{"id":15425,"date":"2012-08-13T08:44:11","date_gmt":"2012-08-13T11:44:11","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=15425"},"modified":"2017-08-13T11:31:36","modified_gmt":"2017-08-13T14:31:36","slug":"entrevista-mauro-motoki-ludov","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/08\/13\/entrevista-mauro-motoki-ludov\/","title":{"rendered":"Entrevista: Mauro Motoki, Ludov"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15429\" title=\"mauro1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/mauro1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Texto por <\/strong><strong><strong><a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Capelas<\/a><br \/>\nFoto por Michelle Sanches<\/strong><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos dois anos, Mauro Motoki tem sido um homem muito ocupado. De l\u00e1 para c\u00e1, ele gravou seu primeiro disco solo, \u201cBom Retiro\u201d, lan\u00e7ado no final de 2011, se casou e ainda teve tempo de produzir os discos da banda Peixoto e Maxado, do \u201cgrupo de um homem s\u00f3\u201d Faria &amp; Mori e da cantora Miranda Kassin. Como se fosse pouco, Mauro tamb\u00e9m gravou dois EPs com a banda pela qual se tornou um nome conhecido no cen\u00e1rio pop nacional: o Ludov, que em 2012 comemora dez anos de exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Ludov, hoje formado por Mauro (guitarra, teclados e vocais), Vanessa Krongold (voz), Habacuque Lima (guitarras e vocais) e Paulo Chapolin (bateria), auxiliado pelo convidado Hurso Ambrifi no baixo, lan\u00e7ou em maio o EP \u201cO Para\u00edso\u201d, segundo de uma trilogia que deve ser finalizada at\u00e9 2012 acabar (dispon\u00edvel para download no <a href=\"http:\/\/ludov.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/ludov.com.br\/<\/a>). \u201cDesconfio que inventamos de fazer tr\u00eas EPs por um pouco de pregui\u00e7a da banda de pensar na log\u00edstica de fazer um disco a essa altura das nossas vidas. Gostamos de nos isolar e nos desafiar para gravar\u201d, diz o m\u00fasico, que adianta que um novo \u00e1lbum \u201ccheio\u201d do Ludov deve sair em 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na conversa com o Scream &amp; Yell, realizada no final de junho, Mauro falou sobre a g\u00eanese de seu elogiado disco solo, \u201cBom Retiro\u201d, e sobre a carreira de produtor musical que vem desenvolvendo desde que se tornou s\u00f3cio de F\u00e1bio Pinczowski no est\u00fadio 12 D\u00f3lares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cProduzir \u00e9 bem diferente de ser m\u00fasico. No lugar de ter a ideia, voc\u00ea tem que dar as condi\u00e7\u00f5es para uma pessoa fazer o que ela quiser com a ideia dela, de uma maneira confort\u00e1vel\u201d, avalia o guitarrista do Ludov, f\u00e3 confesso de Phil Spector. Mauro assume que ter um est\u00fadio \u00e0 m\u00e3o facilita muito o trabalho como artista. \u201cTer o est\u00fadio \u00e0 m\u00e3o como brinquedo, no melhor estilo \u2018Beatles em Abbey Road\u2019, \u00e9 um grande parque de divers\u00f5es. Voc\u00ea produz sons ali como se estivesse na sala de casa\u201d, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mauro tamb\u00e9m comentou bastante a trajet\u00f3ria dos dez anos do Ludov, desde o fim do Maybees (banda que contava ainda com Vanessa e Habacuque e cantava em ingl\u00eas na virada dos anos 1990 para os 2000) at\u00e9 os dias de hoje. Entre os assuntos, a influ\u00eancia dos Los Hermanos na gera\u00e7\u00e3o pop brasileira no come\u00e7o dos anos 2000; cantar em portugu\u00eas ou em ingl\u00eas e a quebra de expectativa da banda por n\u00e3o ter estourado ap\u00f3s o sucesso de \u201cPrincesa\u201d, cujo clipe chegou a ganhar pr\u00eamio no VMB (na \u00e9poca que isso ainda parecia valer alguma coisa).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA nossa gera\u00e7\u00e3o teve de aprender a se virar com outros modelos de sobreviver\u201d, explica Motoki. O m\u00fasico completa: \u201cHoje, sou meio contra essa coisa de sonho: \u00e9 mais f\u00e1cil realizar. Prefiro pensar em coisas que eu consiga realizar, e tento n\u00e3o dar desculpa para nada. Essa \u00e9 a minha realidade\u201d. Com a palavra, Mauro Motoki.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/3IERPzSAYsE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que o novo EP, \u201cO Para\u00edso\u201d, traz para a obra do Ludov?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o d\u00e1 pra falar de \u201cO Para\u00edso\u201d sem falar dos nossos planos de lan\u00e7ar uma trilogia de EPs. Foi uma ideia que come\u00e7ou no final do ano passado com o (EP) \u201cMinha Economia\u201d. Desconfio que esse projeto tenha surgido com um pouco de pregui\u00e7a por parte da banda de pensar na log\u00edstica para fazer um disco a essa altura das nossas vidas. Estamos com v\u00e1rios projetos pessoais, que impossibilitariam que n\u00f3s grav\u00e1ssemos um disco no esquema que estamos acostumados. Gostamos de nos isolar para fazer as grava\u00e7\u00f5es. No \u201cO Exerc\u00edcio das Pequenas Coisas\u201d (2005), ficamos ensaiando em separado por um tempo. O \u201cDisco Paralelo\u201d (2007) foi gravado no Rio de Janeiro, e o \u201cCaligrafia\u201d (2009) foi todo composto e arranjado dentro de um s\u00edtio. Da maneira que as coisas est\u00e3o hoje, seria dif\u00edcil se isolar, ent\u00e3o inventamos de fazer tr\u00eas EPs. N\u00e3o quer\u00edamos voltar ao formato EP sem raz\u00e3o. Acho que n\u00e3o \u00e9 a atitude de uma banda que tem uma base de f\u00e3s legal como a nossa. Seria desleixo, e ent\u00e3o resolvemos nos desafiar. Vamos fazer tr\u00eas EPs, e depois um disco, que deve ser lan\u00e7ado no ano que vem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>O \u201cMinha Economia\u201d saiu no fim do ano passado, \u201cO Para\u00edso\u201d em abril. E o terceiro EP, sai quando?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quer\u00edamos lan\u00e7ar em agosto, que parece ser uma data boa para compor e gravar. Tentamos nunca nos repetir e sempre fazer algo diferente como banda. Funciona quase como um casamento (risos). Quando fizemos o \u201cCaligrafia\u201d, a diversidade musical sempre foi bem vinda: tivemos uma balada com viol\u00e3o e violoncelo, ou uma m\u00fasica cheia de metais. No \u201cMinha Economia\u201d resolvemos voltar a ser s\u00f3 guitarra-baixo-bateria de novo, como fomos no \u201cDisco Paralelo\u201d. Chegamos no meu est\u00fadio, o 12 D\u00f3lares, sem ideias, e foi muito legal. Conseguimos criar da mesma maneira que sempre vimos nos DVDs dos Beatles e dos Rolling Stones, gravando as ideias que iam surgindo na hora. Com o \u201cO Para\u00edso\u201d, n\u00f3s quisemos fazer a mesma coisa, mas n\u00e3o funcionou. N\u00e3o sa\u00eda nada, ent\u00e3o resolvemos gravar tudo em separado. \u00c9 engra\u00e7ado isso: nossos trabalhos acabam um pouco negando o anterior, pelo menos nos m\u00e9todos de grava\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sei o que vai vir pela frente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #000000;\">Como tem sido a resposta do \u201cO Para\u00edso\u201d at\u00e9 agora?