u00e3o \u00e9 nem que eu gostaria de escrever, mas que admiro muito. Acho legal quem consegue falar da realidade do pa\u00eds, com uma vis\u00e3o menos pessoal, mais ampla, falar da sociedade, mas sem ser panflet\u00e1rio ou dogm\u00e1tico. Se eu fizer, vai ficar bisonho. Se algo n\u00e3o est\u00e1 em voc\u00ea, isso transparece quando voc\u00ea escreve sobre isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que voc\u00ea disse me lembra de algo que se diz muito sobre o Manuel Bandeira, que se considerava um poeta menor, mas que escrevia coisas muito universais. Sinto algo parecido nas letras de voc\u00eas.<\/strong><br \/>\nOlavo: Acho que acontece isso. Algumas pessoas se identificam com as letras, curtem, acham que as coisas que a gente diz ali faz sentido para elas. Acho que o fato de eu morar em S\u00e3o Paulo, n\u00e3o sendo daqui, mas do interior, essa tentativa de se encaixar nesse lugar acaba aparecendo na letra. Mas \u00e9 uma cidade que muita gente n\u00e3o \u00e9 daqui e vive o que eu vivo. Por outro lado, n\u00e3o \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o minha que as pessoas se identifiquem com as letras. Se acontecer, acho do caralho. \u00c9 emocionante para mim quando algu\u00e9m fala que curte as minhas letras, mas isso n\u00e3o passa na minha cabe\u00e7a quando vou escrever.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tem alguma m\u00fasica, de todo o repert\u00f3rio de voc\u00eas, que seja a sua &#8220;filha \u00fanica&#8221;, a sua maior realiza\u00e7\u00e3o como letrista?<\/strong><br \/>\nOlavo: J\u00e1 disse: n\u00e3o deixo as letras ruins ver a luz do dia, e acho que temos letras legais na banda. Mas sem ser falsamente modesto, acho que ainda estou para escrever a grande letra da minha vida. \u00c9 uma constata\u00e7\u00e3o: nenhuma das minhas letras \u00e9 A letra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tem alguma que chegou perto de ser essa letra?<\/strong><br \/>\nOlavo: Acho que a letra de &#8220;Travessia&#8221; \u00e9 uma que quase chegou l\u00e1. (sil\u00eancio). &#8220;Trope\u00e7o&#8221; \u00e9 uma letra que gosto tamb\u00e9m. Depois que virou m\u00fasica, n\u00e3o consigo mais separar a letra da m\u00fasica. N\u00e3o vejo minhas letras como letras para serem lidas, elas n\u00e3o s\u00e3o liter\u00e1rias. Elas n\u00e3o t\u00eam essa pot\u00eancia. S\u00e3o ideias que se realizam dentro da can\u00e7\u00e3o. Em &#8220;Trope\u00e7o&#8221;, adoro a maneira como a letra se resolve. &#8220;N\u00e1usea&#8221; tem a mesma coisa: dentro da m\u00fasica, aquela letra se fortalece. \u00c9 uma quest\u00e3o de conjunto. De maneira geral, gosto bastante do nosso trabalho (risos), n\u00e3o sou um frustrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object width=\"750\" height=\"440\" classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/WVc8U2yZshw\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"750\" height=\"440\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/WVc8U2yZshw\" \/><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As letras do Lestics t\u00eam imagens muito fortes e passagens bastante visuais. Como voc\u00ea v\u00ea isso?<\/strong><br \/>\nOlavo: Quando escrevo uma can\u00e7\u00e3o, o que me d\u00e1 o gatilho para escrever pode ser uma imagem, ou uma imagem cinematogr\u00e1fica \u2013 mesmo que a letra possa ir para outro lado quando come\u00e7o a trabalhar nela. Acho do caramba letras narrativas. Em m\u00fasica caipira tem muito disso, com letras que contam sagas enormes. Quando consigo fazer uma letra dessas, fico bem feliz. E algumas letras s\u00e3o imagens mesmo, e \u00e0s vezes tem muita coisa a ver com cinema. Gosto muito de cinema. &#8220;Bah, mas isso \u00e9 \u00f3bvio&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9. Se voc\u00ea n\u00e3o gosta de cinema, voc\u00ea tem algum problema (risos)&#8230;<\/strong><br \/>\nOlavo: \u00c9 bem por a\u00ed. \u00c9 para isso que o neg\u00f3cio existe!