{"id":15612,"date":"2012-09-02T13:23:14","date_gmt":"2012-09-02T16:23:14","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=15612"},"modified":"2019-06-27T08:39:34","modified_gmt":"2019-06-27T11:39:34","slug":"pagando-por-sexo-chester-brown","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/09\/02\/pagando-por-sexo-chester-brown\/","title":{"rendered":"HQ: &#8220;Pagando por Sexo&#8221;, de Chester Brown"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15613\" title=\"pagando_sexo\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/pagando_sexo.jpg\" alt=\"\" width=\"287\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/pagando_sexo.jpg 287w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/pagando_sexo-215x300.jpg 215w\" sizes=\"(max-width: 287px) 100vw, 287px\" \/><\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/naoeakazinha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Karina Lacerda<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chester Brown \u00e9 um quadrinista canadense de 52 anos que publica comics desde 1983, mas n\u00e3o \u00e9 muito conhecido por aqui. Ap\u00f3s levar um p\u00e9 na bunda, ele resolve que n\u00e3o quer mais ter namoradas. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o quer abrir m\u00e3o da vida sexual. A solu\u00e7\u00e3o? Pagar por sexo (\u201cPaying For It\u201d, 296 p\u00e1ginas com edi\u00e7\u00e3o nacional pela Conrad Editora). Voc\u00ea pode at\u00e9 n\u00e3o ser entusiasta do sexo pago, mas eis um servi\u00e7o imprescind\u00edvel em qualquer tipo de sociedade (principalmente na falta do amor rom\u00e2ntico, o ideal).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 primeira vista voc\u00ea pode imaginar Chester Brown como uma cara weirdo e mis\u00f3gino, sem respeito algum pelo sexo oposto e que prefere pagar uma acompanhante ao inv\u00e9s de correr o risco de ter o cora\u00e7\u00e3o despeda\u00e7ado mais uma vez. Mas ele n\u00e3o \u00e9 um cara passional, desses que cortaria os pulsos depois de um rompimento inesperado. Quando a namorada diz pra ele que est\u00e1 interessada em outro, ele leva tudo de forma t\u00e3o tranquila que faz lembrar Meursault, o personagem de \u201cO Estrangeiro\u201d, de Camus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No come\u00e7o, a ideia que se tem do quadrinista ao virar as primeiras p\u00e1ginas \u00e9 a de um cara sem emo\u00e7\u00f5es e sem sentimentos. Ledo engano. O que n\u00e3o falta nele \u00e9 sensibilidade. E se, provavelmente, voc\u00ea nunca fosse concordar com Bruna Surfistinha em alguma coisa, Chester nos faz ver que temos, pelo menos, um ponto de vista em comum com a mo\u00e7a. Al\u00e9m de nos fazer reavaliar v\u00e1rios (pr\u00e9)conceitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chester faz da graphic novel um retrato sincero da sua experi\u00eancia com as profissionais do sexo que cruzaram seu caminho. A abordagem inicial, os detalhes dos encontros, sua pr\u00f3pria performance (nem sempre memor\u00e1vel), a avalia\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o \u2013 tudo precisamente documentado, mas com o cuidado de n\u00e3o revelar nenhum detalhe pessoal que possa identificar quaisquer das mo\u00e7as citadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muita gente imagina as mo\u00e7as que fazem esse tipo de servi\u00e7o como umas pobres coitadas sem op\u00e7\u00e3o, recorrendo ao corpo para colocar na mesa o leite das crian\u00e7as. Ou ent\u00e3o damas que seguem algum esquema estilo Hilda Furac\u00e3o: fazer da prostitui\u00e7\u00e3o um tipo de puni\u00e7\u00e3o por algum pecado horr\u00edvel. Por\u00e9m, Chester conduz o relato por outro caminho: para ele, as prostitutas prestam um servi\u00e7o capitalizando seu corpo, sem dramas, para fazer um p\u00e9 de meia. Tudo que elas precisam \u00e9 sossego pra trabalhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele n\u00e3o \u00e9 a favor da regulamenta\u00e7\u00e3o da profiss\u00e3o, nem est\u00e1 interessado em receber nota fiscal pelo servi\u00e7o. Seu argumento \u00e9 que a mulher \u00e9 dona do corpo dela e que a prostitui\u00e7\u00e3o \u00e9 uma profiss\u00e3o como qualquer outra. Se a mulher resolve receber uma grana em troca de sexo, \u00e9 problema dela, do cliente e de mais ningu\u00e9m, obrigado. O ap\u00eandice do livro \u00e9 uma verdadeira surra com luva de pelica nos argumentos batidos das pseudo femininistas e conservadores reacion\u00e1rios de plant\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15618\" title=\"chester1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/chester1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Brown tamb\u00e9m n\u00e3o acredita no conceito de amor rom\u00e2ntico. Ele \u201cculpa\u201d o interesse geral pelo amor a uma m\u00e1 interpreta\u00e7\u00e3o da literatura do s\u00e9culo XII, que perpetuou o conceito de amor id\u00edlico. Trazendo a discuss\u00e3o para o s\u00e9culo XX \u00e9 poss\u00edvel relembrar (e concordar) Rob Fleming e culpar a m\u00fasica pop que ouvimos desde sempre e os filmes do John Hughes, que muitos de n\u00f3s v\u00edamos na Sess\u00e3o da Tarde (que seguem o conceito de final feliz perpetuado pela \u00e9poca de ouro de Hollywood).