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Est\u00e1 bem legal. N\u00e3o fizemos muitos shows por enquanto. S\u00f3 foram dois no interior de S\u00e3o Paulo e o lan\u00e7amento no Cine Joia, que foi muito gostoso, porque j\u00e1 tinha muita gente cantando as m\u00fasicas. Isso \u00e9 uma das coisas legais do Ludov: nosso p\u00fablico varia de tamanho, mas, at\u00e9 onde a gente consegue ver, \u00e9 um p\u00fablico que curte muito as m\u00fasicas. Ter v\u00e1rias pessoas cantando as m\u00fasicas do disco depois de uma semana de lan\u00e7amento \u00e9 algo bem bacana. N\u00e3o tomo isso como uma refer\u00eancia, mas acho que n\u00e3o \u00e9 uma coisa normal. N\u00f3s temos que cuidar disso, porque o nosso p\u00fablico \u00e9 atencioso, tem um carinho com a banda e toma cuidado com as letras e as melodias. \u201cO Para\u00edso&#8221; est\u00e1 bem nesses termos: as pessoas est\u00e3o mandando e-mails, falando das m\u00fasicas, dando uma resposta bacana. J\u00e1 em termos de produto, de aumento de p\u00fablico, essas coisas, eu n\u00e3o fa\u00e7o ideia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Das quatro m\u00fasicas do EP, tem alguma que voc\u00ea destaca em particular?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada uma me chama \u00e0 aten\u00e7\u00e3o por motivos particulares. Meu lado artista gosta de \u201cCircuito\u201d. \u00c9 uma m\u00fasica que tem uma tem\u00e1tica que eu gosto de fazer e n\u00e3o consigo, com uma pegada mais universal, sem tanta historinha. No lado pessoal, adoro \u201cAndar de Bicicleta\u201d. Casei recentemente, e queria muito fazer uma m\u00fasica feliz para a minha mulher, especialmente depois de ter feito um disco solo cheio de can\u00e7\u00f5es tristes. Queria fazer uma m\u00fasica que mostrasse a felicidade de uma maneira bacana. Ela surgiu aos 48 do segundo tempo, mas achei que ficou bonita. Quanto \u00e0s m\u00fasicas do Habacuque, gosto de todas que est\u00e3o no disco [\u201cO Para\u00edso\u201d e \u201cEvitar Confrontos\u201d]. Desde o come\u00e7o, achei \u201cO Para\u00edso\u201d uma m\u00fasica boa demais. O que \u00e9 engra\u00e7ado: tive de viver uns anos para poder de gostar de m\u00fasicas como essa. Antes eu torcia o nariz para as m\u00fasicas que o Habacuque fazia dessa maneira. Com \u201cO Para\u00edso\u201d, deixei de ter minhas defesas.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/tSGFtHB_Mzs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que defesas s\u00e3o essas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei explicar direito. \u00c0s vezes, tem fases no trabalho de uma banda nas quais se procura manter uma coer\u00eancia, pensando em um membro ativo de quatro pessoas que tentam enxergar as coisas do mesmo jeito. N\u00e3o consigo ser o integrante de grupo \u201cdoid\u00e3o\u201d, procuro sempre manter uma coisa coerente, pelo menos na hora da proposta. Quando a gente fazia o \u201cDisco Paralelo\u201d, as minhas defesas tinha crit\u00e9rios esdr\u00faxulos, como \u201cpoxa, estamos repetindo essa transi\u00e7\u00e3o de acordes em mais uma m\u00fasica&#8221; ou &#8220;essa m\u00fasica tem v\u00e1rios acordes diminutos&#8221; (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No ano passado, voc\u00ea lan\u00e7ou seu primeiro disco solo, \u201cBom Retiro\u201d. O que motivou esse trabalho?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aprendi a ser m\u00fasico com o Ludov. Na banda, eu tenho um m\u00e9todo meu, e o Ludov tem um m\u00e9todo coletivo. O [Paulo] Chapolin faz sempre quest\u00e3o de apontar que n\u00f3s funcionamos bem dentro da nossa estrutura. E eu estava acostumado a trabalhar dessa maneira. O meu disco fugiu dessa forma, e foi isso o que me desafiou a faz\u00ea-lo. N\u00e3o fiz para competir com o Ludov, nem porque o Ludov n\u00e3o me satisfaz mais como compositor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea acha que as m\u00fasicas do \u201cBom Retiro\u201d caberiam no Ludov?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei, acho que sim. Acho que n\u00e3o era o principal ter que cantar aquelas can\u00e7\u00f5es. Para n\u00f3s, dentro da banda, tudo o que a gente comp\u00f5e vai para o Ludov. Entretanto, eu nunca consegui explorar no Ludov quem eu sou e o que eu queria dizer artisticamente de uma maneira completa. \u00c9 diferente: no Ludov, tem a Vanessa na frente, colocando a interpreta\u00e7\u00e3o dela, e o Habacuque e o Chapolin junto de n\u00f3s dois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Engra\u00e7ado voc\u00ea ter dito isso. Da minha parte, n\u00e3o sinto no Ludov algo que seja muito diferente entre os dois compositores. Parece que voc\u00eas soam de maneira parecida, pelo menos para quem v\u00ea de fora. Cada um tem seu estilo pr\u00f3prio, \u00e9 claro, e d\u00e1 para perceber conex\u00f5es entre as m\u00fasicas de cada um, mas tudo \u00e9 bastante parecido.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acho que isso faz um pouco sentido. A Vanessa acaba sendo um grande filtro para as nossas can\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, estou lembrando de algo que algu\u00e9m me falou sobre a banda uma vez. &#8220;Poxa, o Ludov \u00e9 algo que voc\u00eas t\u00eam que levar adiante, n\u00e3o interessa se n\u00e3o ganhar dinheiro ou n\u00e3o, porque \u00e9 uma banda aut\u00eantica. O fato de ter gente que odeia e que ama a banda \u00e9 uma prova disso&#8221;. Na \u00e9poca, me pareceu conversa de b\u00eabado, mas faz muito sentido, e \u00e9 algo que enxergo como um bom sinal. \u00c9 muito ruim quando uma banda \u00e9 muito morna. Prefiro que uma pessoa fale quando ela n\u00e3o goste da banda, e explique isso. O \u00f3dio \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima, porque a pessoa pelo menos ouviu o suficiente para falar que n\u00e3o gosta. \u00c9 legal quando a pessoa n\u00e3o gosta com propriedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea e o Habacuque cantam pouco nos discos do Ludov. Como foi cantar as suas can\u00e7\u00f5es no \u201cBom Retiro\u201d?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 algo diferente, porque eu n\u00e3o cantava antes. Estou at\u00e9 fazendo aulas hoje para melhorar essa parte da minha carreira.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/O1h6H4XF1rU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como o \u201cBom Retiro\u201d surgiu?