{"id":14944,"date":"2012-07-08T21:03:10","date_gmt":"2012-07-09T00:03:10","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=14944"},"modified":"2023-03-28T23:27:49","modified_gmt":"2023-03-29T02:27:49","slug":"entrevista-lucas-santtana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/07\/08\/entrevista-lucas-santtana\/","title":{"rendered":"Entrevista: Lucas Santtana"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-14948\" title=\"lucas2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/lucas2.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"399\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/lucas2.jpg 600w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/lucas2-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Entrevista por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/i\/renancanove\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Renan Sim\u00e3o<\/a> e <a href=\"http:\/\/twitter.com\/sergiomviana\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">S\u00e9rgio Viana<\/a><br \/>\nFotos por <a href=\"http:\/\/lilianecallegari.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Liliane Callegari<\/a><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos destaques da nova gera\u00e7\u00e3o da m\u00fasica brasileira, Lucas Santtana transita entre artistas como C\u00e9u, Curumim, Instituto e Do Amor com participa\u00e7\u00f5es e composi\u00e7\u00f5es. Mais que isso, ele se firma como artista pop ap\u00f3s com seu quinto disco, \u201cO Deus Que Devasta Mas Tem Cura&#8221; (2012), lan\u00e7ado e disponibilizando para download em mar\u00e7o (baixe no <a href=\"http:\/\/soundcloud.com\/diginoisrecords\/sets\/o-deus-que-devasta-mas-tamb-m\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Soundcloud de Lucas Santtana<\/a>), que traz no m\u00ednimo cinco m\u00fasicas f\u00e1ceis para assoviar e cantar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O Deus que Devasta Mas Tamb\u00e9m Cura&#8221; surge ap\u00f3s \u201cSem Nostalgia\u201d, seu quarto disco, ser lan\u00e7ado na Inglaterra, Alemanha e Fran\u00e7a no segundo semestre de 2011 e ter alcan\u00e7ado o primeiro lugar da parada de World Music da Europa, uma conquista importante para um artista que, apesar da imensa qualidade de seu trabalho, n\u00e3o tem m\u00fasicas frequentando r\u00e1dios e ainda \u00e9 pouco conhecido em seu pr\u00f3prio Pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Essa gera\u00e7\u00e3o tem m\u00fasicas que s\u00e3o extremamente radiof\u00f4nicas s\u00f3 que elas n\u00e3o entram no subconsciente coletivo por uma quest\u00e3o mercadol\u00f3gica&#8221;, avalia Lucas Santtana. &#8220;N\u00e3o tem mais a gravadora pra pagar aquela grana pra aquela m\u00fasica tocar&#8221;, conclui. Para o compositor, &#8220;o problema n\u00e3o s\u00e3o as can\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meia hora antes do come\u00e7o do seu show na cidade de Botucatu, no interior de S\u00e3o Paulo, sentado na poltrona do Teatro Paratodos, Lucas Santtana conversou sobre m\u00fasica contando sobre os processos de cria\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o de seu disco, da import\u00e2ncia da r\u00e1dio na m\u00fasica popular, de Caetano e Gil, de grandes gravadoras, sobre pesquisa musical, o incentivo do Estado para a m\u00fasica e o livro mais incr\u00edvel de sua vida: \u201cGrande Sert\u00e3o Veredas\u201d. Confira:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"100%\" height=\"450\" scrolling=\"no\" frameborder=\"no\" src=\"http:\/\/w.soundcloud.com\/player\/?url=http%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Fplaylists%2F1698104&#038;show_artwork=true\"><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O pessoal fala muito na inspira\u00e7\u00e3o do seu disco, da hist\u00f3ria da sua separa\u00e7\u00e3o, mas ouvindo &#8220;O Deus Que Devasta Mas Tem Cura&#8221; percebemos que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso&#8230; Tem &#8220;Jogos Madrugais&#8221; que \u00e9 sobre videogame e &#8220;Ela \u00e9 Bel\u00e9m&#8221; sobre a cidade de Bel\u00e9m, por exemplo. Como foi o m\u00e9todo da cria\u00e7\u00e3o pra constru\u00e7\u00e3o do disco?