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas nem tudo s\u00e3o flores: Chester \u00e9 questionado pelos amigos e por ele pr\u00f3prio, que fica na d\u00favida em v\u00e1rios momentos se a op\u00e7\u00e3o por fazer do sexo uma rela\u00e7\u00e3o comercial \u00e9 realmente v\u00e1lida a longo prazo. Em alguns momentos ele se sente solit\u00e1rio e vazio. Mas quem n\u00e3o se sente assim de vez em quando, mesmo estando num relacionamento incr\u00edvel? De qualquer forma, segue firme no seu prop\u00f3sito de pagar por sexo e a defender seu ponto de vista de diferenciar o amor idealizado do que acontece de verdade nos relacionamentos. Para ele, relacionamentos duradouros e s\u00f3lidos existem, mas s\u00e3o a exce\u00e7\u00e3o, n\u00e3o a regra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais do que uma hist\u00f3ria sobre encontros com prostitutas, Chester faz um retrato sens\u00edvel da sua busca por contato f\u00edsico sem a necessidade de estabelecer um v\u00ednculo afetivo e um verdadeiro tratado contra o amor rom\u00e2ntico. Em um dos quadrinhos ele confessa o quanto foi mesquinho com suas ex-namoradas (quem nunca?), mas se mostra um cliente respeitoso e educado com as profissionais. Afinal, por que n\u00e3o ser? Prestadores de servi\u00e7os merecem todo nosso respeito, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Ele chega ao ponto de fazer contas e concluir que sai mais barato pagar uma prostituta do que bancar uma namorada. E com a vantagem de que, com a prostituta, o sexo \u00e9 garantido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPagando por sexo\u201d \u00e9 um desses livros que dificilmente te deixam indiferente. Se voc\u00ea gosta de quadrinhos com pegada autobiogr\u00e1fica no estilo de Harvey Pekar (se voc\u00ea n\u00e3o viu \u201cAnti Her\u00f3i Americano\u201d voc\u00ea est\u00e1 tr\u00eas degraus abaixo da humanidade, mas ainda a tempo de voc\u00ea corrigir isso) ou Robert Crumb (que escreveu o pref\u00e1cio), ir\u00e1 se deliciar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ah, e onde nos corremos o risco de concordar com a dona Bruna? Chester, depois de experimentar os servi\u00e7os de mais de vinte prostitutas, acaba fiel aos servi\u00e7os de Denise. No livro ele diz que continua usando seus servi\u00e7os por mais de seis anos e numa entrevista j\u00e1 admitiu que os dois ficaram amigos e que est\u00e1 disposto a fazer mais do que apenas dar dinheiro para ela, e ela est\u00e1 disposta a fazer mais do que apenas sexo pago com ele. Parece um relacionamento est\u00e1vel e rom\u00e2ntico&#8230; e o dinheiro envolvido \u00e9 s\u00f3 uma forma de fetiche. Bruna diz mais ou menos isso em uma entrevista sobre o livro para o UOL: \u201cTive a impress\u00e3o de que \u00e9 justamente isso que ele sempre busca nas prostitutas. Quando gosta de uma acompanhante, faz quest\u00e3o de rev\u00ea-la sempre que poss\u00edvel, como se estivesse sentindo saudade e com vontade de conhec\u00ea-la um pouco mais. Ele n\u00e3o busca apenas sexo, mas uma companhia feminina.\u201d Ser\u00e1?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15617\" title=\"chester2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/chester2.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>\u2013 Karina Lacerda (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/naoeakazinha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@naoeakazinha<\/a>) \u00e9 jornalista, trabalha na TV Cultura.<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; &#8220;Mem\u00f3rias de Minhas Putas Tristes&#8221;, de Gabriel Garcia M\u00e1rquez, por Jonas Lopes (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/literatura\/gabo.htm\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Cinema: \u201cL\u2019Apollonide: Os Amores da Casa de Toler\u00e2ncia&#8221;, por Itamar Montalv\u00e3o (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/02\/05\/l%E2%80%99apollonide-souvenirs-de-la-maison-close\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Cinema: &#8220;Cheri&#8221;, de Stephen Frears: o sexo na Belle Epoque, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/01\/31\/cinema-cheri-de-stephen-frears\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Cinema: \u201cViver a Vida\u201d, de Godard: precisando se prostituir para sobreviver, por Mac (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2011\/12\/05\/tres-filmes-anna-karina-e-godard\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; A Literatura Er\u00f3tica: um cat\u00e1logo incr\u00edvel de aventuras carnais, por Danilo Corci (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/literatura\/literatura_erotica.htm\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Cinema: &#8220;Sonhos Roubados&#8221; e os caminhos que levam \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o, por Roberta \u00c1vila (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/04\/27\/sonhos-roubados-sandra-werneck\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Karina Lacerda\nMais do que uma hist\u00f3ria sobre encontros com prostitutas, Chester faz um retrato sens\u00edvel da sua busca por contato f\u00edsico\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/09\/02\/pagando-por-sexo-chester-brown\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":73,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15612"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/73"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15612"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15612\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":52187,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15612\/revisions\/52187"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15612"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15612"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15612"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}