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas que cinema voc\u00ea ama?<\/strong><br \/>\nOlavo: Gosto muito de cinema italiano, dos anos 60, 70, do Scola, do Fellini, do Pasolini, do De Sica. \u00c9 uma fase \u00e1urea. Gosto muito dos russos, Sokurov, Tarkovsky, gosto muito do Bergman. O meu gosto \u00e9 muito \u00f3bvio, ningu\u00e9m vai descobrir nada diferente. Acho o Cassavetes e o Paul Thomas Anderson caras bem massa. Mas posso passar horas citando caras aqui e ningu\u00e9m vai descobrir nada fora do c\u00e2none.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Outra pergunta de refer\u00eancias, ent\u00e3o. Chegam para voc\u00ea e falam: Olavo, voc\u00ea est\u00e1 indo para uma ilha deserta, e s\u00f3 pode levar cinco discos. Que discos seriam esses?<\/strong><br \/>\nOlavo: \u00c9 \u00f3bvio que isso n\u00e3o vai dar certo (risos), mas partindo do princ\u00edpio que isso n\u00e3o vai dar certo, vamos l\u00e1: &#8220;It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back&#8221;, do Public Enemy&#8230; Nossa, que bosta, essa pergunta \u00e9 muito ruim, cara. &#8220;Sign O&#8217; The Times&#8221;, do Prince (sil\u00eancio); &#8220;Exile on Main Street&#8221;, dos Stones; (outro sil\u00eancio) &#8220;Abbey Road&#8221;, dos Beatles; e&#8230; Puta que pariu, (mais um sil\u00eancio), sei l\u00e1, cara&#8230; Vou chutar, &#8220;What&#8217;s Going On&#8221;, do Marvin Gaye.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sem brasileiros na lista?<\/strong><br \/>\nOlavo: Sem brasileiros&#8230; Engra\u00e7ado isso. Acho que vou ter que complementar essa resposta (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A\u00ed n\u00e3o vale!<\/strong><br \/>\nOlavo: Gosto muito de m\u00fasica brasileira, na verdade, ou\u00e7o muito samba, mas tamb\u00e9m ningu\u00e9m vai descobrir me perguntando sobre m\u00fasica. Gosto do Jo\u00e3o Bosco, do Nelson Cavaquinho, do Cartola&#8230; Dessa mo\u00e7ada que faz som hoje, tem nomes muito legais que s\u00e3o pouco conhecidos. O Beto S\u00f3 \u00e9 um cara que acho foda. Ele \u00e9 desconhecido da mesma maneira que o Lestics \u00e9 desconhecido. Acho que a minha gera\u00e7\u00e3o tem muita coisa boa e desconhecida. &#8220;Ah, mas \u00e9 injusto que ningu\u00e9m conhe\u00e7a&#8221;? Sei l\u00e1, justi\u00e7a n\u00e3o entra nessa conta. Tem muita coisa legal sendo feita por a\u00ed, eu poderia passar horas citando nomes. Adoro o R\u00f4mulo Fr\u00f3es, que \u00e9 um pouco mais conhecido&#8230; Conhecido&#8230; Se eu sair na rua e perguntar &#8220;quem \u00e9 R\u00f4mulo Fr\u00f3es?&#8221;, as pessoas n\u00e3o v\u00e3o saber dizer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L\u00e1 fora, na Augusta, talvez saibam&#8230;<\/strong><br \/>\nOlavo: Mas acho bem dif\u00edcil que isso aconte\u00e7a duas ruas depois da Augusta. E isso \u00e9 uma judia\u00e7\u00e3o. Mas, voltando, gosto muito de m\u00fasica brasileira. Escreve isso a\u00ed, porque seria injusto com a m\u00fasica brasileira e comigo, porque eu fa\u00e7o m\u00fasica brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea se sente \u00e0 vontade cantando em portugu\u00eas?