{"id":140,"date":"2007-11-23T07:58:00","date_gmt":"2007-11-23T09:58:00","guid":{"rendered":"http:\/\/colunistas.ig.com.br\/revoluttion\/2007\/11\/23\/dois-discos-para-voce-baixar-agora\/"},"modified":"2016-09-28T20:01:47","modified_gmt":"2016-09-28T23:01:47","slug":"dois-discos-para-voce-baixar-agora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/11\/23\/dois-discos-para-voce-baixar-agora\/","title":{"rendered":"Dois discos para baixar&#8230; agora: Lestics"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center;\">\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por Marcelo Costa<\/strong><\/h2>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda semana, tr\u00eas ou quatro pessoas (\u00e0s vezes mais, \u00e0s vezes menos) me escrevem dizendo que tem uma banda, que gravaram algumas can\u00e7\u00f5es e que gostariam de me mandar um CD para eu escutar e &#8211; quem sabe &#8211; resenhar. Sinto-me sempre elogiado quando algu\u00e9m leva em considera\u00e7\u00e3o o que penso sobre uma m\u00fasica, disco ou mesmo uma banda que est\u00e1 surgindo, mas l\u00e1 no \u00e2mago eu sempre me enrolo numa situa\u00e7\u00e3o dessas, por que ouvir fitas demo e\/ou CDs de novas bandas \u00e9 um trabalho na maioria das vezes tortuoso, pode acreditar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando me peguei pensando nisso, lembrei-me do \u00c1lvaro Pereira J\u00fanior, que em uma coluna de 1999 na Folhateen dizia: <em>&#8220;\u00c9 preciso ter est\u00f4mago de avestruz para escutar fitas demo. Muitas revistas estrangeiras t\u00eam jornalistas que cuidam especificamente de analis\u00e1-las. (?) Recebo poucas fitas demo e CDs de estreantes. Ainda bem. Estou velho, rabugento e seletivo, n\u00e3o tenho mais como perder tempo dando ouvidos a amadores&#8221;<\/em>. Na \u00e9poca, achei que se ele estava de saco cheio disso, que fosse procurar outro ramo para trabalhar, pois se voc\u00ea escreve sobre m\u00fasica precisa estar atento a todas as novidades, e as grandes bandas (TODAS) surgem de uma fita demo, um single ou um CD de estr\u00e9ia. Hoje, mais velho (&#8220;rabugento e seletivo&#8221;, como o \u00c1lvaro se justifica na coluna), entendo a posi\u00e7\u00e3o dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entendo por que, cada vez mais, ando sem tempo para quase nada. A velocidade do tempo moderno, as facilidades da tecnologia (que ao inv\u00e9s de nos poupar tempo, nos trouxe mais coisas para &#8220;perdermos tempo&#8221; e nos mostrou uma infinidade de coisas que n\u00e3o sab\u00edamos que existiam) e os afazeres di\u00e1rios se juntaram e se transformaram em uma bola de neve que aumenta sintomaticamente todos os dias. S\u00e3o centenas de discos para ouvir, livros para ler, filmes para assistir, e ainda preciso arranjar tempo para trabalhar, me alimentar e me relacionar. Isso tudo sem contar que grande parte do material que recebo n\u00e3o \u00e9 destinado a mim (coisas de hard rock e derivados de Red Hot Chili Peppers e Evanescence &#8211; ser\u00e1 que esses m\u00fasicos l\u00eaem o que eu escrevo faz mais de dez anos?)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, depois de tr\u00eas par\u00e1grafos reclam\u00f5es, o leitor pergunta: Por qual voc\u00ea continua aceitando receber fitas demo e\/ou CDs de bandas novas se \u00e9 t\u00e3o tortuoso assim? A resposta \u00e9 simples: pelo imenso e inigual\u00e1vel prazer de &#8220;descobrir&#8221; uma banda nova que me deixe sem f\u00f4lego a ponto de eu querer escrever dela, indicar para os amigos, insistir para as pessoas baixarem o disco, irem ao show, se encantarem como eu me encantei enquanto ouvia. \u00c9 preciso entender que eu escrevo por necessidade