{"id":1565,"date":"2009-05-28T20:06:23","date_gmt":"2009-05-28T23:06:23","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=1565"},"modified":"2023-03-28T23:53:18","modified_gmt":"2023-03-29T02:53:18","slug":"john-fante-trabalha-no-esquimo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/05\/28\/john-fante-trabalha-no-esquimo\/","title":{"rendered":"John Fante Trabalha no Esquim\u00f3"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-1566\" title=\"\u201cJohn Fante Trabalha no Esquim\u00f3\u201d, de Mariel Reis\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/05\/fante_mariel.jpg\" alt=\"\" width=\"334\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/05\/fante_mariel.jpg 334w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/05\/fante_mariel-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 334px) 100vw, 334px\" \/><br \/>\n<strong>Por Alessandro Garcia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O incauto que se deixar levar t\u00e3o somente pelo que sugere o texto de contracapa de \u201cJohn Fante Trabalha no Esquim\u00f3\u201d (Calib\u00e1n), poder\u00e1 achar que este livro \u00e9 uma daquelas obras liter\u00e1rias que encanta apenas aos literato: \u00e9 ressaltada a li\u00e7\u00e3o que escritor carioca Mariel Reis assimilou da obra de Drummond, \u00e9 destacado o fato de sua contemporaneidade com os escritores que ama e \u00e9 sugerido que seus personagens acompanham os passos de Jo\u00e3o do Rio, Marques Rebelo ou Moacir C. Lopes. Natural, j\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 preciso um mergulho t\u00e3o profundo na obra de Mariel para se abobalhar com a quantidade de refer\u00eancias liter\u00e1rias que um bom conhecedor pode encontrar em subcamadas dos textos do autor. Da\u00ed a quase inevit\u00e1vel predisposi\u00e7\u00e3o a querermos analisar sua escrita sob o ponto de vista das sua refer\u00eancias, como se Mariel fosse mais um destes escritores que, envaidecido-se de sua pr\u00f3pria fun\u00e7\u00e3o, produz literatura somente para seus iguais, num tatibitate exerc\u00edcio de emular a obra dos autores que o influenciam, para ver-se reconhecido e reverenciado nas conversas de mesa de bar dos \u201cmalditos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 certo que, nesta primeira impress\u00e3o que as inten\u00e7\u00f5es de sua obra podem passar, dep\u00f5e contra o exposto acima o fato do t\u00edtulo do livro j\u00e1 trazer em si um poss\u00edvel aviso de que o mesmo se pretende part\u00edcipe da orgia auto-centrada da qual a literatura contempor\u00e2nea est\u00e1 encharcada. Afinal, John Fante, um mito para os mesmos adoradores de Bukowski, trabalhando no Esquim\u00f3? E, a prop\u00f3sito, que diabos \u00e9 o Esquim\u00f3? Aqui, outro fato infeliz a depor contra o autor na escolha do t\u00edtulo: Esquim\u00f3, saber\u00e3o os mais informados (ou aqueles que lerem a apresenta\u00e7\u00e3o do livro, feita por Marcelino Freire, o que vier primeiro), \u00e9 um restaurante do Rio de Janeiro \u2013 ok, refer\u00eancia local que se explica quando lido o conto-t\u00edtulo, mas, Mariel, detalhe dispens\u00e1vel para uma literatura que consegue, felizmente, al\u00e7ar a dif\u00edcil condi\u00e7\u00e3o de suplantar a esfera dos c\u00edrculos cariocas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, esclarecido o que a fic\u00e7\u00e3o de Mariel n\u00e3o \u00e9 (exerc\u00edcio liter\u00e1rio feito para literatos), vamos ao que \u00e9 de fato: uma obra que consegue dialogar com muita clareza com a tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, sim, uma vez que Mariel transita com liberdade e dom\u00ednio absoluto em textos que carregam tanto as tintas da literatura cl\u00e1ssica, formal; mas, mais do que isto, o texto de Mariel neste seu segundo livro (a estr\u00e9ia foi com \u201cLinha de Recuo e outras hist\u00f3rias\u201d, pela Editora Paradoxo) atesta o que o autor h\u00e1 tempos vem deixando claro, que \u00e9 uma habilidade de prosador que transcende as tenta\u00e7\u00f5es de exibir sua vast\u00edssima bagagem liter\u00e1ria, criando uma obra acess\u00edvel em que as particularidades da cena carioca s\u00e3o ferramentas para a constru\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as urbanas \u2013 algumas vezes imersas na inevit\u00e1vel sordidez que