<\/strong><br \/>\nOlavo: Totalmente! J\u00e1 escrevi em ingl\u00eas quando era mais menino, mas isso, na real, no meu caso, era uma quest\u00e3o mesmo de precisar pegar mais seguran\u00e7a para escrever em portugu\u00eas. O que n\u00f3s fazemos hoje, e para mim isso fica bem claro no &#8220;Hist\u00f3ria Universal do Esquecimento&#8221;, n\u00e3o \u00e9 exatamente rock, pop. N\u00e3o consigo descrever um g\u00eanero. Dizer s\u00f3 que \u00e9 rock n\u00e3o vai explicar muito, mas, de outra maneira, o rock \u00e9 uma linguagem que incorporou tanta coisa que at\u00e9 cabe chamar de rock sim. Qualquer coisa \u00e9 rock, acho, mas tem um tanto de m\u00fasica brasileira ali, que \u00e9 f\u00e1cil de ser encontrada nas harmonias. O que tenho para me comunicar \u00e9 a minha l\u00edngua. O Wilco n\u00e3o pode fazer m\u00fasica em portugu\u00eas, e acho que no Brasil, a \u00fanica coisa que pode me fazer sair na frente do Wilco \u00e9 cantar em portugu\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como \u00e9 que \u00e9?<\/strong><br \/>\nOlavo: \u00c9 importante ter a dimens\u00e3o da barreira da l\u00edngua, que \u00e9 algo que as pessoas sentem. \u00c9 mais f\u00e1cil ser espont\u00e2neo escrevendo em portugu\u00eas do que em ingl\u00eas. Quando escrevo em ingl\u00eas, eu fa\u00e7o um voo de galinha em termos do que eu poderia expressar. Escrever em ingl\u00eas estreitava a minha oportunidade de pensar. A palavra, o som da palavra e o sentido s\u00e3o coisas que se puxam, e em portugu\u00eas isso \u00e9 mais claro para mim. Isso \u00e9 uma limita\u00e7\u00e3o minha. Por outro lado, a menos que exista o prop\u00f3sito de ter carreira internacional, acho que n\u00e3o faz muito sentido escrever em ingl\u00eas, hoje, no Brasil. N\u00f3s, no Lestics, queremos falar com as pessoas daqui. N\u00e3o quero ir para fora, quero fazer m\u00fasica para brasileiro ouvir. Agora, quando o cara consegue fazer isso e conquistar um mercado no exterior, como v\u00e1rias bandas independentes vem conseguindo, acho do caralho.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15752\" title=\"lestics27\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/lestics27.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o que voc\u00ea acha da sua pr\u00f3pria voz?<\/strong><br \/>\nOlavo: N\u00e3o sou um grande cantor, com aquela voz de Agnaldo Rayol. Acho isso toler\u00e1vel, porque sou eu que fa\u00e7o as melodias e as letras, sou int\u00e9rprete de mim mesmo. Tenho minhas limita\u00e7\u00f5es, mas venho melhorando com o tempo. Canto melhor agora do que eu cantava tempos atr\u00e1s. N\u00e3o desgosto da minha voz gravada cantando, mas acho bizarro o som da minha voz falando. Com todo mundo \u00e9 assim: voc\u00ea nunca ouve sua voz como ela \u00e9 de verdade. Acho legal. Tenho minhas limita\u00e7\u00f5es, mas ela serve bem para contar legal as hist\u00f3rias e conversa bem com as minhas melodias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tem algum cantor no qual voc\u00ea se espelha ao cantar?<\/strong><br \/>\nOlavo: N\u00e3o. Tento n\u00e3o afetar, modular ou mexer muito na minha interpreta\u00e7\u00e3o. Todo mundo que n\u00e3o canta assim, eu gosto. Mas gosto demais de m\u00fasica. Sou f\u00e3 de muitos cantores e cantoras, mas n\u00e3o tenho um espelho. At\u00e9 porque voz \u00e9 fogo: voc\u00ea s\u00f3 pode dar o tiro com a sua espingarda. \u00d3bvio, tenho muitos modelos a partir do que eu ou\u00e7o, mas conscientemente, n\u00e3o tenho disso n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>De que m\u00fasica voc\u00eas gostariam de gravar uma cover?<\/strong><br \/>\nOlavo: Acabamos de gravar \u201cPoor Places\u201d do Wilco, para um tributo aos dez anos do \u201cYankee Hotel Foxtrot\u201d. \u00c9 uma das bandas que eu mais adoro, sou bem f\u00e3 mesmo. A gente curtiu bastante o processo, d\u00e1 vontade de fazer de novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Xuxa: \u201cThe Weight\u201d, da The Band.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Umberto: \u201cTower of Babel\u201d, do Elton John.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Patu: \u201cHarvest Moon\u201d, do Neil Young.