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No final de 2009, eu tinha um punhado de m\u00fasicas que eu tinha feito depois de passar o Natal na casa do meu irm\u00e3o em Miami. Foi algo que me tirou da rotina, me p\u00f4s em um lugar estranho. Durante o dia eu passeava com os meus sobrinhos, mas de noite, ficava em casa, no jardim ou na garagem, me sentindo meio deslocado. Tirei algum proveito disso, e compus umas onze ou doze m\u00fasicas, que acabaram virando o repert\u00f3rio do \u201cBom Retiro\u201d. Quando voltei dos Estados Unidos, tive vontade simplesmente de cantar. N\u00e3o acho que seriam letras imposs\u00edveis para a Vanessa cantar. Mas tive um desejo de cant\u00e1-las. Voltei para S\u00e3o Paulo, e o 12 D\u00f3lares estava em recesso. Fiquei umas duas semanas sozinho e ia tranquilo para l\u00e1, e passava dias inteiros gravando, sozinho. Ao final da primeira semana, chamei um amigo meu para registrar as grava\u00e7\u00f5es. Juro que n\u00e3o me lembro de muitas partes do processo de grava\u00e7\u00e3o, porque estava muito imerso naquela rotina. Quando fui fazer os primeiros shows, tive at\u00e9 de tirar algumas m\u00fasicas de novo para saber como eu tinha gravado. Entrei em contato comigo mesmo de uma forma que eu precisava, principalmente porque \u00e9 um disco muito pessoal. Acho que eu n\u00e3o tinha dado a vaz\u00e3o necess\u00e1ria para o que eu estava sentindo naquela \u00e9poca, e com o \u201cBom Retiro\u201d eu me liberei desses sentimentos. N\u00e3o \u00e9 um disco literal, as hist\u00f3rias \u00e0s vezes tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o minhas, e isso n\u00e3o \u00e9 um subterf\u00fagio de autor. Nem sempre voc\u00ea explica algo que voc\u00ea sentiu com uma hist\u00f3ria sua. Acho que o disco serviu como um ponto final em um relacionamento longo e importante na minha vida. Eu estava bem, mas precisava desse processo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea gravou o disco todo sozinho?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa primeira fase, sim. Quando comecei, sabia que tinha um material diferente do que eu j\u00e1 tinha feito, mas n\u00e3o sabia o que fazer com ele. O F\u00e1bio Pinczowski voltou de f\u00e9rias, ouviu tudo o que eu gravei e adorou. O Chuck Hipolitho, que \u00e9 meu amigo, tamb\u00e9m ouviu e adorou. Eles se colocaram \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para me ajudar, e n\u00f3s tr\u00eas acabamos achando que faltava bateria. Eu tinha programado em algumas can\u00e7\u00f5es e tocado em outras, mas n\u00e3o toco bateria. Resolvemos ent\u00e3o chamar o Samuel Braga, um baterista que toca com muita gente e tem uma t\u00e9cnica linda. Ele sabe fazer o b\u00e1sico com can\u00e7\u00f5es, e sabe improvisar como ningu\u00e9m. Quando ele gravou as baterias, ele se envolveu bastante no processo, foi um cara bem interessado no projeto \u2013 o que n\u00e3o \u00e9 algo muito comum com bateristas. Quando ele chegou no disco, parece que acenderam um holofote no meu quartinho escuro e entulhado. Foi uma hora que percebi v\u00e1rias imperfei\u00e7\u00f5es no disco, como se fossem meias furadas jogadas pelo ch\u00e3o do quarto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Isso foi tudo durante o ano de 2010, mas o disco saiu s\u00f3 no final de 2011. Por que essa demora?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei o que rolou nesse tempo. Na verdade, sei sim. Entre 2010 e 2011, tive dois projetos que me ocuparam bastante: o est\u00fadio 12 D\u00f3lares e o meu casamento. No lado pessoal, eu estava super atarefado, e feliz por estar atarefado. Tinha de comprar um apartamento, mobili\u00e1-lo e fazer os preparativos da cerim\u00f4nia. No est\u00fadio tamb\u00e9m tinha v\u00e1rias coisas para fazer. Comecei a produzir mais seriamente algumas coisas, e isso me tomou bastante tempo. Nesse meio tempo, as pessoas sempre me lembravam para fazer o disco, e foi isso o que me manteve trabalhando nele. No meio de 2010, ele j\u00e1 estava pronto para ir para a masteriza\u00e7\u00e3o. Fiquei bem feliz com o resultado final, embora eu saiba que a gente sempre quer fazer mais quando se trata de um filho seu. O vinil ficou bem legal, o pendrive ficou lindo, o produto ficou uma coisa bem bacana mesmo. Ter demorado todo esse tempo valeu a pena por conseguir ter essa qualidade. Em 2010, eu s\u00f3 teria tido tempo de lan\u00e7ar um CD normal. Nesse tempo todo, deu para guardar dinheiro e fazer tudo o que eu queria.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/BT2AOQv9kZM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>D\u00e1 para perceber muitas influ\u00eancias no teu disco. V\u00e1rias m\u00fasicas me lembraram Wilco, e tem muito de Roberto Carlos em \u201cGrandes Esperan\u00e7as\u201d, por exemplo.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro bem como surgiu a ideia para &#8220;Grandes Esperan\u00e7as&#8221;. Nessa viagem a Miami, eu estava ouvindo loucamente tudo o que tinha sido produzido pelo Phil Spector: George Harrison, John Lennon, Ronettes, Ramones. O &#8220;End of the Century&#8221; \u00e9 um disco fenomenal dos Ramones, com eles pagando de popstars. O Joey acreditou que aquele disco ia ser o disco que ia transform\u00e1-los numa banda pop. As m\u00fasicas eram boas para caralho e tinha a produ\u00e7\u00e3o luxuosa do Phil Spector. Acho que eu acreditaria tamb\u00e9m (risos). \u00c9 nesse disco que est\u00e1 a melhor vers\u00e3o de &#8220;Baby I Love You&#8221; \u2013 melhor que a das Ronettes! Eu e o F\u00e1bio sempre tentamos nos inspirar no Phil Spector quando a gente est\u00e1 no est\u00fadio. Ele era um diretor vocal incr\u00edvel, nem que fosse sem querer. Pode reparar: todas as performances dos cantores do Phil Spector s\u00e3o incr\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como voc\u00ea acha que o Phil Spector apareceu em \u201cGrandes Esperan\u00e7as\u201d?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cGrandes Esperan\u00e7as\u201d, emulei, meio que de brincadeira, o Wall of Sound dele. \u00c9 uma t\u00e9cnica de produ\u00e7\u00e3o que tem um monte de instrumento tocando junto, mas voc\u00ea s\u00f3 ouve o eco. O Phil Spector trouxe para a m\u00fasica uma ideia que \u00e9 esse ru\u00eddo de fundo, da mesma maneira que a gente est\u00e1 ouvindo enquanto conversa aqui nesse caf\u00e9. Voc\u00ea ouve a guitarra, ou a bateria, mas tem alguma coisa l\u00e1 no fundo que voc\u00ea nem sabe o que \u00e9. Existem relatos de engenheiros que trabalharam com ele falando que tinha oitenta m\u00fasicos em uma grava\u00e7\u00e3o, tocando exaustivamente por dez horas e, nas grava\u00e7\u00f5es, voc\u00ea s\u00f3 ouve o eco deles. Na parte musical, \u201cGrandes Esperan\u00e7as\u201d \u00e9 bem por a\u00ed, nesse feeling de cl\u00e1ssicos como \u201cBe My Baby\u201d, com essa pegada anos 50, anos 60. Talvez por isso tenha te lembrado o Robert\u00e3o. Sou f\u00e3 dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E a letra, como surgiu?