{"id":156,"date":"2008-02-11T11:22:56","date_gmt":"2008-02-11T13:22:56","guid":{"rendered":"http:\/\/colunistas.ig.com.br\/revoluttion\/2008\/02\/11\/disco-da-semana-terceiro-mundo-festivo-de-wado\/"},"modified":"2015-09-16T11:15:38","modified_gmt":"2015-09-16T14:15:38","slug":"disco-da-semana-terceiro-mundo-festivo-de-wado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2008\/02\/11\/disco-da-semana-terceiro-mundo-festivo-de-wado\/","title":{"rendered":"&#8220;Terceiro Mundo Festivo&#8221;, de Wado"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-33615\" title=\"wado_terceiro\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/wado_terceiro.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/wado_terceiro.jpg 500w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/wado_terceiro-150x150.jpg 150w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/wado_terceiro-300x300.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong><span style=\"color: #000000;\">por Marcelo Costa<\/span><\/strong><\/span><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meu primeiro contato com &#8220;Terceiro Mundo Festivo&#8221;, quarto \u00e1lbum do cantor e compositor Wado, se deu no final de agosto de 2006. Ainda acompanhado pelo grupo Realismo Fant\u00e1stico, Wado se apresentou ao vivo no Studio SP, em S\u00e3o Paulo, tocando algumas can\u00e7\u00f5es novas e, principalmente, entortando as velhas com alfinetas de eletr\u00f4nica que marcavam seu retorno aos samplers e beats via mpc. Em um bate papo na \u00e9poca ele avisava: &#8220;&#8216;Terceiro Mundo Festivo&#8217; trata do uso da eletr\u00f4nica pelo terceiro mundo, de como as adversidades formularam uns m\u00e9todos e sonoridades espec\u00edficas&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s um longo per\u00edodo de gesta\u00e7\u00e3o, mudan\u00e7as de capitais &#8211; Wado saiu de S\u00e3o Paulo, foi para o Rio, montou o Fino Coletivo com um galera estilosa, deixou o grupo ap\u00f3s o lan\u00e7amento do bom CD hom\u00f4nimo e voltou para Macei\u00f3, onde reside novamente &#8211; e experimenta\u00e7\u00f5es sonoras, &#8220;Terceiro Mundo Festivo&#8221; finalmente chega em formato MP3 com download gratuito no site do artista. &#8220;O disco \u00e9 independente e poder\u00e1 ser downloadeado sem restri\u00e7\u00f5es. Fora isso prensei (uma tiragem) em SMD, m\u00eddia que tem o pre\u00e7o final pro consumidor a R$ 5?, contou em papo com Lucas Santtana, que lan\u00e7ou um \u00e1lbum tamb\u00e9m livre para download.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O download livre \u00e9 algo que Wado vem defendendo j\u00e1 faz um bom tempo. Seus tr\u00eas \u00e1lbuns anteriores (&#8220;Manifesto da Arte Perif\u00e9rica&#8221;, &#8220;Cinema Auditivo&#8221; e &#8220;A Farsa do Samba Nublado&#8221;) j\u00e1 est\u00e3o liberados faz mais de dois anos. &#8220;Terceiro Mundo Festivo&#8221; se junta \u00e0 esta discografia particular acrescentando ainda mais flagrantes do modo totalmente peculiar do compositor enxergar a m\u00fasica composta longe demais das capitais, manifesto das periferias de um imenso Brasil sem nome, len\u00e7o e nem documento, mas que respira m\u00fasica que, antigamente, nascia de batidinhas em caixinhas de f\u00f3sforo, e agora surge em est\u00fadios caseiros, com microfones baratos e pouco conhecimento t\u00e9cnico, mas com muita urg\u00eancia, energia e gana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para adentrar ao territ\u00f3rio deste &#8220;Terceiro Mundo Festivo&#8221; \u00e9 preciso se desamarrar de expectativas. &#8220;A Farsa do Samba Nublado&#8221;, \u00e1lbum anterior, arranhava a perfei\u00e7\u00e3o amparado em sambas tortos, viol\u00e3o encharcado de wah-wah e muita melancolia. Quase n\u00e3o h\u00e1 viol\u00f5es presentes em &#8220;Terceiro Mundo Festivo&#8221; (o instrumento est\u00e1 l\u00e1 no fundo, distante, escondido na mixagem). A est\u00e9tica sonora que Wado come\u00e7ara a apresentar desde aquele no show no Studio SP, em agosto de 2006, e que foi se adaptando e fortalecendo durante um