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como foi a experi\u00eancia de gravar uma m\u00fasica de outra pessoa, Olavo?<\/strong><br \/>\nOlavo: Quando eu estava no Gianoukas, gravamos uma cover para &#8220;Teu Ingl\u00eas&#8221;, do Fellini, e sempre faz\u00edamos vers\u00f5es nos nossos shows. Quando tinha pouco tinha um, quando tinha muito, tinha dois. Era divertido. No Lestics, n\u00e3o sei por que, temos dificuldade em fazer isso. Uma vez, fizemos &#8220;One Man Guy&#8221;, que \u00e9 do Loudon Wainwright III, e que foi gravada pelo filho dele [Rufus]. Al\u00e9m do Wilco agora, rolou tamb\u00e9m uma vez \u201cA Horse With No Name\u201d, do America. Foi bem legal gravar \u201cPoor Places\u201d. Das bandas contempor\u00e2neas, o Wilco \u00e9 uma das que eu curto mais. Topei na hora quando surgiu o convite, mas foi algo feito muito em cima da hora, ent\u00e3o fizemos bem rapidamente. Tiramos a m\u00fasica, pensamos em como a gente poderia deix\u00e1-la com a nossa cara, fomos para o est\u00fadio e gravamos bem r\u00e1pido. Eu achei um tes\u00e3o, mas \u00e9 uma responsa enorme tocar uma m\u00fasica dessas. Eu adoro o original, obviamente, e gostei do resultado quando a gente gravou. Logo depois, desgostei tremendamente, mas agora estou gostando de novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E voc\u00ea consegue se ver compondo para outra pessoa?<\/strong><br \/>\nOlavo: Ah, acho que n\u00e3o. Voc\u00ea diz, compondo de encomenda para que outra pessoa cante?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9.<\/strong><br \/>\nOlavo: N\u00e3o sei, cara (risos). N\u00e3o me passa essa ideia pela cabe\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E quem voc\u00eas gostariam de ver tocando Lestics? E qual m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nOlavo: Z\u00e9 Ramalho tocando \u201cPlano de Fuga\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Xuxa e Patu: Maria Beth\u00e2nia cantando \u201cA mesma decep\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Umberto: Caetano Veloso cantando \u201cLeve\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object width=\"750\" height=\"440\" classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Tw3KyUQ6iFw\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"750\" height=\"440\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Tw3KyUQ6iFw\" \/><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas vivem financeiramente da banda?<\/strong><br \/>\nTodos: Infelizmente n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que fazem nas suas horas n\u00e3o vagas ent\u00e3o?<\/strong><br \/>\nOlavo: Ganho a vida trabalhando com propaganda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Patu: Trabalho em TI.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Umberto: Eu ganho a vida como professor de m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Rola uma tristeza ou decep\u00e7\u00e3o por n\u00e3o viver de m\u00fasica, especialmente em um momento que h\u00e1 uma facilidade de mostrar seu trabalho para o p\u00fablico?<\/strong><br \/>\nOlavo: Essa facilidade em mostrar o trabalho \u00e9 relativa. A internet \u00e9 um territ\u00f3rio em que voc\u00ea disputa a aten\u00e7\u00e3o das pessoas com milh\u00f5es de outras bandas, outros clipes, outras not\u00edcias. E n\u00e3o adianta ter um canal se esse canal n\u00e3o tiver visibilidade. O n\u00f3 da quest\u00e3o est\u00e1 a\u00ed&#8230; Ok, existem artistas que conseguem se promover por conta pr\u00f3pria. Alguns poucos fazem isso muito bem, at\u00e9. S\u00f3 que na maioria das vezes a ind\u00fastria musical ainda negocia a grande visibilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Xuxa: O problema \u00e9 que qualquer um faz qualquer coisa, entrega de gra\u00e7a, e isso banaliza a arte. E