{"id":15089,"date":"2012-07-19T00:09:42","date_gmt":"2012-07-19T03:09:42","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=15089"},"modified":"2019-07-09T10:43:46","modified_gmt":"2019-07-09T13:43:46","slug":"a-busca-de-walter-salles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/07\/19\/a-busca-de-walter-salles\/","title":{"rendered":"A busca de Walter Salles"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15108\" title=\"naestrada1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/naestrada1.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/naestrada1.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/naestrada1-300x198.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Ismael Machado <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como os pr\u00f3prios \u2018beats\u2019 de meados dos anos 40 e anos 50, o filme \u201cNa Estrada\u201d (\u201cOn The Road\u201d, 2012), de Walter Salles, desperta rea\u00e7\u00f5es adversas. H\u00e1 quem o considere o melhor filme do cineasta. E h\u00e1 os que, decepcionados, confessam ter esperado mais da obra baseada no cl\u00e1ssico livro de Jack Kerouac (no Brasil, \u201cP\u00e9 na Estrada\u201d), uma das b\u00edblias da beat generation.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem uma coisa nem outra. Se n\u00e3o \u00e9 o melhor da filmografia de Salles, \u201cNa Estrada\u201d tamb\u00e9m n\u00e3o deve ser visto como um tiro no p\u00e9 ou exerc\u00edcio de pretens\u00e3o do diretor. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil transpor o universo de Jack Kerouac para as telas. E das tentativas j\u00e1 feitas, talvez a do brasileiro tenha se sa\u00eddo melhor do que as anteriores, o que, definitivamente, n\u00e3o \u00e9 pouca coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mais interessante nisso tudo \u00e9 que mais uma vez Walter Salles mergulha em dois temas que lhe s\u00e3o caros. Os \u2018road movies\u2019, ou filmes de estrada, e a hist\u00f3ria de reden\u00e7\u00e3o e autodescoberta. Isso \u00e9 visto em \u201cTerra Estrangeira\u201d, \u201cCentral do Brasil\u201d, \u201cDi\u00e1rios de Motocicleta\u201d e agora em \u201cNa Estrada\u201d, para ficar em quatro exemplos singulares.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15111\" title=\"terra\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/terra.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"393\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/terra.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/terra-300x194.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em determinada cena de \u201cTerra Estrangeira\u201d, dirigido em 1995 por Walter Salles e Daniela Thomas, a personagem Alex, interpretada por Fernanda Torres, olha para o mar e diz ao companheiro em fuga Paco, vivido pelo ent\u00e3o estreante Fernando Alves Pinto: \u201cL\u00e1 adiante fica o Brasil. Coitado dos portugueses, mal sabiam o que iriam encontrar quando partiram daqui\u201d. A frase pode n\u00e3o ser exatamente essa, mas o sentido, sim. Esse \u00e9 um momento do filme crucial para se entender o sentimento vivido por uma gera\u00e7\u00e3o inteira no Brasil do in\u00edcio dos anos 90, com o desencanto provocado por sucessivos malogros pol\u00edticos e econ\u00f4micos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filmado em um preto e branco saturado e granulado, \u201cTerra Estrangeira\u201d \u00e9 a primeira tentativa de Walter Salles de definir a busca por uma identidade nacional latino-americana. \u00c9 uma met\u00e1fora da condi\u00e7\u00e3o de exilados vivida por brasileiros em seu pr\u00f3prio pa\u00eds ou que buscaram alternativas num autoex\u00edlio, iniciando uma esp\u00e9cie de di\u00e1spora mundo afora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se em \u201cTerra Estrangeira\u201d, Salles voltou o olhar para os pa\u00edses de \u201conde viemos\u201d (Portugal e Espanha) em busca de uma resposta \u00e0 quest\u00e3o de nossa identidade e n\u00e3o encontrou nenhuma conclus\u00e3o para essas indaga\u00e7\u00f5es, num segundo momento seu olhar se volta para o pr\u00f3prio pa\u00eds. O filme em quest\u00e3o \u00e9 \u201cCentral do Brasil\u201d (1998). A ideia aparentemente \u00e9 inversa a de \u201cTerra Estrangeira\u201d. Enquanto o primeiro olhava para a tradi\u00e7\u00e3o perdida, para o pa\u00eds colonizador, o segundo trava um di\u00e1logo de esperan\u00e7a por um pa\u00eds poss\u00edvel, onde se pode sonhar com uma identidade pessoal.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15113\" title=\"central\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/central.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"391\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/central.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/central-300x193.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No filme, Dora (Fernanda Montenegro) escreve cartas para analfabetos na \u201cCentral do Brasil\u201d, a esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria do Rio de Janeiro aonde milhares de pessoas an\u00f4nimas chegam e partem, com suas pr\u00f3prias hist\u00f3rias e seus pr\u00f3prios dramas pessoais.  