da minha alma, por um desejo que surgiu em mim do nada, sem eu saber por qu\u00ea. Escrevo por prazer. N\u00e3o d\u00e1 para perder tempo sendo burocr\u00e1tico ou falando sobre coisas in\u00fateis (a n\u00e3o ser que seja em forma de ironia, a raiva travestida de estilo e inspira\u00e7\u00e3o). Tempo \u00e9 algo sagrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda essa reflex\u00e3o surgiu por causa do Lestics, projeto paralelo de dois integrantes do grupo independente paulistano Gianoukas Papoulas (Olavo e Umberto), que lan\u00e7ou dois bel\u00edssimos discos gravados em home studio em 2007, &#8220;9 Sonhos&#8221; em mar\u00e7o e &#8220;les tics&#8221; em outubro, ambos liberados para download gratuito no site oficial do duo (<a href=\"http:\/\/www.lestics.com.br\" target=\"_blank\">www.lestics.com.br<\/a>). Olavo fica respons\u00e1vel pelo excelente registro vocal enquanto Umberto se divide entre guitarra, viol\u00e3o, baixo, teclados, gaitas, programa\u00e7\u00f5es, percuss\u00e3o e voz. Juntos eles fazem um passeio emocionante por melodias calcadas em folk, rock e country criando pequenas odes sombrias repletas de beleza urbana que deixam o ouvinte sem f\u00f4lego ap\u00f3s a primeira audi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;9 Sonhos&#8221;, como explicita o nome, s\u00e3o nove can\u00e7\u00f5es que passeiam pelo universo da mem\u00f3ria em um tempo indistinto, mas que permite liga\u00e7\u00e3o com a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia. Abre com a deliciosa &#8220;Elefantes&#8221;, que narra uma pequena f\u00e1bula cujo personagem aperta a campainha de uma casa e sai correndo (quem nunca fez isso na inf\u00e2ncia?), mas os moradores da casa s\u00e3o uma fam\u00edlia de elefantes, <em>&#8220;que vem voando arrasando tudo pelo caminho&#8221;<\/em>. O surrealismo toma conta das letras como em &#8220;Mutantis Mutandi&#8221; que finaliza dizendo que <em>&#8220;a vida \u00e9 o nada, \u00e9 a morte, \u00e9 o parto&#8221;<\/em>. J\u00e1 a genial &#8220;Alguma Coisa Me Diz&#8221; filosofa em forma de folk rock: <em>&#8220;Eu saio da cama, eu lavo o meu rosto, eu troco de roupa, e des\u00e7o pra rua \/ eu entro no t\u00e1xi, e digo bom dia, apago o cigarro e abro o jornal \/ mas alguma coisa me diz que nada disso \u00e9 normal&#8221;<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira lembran\u00e7a que o som do duo resgata s\u00e3o os ga\u00fachos da Graforreia Xilarm\u00f4nica, mas tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel identificar influ\u00eancias dos paulistas do Fellini (que al\u00e9m de gravarem seus primeiros discos tamb\u00e9m em home studio, tinham uma po\u00e9tica muito pr\u00f3xima da que o Lestics exibe) em algumas passagens. Embalada por uma gaitinha, a rom\u00e2ntica &#8220;O Mundo Acaba&#8221; fala de uma garota que tem mais de mil bocas, dois mais bra\u00e7os, dez mil pernas e milh\u00f5es de seios lindos, e explica no refr\u00e3o: <em>&#8220;Ela vem e me abra\u00e7a e ai que o mundo acaba&#8221;<\/em>. &#8220;Dois Olhos&#8221; \u00e9 clim\u00e1tica, psicod\u00e9lica. &#8220;O Rio&#8221; \u00e9 folk alegre. &#8220;Trope\u00e7o&#8221; tem outra letra \u00f3tima: <em>&#8220;Eu quero parar e come\u00e7o \/ Eu quero correr e trope\u00e7o&#8221;<\/em>. &#8220;Canto de Sereia&#8221; \u00e9 suave enquanto &#8220;Escurid\u00e3o e Sil\u00eancio&#8221; narra um assassinato em um sinal vermelho. S\u00e3o nove sonhos? repletos de realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No segundo \u00e1lbum rec\u00e9m lan\u00e7ado, &#8220;les tics&#8221;, os textos continuam surreais, mas s\u00e3o bem mais diretos como mostra a faixa de abertura, &#8220;Tipo&#8221; que