tamb\u00e9m influencia na grana, porque quem poderia cobrar \u00e9 engolido pelo cara que faz de gra\u00e7a, mesmo que com uma qualidade inferior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olavo: Sei n\u00e3o&#8230; A gente disponibiliza todos os nossos discos de gra\u00e7a no site da banda. Sempre foi essa a nossa escolha. Com isso, estamos banalizando a nossa m\u00fasica? Talvez estejamos, numa certa medida. Mas \u00e9 o jeito de fazer o trabalho alcan\u00e7ar mais pessoas. Fato \u00e9 que a oferta de informa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito grande, e o tempo das pessoas \u00e9 curto&#8230; Tudo \u00e9 consumido e descartado numa velocidade absurda. Pelo menos eu acho absurda \u2013 um entre muitos sinais de que estou ficando velho e um pouco ranzinza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Umberto: Para mim, a grande dificuldade \u00e9 que todo mundo sofre de uma falta de aten\u00e7\u00e3o hoje em dia. O cara ouve 30 segundos de uma m\u00fasica e j\u00e1 passa para outra, ou pior, j\u00e1 vira pro lado para fazer outra coisa. As pessoas n\u00e3o encontram mais tempo para ouvir um disco inteiro, o conceito de \u201c\u00e1lbum\u201d acabou se perdendo com os iPods da vida. \u00c9 muita informa\u00e7\u00e3o e pouca aten\u00e7\u00e3o. Acho que a falta de disponibilidade das pessoas para irem a shows de bandas novas vem um pouco da\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Patu: Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 grana, \u00e9 muito complicado ter essa &#8216;dupla jornada&#8217;. \u00c0s vezes, durante o dia, rolam reuni\u00f5es intermin\u00e1veis no trabalho, stress etc. E depois de algumas horas, l\u00e1 estamos tocando. A tristeza vem da\u00ed: de nem sempre poder estar inteiro para banda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ainda falando sobre ind\u00fastria: voc\u00eas j\u00e1 se pegaram pensando no Lestics tocando nas r\u00e1dios e sendo trilha da novela das oito? Ou isso faz parte do passado dentro da ind\u00fastria musical brasileira?<\/strong><br \/>\nOlavo: Na verdade, nunca me pego pensando nisso, e n\u00e3o \u00e9 por n\u00e3o desejar que aconte\u00e7a. Adoraria tocar no r\u00e1dio ou na novela \u2013 assim como adoraria ganhar na loteria, ou que inventassem um rem\u00e9dio efetivo contra a queda de cabelo. Mas essas coisas n\u00e3o est\u00e3o acontecendo, e eu n\u00e3o gasto tempo fantasiando a respeito. Minhas motiva\u00e7\u00f5es para fazer m\u00fasica s\u00e3o outras, felizmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Xuxa: J\u00e1 pensei sim, acho que a banda tem boas m\u00fasicas, que caberiam em qualquer lugar. Acho legal porque isso d\u00e1 visibilidade e pode abrir outras portas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Umberto: Pensava nisso quando comecei a ter banda, no final dos anos 80. Hoje n\u00e3o tenho esse foco. Eu teria que produzir m\u00fasica que n\u00e3o gosto de ouvir e muito menos de tocar, o que me traria, artisticamente, muita frustra\u00e7\u00e3o. A ind\u00fastria fonogr\u00e1fica vive basicamente das figuras \u201cpop\u201d que aparecem a cada ver\u00e3o, de um ou outro medalh\u00e3o da MPB e dos filhos de artistas famosos dos anos 70 e 80. Isso n\u00e3o me entristece nem me seduz. Vivo para fazer a minha m\u00fasica e n\u00e3o para tentar chegar aqui ou ali. Chegaremos aonde tivermos que chegar. Meu objetivo sempre foi fazer uma discografia de respeito, que eu possa escutar com prazer, e se um dia algu\u00e9m ouvir e gostar, para mim est\u00e1 bom.