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A letra \u00e9 mais uma piada comigo mesmo. \u00c9 sobre uma pessoa que sabe que n\u00e3o vai conseguir ser plenamente feliz sozinho, mas tenta se enganar enquanto se est\u00e1 sozinho. Acho que na \u00e9poca que fiz a letra eu acreditava um pouco nisso. &#8220;Sou adulto agora, estou solteiro, tenho autonomia&#8221;. Quando voc\u00ea \u00e9 solteiro, normalmente voc\u00ea ainda \u00e9 bem jovem, n\u00e3o consegue pagar direito as suas contas. Voltei a ficar solteiro, e n\u00e3o era mais essa a minha situa\u00e7\u00e3o. Essa m\u00fasica veio meio que dessa ideia de que sozinho estava bom. O t\u00edtulo &#8220;Grandes Esperan\u00e7as&#8221; \u00e9 uma ironia, ou um ato falho de manter as tais grandes esperan\u00e7as, mas s\u00f3 internamente. Gosto dessa letra, mas por outro lado n\u00e3o \u00e9 uma letra super elaborada. O grande m\u00e9rito dela para mim \u00e9 ser uma letra espont\u00e2nea. Ela fala o que quer falar e pronto. Ela \u00e9 bem redondinha por isso, mas n\u00e3o \u00e9 nenhuma grande obra da literatura universal (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tem uma \u201cfilha \u00fanica\u201d que \u00e9 a favorita do disco?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Varia, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E qual \u00e9 a de agora?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cImagens do Jap\u00e3o&#8221;, que \u00e9 uma das que est\u00e3o mais bonitas nos arranjos de show que a gente est\u00e1 ensaiando [Mauro se refere ao show que aconteceu no dia 7 de julho, no SESC Ipiranga]. No show de pr\u00e9-lan\u00e7amento, em 2011, toquei essa m\u00fasica s\u00f3 em voz e viol\u00e3o, porque ela tem uma harmonia legal e ficou bacana. \u00c9 uma m\u00fasica que est\u00e1 na minha cabe\u00e7a. Na \u00e9poca do lan\u00e7amento do disco, acho que a minha favorita era &#8220;Um Ponto Singular&#8221;, que \u00e9 uma m\u00fasica honesta comigo mesmo. Atingi lugares sem muitas barreiras, sem precisar altas explica\u00e7\u00f5es ou ter que fazer auto sabotagens. Veio de um lugar de dentro de mim, mesmo sendo uma letra que eu n\u00e3o consigo explicar muito bem. J\u00e1 na \u00e9poca da grava\u00e7\u00e3o, eu amava &#8220;Quando Foi Que a Solid\u00e3o Aconteceu Pra Gente&#8221;, porque foi uma m\u00fasica que me desafiou como cantor. Hoje, acho que canto ela bem melhor do que como est\u00e1 no disco.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jkGTaU5kJcU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o que as pessoas dizem? Elas t\u00eam uma favorita?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Chuck Hipolitho adora &#8220;Meus Fones\u201d. Eu entendo, porque \u00e9 uma m\u00fasica diferente do que eu j\u00e1 tinha feito, ela tem uma energia muito interessante, com o tipo de agressividade que n\u00e3o \u00e9 bem a do Ludov. &#8220;Grandes Esperan\u00e7as&#8221; \u00e9 o tipo de m\u00fasica que muita gente adora, e o pessoal da banda que est\u00e1 ensaiando comigo curte muito &#8220;Hist\u00f3ria Geral&#8221;. \u00c9 uma m\u00fasica que tem muita din\u00e2mica, e os m\u00fasicos adoram, porque a banda funciona muito bem nessas horas. Tem amigos que gostam de &#8220;Teresa&#8221;, porque \u00e9 uma m\u00fasica diferente. \u00c9 a minha tentativa de descobrir como o Elvis Costello faz as m\u00fasicas dele, porque acho muito peculiar o jeito que ele comp\u00f5e e canta. Ele vai levando a m\u00fasica de uma maneira que ela parece um animal que ele monta e vai tentando domar. &#8220;Teresa&#8221; tem um pouco disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #000000;\">Mudando de assunto, queria saber como \u00e9 a tua carreira em termos financeiros. Em algum momento, deu para viver da grana s\u00f3 do Ludov?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito pouco. Para o Ludov, com certeza, mas do Ludov, bem pouco. Em 2005, 2006, n\u00f3s faz\u00edamos muitos shows, de maneira que n\u00e3o dava para dizer que a gente estava fazendo outra coisa. Tinha shows em todos os finais de semana, rendeu algum dinheiro. Nada demais, mas rendeu um sal\u00e1rio, digamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Daria para ter largado um emprego na \u00e9poca?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 relativo. A gente debate muito sobre aquilo. Hoje, cada um encontrou o seu caminho profissionalmente. Naquela \u00e9poca, acho que daria para ter largado tudo, porque a gente fazia muitos shows, e show \u00e9 o que mais d\u00e1 dinheiro para um artista independente, embora isso n\u00e3o seja uma regra. Desde cedo, o Ludov foi uma banda que se sustentou como empreendimento, economizando dinheiro. Primeiro, n\u00f3s contribu\u00edmos do bolso, e depois a banda se sustentou como empresa, com dez anos de vida est\u00e1vel. Mas tirar lucro para n\u00f3s mesmos \u00e9 bem dif\u00edcil. O problema quando a gente come\u00e7a a pensar em remunera\u00e7\u00e3o de m\u00fasica \u00e9 comparar com outros mercados. Nos EUA ou na Inglaterra, uma banda de proje\u00e7\u00e3o relativa parecida com a do Ludov conseguiria viver bem melhor. Mas tudo \u00e9 bem relativo&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acho que a grande pergunta a ser feita \u00e9 \u201cque padr\u00e3o de vida esse artista quer ter?\u201d.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um pouco por a\u00ed. O Chapolin j\u00e1 ficou um ano s\u00f3 trabalhando pela banda. Foi um risco, mas acabou dando certo para ele. Ele chegou a vender shows do Ludov e ganhava um pouco mais no cach\u00ea. Ia de porta em porta, vendendo o projeto, \u00e0s vezes sem falar que era da banda. Acho que fazer m\u00fasica funciona como qualquer outra coisa, na verdade. Se voc\u00ea quiser ser um chef de cozinha, voc\u00ea vai trabalhar muito e ganhar pouco. N\u00e3o acho que o modelo que existe \u00e9 bom, podia ser muito melhor. Mas n\u00e3o gosto de dar nada como desculpa. Fa\u00e7o a minha a obra e tenho que acreditar nisso. \u00c9 um pouco prepotente falar em obra, parece que a gente quer ser Picasso ou coisa parecida. N\u00e3o! \u00c9 uma obra, voc\u00ea est\u00e1 deixando coisas concretas, d\u00e1 para ver os discos da banda \u2013 eles s\u00e3o um produto e uma obra, ao mesmo tempo. Outra coisa importante: durante muito tempo, advoguei que precisava se viver s\u00f3 de m\u00fasica. Hoje, n\u00e3o sei se \u00e9 assim. Vejo pessoas fora do meio art\u00edstico que tem a mesma pegada. De dia, o cara trabalha num escrit\u00f3rio de advocacia, e de noite, ele pinta quadros. Pode n\u00e3o ser quadros lindos, mas \u00e9 um hobby. Ou o cara adora jogar buraco e, um dia, resolve abrir um bar onde se jogue buraco. Outro dia descobri o Nerdcast, que \u00e9 um podcast do site Jovem Nerd. S\u00e3o caras que t\u00eam v\u00e1rias profiss\u00f5es diferentes, e um dia descobriram que dava pra fazer algo legal. Hoje, eles est\u00e3o ganhando uma grana. Acho que o mundo est\u00e1 assim. O m\u00fasico n\u00e3o pode se colocar nessa situa\u00e7\u00e3o de coitado.