<\/strong><br \/>\nNa verdade, o m\u00e9todo de cria\u00e7\u00e3o acontece de v\u00e1rias maneiras. N\u00e3o tenho um m\u00e9todo que sempre se repete. Uma coisa que se repetiu nos quatro primeiros discos \u00e9 que todos eles nasceram primeiramente de ideias musicais, de querer trabalhar com dub, do lance da mixagem do dub, do universo do reggae jamaicano. No \u201cSem Nostalgia\u201d (2009) eu queria fazer um voz e viol\u00e3o, mas que n\u00e3o soasse assim. Esse \u00faltimo (\u201cO Deus que Devasta Mas N\u00e3o Tem Cura\u201d) foi o primeiro que nasceu das can\u00e7\u00f5es. Fiz todas num per\u00edodo curto de tempo e percebi que todas elas tinham uma coisa em comum, e por terem sido feitas num mesmo tempo elas formavam uma fam\u00edlia, elas eram um disco. E essa caracter\u00edstica \u00e9 justamente o fato delas todas terem uma coisa cronista, descreverem coisas que eu estava vivendo ou vendo, ser bem real assim ou bem pr\u00f3ximo do real. Voc\u00ea faz um autorretrato. Aquilo \u00e9 real, mas ao mesmo tempo j\u00e1 \u00e9 outra coisa, mas enfim, baseado na realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como foi fazer &#8220;Pra Onde Ir\u00e1 Essa Noite&#8221;?<\/strong><br \/>\nAconteceu em S\u00e3o Paulo, e foi pra uma mo\u00e7a l\u00e1 de Sampa, mas, por exemplo, n\u00e3o foi exatamente como aconteceu. Aconteceu e a partir daquilo eu desenvolvi uma fic\u00e7\u00e3o do que seria se tivesse acontecido, sabe?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cO Deus Que Devasta Mas Tem Cura\u201d tem uma coisa bem mais densa. Ele parece que tem uma estrutura mais consistente no sentido de que s\u00e3o m\u00fasicas mais pesadas, que pegam o sentimento&#8230;<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei se isso vai ser uma coisa que vai permanecer em outros discos. Realmente nesse disco tem esse lado de falar dos sentimentos, de um lugar mais dentro, pessoal, mais confessional, mais cronista. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a minha rela\u00e7\u00e3o, mas falar de relacionamentos, de coisas que acontecem com qualquer um. Na verdade muita gente se identifica com esse disco por isso, porque toca coisas que elas vivenciam, j\u00e1 vivenciaram ou t\u00e3o vivenciando. N\u00e3o sei. Todos os relacionamentos s\u00e3o diferentes, e acabam sendo contaminados por coisas ou universos musicais que estamos vivendo naquele momento. N\u00e3o da pra dizer se isso \u00e9 uma coisa que vai sempre rolar, esse tipo de can\u00e7\u00e3o, de sonoridade. O \u201cSem Nostalgia\u201d foi um disco que tive que me impor um limite: s\u00f3 podia ter dois instrumentos. Nesse (novo) disco eu quis abrir usando sinf\u00f4nicos, e dar esse peso, essa carga emocional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 falou de dub, m\u00fasica cl\u00e1ssica, e numa entrevista pra Folha de S\u00e3o Paulo, o pr\u00f3prio jornalista n\u00e3o classifica voc\u00ea em nenhum estilo \u2013 MPB, Dub, eletr\u00f4nico.  Voc\u00ea concorda? Acha que seu som n\u00e3o tem mesmo classifica\u00e7\u00e3o? \u00c9 uma busca sua?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o procuro, mas em cada disco curto me aventurar em um universo musical, naquilo que estou ouvindo, e pelo menos dessa maneira sempre estou aprendendo, porque no \u201c3 Sessions in a Greenhouse\u201d (disco de 2006) estava rolando muita festa dub no Rio e eu ia com meus amigos, e comecei a fazer uma pesquisa grande sobre m\u00fasica jamaicana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como \u00e9 essa pesquisa?