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Patu: Apesar de ter certeza que o Lestics poderia fazer parte de alguma trilha sonora de novela, n\u00e3o \u00e9 isso que nos move. Como o Olavo disse, nossas motiva\u00e7\u00f5es s\u00e3o outras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olavo: Eu trabalho, ganho dinheiro e tenho minha profiss\u00e3o. Fa\u00e7o m\u00fasica porque gosto de fazer. Se quiserem me dar grana para fazer m\u00fasica, vou adorar. Mas n\u00e3o tem ningu\u00e9m me dando dinheiro para isso, e n\u00e3o vou parar de fazer o que fa\u00e7o s\u00f3 por causa disso. N\u00e3o sou ing\u00eanuo com rela\u00e7\u00e3o ao que s\u00e3o os meios de comunica\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 produto, o que \u00e9 ind\u00fastria cultural, o que \u00e9 pol\u00edtica cultural. N\u00e3o estou fazendo um &#8220;Poliana, sou feliz e tudo bem&#8221;. \u00c9 uma discuss\u00e3o longa, e acho que n\u00e3o d\u00e1 para recair na tosquice de falar mal do arrocha, do Michel Tel\u00f3, da Gaby Amarantos&#8230; Eles est\u00e3o fazendo o som deles. O interesse econ\u00f4mico existe, e os meios de comunica\u00e7\u00e3o tocam uma pilha danada nisso, com rodeios e shows megalotados, com uma m\u00fasica que as pessoas curtem. &#8220;Ah, mas as pessoas curtem s\u00f3 aquilo?&#8221;. Acho que as pessoas podiam curtir aquilo e outras coisas mais, mas a\u00ed entramos na quest\u00e3o do interesse, do quanto \u00e9 mais f\u00e1cil vender um produto massificado. O que eu fa\u00e7o hoje no Lestics n\u00e3o \u00e9 a bola da vez como interesse econ\u00f4mico.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15732\" title=\"lestics22\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/lestics22.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/lestics22.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/lestics22-300x198.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E se fosse, ela teria chance de ser popular como a m\u00fasica do Michel Tel\u00f3?<\/strong><br \/>\nOlavo: N\u00e3o sei, nunca chegamos nesse n\u00edvel para descobrir se as pessoas iriam curtir. A m\u00fasica do Michel Tel\u00f3 \u00e9 adequada para pular, para curtir, elas t\u00eam o seu momento. E as pessoas t\u00eam as baladas que elas costumam ouvir em outra hora. Elas n\u00e3o &#8220;tiram o p\u00e9 do ch\u00e3o&#8221; vinte e quatro horas por dia, e eventualmente elas poderiam curtir outras coisas. Mas a\u00ed&#8230; (sil\u00eancio). E n\u00e3o falo da minha banda especificamente. Talvez ela n\u00e3o seja pop ou redonda o suficiente, mas existem gente da minha gera\u00e7\u00e3o fazendo m\u00fasica popular, e que n\u00e3o consegue alcan\u00e7ar um p\u00fablico maior. N\u00e3o estou defendendo a minha causa. Estou defendendo a ideia de que o espa\u00e7o \u00e9 ocupado essencialmente pelo interesse da grana. E isso n\u00e3o \u00e9 desvalorizar quem est\u00e1 fazendo o sertanejo, o arrocha, o ax\u00e9, o tecnobrega. Eles fazem a m\u00fasica deles l\u00e1, alguns com mais espontaneidade e verdade&#8230; Como tudo no mundo. Tem muito mais coisa ruim do que boa no rock, e isso acontece em qualquer g\u00eanero. Coisas boas s\u00e3o dif\u00edceis de fazer. Sempre que aparece um cara com um molho especial, vem um monte de c\u00f3pias depois. \u00c9 assim, e como pequenas varia\u00e7\u00f5es tem &#8220;tchetcherere&#8221; dos mais variados, \u00e9 uma fabriquinha de m\u00fasicas sendo consumidas e descartadas. Num mundo ideal, as pessoas teriam acesso a mais variedade, mais repert\u00f3rios, a mais artistas e os meios de comunica\u00e7\u00e3o se abririam para outros tipos de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A Internet n\u00e3o ajudou nesse sentido?