relatos na \u201ccidade maravilhosa\u201d se fazem necess\u00e1rios \u2013 repletas de malemol\u00eancias e voleios que conseguem o feito contradit\u00f3rio de manter verossimilhan\u00e7a mesmo em prosas que por vezes se descobrem terr\u00edveis f\u00e1bulas. Muitas vezes metaficcionais, iniciando como se pacatas cr\u00f4nicas autobiogr\u00e1ficas fossem e se desdobrando para nos revelar a acidez de um autor n\u00e3o muito predisposto aos finais felizes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mariel constr\u00f3i, em poucas linhas, retratos minuciosos de tipos marginais, duros, ocres, entregando-se a relatos suburbanos com destreza e, diferente de seus contempor\u00e2neos, n\u00e3o se deixando levar pelo fasc\u00ednio que textos desta natureza notavelmente exercem aos seus autores. O conto \u201cA Viagem\u201d, \u00e9 exemplo claro disto. Em seus contos, o relato ocasional de epis\u00f3dios acima da linha de asfalto que separa os cariocas burgueses dos menos afortunados n\u00e3o apresenta aquele quase fetiche da criminalidade e da pobreza que embriaga prosas urbanas atuais, fruto da imers\u00e3o de autores desconhecedores deste lado menos glamoroso da urbanidade carioca, mas ainda assim sedentos de relat\u00e1-lo, inebriados pela est\u00e9tica violenta e tarantinesca que julgam ser capazes de compor. V\u00e3 ilus\u00e3o. Transitar em terrenos perigosos assim n\u00e3o \u00e9 para os incautos. Mariel consegue se safar inc\u00f3lume. Ali\u00e1s, o autor \u00e9 t\u00e3o destro na fic\u00e7\u00e3o desta natureza, que causa estranhamento que neste mesmo livro uma quase novela, \u201cPor mil dem\u00f4nios\u201d, esteja tamb\u00e9m inserida. O texto, de tem\u00e1tica fant\u00e1stica, com idas e vindas no foco narrativo, quebra com a uniformidade que o livro at\u00e9 ent\u00e3o vinha alcan\u00e7ando. \u201cJonas, a baleia\u201d, \u00e9 outro conto que destoa em uma obra que, com exce\u00e7\u00e3o destes, consegue manter algo t\u00e3o importante em um exemplar de contos: regularidade e coer\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que no conto que d\u00e1 t\u00edtulo ao livro, o autor (se pressuposto que h\u00e1 autobiografia ali) acalente o \u201csonho de um dia cruzar, mesmo que com um s\u00f3sia, com Lima Barreto ou Machado de Assis ou Jo\u00e3o do Rio\u201d, todos escritores vinculados \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o de autores observadores da cidade carioca, \u00e9 fato que n\u00e3o se pode definir a obra de Mariel como prosa de observa\u00e7\u00e3o. Mesmo quanto flerta com a cr\u00f4nica, Mariel consegue corromper sua f\u00f3rmula, empregando principalmente grossas camadas de uma ironia que perpassa muitos dos dezesseis contos do livro. Ao fim de tudo, Mariel consegue se firmar como um dos mais l\u00facidos autores da nossa safra brasileira. Ao criar principalmente narrativas que transitam na realidade urbana das grandes cidades, o autor mostra destreza ao n\u00e3o filiar-se ao fasc\u00ednio que este tema costuma exercer, mantendo n\u00e3o distanciamento para que isto n\u00e3o ocorra, mas usando de toda sua habilidade para tentar perscrutar aquilo o que, no fim das contas, \u00e9 o objetivo de todo grande escritor: a alma humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*******<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alessandro Garcia \u00e9 escritor, publicit\u00e1rio e assina o blog <a href=\"http:\/\/suburbana.blogspot.com\/\">Suburbana<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Alessandro Garcia\nO incauto que se deixar levar t\u00e3o somente pelo que sugere o texto de contracapa de &#8220;John Fante Trabalha no Esquim\u00f3&#8221; poder\u00e1&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/05\/28\/john-fante-trabalha-no-esquimo\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1565"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1565"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1565\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73569,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1565\/revisions\/73569"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1565"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1565"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1565"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}