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/IJpGAww_Vcg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o adianta ser o Dom Quixote da m\u00fasica.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso! Se for pra viver de m\u00fasica, vai ser. O importante \u00e9 correr atr\u00e1s do seu. N\u00e3o d\u00ea desculpa para nada. Se n\u00e3o deu, n\u00e3o deu. Usar o mercado como desculpa, falar que n\u00e3o tem investimento, que n\u00e3o tem lugar para fazer shows&#8230; Tudo isso \u00e9 verdade. Mas n\u00e3o tem que ser uma desculpa. \u00c9 diferente falar dos fatos e entreg\u00e1-los como desculpa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Agora, voc\u00ea \u00e9 dono do est\u00fadio 12 D\u00f3lares. E antes, o que voc\u00ea fazia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu trabalhei em ag\u00eancia publicit\u00e1ria por um tempo. Odiei. Depois, fui para a \u00e1rea de marketing, em um escrit\u00f3rio. N\u00e3o era um \u00f3timo funcion\u00e1rio, vivia dormindo no emprego, a\u00ed desisti. Desde ent\u00e3o, fiz muita coisa: dei aula de kung-fu, de ingl\u00eas, fiz tradu\u00e7\u00e3o. E a\u00ed, em um bom momento, eu tive uma sorte dupla.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que sorte foi essa?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira foi trabalhar com o Ludov. \u00c9 uma sorte que n\u00e3o veio ao acaso, mas que \u00e9 uma ben\u00e7\u00e3o. E o est\u00fadio foi outra grande sorte na minha vida. Eu s\u00f3 conhecia o ambiente de est\u00fadio como artista, de chegar e gravar. H\u00e1 alguns anos, tive o papo com o F\u00e1bio sobre ter um est\u00fadio. Na \u00e9poca, lembro de ter falado algo como: &#8220;ah, n\u00e3o me envolvo muito com est\u00fadio. Quero s\u00f3 gravar minhas m\u00fasicas e pronto&#8221;. N\u00e3o podia ser mais distante do que vejo a vida hoje. Comecei a ser produtor na \u00e9poca em que fui ser s\u00f3cio do F\u00e1bio. \u00c9 um cara que tem uma baita experi\u00eancia: ele come\u00e7ou a gravar na mesma \u00e9poca que comecei a tocar profissionalmente, com uns 19, 20 anos. Ele tem um know-how incr\u00edvel, e um talento natural. \u00c9 um aprendizado legal pra caramba. Trabalhamos muito bem juntos, e ele \u00e9 um dos meus melhores amigos, junto com o Edu [Filomeno, ex-baixista do Ludov] e o Chuck.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como \u00e9 ser um produtor?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 uma coisa que precisa de mais foco do que ser m\u00fasico. Produzir mexe com outros ingredientes. Voc\u00ea tem que tornar um ambiente poss\u00edvel para que uma terceira pessoa apare\u00e7a l\u00e1 e produza. Isso exige demais. No lugar de ter a ideia, voc\u00ea tem que dar as condi\u00e7\u00f5es para uma pessoa fazer o que ela quiser com a ideia dela, de uma maneira confort\u00e1vel. Conduzir uma grava\u00e7\u00e3o \u00e9 um trabalho psicol\u00f3gico intenso. Todo tipo de inseguran\u00e7a e loucura pode surgir em um est\u00fadio. No Ludov, no geral, tem pessoas muito educadas e polidas. \u00c9 dif\u00edcil demonstrarmos altos e baixos de maneira dr\u00e1stica. No est\u00fadio, \u00e9 diferente. Produzindo artistas todos os dias da semana, voc\u00ea vai se deparar com situa\u00e7\u00f5es euf\u00f3ricas e devastadoras. No 12 D\u00f3lares, j\u00e1 gravamos trabalhos mais comerciais, de grandes empresas, feitos sob encomenda, nos quais a pessoa se sente muito pressionada pelo empres\u00e1rio, pelo parceiro, pelo contratante, todos fazendo uma baita press\u00e3o. \u00c9 um aprendizado quase espiritual lidar com gente de maneira t\u00e3o intensa. Essa \u00e9 a parte mais desafiadora. Al\u00e9m disso, tem a parte toda de um aprendizado t\u00e9cnico muito grande. \u00c9 muito bot\u00e3o, muita vari\u00e1vel, muita teoria por tr\u00e1s de gravar bem ou mal. Gravar, hoje, todo mundo grava. Mas qual a diferen\u00e7a de gravar bem ou mal?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>D\u00e1 para gravar bem em casa e muito mal em um est\u00fadio.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9. Na minha opini\u00e3o, a m\u00fasica tem que ser boa. Se a m\u00fasica for boa, voc\u00ea consegue ouvi-la mesmo em uma grava\u00e7\u00e3o caseira com o som horr\u00edvel. Hoje, o mais comum \u00e9 o contr\u00e1rio: m\u00fasicas horr\u00edveis muito bem produzidas. Acho que a grande magia de um est\u00fadio \u00e9 produzir m\u00fasicas boas da melhor maneira poss\u00edvel. N\u00e3o \u00e9 a maneira mais hi-fi, \u00e9 a maneira mais adequada. Se for pra fazer uma grava\u00e7\u00e3o tosca, a gente faz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 uma linguagem da m\u00fasica.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exato. A grava\u00e7\u00e3o faz parte da linguagem de m\u00fasica. \u00c9 que nem colocar um cara que fala g\u00edria de skatista em terno e gravata. N\u00e3o faz sentido.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/qS5huBUmIzg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ter um est\u00fadio auxilia a tua carreira como artista?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Facilita. Isso \u00e9 um sonho. Na pr\u00e1tica, o est\u00fadio \u00e9 uma empresa minha, \u00e9 um trabalho como qualquer outro. Meu lado psicol\u00f3gico n\u00e3o me deixa virar e ir l\u00e1 no s\u00e1bado sempre que eu quero (risos). Mas como cen\u00e1rio \u00e9 muito legal. A gente sempre sonhou em ter um est\u00fadio como instrumento, n\u00e3o como ocasi\u00e3o. Trato o est\u00fadio com certa solenidade, e fa\u00e7o quest\u00e3o de quem tamb\u00e9m for gravar l\u00e1 prezar por ele. N\u00e3o \u00e9 porque \u00e9 f\u00e1cil gravar que voc\u00ea tenha de relaxar. Tem uma express\u00e3o em ingl\u00eas que \u00e9 legal pra dizer isso: \u201ctake for granted\u201d, algo como tomar como garantido. Tem que dar valor ao est\u00fadio, tem que viv\u00ea-lo intensamente. Eu imagino como era para o Frank Sinatra. Ele tinha seis horas para gravar quinze m\u00fasicas de um disco novo. Era uma entrega fenomenal, e tinha de dar certo porque ele ia responder por aquele disco por muito tempo. Por outro lado, ter o est\u00fadio \u00e0 m\u00e3o como brinquedo, no melhor estilo \u201cBeatles em Abbey Road\u201d, \u00e9 um grande parque de divers\u00f5es. Voc\u00ea produz sons ali como se estivesse em casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o que voc\u00ea destaca at\u00e9 agora da tua carreira como produtor?