<\/strong><br \/>\n\u00c9 pesquisar, estudar, ir l\u00e1 buscar os nomes, sair dos nomes padr\u00f5es e buscar outros nomes que voc\u00ea n\u00e3o conhece. De um nome voc\u00ea vai chegando a outro, enfim, voc\u00ea pesquisar mesmo, e correr atr\u00e1s de todo aquele universo e fazer uma coisa meio voz\/viol\u00e3o. Ent\u00e3o peguei todos os vinis e fui buscando coisas do Caetano, do Caymmi, do Jo\u00e3o Gilberto, do Baden Powell, do Gilberto Gil, do Germano Mathias&#8230; de todos os momentos em que eles estivessem tocando viol\u00e3o sem outro instrumento, sem estar cantando. Fiz uma playlist, fui montando um banco de dados. Fui pesquisando o tipo de microfone pra gravar voz, j\u00e1 que em um disco de voz e viol\u00e3o, a voz que em cada faixa vai ganhar um tipo de sonoridade, textura diferente, enfim, \u00e9 pesquisa mesmo. Em &#8220;Who Can Say [Which Way]&#8221; usei um gravador de arame dos anos 50, a voz fica bem crua, saturada, e isso d\u00e1 um timbre diferente. Enfim, \u00e9 correr atr\u00e1s do som.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/0hwH8TmiBpg\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/0hwH8TmiBpg\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Puxando para outro lado: hoje em dia n\u00e3o s\u00f3 voc\u00ea, mas outros m\u00fasicos \u2013 como o Curumim \u2013fazem muitas parcerias na hora de gravar. Como que se d\u00e1 isso? Por que antes com as grandes gravadoras parecia que n\u00e3o existia tanto isso entre os m\u00fasicos. E como se d\u00e1 isso na hora da grava\u00e7\u00e3o: voc\u00ea tinha sua m\u00fasica pronta, e eles inserem uma coisa deles&#8230; ou n\u00e3o, voc\u00ea j\u00e1 tem algo pronto?  Voc\u00ea gravou com os caras Do Amor&#8230;<\/strong><br \/>\nEles fizeram parte da minha banda desde o show do \u201cSem Nostalgia\u201d. Quer dizer, o Ricardinho e o Benj\u00e3o que fazem parte Do Amor, eles j\u00e1 tocam comigo desde o show do \u201cParada de Lucas\u201d (2003), ou seja, antes do \u201c3 Sessions\u201d. Eles t\u00e3o comigo desde 2009, ent\u00e3o foi f\u00e1cil gravar. Acho que essas colabora\u00e7\u00f5es j\u00e1 rolavam. Se voc\u00ea vai no Youtube e digita \u201cJo\u00e3o Gilberto e Rita Lee\u201d tem uma m\u00fasica; Gilberto Gil e n\u00e3o sei quem, tem uma m\u00fasica. Mas acho que eram menos colabora\u00e7\u00f5es, todos eles j\u00e1 tinham nome, era outro momento da m\u00fasica popular, j\u00e1 tinham uma certa consagra\u00e7\u00e3o. Dificulta porque vira um encontro dos consagrados. E na nossa gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem muita gravadora, ent\u00e3o esse glamour todo se perdeu um pouco, n\u00e3o existe muito isso, todo mundo \u00e9 meio oper\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Isso \u00e9 positivo?<\/strong><br \/>\nAcho extremamente positivo, porque todo mundo fica focado na m\u00fasica, ningu\u00e9m perde tempo com glamour, tipo &#8220;ah, eu quero que o camarim seja todo verde&#8221;, essas frescuras n\u00e3o tem nada a ver com m\u00fasica, \u00e9 s\u00f3 loucura pessoal mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em um texto de um jornalista da Record, ele critica um pouco essa nova gera\u00e7\u00e3o da m\u00fasica brasileira, que apesar de fazer m\u00fasica boa, segundo ele, n\u00e3o \u00e9 uma m\u00fasica que todo mundo ouve, n\u00e3o \u00e9 uma m\u00fasica que toca em r\u00e1dio, que vai pra TV&#8230;<\/strong><br \/>\nIsso \u00e9 uma quest\u00e3o central da nossa gera\u00e7\u00e3o, porque nossa gera\u00e7\u00e3o, a meu ver, comp\u00f5e m\u00fasicas populares tamb\u00e9m. Tipo o Curumim que acabou de lan\u00e7ar um disco, e tem uma m\u00fasica chamada \u201cPassarinho\u201d. Parece Roupa Nova de t\u00e3o hit que \u00e9 a m\u00fasica. Se botasse na r\u00e1dio, na novela, viraria hit&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cPassarinho\u201d parece muito Roberto Carlos&#8230;<\/strong><br \/>\nE \u00e9 muito bom. \u00c9 muito hit. Sei l\u00e1, um disco da C\u00e9u, meus discos, sempre tem m\u00fasicas que poderiam ser hits radiof\u00f4nicos. S\u00e3o do mesmo n\u00edvel e tem potencial pra ser hit que \u201cLe\u00e3ozinho\u201d, ou sei l\u00e1, \u201cAndar com F\u00e9\u201d, do Gil, em n\u00edvel de letra, melodia. A quest\u00e3o \u00e9 que na nossa gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem r\u00e1dio. O r\u00e1dio j\u00e1 era comercial, e est\u00e1 cada vez mais dif\u00edcil, e isso criou um gap nessa