{"id":15119,"date":"2012-07-19T00:26:06","date_gmt":"2012-07-19T03:26:06","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=15119"},"modified":"2024-11-20T09:35:39","modified_gmt":"2024-11-20T12:35:39","slug":"cinema-na-estrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/07\/19\/cinema-na-estrada\/","title":{"rendered":"Cinema: Em &#8220;Na Estrada&#8221;, Walter Salles \u00e9 fiel ao cl\u00e1ssico beatnik, mas pisca o olho para a Gera\u00e7\u00e3o Crep\u00fasculo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15120\" title=\"naestrada2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/naestrada2.jpg\" alt=\"\" width=\"269\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/naestrada2.jpg 269w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/naestrada2-201x300.jpg 201w\" sizes=\"(max-width: 269px) 100vw, 269px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Marcelo Costa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seu genial livro \u201cDicas \u00dateis Para Uma Vida F\u00fatil\u201d, que tem o subt\u00edtulo de \u201cum manual para a maldita ra\u00e7a humana\u201d, o escritor Mark Twain define que \u201cviajar \u00e9 fatal para o preconceito, a intoler\u00e2ncia e as ideias limitadas. N\u00e3o se pode ter uma vis\u00e3o ampla, abrangente e generosa dos homens vegetando num cantinho do mundo a vida inteira\u201d. \u00c9 um pensamento bastante interessante, que poderia ser o pr\u00f3logo de \u201cNa Estrada\u201d (\u201cOn The Road\u201d, 2012), novo filme de Walter Salles, se o filme j\u00e1 n\u00e3o fosse liter\u00e1rio demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Liter\u00e1rio, bem&#8230; \u00c9 famosa a cita\u00e7\u00e3o do afiado escritor Truman Capote, que ap\u00f3s ler \u201cOn The Road\u201d, o livro de Jack Keroauc, teria dito: &#8220;Isso n\u00e3o \u00e9 literatura, \u00e9 datilografia!&#8221;. Por\u00e9m, o que Capote e praticamente todo o meio liter\u00e1rio s\u00e9rio do final dos anos 50 n\u00e3o entendeu \u00e9 que \u201cP\u00e9 Na Estrada\u201d (como o livro foi chamado no Brasil) era mais do que literatura, era praticamente um \u00e1lbum fotogr\u00e1fico que flagrava o que Henri Cartier-Bresson definiu como \u201co instante decisivo\u201d, neste caso bastante amplo, de uma gera\u00e7\u00e3o \u00e0 margem do american way of life.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 importante enfileirar essas cita\u00e7\u00f5es porque Walter Salles procurou ser bastante fiel n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 narrativa, mas tamb\u00e9m ao que simboliza o livro para toda uma gera\u00e7\u00e3o, e principalmente para o mundo atual, afundado em um capitalismo desenfreado que resultou em distor\u00e7\u00f5es dist\u00f3picas bastante relevantes, como o mundo produzir mais comida do que se consome (e ainda assim termos milh\u00f5es de pessoas passando fome) ou termos mais casas vazias constru\u00eddas do que pessoas sem teto (e ainda assim, os viadutos e as favelas est\u00e3o lotados).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15123\" title=\"naestrada4\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/naestrada4.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cNa Estrada\u201d, a fotografia de Eric Gautier \u00e9 um dos personagens principais, permitindo ao roteiro recortado simular o livro com a precisa imprecis\u00e3o caracter\u00edstica das diferen\u00e7as das duas artes, e o resultado \u00e9 um road movie po\u00e9tico, dif\u00edcil e contestador. Como o livro. Ou como um \u00e1lbum de fotos que a pessoa vai passando e se surpreendendo com cada imagem no papel. Salles \u2013 auxiliado pelo roteirista Jose Rivera \u2013 picota a trama tentando passar ao espectador a viv\u00eancia da viagem, a experi\u00eancia da estrada, mas n\u00e3o deixa buracos na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria. Nova York. Logo ap\u00f3s a morte do pai, Sal Paradise (Sam Riley), um jovem de 23 anos que quer ser escritor, conhece Dean Moriarty (Garrett Hedlund), um ex (eterno) ladr\u00e3o de carros rec\u00e9m livre da cadeia, e sua namorada Marylou (Kristen Stewart), que \u00e9 noiva de um marinheiro em Denver (tudo bem, Dean tamb\u00e9m namora Camille \u2013 Kirsten Dunst \u2013, que mora em S\u00e3o Francisco), e os tr\u00eas se tornam amigos. Sal sonha em atravessar o pa\u00eds, ver pessoas, colher hist\u00f3rias, tudo isso para escrever um livro, e segue seu destino durante quatro anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os personagens s\u00e3o todos reais (o que fica explicito no manuscrito original do livro, publicado em 2007), com os nomes adotados na vers\u00e3o que chegou \u00e0s livrarias 50 anos antes. Sal Paradise \u00e9 Jack Kerouac, Dean Moriarty \u00e9 Neal Cassady, Marylou \u00e9 Luanne Henderson, Camille \u00e9 Carolyn Cassady, Old Bull Lee \u00e9 William S. Burroughs, Jane \u00e9 Joan Vollmer, Carlo Marx \u00e9 Allen Ginsberg, e Terry \u00e9 Bea Franco. Claro que h\u00e1 fantasia na hist\u00f3ria original, valorizada pela fotografia no filme, mas ainda assim \u201cNa Estrada\u201d \u00e9 um interessante retrato de \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15125\" title=\"naestrad11\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/naestrad11.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"454\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/naestrad11.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/naestrad11-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivendo completamente \u00e0 margem da sociedade, o trio Sal\/Dean\/Marylou avan\u00e7a numa experi\u00eancia de liberdade que chacoalhou os alicerces da sociedade norte-americana (e mundial) nos anos 60 movidos por sexo livre, drogas, roubos e jazz (os assaltos do trio \u2013 e de boa parte que os seguiram nas d\u00e9cadas seguintes \u2013 n\u00e3o eram apenas a postos de gasolina e supermercados, mas tamb\u00e9m \u00e0 cultura negra, um para\u00edso criativo, instigante, mas extremamente perigoso, ainda mais nos anos 40 &#8211; periodo retratato no livro).