<\/strong><br \/>\nOlavo: A Internet \u00e9 algo do caralho, ela d\u00e1 canal para um monte de gente que n\u00e3o tinha canal, e chega a um monte de gente que queria ouvir outras coisas. Quando eu morava no interior, cada disco diferente que eu conseguia era uma vit\u00f3ria. N\u00e3o existia um acesso grande a m\u00fasicas ou bandas novas, eu sempre acabava achando coisas novas no meio de um sald\u00e3o. Aconteceu isso comigo: no meio de um monte de discos de novelas, apareceu um disco do Jonathan Richman. O cara que colocou l\u00e1 no meio n\u00e3o fazia nem ideia do que estava vendo na frente. Estou contando uma historinha, mas o acesso era muito dif\u00edcil. Se eu tivesse internet aos 14 anos, teria ficado louco. Mas, por outro lado, vivemos num pa\u00eds que ainda v\u00ea televis\u00e3o demais. Quando voc\u00ea usa a internet como canal de divulga\u00e7\u00e3o, voc\u00ea j\u00e1 sabe que voc\u00ea vai chegar a um p\u00fablico interessado e bem segmentado. Mas est\u00e1 lindo: baixam os discos do Lestics no Brasil inteiro, em lugares que n\u00e3o chegar\u00edamos nem fodendo se precis\u00e1ssemos de distribui\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 muita gente, mas \u00e9 gente em tudo que \u00e9 lugar. \u00c9 bacana para caramba isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou de pol\u00edtica cultural, e eu queria te perguntar sobre o que voc\u00ea acha de edital p\u00fablico para grava\u00e7\u00e3o de discos, seja via empresas ou secretarias de cultura municipais e estaduais&#8230;<\/strong><br \/>\nOlavo: Acho que a cultura no Brasil \u00e9 um patinho feio, porque recebe muito pouco recurso. Al\u00e9m disso, acho que \u00e9 muito pouco entendida a necessidade de se investir em cultura. Quando tem um pouco de grana dispon\u00edvel, j\u00e1 vira o maior quebra pau. O pa\u00eds precisa investir em cultura. Investir em cultura \u00e9, al\u00e9m das f\u00f3rmulas das grandes corpora\u00e7\u00f5es, fomentar, criar caminhos para que a arte seja produzida e chegue \u00e0s pessoas. N\u00e3o adianta pegar dinheiro p\u00fablico, resolver seu problema e n\u00e3o chegar para ningu\u00e9m. Eu n\u00e3o entraria num edital para gravar um disco, mas n\u00e3o acho ileg\u00edtimo quem entra. De verdade. Se esse dinheiro proporcionar shows de gra\u00e7a, \u00e9 legal. Fazer por fazer, acho meio viagem usar dinheiro p\u00fablico. Tem que existir uma ideia desse trabalho art\u00edstico chegar \u00e0s pessoas que est\u00e3o pagando a conta. N\u00e3o adianta dizer: &#8220;ah, mas foi a empresa que pagou!&#8221;. N\u00e3o foi, foi isen\u00e7\u00e3o fiscal, dinheiro que teria ido para o er\u00e1rio. Nos &#8220;pa\u00edses desenvolvidos&#8221;, o estado fomenta a cultura. N\u00e3o d\u00e1 para deixar isso largado na m\u00e3o do mercado. Se s\u00f3 o mercado mandar na cultura, o que vai existir? Ali\u00e1s, muita coisa que \u00e9 bancada pelo dinheiro do Estado vira um neg\u00f3cio extremamente mercadol\u00f3gico. E a\u00ed a marca sai ganhando duas vezes: porque vendeu seu produto, e porque ajudou um artista com isen\u00e7\u00e3o fiscal. Se o dinheiro \u00e9 p\u00fablico, \u00e9 legal que ele seja investido em manifesta\u00e7\u00f5es culturais. O pa\u00eds n\u00e3o vive s\u00f3 de stand-up, e de m\u00fasica e cinema feitos com intuito comercial. E \u00e9 importante que essa cultura produzida sem vi\u00e9s comercial chegue at\u00e9 as pessoas. N\u00e3o adianta ter uma banda felizona, um diretor todo metido ou um grupo de teatro todo pimp\u00e3o se as pessoas n\u00e3o tiverem esse contato. As pessoas precisam pensar mais, serem mais infelizes de alguma maneira (risos), abrir horizontes. Assim o pa\u00eds pode respirar um pouco mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E sobre crowdfunding, o que voc\u00ea acha?