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acho que estou aprendendo ainda. Me considero produtor h\u00e1 pouco tempo, e falo isso sem constrangimento. At\u00e9 o ano passado, dependia muito de observar outros produtores, como o F\u00e1bio, o Chuck ou o Chico Neves. Agora, continuo aprendendo com eles, mas me sinto mais capaz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou muito da identidade do Phil Spector como produtor no come\u00e7o da entrevista. E a sua, como \u00e9? J\u00e1 d\u00e1 para destacar caracter\u00edsticas do \u201cMauro Motoki produtor\u201d?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estou come\u00e7ando. Cada vez mais, eu e o F\u00e1bio estamos desenvolvendo uma identidade como est\u00fadio, mas dentro dessa dupla consigo enxergar escolhas que fa\u00e7o com mais propriedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que escolhas s\u00e3o essas? \u00c9 poss\u00edvel descrev\u00ea-las para um leigo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que \u00e9 legal para mim no trabalho de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 tentar traduzir impulsos e ideias de um artista em resultados sonoros. E isso \u00e9 algo \u00e0s vezes subjetivo: um som alegre, triste, grand\u00e3o, escuro. Hoje, j\u00e1 domino melhor essa linguagem, mas \u00e9 algo sem fim. Quando comecei a gravar, era uma quest\u00e3o de registro: ia no est\u00fadio, apertava o bot\u00e3o e gravava as coisas sem pensar muito. Produ\u00e7\u00e3o me lembra muito dire\u00e7\u00e3o de cinema: voc\u00ea tenta enxergar o processo todo mesmo quando est\u00e1 pensando em um detalhe. Acredito em assinatura de produ\u00e7\u00e3o, como o Daniel Lanois, o Phil Spector e o George Martin fazem, por exemplo. Tem alguns discos que voc\u00ea percebe f\u00e1cil quem \u00e9 o produtor. Mas isso \u00e9 algo dif\u00edcil de ser feito: o produtor dificilmente leva a autoria de alguma coisa na can\u00e7\u00e3o, diferentemente do diretor de cinema, que recebe quase todo o cr\u00e9dito por um filme ser bom ou ruim. At\u00e9 que faz sentido: n\u00e3o consigo produzir bem algo que seja ruim. Dependo plenamente de um artista que me apresente o embri\u00e3o de uma coisa legal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No seu blog, registrando o processo de feitura do seu disco, voc\u00ea diz que \u00e9 muito dif\u00edcil escolher a ordem das m\u00fasicas dentro do \u00e1lbum. [O post diz o seguinte: Essa coisa de colocar m\u00fasicas em ordem mexe com um treco primordial (como estou eloquente hoje, Deus meu!). Porque \u00e9 a mesma sensa\u00e7\u00e3o de fazer uma fita ou um CD com suas m\u00fasicas preferidas pra namoradinha adolescente, pensando em como cada m\u00fasica deve vir no momento certo para se fazer sentir com a intensidade desejada. S\u00f3 que dessa vez, ao inv\u00e9s de namoradinha, voc\u00ea faz isso para uma plateia sem rosto. E ao inv\u00e9s de &#8220;Patience&#8221; do Guns e&#8221; Sitting at the dock of the bay&#8221; na vers\u00e3o do Pearl Jam, s\u00e3o suas pr\u00f3prias m\u00fasicas. Medo\u201d]. Existe uma ci\u00eancia por tr\u00e1s disso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escolher a ordem das m\u00fasicas \u00e9 um pouco parecido com a hist\u00f3ria de ter uma metodologia para compor. Existem mil ideias, fazem-se diversas teorias porque uma m\u00fasica tem de ser depois da outra. Acho que isso faz com que o artista se relacione melhor com a sua obra. \u00c9 quase uma paternidade, que nem por o seu filho na aula de ingl\u00eas, e depois na aula de m\u00fasica, e depois na aula de artes. A ideia de me dedicar \u00e0 ordem das m\u00fasicas \u00e9 um conforto futuro, de que tentei fazer aquilo da melhor maneira poss\u00edvel, seguindo algum crit\u00e9rio, mesmo que esse crit\u00e9rio n\u00e3o valha nada. O mesmo vale com a capa, por exemplo. Todo cuidado que voc\u00ea tenta tomar com um produto passa por a\u00ed. Gosto de saber que cuidei daquilo. Como um f\u00e3 de m\u00fasica, a ordem das m\u00fasicas importa bastante. Respeito a gera\u00e7\u00e3o shuffle, mas n\u00e3o consigo ouvir um disco da forma que a garotada hoje faz.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/BDHU8FhShJY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Parece meio fora de lugar fazer um \u00e1lbum com tanto esmero na \u00e9poca da &#8220;gera\u00e7\u00e3o shuffle&#8221;. O seu disco est\u00e1 dispon\u00edvel no Soundcloud, e tem a ordem das faixas l\u00e1, mas nada impede que algu\u00e9m chegue e ou\u00e7a s\u00f3 a faixa 5 porque ela pare\u00e7a ter um nome mais legal. Como voc\u00ea lida com isso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para mim, tudo bem. Por um motivo, eu pensei na ordem das m\u00fasicas. Quando fa\u00e7o um show, tento tirar dessa ordem, mas \u00e9 bastante trabalhoso, porque na minha cabe\u00e7a aquela sequ\u00eancia est\u00e1 muito bem montada. Disco tem uma din\u00e2mica e show tem outra, mas \u00e9 dif\u00edcil. \u00c0s vezes d\u00e1 vontade de tocar o disco na ordem e ponto final. No fim das contas, todo crit\u00e9rio desse tipo \u00e9 subjetivo, a n\u00e3o ser que voc\u00ea tenha composto uma \u00f3pera-rock cronol\u00f3gica, com historinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea acha que o formato \u00e1lbum\/long-play \u00e9 algo em extin\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei se est\u00e1 em extin\u00e7\u00e3o, mas est\u00e1 em decl\u00ednio. As artes pl\u00e1sticas j\u00e1 passaram por esse processo \u2013 elas j\u00e1 foram muito mais populares e mais presentes na sociedade. O nicho de pessoas que curtem formatos mais longos vai continuar existindo, como existe hoje uma elite que entende e admira artes pl\u00e1sticas. O formato long-play teve um auge, e era comum voc\u00ea ouvir e depois virar o disco, pra ouvir, e virar o disco de novo pra ouvir de novo. Mas acho que vai ter gente que vai ouvir uma m\u00fasica do meu disco e nunca mais ouvir nada. Acho que fazer um \u00e1lbum, em 2012, \u00e9 ter uma certa nostalgia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Aproveitando essa nostalgia: quais seriam os cinco discos que voc\u00ea levaria para uma ilha deserta?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poxa, \u00e9 dif\u00edcil. \u00c9 subjetivo e muito instant\u00e2neo, mas vamos l\u00e1. (respira fundo). N\u00e3o pode ter colet\u00e2nea, porque a\u00ed \u00e9 roubar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Disco ao vivo tamb\u00e9m \u00e9 roubar, porque a maioria deles \u00e9 quase colet\u00e2nea.