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nesse cen\u00e1rio de caos, pobreza e desordem que surgem as fotografias de Sal: uma spanglish que precisa cuidar do pai e do irm\u00e3o pequeno e que ganha dinheiro colhendo algod\u00e3o; um tioz\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 muito chegado em mulheres; um velho professor com uma boa mira na espingarda de dois canos e sua esposa \u201cexc\u00eantrica\u201d; um disc\u00edpulo de Rimbaud que sonha em ir para a \u00c1frica transar com negros; um casal rec\u00e9m-casado cujo marido deixa a esposa para cruzar o pa\u00eds com os amigos; um pai inexistente; um jazzista; um pa\u00eds de pessoas sem nome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Walter Salles n\u00e3o desperdi\u00e7a o excelente elenco que tem em m\u00e3os, e, apesar de curtas, as passagens de Viggo Mortensen, Amy Adams, Steve Buscemi, Elisabeth Moss (que muita gente conhece como Peggy Olson, da s\u00e9rie Mad Men) e Alice Braga s\u00e3o marcantes, como se fossem pequenas portas abertas em uma casa, que permitem adentrar ambientes decorados, que n\u00e3o mudariam a hist\u00f3ria se permanecem fechadas, mas ampliam o olhar para o todo (um artificio que os irm\u00e3os Coen transformam em arte em alguns de seus melhores filmes).<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15126\" title=\"naestrad5\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/naestrad5.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"293\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/naestrad5.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/naestrad5-300x145.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fiel da balan\u00e7a cinematogr\u00e1fica, \u201cNa Estrada\u201d \u00e9 um pequeno e bonito \u00e9pico art\u00edstico que vai muito al\u00e9m do olhar raso do espectador que v\u00ea no filme apenas atores hollywoodianos seminus (uma redu\u00e7\u00e3o t\u00e3o tola quanto a de Truman Capote). Walter Salles foi respeitoso com o livro que trouxe para os holofotes uma gera\u00e7\u00e3o bo\u00eamia, n\u00f4made e inconformista, mas o m\u00e9rito do filme (diferente do que muitos esperavam e\/ou queriam) n\u00e3o \u00e9 inspirar como o livro, mas sim analisar o passado e coloca-lo em contraponto com o presente atrav\u00e9s de uma hist\u00f3ria de reden\u00e7\u00e3o pessoal (sob o olhar atento de Proust).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao optar por retratar um bando de desajustados \u2013 pobres e maltrapilhos, livres, drogados e inconsequentes \u2013 na pele de alguns dos s\u00edmbolos da Hollywood atual, Salles d\u00e1 uma piscadela para a juventude f\u00e3 da Saga Crep\u00fasculo (que ir\u00e1 assistir ao filme em torrent, j\u00e1 que ele recebeu classifica\u00e7\u00e3o 16 anos nos cinemas \u2013 mas eles v\u00e3o assistir: blogs de f\u00e3s j\u00e1 destrincham a vida de Luanne Henderson) num gesto que tanto pode provocar quanto inibir, afinal n\u00e3o h\u00e1 final feliz. Todos crescem enquanto guerras acontecem, presidentes s\u00e3o depostos e o mundo parece balan\u00e7ar eternamente entre a bomba at\u00f4mica e um cupcake (atualizando\u00a0 madeleines).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltamos ent\u00e3o a Mark Twain, que escreveu no in\u00edcio do s\u00e9culo 20: \u201cOs radicais inventam as ideias. Quando elas se esgotam de tanto uso, os conservadores as adaptam\u201d. Em um tempo em que tudo \u00e9 publicidade (de bondade a assassinato), a contracultura foi assimilada, sugada e incorporada ao dicion\u00e1rio, mas ainda d\u00e1 um bom caldo. Por\u00e9m, por mais que as estradas (e o capitalismo) continuem por ai, \u00e9 sempre importante lembrar que o \u201camor que voc\u00ea leva \u00e9 igual ao amor que voc\u00ea faz\u201d. No fim, independente do caminho, estamos todos em busca (do tempo perdido e) da mesma coisa: n\u00f3s mesmos. Ser\u00e1 a sociedade apenas um pretexto?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pano r\u00e1pido.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Na Estrada - Trailer Oficial (legendado)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/uUzklNReJbs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Marcelo Costa \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina o blog <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\">Calmantes com Champagne<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; A busca de Walter Salles: um olhar r\u00e1pido sobre quatro filmes do diretor (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/07\/19\/a-busca-de-walter-salles\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Marcelo Costa\nWalter Salles fez um pequeno e bonito \u00e9pico art\u00edstico que diz mais sobre olhar o passado do que o pr\u00f3prio passado em si\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/07\/19\/cinema-na-estrada\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15119"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15119"}],"version-history":[{"count":19,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15119\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":85391,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15119\/revisions\/85391"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15119"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15119"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15119"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}