gera\u00e7\u00e3o. Essa gera\u00e7\u00e3o tem m\u00fasicas que s\u00e3o extremamente radiof\u00f4nicas s\u00f3 que elas n\u00e3o entram no subconsciente coletivo por uma quest\u00e3o mercadol\u00f3gica. N\u00e3o tem mais a gravadora pra pagar aquela grana pra aquela m\u00fasica tocar. Porque talvez na \u00e9poca do Caetano e do Gil, se n\u00e3o tivesse a gravadora que pagasse jab\u00e1 pras m\u00fasicas deles tocarem, talvez muitas dessas m\u00fasicas n\u00e3o tivessem entrado no subconsciente coletivo. Porque o r\u00e1dio no Brasil ainda tem esse poder muito grande, sempre teve, ent\u00e3o essa (nova) gera\u00e7\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 popular porque o r\u00e1dio faz esse bloqueio mercadol\u00f3gico em termos de grana. O problema n\u00e3o s\u00e3o as can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/DootzirnK8A\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/DootzirnK8A\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A internet \u00e9 a principal ferramenta que voc\u00eas usam pra espalhar o trabalho, mas o que voc\u00eas fazem al\u00e9m dela?<\/strong><br \/>\nTem r\u00e1dios que tocam, mas s\u00e3o poucas. Elas tamb\u00e9m tocam espa\u00e7adamente, n\u00e3o tocam todo dia, ent\u00e3o fica dif\u00edcil daquela m\u00fasica pegar no r\u00e1dio. E na verdade acaba que a gera\u00e7\u00e3o que faz todos os programas de TV, que faz o J\u00f4 Soares, o Altas Horas, em termos de imprensa tamb\u00e9m, na verdade, essa gera\u00e7\u00e3o tem mais respeito e mais espa\u00e7o do que a gera\u00e7\u00e3o mais velha. E na verdade a quest\u00e3o \u00e9 de fato o r\u00e1dio, e o r\u00e1dio \u00e9 t\u00e3o importante que&#8230; eu vivi uma experi\u00eancia t\u00e3o importante a \u00faltima vez que fui ao Altas Horas, que foi muito claro nesse sentido. Porque fiz um programa com o Chiclete com Banana. Eles tocaram os hits deles, e o est\u00fadio s\u00f3 tinha f\u00e3s do Chiclete com Banana. A plateia vinha abaixo toda vez que eles tocavam. E toda vez que eu tocava, tinha acabado de lan\u00e7ar o \u201cSem Nostalgia\u201d, as pessoas aplaudiam, mas era aquela coisa t\u00edmida, sabe? Ent\u00e3o no final do programa, o Chiclete com Banana falou: &#8220;\u00d3, a gente vai tocar uma m\u00fasica nova, que acabou de sair&#8221;. Ou seja, uma m\u00fasica que n\u00e3o tinha tocado no r\u00e1dio ainda. O est\u00fadio parecia um t\u00famulo, um cemit\u00e9rio. Acabou a m\u00fasica as pessoas aplaudiram tipo nada. Pensei: &#8220;Ah, at\u00e9 o Chiclete com Banana, com f\u00e3 clube, os caras tinham tocado s\u00f3 hit, ent\u00e3o os caras tocaram a m\u00fasica nova e os pr\u00f3prios f\u00e3s&#8230;&#8221;. Pra voc\u00ea ver como a r\u00e1dio \u00e9 importante, sabe? Mesmo voc\u00ea sendo uma banda de sucesso, mesmo voc\u00ea estando na TV, se voc\u00ea toca uma m\u00fasica que n\u00e3o est\u00e1 (tocando) na r\u00e1dio, o impacto n\u00e3o vai ser o mesmo, porque a r\u00e1dio \u00e9 muito poderosa no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para voc\u00eas da nova gera\u00e7\u00e3o, esse conceito de sucesso passou por uma mudan\u00e7a&#8230;<\/strong><br \/>\nClaro, todos n\u00f3s gostar\u00edamos de tocar no r\u00e1dio, e que essas m\u00fasicas ficassem pra mais gente, todo mundo gostaria. Quando voc\u00ea faz uma coisa, voc\u00ea quer que todo o p\u00fablico te veja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sobre a sua turn\u00ea na Europa, o que voc\u00ea aprendeu? Como voc\u00ea acha que os caras de l\u00e1 veem a m\u00fasica que voc\u00eas fazem?