narra: <em>&#8220;Levando em conta a hist\u00f3ria da fam\u00edlia, os quatro anos isolados numa ilha, e a falta de presentes no natal, at\u00e9 que ele \u00e9 um tipo bem normal&#8221;<\/em>. &#8220;G\u00eanio&#8221;, a pr\u00f3xima, \u00e9 uma das melhores do \u00e1lbum. Abre dizendo que Shakespeare e os gregos j\u00e1 disseram tudo antes para cravar no refr\u00e3o cruel: <em>&#8220;Voc\u00ea tem a alma atormentada de um g\u00eanio \/ pena que te falte uma pitada de talento&#8221;<\/em>. Com o org\u00e3o \u00e0 frente, &#8220;\u00daltima Palavra&#8221; narra um fim de relacionamento cujo forte verso exprime: <em>&#8220;Longe demais \u00e9 o lugar que a gente vai pelo prazer de se arrepender&#8221;<\/em>. Ap\u00f3s o tempestade surge a calmaria de &#8220;Luz de Outono&#8221;, que prev\u00ea sabiamente: <em>&#8220;Pode ser que algum dia que eu queime os meus livros \/ Jogue fora os meus discos e quebre a TV \/ Mas mesmo enjoado de tudo na vida \/ Eu sei que n\u00e3o vou me cansar de voc\u00ea&#8221;<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00e1usea&#8221; \u00e9 sombria (e tem um outro \u00f3timo verso: <em>&#8220;O instinto mant\u00e9m minhas veias abertas&#8221;<\/em>); &#8220;Inevit\u00e1vel&#8221; \u00e9 divertida e fala sobre a necessidade de composi\u00e7\u00e3o de uma can\u00e7\u00e3o &#8220;pobre de id\u00e9ias&#8221;; &#8220;Metamorfose&#8221; \u00e9 uma declara\u00e7\u00e3o de amor (no jeito Lestics de fazer declara\u00e7\u00f5es de amor: <em>&#8220;Ainda me surpreendem as suas metamorfoses \/ as mudan\u00e7as de apar\u00eancia \/ suas cole\u00e7\u00f5es de vozes&#8221;<\/em>); a po\u00e9tica de &#8220;Caos&#8221; destaca outra grande faixa do \u00e1lbum (<em>&#8220;N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que voc\u00ea n\u00e3o acorde \/ com o barulho infernal de cada estrela que explode&#8221;<\/em>); a curtinha &#8220;Ego&#8221; fecha o pacote de MP3 em clima de folk blues. Juntas, as noves faixas de &#8220;9 Sonhos&#8221; e &#8220;les tics&#8221; somam 50 minutos de m\u00fasica inspirada, can\u00e7\u00f5es prontas para serem devoradas por ouvintes exigentes. Os dois discos est\u00e3o dispon\u00edveis gratuitamente no site <a href=\"http:\/\/www.lestics.com.br\" target=\"_blank\">www.lestics.com.br<\/a>, basta um clique sobre o nome do \u00e1lbum e &#8220;salvar&#8221; para o seu computador. Minha alma, agora, est\u00e1 satisfeita. Vou voltar para a rotina do dia, mas se voc\u00ea me conhece, sabe: ainda vamos voltar a conversar sobre o Lestics.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\">Calmantes com Champagne<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A primeira lembran\u00e7a que o som do duo resgata s\u00e3o os ga\u00fachos da Graforreia Xilarm\u00f4nica, mas tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel identificar influ\u00eancias dos paulistas do Fellini\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/11\/23\/dois-discos-para-voce-baixar-agora\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":40483,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[899],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/140"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=140"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/140\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":40484,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/140\/revisions\/40484"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/40483"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=140"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=140"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=140"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}