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ok. Eu levaria o &#8220;My Aim is True&#8221;, do Elvis Costello e o &#8220;Kaya&#8221;, do Bob Marley. N\u00e3o ia ter como ficar sem ouvir Beatles, ent\u00e3o hoje em dia eu levaria o \u201c\u00c1lbum Branco\u201d. Falta algo em portugu\u00eas, ent\u00e3o seria o \u201c\u00c1lbum Branco\u201d do Jo\u00e3o Gilberto, de 1973. E para ser uma coisa completamente diferente&#8230; Cara, \u00e9 chover no molhado, mas eu ia ter que levar o &#8220;Yankee Hotel Foxtrot&#8221;, do Wilco. N\u00e3o queria falar dele, porque agora est\u00e1 todo mundo falando do Wilco, mas \u00e9 um disco que ou\u00e7o tanto&#8230; Acho que s\u00e3o esses cinco, vai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Engra\u00e7ado voc\u00ea falar de ter que levar um disco em portugu\u00eas. Antes do Ludov, voc\u00ea era parte do Maybees. A imprensa na \u00e9poca, falava muito do Maybees pensando na diferen\u00e7a de cantar em ingl\u00eas e cantar em portugu\u00eas. Como voc\u00ea v\u00ea isso hoje?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acho que a gente fez uma escolha mais do que certa quando a gente resolveu cantar em portugu\u00eas. O Maybees j\u00e1 tinha composto em portugu\u00eas antes de acabar, e algumas dessas m\u00fasicas acabaram indo para o Ludov depois, como \u201cKryptonita\u201d e \u201cO Dia Em Que Seremos Felizes\u201d. Entre o fim do Maybees e o come\u00e7o do Ludov, ficamos sem banda durante um per\u00edodo de uns quatro ou cinco meses, entre 2001 e 2001. Sa\u00edamos todos como amigos, mas sem ter uma banda. Quando resolvemos retomar um trabalho juntos, achamos que n\u00e3o ia ter nada a ver usar o mesmo nome. T\u00ednhamos rompido com um selo, e pens\u00e1vamos se \u00edamos divulgar as coisas novas com o nome Maybees, e n\u00e3o rolou essa vontade. Mas rolou como Ludov. Quanto ao portugu\u00eas, retomo: o terceiro disco do Maybees ia ter can\u00e7\u00f5es em portugu\u00eas. N\u00e3o sei explicar mais porque cantar em portugu\u00eas foi a escolha certa. Hoje em dia acho v\u00e1lido compor em qualquer l\u00edngua que voc\u00ea queira. Se o artista quer escrever em ingl\u00eas, acho que faz sentido. Uma parcela do p\u00fablico gosta de ouvir rock brasileiro em ingl\u00eas, e n\u00e3o vejo problemas nisso. Hoje em dia eu tenha uma vis\u00e3o mais ponderada, e talvez por isso eu esteja reavaliando cantar algumas can\u00e7\u00f5es do Maybees nos meus shows solo. Gosto de bater na tecla que \u00e9 mais legal compor em portugu\u00eas, embora seja mais dif\u00edcil. Acho que a gera\u00e7\u00e3o de hoje em dia ouve mais m\u00fasica em portugu\u00eas do que em ingl\u00eas.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/vrY87SmSRRA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o sei se isso acontece, mas o que muita gente diz \u00e9 que \u00e9 mais f\u00e1cil compor em ingl\u00eas.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O estilo da can\u00e7\u00e3o pop se adequa bem ao ingl\u00eas. Dentro de certo estilo, a gente tem mais influ\u00eancia de uma sonoridade em ingl\u00eas. J\u00e1 cheguei aos extremos dessa discuss\u00e3o. J\u00e1 falei que em ingl\u00eas n\u00e3o valia, apesar de j\u00e1 ter compondo bem em ingl\u00eas, mesmo com alguma idiossincrasia brasileira. Tamb\u00e9m quase j\u00e1 tive o discursinho imperialista de que escrever em ingl\u00eas era imperialismo (risos). Hoje, acho que o importante \u00e9 o artista questionar suas inten\u00e7\u00f5es. Escrever em ingl\u00eas tem implica\u00e7\u00f5es comerciais e de express\u00e3o. Sou libert\u00e1rio: fa\u00e7a o que voc\u00ea quiser, mas saiba que isso vai ter implica\u00e7\u00f5es. Se voc\u00ea quer ter uma banda para tocar no Brasil, dificulta um pouco n\u00e3o cantar em portugu\u00eas. Outro problema: n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil escrever bem em portugu\u00eas, e as experi\u00eancias que a gente tem, sorte nossa ou n\u00e3o, s\u00e3o muito elevadas. Existem bons compositores em portugu\u00eas desde quase sempre. A m\u00fasica brasileira n\u00e3o tem um repert\u00f3rio fraco, e quando voc\u00ea comp\u00f5e algo novo, existe essa press\u00e3o de d\u00e9cadas. Resumindo: por um lado, existe a dificuldade de compor; por outro, a dificuldade de ser entendido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na \u00e9poca que o Ludov come\u00e7ou a aparecer na m\u00eddia, quando saiu o &#8220;O Exerc\u00edcio das Pequenas Coisas&#8221;, a imprensa falava de voc\u00eas e do Gram como duas bandas que come\u00e7aram a cantar em portugu\u00eas por causa do &#8220;Bloco do Eu Sozinho&#8221;, dos Los Hermanos. Eles tiveram uma influ\u00eancia forte sobre o Ludov ou foi uma coincid\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Los Hermanos \u00e9 o Strokes brasileiro. Eles influenciaram tanto em abrang\u00eancia, pelo n\u00famero de bandas que beberam naquela fonte, quanto por ter apontado uma possibilidade de se cantar em portugu\u00eas, o que foi muito importante para o rock brasileiro nos anos 1990. O rock dos anos 1980 tinha muita for\u00e7a \u2013 Tit\u00e3s, Legi\u00e3o, Paralamas, IRA! \u2013 mas na gera\u00e7\u00e3o seguinte houve uma dificuldade de mercado, e tamb\u00e9m uma dificuldade de composi\u00e7\u00e3o, de ser l\u00edrico e rom\u00e2ntico sem cair no brega. Os Los Hermanos foram brilhantes nesse sentido. Admiro muito o trabalho deles, mas n\u00e3o ouvi tanto nos \u00faltimos anos. Acompanhei bem o que eles fizeram at\u00e9 o &#8220;Ventura&#8221;. O Habacuque chegou a me dar um LP do &#8220;Quatro&#8221;, mas n\u00e3o ouvi muito. Dos trabalhos mais recentes, cheguei a ouvir o Little Joy e acho super legal. Infelizmente n\u00e3o conhe\u00e7o muito o que o Camelo faz. Acho todos eles artistas \u00f3timos. Mas \u00e9 isso, tem um lado Strokes de influ\u00eancia. Para todo mundo, eles viraram influ\u00eancia \u2013 contra ou a favor. N\u00e3o acho que \u00e9 por c\u00f3pia. Tem influ\u00eancia, mas tamb\u00e9m tem muita compara\u00e7\u00e3o posterior. Quando n\u00f3s nos conhecemos, ainda est\u00e1vamos na \u00e9poca do Maybees. Come\u00e7amos uma amizade: sempre que a gente ia pro Rio, a gente se encontrava. O Habacuque se aproximou mais deles do que eu, e at\u00e9 hoje, a gente se gosta e a gente se respeita, e tem uma rela\u00e7\u00e3o amistosa. Nunca foi profunda, mas sempre foi amistosa. Mas, ao mesmo tempo, lembro de ver todo mundo ouvindo coisas parecidas naquela \u00e9poca. Todo mundo ouvia Strokes, e todo mundo gostava de Chico Buarque, e todo mundo gostava de Los Fabulosos Cadillacs. Se voc\u00ea for ouvir os Cadillacs, tem tudo a ver com o que todo mundo aponta com influ\u00eancias dos Los Hermanos. Repito: acho os Los Hermanos uma banda incr\u00edvel, com uma baita influ\u00eancia sobre a minha gera\u00e7\u00e3o. Entretanto, como influ\u00eancia pessoal minha, n\u00e3o \u00e9 algo t\u00e3o grande assim. A principal li\u00e7\u00e3o dos Los Hermanos \u00e9 mostrar que era poss\u00edvel cantar em portugu\u00eas de novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que balan\u00e7o voc\u00ea faz desses dez anos de Ludov, uma banda que lan\u00e7ou tr\u00eas discos longos, tr\u00eas EPs, ganhou pr\u00eamios na MTV e teve v\u00e1rios clipes rodando na emissora?