{"id":14933,"date":"2012-07-04T08:35:29","date_gmt":"2012-07-04T11:35:29","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=14933"},"modified":"2012-09-02T02:30:50","modified_gmt":"2012-09-02T05:30:50","slug":"livros-o-torreao-jennifer-egan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/07\/04\/livros-o-torreao-jennifer-egan\/","title":{"rendered":"Livros: O Torre\u00e3o, Jennifer Egan"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-14934\" title=\"torreao\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/torreao.jpg\" alt=\"\" width=\"270\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/torreao.jpg 270w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/torreao-202x300.jpg 202w\" sizes=\"(max-width: 270px) 100vw, 270px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Transcend\u00eancia para quem precisa<\/strong><br \/>\n<strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/eduardomarciano.\" target=\"_blank\">Gabriel Innocentini<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A publica\u00e7\u00e3o da obra de Jennifer Egan no Brasil n\u00e3o ocorre de forma cronol\u00f3gica. Primeiro conhecemos &#8220;A Visita Cruel do Tempo&#8221;, pr\u00eamio Pulitzer de fic\u00e7\u00e3o de 2011. Agora \u00e9 a vez de &#8220;O Torre\u00e3o&#8221; (\u201cThe Keep\u201d, tradu\u00e7\u00e3o de Rubem Figueiredo, tamb\u00e9m pela editora Intr\u00ednseca), romance de 2006. Egan deve atrair as aten\u00e7\u00f5es na d\u00e9cima edi\u00e7\u00e3o da Feira Liter\u00e1ria Internacional de Paraty, onde dividir\u00e1 uma das mesas com Ian McEwan.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cap\u00edtulo inicial de \u201cO Torre\u00e3o\u201d p\u00f5e em funcionamento as engrenagens que mover\u00e3o o romance. Danny vai visitar o castelo de seu primo Howie, mas fica preso em uma caverna e relembra a situa\u00e7\u00e3o que transformou a vida de ambos. Se fosse simples assim n\u00e3o seria um romance de Jennifer Egan. O leitor descobre que o narrador autoconsciente, \u00e0 procura de uma forma que seja fiel \u00e0 a\u00e7\u00e3o ocorrida, \u00e9 um presidi\u00e1rio que est\u00e1 tentando escrever um conto: &#8220;Aconteceu mais depressa do que estou fazendo parecer: Howie olhou para Danny e Danny fechou os olhos e empurrou-o para dentro da piscina. Mas mesmo assim est\u00e1 lento demais: Olhar. Fechar. Empurrar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Est\u00e1 explicado: o que parecia um exerc\u00edcio de oficina liter\u00e1ria afinal \u00e9 mesmo um exerc\u00edcio de escrita. N\u00e3o muito diferente da linguagem habitual de Egan, \u00e9 verdade, apenas um pouquinho mais exagerada em seu artif\u00edcio. No entanto, o objetivo da quebra da ilus\u00e3o ficcional n\u00e3o \u00e9 investir no car\u00e1ter artificial da hist\u00f3ria, mas sim conferir realismo \u00e0 narrativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este \u00e9 o ponto de partida para o jogo par\u00f3dico de g\u00eaneros, o g\u00f3tico e o memorial\u00edstico, que acabam por se interpenetrar ao final. Caracter\u00edsticas p\u00f3s-modernas gritantes em \u201cO Torre\u00e3o\u201d: a fronteira entre fic\u00e7\u00e3o e realidade, a narrativa autoconsciente, o jogo entre o fant\u00e1stico e o metaficcional, o tema do duplo, a presen\u00e7a constante da paranoia. Ao questionar os c\u00f3digos comuns de representa\u00e7\u00e3o da realidade, base da narrativa g\u00f3tica, Egan consegue transformar o que poderia soar como mais um enredo bocejante do tipo um-escritor-escrevendo-uma-hist\u00f3ria (e pior, em uma oficina liter\u00e1ria!) em uma convincente busca por transcend\u00eancia na era dominada pela tecnologia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Danny \u00e9 obcecado por gadgets que o mantenham permanentemente conectado, mesmo que tal conex\u00e3o sirva apenas como conforto: a seguran\u00e7a de saber que as coisas e os outros est\u00e3o a um clique de dist\u00e2ncia. Ao ficar isolado na propriedade g\u00f3tica de seu primo, ele tem de lidar com outra l\u00f3gica em suas rela\u00e7\u00f5es pessoais e enfrentar cicatrizes abertas de seu passado. Ao mesmo tempo, essa nova l\u00f3gica n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o diferente assim da sobrenatural: se alguns precisam acreditar em lendas fantasmag\u00f3ricas, outros necessitam de pessoas que jamais encontraram pessoalmente. Esta \u00e9 a primeira grande sacada de Egan no livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta quest\u00e3o do isolamento e do enfraquecimento dos la\u00e7os, tamb\u00e9m presente em \u201cA Visita Cruel do Tempo\u201d, se intensifica aqui, seja pela estrutura menos dispersiva e exuberante, seja pelo g\u00eanero escolhido, que proporciona a oportunidade de nos comunicar o terror de viver em uma sociedade de massa. A associa\u00e7\u00e3o do g\u00f3tico com o p\u00f3s-modernismo oferece como resposta um retorno para realidades que deixamos de lado ou desconhecemos, perturbando