<\/strong><br \/>\nA r\u00e1dio l\u00e1 fora \u00e9 muito diferente daqui. Porque a r\u00e1dio l\u00e1 fora n\u00e3o tem jab\u00e1, ou se tem, tem em r\u00e1dios espec\u00edficas. Na verdade, as r\u00e1dios nacionais, a R\u00e1dio Nova, a R\u00e1dio France em Paris, a WTR na Alemanha, quase todos os pa\u00edses tem a r\u00e1dio nacional muito forte, e a popula\u00e7\u00e3o escuta essas r\u00e1dios nacionais porque a programa\u00e7\u00e3o \u00e9 boa, eles tocam o que eles querem. A BBC em Londres tamb\u00e9m&#8230; Eles tocam m\u00fasica do mundo todo, e as pessoas gostam de ouvir r\u00e1dio. A pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o tem uma exig\u00eancia est\u00e9tica: &#8220;Eu gosto de coisa de qualidade&#8221;. Ent\u00e3o tem essa diferen\u00e7a. A r\u00e1dio toca o que ela gosta, ent\u00e3o, por exemplo, a gente fez dois shows em Paris, e os dois shows foram lotados, porque a r\u00e1dio ficou tocando nossas m\u00fasicas semanas antes, porque eles quiseram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E voc\u00ea acha que a nova m\u00fasica brasileira \u00e9 bem vista l\u00e1?<\/strong><br \/>\nAcho que eles est\u00e3o acompanhando bastante essa gera\u00e7\u00e3o nova. (Afinal) Essa gera\u00e7\u00e3o hoje em dia \u00e9 um pouco deles. L\u00e1 dei entrevista para o Le Monde e para a Les Inrockuptibles, e eles acham que n\u00f3s somos os herdeiros da tradi\u00e7\u00e3o toda do Caetano, do Gil. Eles enxergam essa gera\u00e7\u00e3o como a que est\u00e1 mudando essa tradi\u00e7\u00e3o de m\u00fasica popular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voltando ao seu disco, a m\u00fasica &#8220;O Deus Que Devasta, Mas N\u00e3o Tem Cura\u201d, que voc\u00ea fez com o Gui Amabis, como foi a inten\u00e7\u00e3o de colocar a m\u00fasica no seu disco de forma mais iluminada, diferente da vers\u00e3o do disco do Gui, que \u00e9 mais pesada, mais triste.<\/strong><br \/>\n\u00c9 porque o disco do Gui \u00e9 todo mais triste. Na verdade, quando fiz essa m\u00fasica ele me deu uma base e pediu pra eu fazer a melodia, e a base dele j\u00e1 era muito triste, lenta e tal, e quando fiz essa letra foi logo depois de eu ter me separado, ent\u00e3o eu estava triste tamb\u00e9m. E quando cantei no disco dele eu estava pr\u00f3ximo de um sentimento de tristeza. Muito tempo depois, quando gravei minha vers\u00e3o foi como se eu estivesse olhando aquilo com distanciamento. E eu sabia que a m\u00fasica iria abrir o disco, porque foi por causa dessa m\u00fasica que fiz todas as outras m\u00fasicas do disco, com esse tom mais cronista. Tudo nasceu depois que fiz essa m\u00fasica, ent\u00e3o eu sabia que ela ia dar o nome e ia abrir o disco, ent\u00e3o j\u00e1 fiz ela num BPM mais r\u00e1pido, para n\u00e3o come\u00e7ar o disco muito arrastado, e chamei o Letieres [Leite] para fazer os arranjos. Ent\u00e3o foi uma vers\u00e3o mais distanciada. Por isso ficou diferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/xBEcQi_7Nv8\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/xBEcQi_7Nv8\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E &#8220;Dia de Furar Onda no Mar&#8221;, que fala sobre os seu filho?<\/strong><br \/>\n\u00c9, fiz pro meu filho [Josu\u00e9]. No processo de composi\u00e7\u00e3o, a segunda parte da letra eu ainda tinha que fazer e me lembrei de um livro que eu e a m\u00e3e dele sempre l\u00edamos pra ele, que a gente ia anotando as defini\u00e7\u00f5es que ele, o livro, ia dando de palavras&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cIncid\u00eancia \u00e9 um pequeno inc\u00eandio&#8230;\u201d<\/strong><br \/>\n\u00c9, e eu ia usando defini\u00e7\u00f5es do livro e das que o Josu\u00e9 falava. Eu ia usando na letra as falas dele. Ent\u00e3o ele virou meu parceiro na m\u00fasica. Al\u00e9m de ser para ele, ela tamb\u00e9m \u00e9 para os meus dois sobrinhos, Mateus e o Joaquim, dos meus dois irm\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 uma forma de registrar o momento dele? Isso seria uma maneira de registrar um momento de pai e filho?<\/strong><br \/>\nCom certeza, cara. Falar de coisas que a gente viveu. Ele ficava me questionando porque o mar tem tanta espuma, n\u00e9&#8230; Ou a gente foi assistir ao \u201cPr\u00edncipe da P\u00e9rsia\u201d e ele falou: \u201cSe eu tivesse nessa \u00e9poca, eu nunca seria o rei, porque o rei sempre \u00e9 vitima, porque todo mundo quer matar e ganhar o lugar do rei\u201d. O meu filho queria uma coisa mais simples que n\u00e3o estivesse que ficar na mira, n\u00e9. Enfim, \u00e9 uma maneira de voc\u00ea registrar o momento de coisas que a gente viveu para no futuro aquilo ali de alguma maneira ficar registrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No seu blog pessoal, <a href=\"http:\/\/oesquema.com.br\/diginois\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Diginois<\/a>, n&#8217;O Esquema, tem uma frase do Guimar\u00e3es Rosa: &#8220;O que deus quer da gente \u00e9 coragem&#8221;. Qual a sua rela\u00e7\u00e3o com o Guimar\u00e3es e como ele pode te influenciar?