ano e meio \u00e9 centrada em uma nova forma\u00e7\u00e3o de banda com baixo, bateria, programa\u00e7\u00f5es e teclados, mais um cello aqui, uma flauta transversal ali, para dar um charme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O disco abre com &#8220;Pendurado&#8221;, faixa que fala sobre liberdade, destino e morte: &#8220;Olha ali sou eu, pendurado no fio desencapado do poste de alta tens\u00e3o&#8221;, canta Wado sobre uma base de bateria seca, vocaliza\u00e7\u00f5es femininas (Cris Braun, Jan Aline e Mirian Abs) e clima ensolarado. A liberdade volta a ser citada no delicioso samba eletr\u00f4nico &#8220;Fortalece A\u00ed&#8221;, que se ampara em Martinho da Vila e Rui Monteiro enquanto o refr\u00e3o pede de forma urgente: &#8220;Fortalece A\u00ed, meu cora\u00e7\u00e3o, daquela for\u00e7a, meu cora\u00e7\u00e3o&#8221;. Um cello pontua o final da can\u00e7\u00e3o de forma comovente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Duas can\u00e7\u00f5es j\u00e1 vinham se destacando nas apresenta\u00e7\u00f5es ao vivo de Wado de dois anos pra c\u00e1: a pornogr\u00e1fica &#8220;Teta&#8221; e a politizada &#8220;Reforma Agr\u00e1ria do Ar&#8221;. A primeira &#8211; do irresist\u00edvel refr\u00e3o: &#8220;Est\u00e1 guardado pra voc\u00ea amor? aceite, aceite \/ Est\u00e1 guardado pra voc\u00ea amor? o leite&#8221; &#8211; permanece sinuosa e dan\u00e7ante, com um q de funk carioca. J\u00e1 &#8220;Reforma Agr\u00e1ria do Ar&#8221;, que versa sobre a concess\u00e3o das r\u00e1dios p\u00fablicas, abre com uma voz atolada em efeitos, recupera o vocoder, tem clima de reggaeton no refr\u00e3o empolgante e crava: &#8220;Grita pra acontecer, urge de urg\u00eancia, assim ir\u00e1 prevalecer a reforma agr\u00e1ria do ar \/ \u00c8 contra o artista mudo \/ \u00e9 contra o ouvinte surdo \/ \u00e9 contra o latif\u00fandio das ondas do r\u00e1dio&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O samba torto &#8211; com inflex\u00f5es afox\u00e9 &#8211; ainda inspira o romantismo de &#8220;Leva&#8221; (diz o refr\u00e3o: &#8220;Eu canto e pe\u00e7o a todo santo: me leva onde voc\u00ea espera&#8221;), da \u00f3tima &#8220;Recado&#8221; (que abre provocando: &#8220;Ela adora me fazer chorar \/ Que palavras eu devo usar? \/ Uma que encaixe em seu quadril&#8221;) e a empolgante &#8220;Faz Me Rir&#8221;, uma das can\u00e7\u00f5es do \u00e1lbum que mais remetem a coisas que Wado j\u00e1 fez anteriormente (e que soa como um h\u00edbrido da urg\u00eancia de &#8220;Manifesto da Arte Perif\u00e9rica&#8221; e pitadas da melancolia de &#8220;A Farsa do Samba Nublado&#8221;).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Duas can\u00e7\u00f5es saltam aos ouvidos e batem forte no lado esquerdo do peito. &#8220;Melhor&#8221; traz um violoncelo jogando confetes sobre um mantra eletr\u00f4nico de baixo, bateria e teclado. Na letra, o personagem tenta formar um novo eu que agrade ao seu par. &#8220;Eu quis mudar pra voc\u00ea ver \/ Que nem sempre t\u00e3o dif\u00edcil a gente perceber \/ Se estou melhor, quem vai saber? \/ Se o que eu fiz foi para agradar voc\u00ea&#8221;. O refr\u00e3o \u00e9 algo que gruda na primeira audi\u00e7\u00e3o e vai te acompanhar por dias a fio: &#8220;Olha meu novo sapato \/ Estou de fato tentando me adequar \/ ao seu cabelo, ao seu modelo&#8221;. Uma p\u00e9rola pop.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 &#8220;Fita Bruta&#8221; \u00e9 uma daquelas can\u00e7\u00f5es que j\u00e1 nascem cl\u00e1ssicas. Versa sobre os mecanismos da ind\u00fastria (como se fosse uma &#8216;Cad\u00ea Teu Suin?