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 quase piegas, e depois de muita coisa, \u00e9 quase desnecess\u00e1rio dizer que sinto orgulho. Me satisfaz muito olhar para as escolhas que a gente fez. N\u00e3o acho que a gente fez nenhuma escolha da qual eu me arrependa em ess\u00eancia. Mais uma vez: sempre vai haver coisas que a gente acha que poderia ter feito melhor, mas fizemos as escolhas certas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Houve em algum momento o sentimento, dentro da banda, de que voc\u00eas iam estourar?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E teve alguma desilus\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Teve uma desilus\u00e3o sim. N\u00e3o foi t\u00e3o dr\u00e1stica, porque a gente teve um apoio interno incr\u00edvel. Um bom funcionamento interno \u00e9 quase 90% da raz\u00e3o pela qual conseguimos comemorar esses 10 anos juntos, superando press\u00f5es externas ou contextos complicados. Do EP \u201cDois a Rodar\u201d para o &#8220;Exerc\u00edcio&#8221;, rolou a sensa\u00e7\u00e3o de que o Ludov ia estourar. Havia um investimento forte por parte da Deck, ou melhor, do Jo\u00e3o Augusto, que na \u00e9poca era o presidente do selo. Ele tinha um carinho muito grande pela gente, e queria bastante ajudar. Na \u00e9poca, n\u00f3s reclamamos porque sempre quer\u00edamos mais investimento. Com o tempo, paramos de dar desculpas, porque no final das contas a responsabilidade \u00e9 sempre nossa. Mas rolou essa expectativa de ser um sucesso, e no per\u00edodo entre o &#8220;Exerc\u00edcio&#8221; e o &#8220;Disco Paralelo&#8221; n\u00f3s tivemos que lidar com essa desilus\u00e3o, entre aspas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea chamaria de desilus\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o chamo. Acho que foi uma quebra de expectativa. Uma dose pequena de frustra\u00e7\u00e3o. A gente esperava ficar super livre e ser artista mimado (risos). Todo mundo tinha esse sonho nessa \u00e9poca. Pegamos uma \u00e9poca na qual o modelo comercial foi se desfazendo, e esse modelo foi repassado para outras bandas novas. Vimos o modelo que estava sendo empregado na nossa gera\u00e7\u00e3o sendo transplantado para outra aplica\u00e7\u00e3o \u2013 o Restart, o NX Zero&#8230; S\u00e3o produtos mais bem pensados mercadologicamente. Acho que as pessoas que investiram neles pensaram melhor um produto do que a gente. \u00c9 preciso dar esse m\u00e9rito. Dentro do rock brasileiro, o modelo de gravadoras foi minguando, e esse modelo foi transplantado para outras bandas, e a nossa gera\u00e7\u00e3o foi aprendendo a se virar com outros modelos. Mais do que tudo, foi isso que deu essa quebra de expectativa: o modelo que a gente queria j\u00e1 n\u00e3o existia e n\u00f3s tivemos de inventar outra sa\u00edda. Era ficar insistindo no imposs\u00edvel. Hoje, sou meio contra essa coisa de \u201csonho\u201d: \u00e9 mais f\u00e1cil realizar. Parece frase de efeito, mas \u00e9 verdade. Eu penso em desejos e vontades, em coisas que eu consiga realizar. \u00c9 um caminho que a gente aprendeu do &#8220;Disco Paralelo&#8221; em diante. \u00c9 o \u201csem desculpa\u201d. A gente procura n\u00e3o se dar desculpa para nada. Analisamos os fatos, e em muitos casos existem fatos cru\u00e9is, mas nada tem que ser desculpa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Essa \u00e9 a realidade de voc\u00eas hoje?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim. \u00c9 realizar, sem desculpas. Faz parte de ficar um pouco mais velho, acho. Pensamos mais em uma obra, e menos em resultados isolados. Enxergamos tudo como uma coisa s\u00f3. Isso nos deixa mais cautelosos, querendo lan\u00e7ar coisas melhores, mas tamb\u00e9m nos d\u00e1 maios tranquilidade. Se voc\u00ea n\u00e3o tem uma aceita\u00e7\u00e3o muito boa perante o p\u00fablico, isso faz parte de uma coisa maior. Se n\u00f3s lan\u00e7armos nosso pr\u00f3ximo EP e todo mundo falar mal, beleza. Claro que a gente vai ficar triste, mas isso n\u00e3o vai ser empecilho para que n\u00f3s sigamos em frente.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2heVzAPhTB8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/qTmK06RRnEs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Bruno Capelas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@noacapelas<\/a>) \u00e9 jornalista, escreve para o Scream &amp; Yell desde maio de 2010\u00a0 e assina o blog <a href=\"http:\/\/pergunteaopop.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pergunte ao Pop<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; \u201cCaligrafia\u201d, o melhor disco do Ludov, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/08\/19\/leis-do-avesso-rocknova-e-ludov\/\" target=\"_self\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Entrevista 2009: Habacuque Lima fala sobre &#8220;Caligrafia&#8221;, por Murilo Basso (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/10\/27\/entrevista-ludov\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Entrevista 2006: Ludov passa por um momento de transi\u00e7\u00e3o, por Andr\u00e9 Azenha (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musicadois\/entrevista_ludov2006.htm\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Entrevista 2003: por que a mudan\u00e7a de lingua, de nome e por que Ludov?, por Mac (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musicadois\/ludov.htm\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em um longe bate papo honesto, Mauro fala de sua carreira solo, de Maybees, Ludov e de seus projetos como produtor\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/08\/13\/entrevista-mauro-motoki-ludov\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":14,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1008,2184],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15425"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15425"}],"version-history":[{"count":38,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15425\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":43755,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15425\/revisions\/43755"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15425"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15425"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15425"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}