<\/strong><br \/>\nOlavo: \u00c9 melhor ainda, porque \u00e9 bacana. Acho do caralho quem consegue. Se \u00e9 um caminho? N\u00e3o sei. Acho um sistema muito recente, totalmente leg\u00edtimo, legal demais, sei l\u00e1. Para quem tem uma base de f\u00e3s legal, acho excelente na verdade. Vai funcionar mais para frente? Talvez funcione cada vez melhor. Se \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o para o Lestics? No futuro. Acho que consigo me ver passando o chap\u00e9u para gravar um disco, ao contr\u00e1rio de me inscrever num edital. \u00c9 um perrengue que n\u00e3o estou a fim de passar. Mas se eu entrasse, tentaria fazer isso ser revertido de algum jeito. E fazer isso n\u00e3o \u00e9 roubar o leite das crian\u00e7as na merenda escolar, porque a verba para a cultura \u00e9 pouca sim, em termos absolutos. \u00c0s vezes, existe por a\u00ed uma \u2018miguelagem\u2019: &#8220;ah, est\u00e1 investindo em cultura, mas tinha que construir mais casas&#8221;. Porra, \u00e9 \u00f3bvio que tem que construir mais casas, tem um puta d\u00e9ficit habitacional no pa\u00eds! Tem pessoas vivendo miseravelmente, escola caindo aos peda\u00e7os, mas n\u00e3o \u00e9 por causa do dinheirinho da cultura que isso est\u00e1 acontecendo. O motivo \u00e9 outro. O Brasil precisa de educa\u00e7\u00e3o e de cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para encerrar: se Shakespeare e os gregos j\u00e1 disseram tudo antes, vale a pena ter uma banda, escrever m\u00fasicas novas e dar entrevistas?<\/strong><br \/>\nXuxa: Eles disseram quase tudo&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Umberto: N\u00e3o temos a pretens\u00e3o de contar nenhuma \u201cnovidade\u201d, mas sim de falar do que a gente gosta do nosso jeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Patu: Vale a pena, porque temos almas atormentadas de um g\u00eanio!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olavo: Tudo vale a pena quando a alma n\u00e3o \u00e9 pequena, como diriam Shakespeare e os gregos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object width=\"750\" height=\"440\" classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/zBbu3IoR1PY\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"750\" height=\"440\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/zBbu3IoR1PY\" \/><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Bruno Capelas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/noacapelas\" target=\"_blank\">@noacapelas<\/a>) \u00e9 jornalista, escreve para o Scream &amp; Yell desde 2010 e assina o blog <a href=\"http:\/\/pergunteaopop.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\">Pergunte ao Pop<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Fotos de Liliane Callegari (<a href=\"http:\/\/lilianecallegari.com.br\/\" target=\"_blank\">http:\/\/lilianecallegari.com.br\/<\/a>) de um show no Sesc Consola\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Paulo<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Quatro v\u00eddeos do Lestics ao vivo em S\u00e3o Paulo, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2011\/01\/19\/quatro-videos-do-lestics-ao-vivo-em-sp\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Aos Abutres\u201d, Lestics: Pop da melhor qualidade, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/01\/04\/mechanics-lestics-e-cerebro-eletronico\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cEm faixas como \u2018Velho\u2019, a banda consegue quase tocar o c\u00e9u\u201d, por Adriano Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/12\/11\/lancamento-comadre-fulozinha-e-lestics\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201c9 Sonhos\u201d e \u201cles tics\u201d, dois discos para baixar agora, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/11\/23\/dois-discos-para-voce-baixar-agora\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cQuatro caras, cinco discos e cinquenta m\u00fasicas em cinco anos\u201d: essa \u00e9 uma das maneiras de ver Lestics. 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