no\u00e7\u00f5es de identidade e de cultura. O questionamento de medos inconscientes e preconceitos e a explora\u00e7\u00e3o do desconhecido, por parte de Howie, o estranho primo de Danny, refor\u00e7a o tema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que era aparentemente uma hist\u00f3ria desgastada e banal de fantasma (claro, quem acredita em fantasmas hoje em dia? Claro, os fantasmas aqui n\u00e3o s\u00e3o da esfera do sobrenatural) se converte em uma comovente tentativa de dar sentido a uma exist\u00eancia pobre de acontecimentos (um presidi\u00e1rio-escritor que precisa recorrer ao imagin\u00e1rio para transformar, em alguma medida, o cotidiano imut\u00e1vel): \u201cdepois que Holly falou da tal porta dentro da cabe\u00e7a da gente, alguma coisa aconteceu comigo. A porta n\u00e3o era real, n\u00e3o havia nenhuma porta de verdade, era s\u00f3 linguagem figurada. Quer dizer que era s\u00f3 uma palavra. Um Som. Porta. Mas eu a abri e sa\u00ed por ela\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desdobramento da narrativa, que termina enfocando Holly, a professora da oficina textual, d\u00e1 outra volta no parafuso, amarrando as pontas, oferecendo uma curiosa e rara transcend\u00eancia para uma obra do per\u00edodo p\u00f3s-moderno, em que tudo \u00e9 l\u00edquido, e at\u00e9 mesmo o material se desmancha no ar. Esta \u00e9 a segunda grande sacada: criar um espa\u00e7o transcendente como contrapartida ir\u00f4nica da narrativa g\u00f3tica. A terceira grande sacada \u00e9 camuflar uma hist\u00f3ria de amor sob tudo isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece um m\u00e9rito maior do que todas as pirotecnias juntas de \u201cA Visita Cruel do Tempo\u201d que Jennifer Egan tenha conseguido trabalhar tais quest\u00f5es sendo sofisticada e aut\u00eantica sem ser enfadonha e piegas. Vale dizer: essa transcend\u00eancia n\u00e3o tem tanto a ver com uma cren\u00e7a em alguma entidade divina, mas em ultrapassar a realidade imediata e abrir um caminho para a liberdade e para uma sensibilidade mais conectada com o que de fato importa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Explorar o evidente papel simb\u00f3lico que a \u00e1gua tem neste estranho romance chamado \u201cO Torre\u00e3o\u201d exigiria outro espa\u00e7o que n\u00e3o este. Vamos terminar ent\u00e3o com uma can\u00e7\u00e3o do Radiohead que poderia ser a trilha sonora do livro:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/zbKQPqs-cqc\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/zbKQPqs-cqc\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Gabriel Innocentini (siga <a href=\"http:\/\/twitter.com\/eduardomarciano\" target=\"_blank\">@eduardomarciano<\/a>) \u00e9 jornalista e j\u00e1 escreveu para o Scream &amp; Yell sobre Tom Waits (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/12\/22\/a-urgencia-de-tom-waits\/\">aqui<\/a>), Thomas Pynchon (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/10\/29\/livvro-vicio-inerente-de-thomas-pynchon\/\">aqui<\/a>), Charles Bukowski (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/07\/04\/nas-beiradas-do-sonho-americano\/\">aqui<\/a>) e Jorge Ben<a href=\"http:\/\/popbacana.wordpress.com\/\" target=\"_blank\"> <\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; \u201cA Visita Cruel do Tempo\u201d, de Jennifer Egan, \u00e9 um prod\u00edgio, por Gabriel Innocentini (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/02\/02\/a-visita-cruel-do-tempo-jennifer-egan\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Festa Liter\u00e1ria Internacional de Paraty, Site Oficial -&gt; <a href=\"http:\/\/www.flip.org.br\/\" target=\"_blank\">http:\/\/www.flip.org.br <\/a><br \/>\n&#8211; &#8220;Amnesiac&#8221;, do Radiohead, a vanguarda do rock, por Marco Tomazzoni (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/03\/04\/amnesiac-a-vanguarda-do-rock\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; De Tarantino a Iggy Pop: pequenas hist\u00f3rias sobre Jennifer Egan (<a href=\"http:\/\/www.intrinseca.com.br\/site\/2012\/06\/de-tarantino-a-iggy-pop-pequenas-historias-sobre-jennifer-egan\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Gabriel Innocentini\nO que era uma hist\u00f3ria banal de fantasma se converte em uma comovente tentativa de dar sentido a uma exist\u00eancia pobre&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/07\/04\/livros-o-torreao-jennifer-egan\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14933"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14933"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14933\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15607,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14933\/revisions\/15607"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14933"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14933"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14933"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}