<\/strong><br \/>\nEu gosto muito. N\u00e3o li tudo, mas li \u201cPrimeiras Est\u00f3rias\u201d e \u201cGrande Sert\u00e3o Veredas\u201d, e esse [\u00faltimo] foi o livro mais incr\u00edvel que li na vida. Eu vivia com ele na cabe\u00e7a. Durante o dia eu saia pra rua para resolver as coisas e ficava na cabe\u00e7a, quase que tinha duas realidades, me sentia como um cangaceiro. Era muito forte. E no meio de bilh\u00f5es de frases lindas do livro, que apesar de ser uma prosa tem uma ess\u00eancia po\u00e9tica, uma frase que me marcou foi essa: \u201cO que deus quer da gente \u00e9 coragem&#8221;. Tipo: \u00e9 uma coisa que eu sempre falo pra mim mesmo, de ter essa coragem. \u00c0s vezes voc\u00ea sabe que as escolhas que voc\u00ea fez para sua vida n\u00e3o v\u00e3o ser as mais f\u00e1ceis, para o seu trabalho&#8230; Mas s\u00e3o aquelas que s\u00e3o verdadeiras pra voc\u00ea, sabe, sinceras. Ent\u00e3o, vale a pena correr o risco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O seu disco foi contemplado por um edital da prefeitura do Rio e ganhou incentivo financeiro. O que voc\u00ea acha de iniciativas do Estado para estimular a m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nNa minha gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem mais gravadora, n\u00e3o tem mais nada&#8230; Ent\u00e3o qualquer apoio p\u00fablico, editais, \u00e9 importante para que gente a disponibilize a produ\u00e7\u00e3o. Acho que n\u00e3o \u00e9 suficiente para a produ\u00e7\u00e3o que \u00e9 feita, mas \u00e9 sempre bem vinda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-14946\" title=\"lucas1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/lucas1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Renan Sim\u00e3o (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/renancanove\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@renancanove<\/a>) e S\u00e9rgio Viana (<a href=\"http:\/\/twitter.com\/sergiomviana\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@sergiomviana<\/a>) s\u00e3o estudantes de jornalismo da Unesp e escrevem no <a href=\"http:\/\/e-colab.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">e-Colab<\/a>. Fotos de Liliane Callegari (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/licallegari\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@licallegari<\/a>) do show de Lucas Santanna no CCBB, em S\u00e3o Paulo, em mar\u00e7o de 2011.<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Os mil sons de Lucas Santtana, entrevista de 2009 por Manuela Colla (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/08\/04\/os-mil-sons-de-lucas-santtana\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Renan Sim\u00e3o e S\u00e9rgio Viana\n&#8220;Essa gera\u00e7\u00e3o tem m\u00fasicas que s\u00e3o extremamente radiof\u00f4nicas, mas a quest\u00e3o \u00e9 que na nossa gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem r\u00e1dio&#8221;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/07\/08\/entrevista-lucas-santtana\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14944"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14944"}],"version-history":[{"count":23,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14944\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73527,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14944\/revisions\/73527"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14944"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14944"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14944"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}