Um dia, a m\u00e3e de Josu\u00e9 (Vin\u00edcius de Oliveira) paga os servi\u00e7os de Dora, tentando se comunicar com o pai do garoto, que nunca conheceu o filho. Como sempre, Dora, que \u00e9 ex-professora, n\u00e3o envia a carta e fica com o dinheiro. Quando a m\u00e3e de Josu\u00e9 morre atropelada, ela decide vender o menino a traficantes de crian\u00e7as, pensando que Josu\u00e9 vai acabar bem em alguma fam\u00edlia europeia rica. Muda de ideia e junto com o garoto parte para o sert\u00e3o nordestino em busca do pai do menino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao fazerem sua pequena odisseia, Dora e Josu\u00e9 acabam por revelar o Brasil ao pr\u00f3prio Brasil. \u00c9 essa viagem particular que Salles inicia. A identidade nacional \u00e9 buscada na oralidade, nas pequenas hist\u00f3rias de um Brasil rural, pobre, \u00e1rido, mas com possibilidades infinitas por conta de uma esp\u00e9cie de bravura cotidiana de seu pr\u00f3prio povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, \u00fanico pa\u00eds a adotar a l\u00edngua portuguesa, o Brasil tamb\u00e9m busca a pr\u00f3pria identidade latinoamericana. Afinal, o que \u00e9 a Am\u00e9rica Latina? Quais suas identidades? Ou existe uma \u00fanica identidade? Essas perguntas Salles tenta responder no filme \u201cDi\u00e1rios de Motocicleta\u201d (2004). O filme narra a trajet\u00f3ria do jovem estudante de Medicina Ernesto Guevara e seu amigo Alberto Granado pelos pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul. Guevara entraria para a hist\u00f3ria como o revolucion\u00e1rio Che Guevara. Em Di\u00e1rios de Motocicleta, Salles utiliza o argumento de que as viagens feitas de moto por Guevara e Granado moldaram o sentimento revolucion\u00e1rio de Che.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15115\" title=\"diarios\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/diarios.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas em vez de optar apenas por esse tratamento superficial, Salles tenta aprofundar a discuss\u00e3o sobre a identidade cultural latino-americana. O filme lan\u00e7a um olhar generoso sobre os pa\u00edses vizinhos ao Brasil e mostra que, de certa forma, as ra\u00edzes da coloniza\u00e7\u00e3o acabam por serem semelhantes. \u00c9 como se Salles buscasse a possibilidade de uma Am\u00e9rica una no sentido de fraterna, com caracter\u00edsticas pr\u00f3prias, mas irmanada por uma origem comum, com anseios e sonhos e possibilidades entranhadas em uma sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento a uma origem similar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cNa Estrada\u201d, Salles busca um pa\u00eds que n\u00e3o existe mais. Os Estados Unidos de Kerouac j\u00e1 desapareceram. N\u00e3o \u00e0 toa, muitas cenas foram feitas em pa\u00edses como Argentina e M\u00e9xico. Mas o que importa no filme \u00e9 a busca pelo pr\u00f3prio \u2018eu\u2019. \u00c9 a inclina\u00e7\u00e3o pelo olhar ao outro, que Salles sempre buscou. Bem ou mal, \u00e9 o humano que o diretor tenta capturar nas lentes e levar \u00e0s telas. A captura aqui, n\u00e3o se refere a aprisionamento, mas a uma compreens\u00e3o do que nos une, do que nos faz sermos solid\u00e1rios, fraternos e aventureiros. Alguns chamam a isso de amor. Pode ser uma boa defini\u00e7\u00e3o no final das contas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15129\" title=\"naestrada6\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/naestrada6.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"396\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/naestrada6.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/naestrada6-300x196.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ismael Machado \u00e9 rep\u00f3rter especial do  Di\u00e1rio do Par\u00e1 e autor do livro \u201cSujando os Sapatos &#8211; O Caminho Di\u00e1rio  da Reportagem\u201d. Saiba mais\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2011\/08\/24\/tres-livros-bacanas-dois-em-promocao\/\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; &#8220;Na Estrada&#8221;: Walter Salles \u00e9 fiel ao livro, mas pisca para a Gera\u00e7\u00e3o Crep\u00fasculo (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/07\/19\/cinema-na-estrada\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Ismael Machado\nO que une &#8220;Terra Estrangeira&#8221;, &#8220;Central do Brasil&#8221;, &#8220;Di\u00e1rios de Motocicleta&#8221; e &#8220;Na Estrada&#8221;: reden\u00e7\u00e3o e autodescoberta\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/07\/19\/a-busca-de-walter-salles\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":15,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15089"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/15"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15089"}],"version-history":[{"count":14,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15089\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15110,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15089\/revisions\/15110"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15089"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15089"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15089"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}