&#8221;, do Los Hermanos, vista por outro \u00e2ngulo) e aprofunda a cr\u00edtica ao pr\u00f3prio autor, que se censura na hora da cria\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e0 toa, usa palavr\u00f5es e explicita formas de sedu\u00e7\u00e3o necess\u00e1rias para se sobreviver no showbusiness: &#8220;Ficamos na fita bruta que algum filho da puta decupou \/ N\u00e3o entramos na com\u00e9dia e \u00e9 preciso fazer m\u00e9dia com o maldito diretor \/ (?) N\u00e3o entramos na novela, nem precisa acender vela que o roteiro j\u00e1 fechou \/ Me disseram que \u00e9 uma bosta, mas que todo mundo gosta do mocinho sofredor \/ E esta \u00e9 a maior censura, essa que n\u00e3o tem cura, que nasce dentro do autor&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem vem acompanhando a carreira deste catarinense (de nascimento, alagoano de cora\u00e7\u00e3o) n\u00e3o ir\u00e1 ficar surpreso com a qualidade de &#8220;Terceiro Mundo Festivo&#8221;. O disco soa como uma continua\u00e7\u00e3o de &#8220;Manifesto da Arte Perif\u00e9rica&#8221;- sem negar olhares para &#8220;Cinema Auditivo&#8221; e &#8220;A Farsa do Samba Nublado&#8221;, este \u00faltimo, principalmente, nas letras &#8211; e abre muitas possibilidades para a m\u00fasica brasileira, desde sua sonoridade bem resolvida (o disco foi todo gravado em Macei\u00f3) at\u00e9 sua forma de distribui\u00e7\u00e3o gratuita. Neste momento de transi\u00e7\u00e3o pelo qual a ind\u00fastria da m\u00fasica est\u00e1 passando, Wado resume de forma perfeita a situa\u00e7\u00e3o: &#8220;Perdemos os talheres e voltamos a comer com as m\u00e3os. Temos de nos educar, pois assim fica feio. Acho que todo trabalho deve ser remunerado, e acredito que aos poucos isso vai se restabelecer&#8221; (aspas do papo do compositor com Lucas Santtana).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Terceiro Mundo Festivo&#8221; &#8211; assim como os tr\u00eas \u00e1lbuns anteriores do compositor &#8211; est\u00e1 liberado para download no endere\u00e7o oficial de Wado e surge com o primeiro grande lan\u00e7amento da m\u00fasica nacional em 2008. A Internet apagou as fronteiras existentes em mapas entre as grandes capitais mundiais, est\u00e1 derrubando a toda poderosa ind\u00fastria da m\u00fasica (a tend\u00eancia \u00e9 que mais e mais discos cheguem ao p\u00fablico sem passar por grandes conglomerados de entretenimento) e, apesar dos poucos recursos, as novas tecnologias est\u00e3o permitindo o lan\u00e7amento de \u00e1lbuns de qualidade fora dos grandes centros. Periferia, voc\u00ea sabe, \u00e9 periferia em qualquer lugar. &#8220;Terceiro Mundo Festivo&#8221; respira o sol de Macei\u00f3, namora os blocos africanos de Salvador, seduz S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro e faz festa no cora\u00e7\u00e3o de todas as capitanias heredit\u00e1rias para al\u00e9m (e avante) do meridiano de Tordesilhas. \u00c9 um disco de inspira\u00e7\u00e3o terceiro-mundista e voca\u00e7\u00e3o cosmopolita, como s\u00e3o os de M.I.A., Timbaland, De Leve, Ali e Vieux Farka Toure, entre muitos outros. A intelig\u00eancia a favor da arte derrubando fronteiras. Desde j\u00e1, um dos grandes discos nacionais de 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Terceiro Mundo Festivo&#8221;<\/strong>, Wado (Independente)<br \/>\nPre\u00e7o: R$ 5 (nacional)<br \/>\nNota: 9<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/7vxqsaBS1cQ\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/7vxqsaBS1cQ\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a Calmantes com Champagne<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Marcelo Costa\nPara adentrar ao territ\u00f3rio deste \u201cTerceiro Mundo Festivo\u201d \u00e9 preciso se desamarrar de expectativas. \u201cA Farsa do Samba Nublado\u201d, \u00e1lbum anterior, arranhava a perfei\u00e7\u00e3o\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2008\/02\/11\/disco-da-semana-terceiro-mundo-festivo-de-wado\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[732,58],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/156"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=156"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/156\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33614,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/156\/revisions\/33614"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=156"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=156"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=156"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}