{"id":13868,"date":"2012-04-16T08:49:36","date_gmt":"2012-04-16T11:49:36","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=13868"},"modified":"2017-07-14T10:43:07","modified_gmt":"2017-07-14T13:43:07","slug":"cinema-titanic-3d-james-cameron","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/04\/16\/cinema-titanic-3d-james-cameron\/","title":{"rendered":"Cinema: Titanic 3D, James Cameron"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-13869\" title=\"titanic3d\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/titanic3d.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/#%21\/celeolimite\" target=\"_blank\">Carlos Eduardo Lima<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea est\u00e1 em um dos dois grupos de seres humanos: dos que odeiam ou dos que amam &#8220;Titanic&#8221;. H\u00e1 um terceiro: o dos que n\u00e3o est\u00e3o nem a\u00ed para &#8220;Titanic&#8221;, mas  reputo a exist\u00eancia de tal fac\u00e7\u00e3o \u00e0 ignor\u00e2ncia strictu sensu, ou seja: s\u00e3o os que ainda n\u00e3o viram o filme, sabe-se l\u00e1 por que motivo. O lan\u00e7amento da vers\u00e3o 3D do \u00e9pico de James Cameron \u00e9 uma boa chance para que esse pessoal corrija seu d\u00e9bito com a Hist\u00f3ria, bem como redefinir o mapa de amantes e detratores da saga transatl\u00e2ntica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Boa estrat\u00e9gia de marketing \u00e9 pouco para definir a realiza\u00e7\u00e3o desse novo &#8220;Titanic&#8221;. Estamos no centen\u00e1rio do naufr\u00e1gio, ocorrido em 15 de abril de 1912, em algum ponto entre Southampton e Nova York. Tamb\u00e9m j\u00e1 se v\u00e3o 15 anos desde o lan\u00e7amento do filme e n\u00e3o \u00e9 preciso lembrar o tanto dos 11 Oscars que ele arrematou em 1998, igualando o ent\u00e3o campe\u00e3o de todos os tempos no pr\u00eamio, &#8220;Ben-Hur&#8221;. Entre as estatuetas, estavam a de melhor diretor e melhor filme, avalizando o verdadeiro tilintar de cifr\u00f5es que era o projeto: mais de U$S 200 milh\u00f5es de or\u00e7amento e (at\u00e9 agora) cerca de U$S 1,8 bilh\u00f5es de bilheteria ao redor do mundo. Tudo \u00e9 grande, opulento e exagerado em &#8220;Titanic&#8221;. Ainda bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabemos todos que o cinema desses nossos tempos (e desde sua g\u00eanese, eu arriscaria) tem um repert\u00f3rio limitado de hist\u00f3rias, arqu\u00e9tipos e assuntos para discutir. Claro, \u00e9 uma \u00e1rea do conhecimento humano, sobre o nosso mundo e nosso cotidiano, natural que haja repeti\u00e7\u00e3o de li\u00e7\u00f5es de moral e reflex\u00f5es aqui e ali. &#8220;Titanic&#8221; n\u00e3o tem motivo nenhum para disfar\u00e7ar que se vale da velha situa\u00e7\u00e3o de valorizar o que h\u00e1 de &#8220;humano&#8221; naquele que n\u00e3o tem qualquer verniz civilizat\u00f3rio e que, no fundo, por mais ricos e f\u00fateis que possamos ser, sempre teremos esse n\u00facleo de virtudes. \u00c9 o in\u00edcio e o fim do relacionamento entre os personagens de Jack Dawson (Leonardo Di Caprio) e Rose Bukater (Kate Winslet) ao longo dos acontecimentos do filme, do encantamento ao reconhecimento m\u00fatuo, para desaguar num romance improv\u00e1vel. Tudo bem, n\u00e3o d\u00e1 pra crucificar James Cameron ou os atores por isso. O roteiro, escrito por Cameron, \u00e9 um caso \u00e0 parte em termos de engenhosidade, justamente por dar pistas ao espectador desde os primeiros momentos do filme de tudo o que vai acontecer e, ainda assim, prender a aten\u00e7\u00e3o por mais de 180 minutos. Sabemos que o barco vai afundar, que mais da metade dos passageiros vai morrer e podemos apostar que o romance do rapaz pobre com a bonequinha rica idealista n\u00e3o tem futuro. Mesmo com essas certezas, o filme n\u00e3o deixa de ter seus m\u00e9ritos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-13871\" title=\"titanic3\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/titanic3.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"384\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/titanic3.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/titanic3-300x190.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por exemplo, o personagem de Kathy Bates \u00e9 uma &#8220;nova rica&#8221;, desprezada pela empertigada aristocracia anglo-americana da primeira classe do barco, mas que tem mais alma que todos, al\u00e9m de se identificar com o desn\u00edvel social enfrentado por Di Caprio, que ter\u00e1 seus &#8220;quinze minutos&#8221; em meio aos mais ricos, ap\u00f3s salvar Winslet de uma tentativa de suic\u00eddio. Sim, a personagem rica vive o noivado de um casamento arranjado com um magnata do a\u00e7o americano, chamado Cal Hockley, riqu\u00edssimo e com car\u00e1ter de valor inversamente proporcional \u00e0 grana que possui. A m\u00e3e de Rose, Ruth, est\u00e1 contando as horas para o cas\u00f3rio, como forma de recuperar um status social perdido com a morte do marido. Est\u00e1 armado o cen\u00e1rio a ser inserido no evento hist\u00f3rico com boa dose de coer\u00eancia. \u00c9 s\u00f3 dar uma olhadela para o mundo de 1912 e perceberemos que \u00e9 perfeitamente poss\u00edvel a exist\u00eancia de todos esses tipos num navio como o &#8220;Titanic&#8221;. No barco, como no mundo daquela \u00e9poca, havia um grande abismo social. A passagem da Primeira Classe custava \u201cm\u00f3dicos\u201d \u20ac 76.500 por pessoa. A classe m\u00e9dia, algo t\u00e3o comum nos nossos dias, simplesmente n\u00e3o existia na \u00e9poca. Ou o sujeito era pobre mesmo ou muito rico e esses extremos s\u00e3o simbolizados de maneira satisfat\u00f3ria pelos personagens centrais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Interessante notar que nossas mentes apenas registraram o romance dos protagonistas, cujas imagens ficaram cravadas na mitologia do cinema. O jovem esperto de Di Caprio e a bel\u00edssima aristocrata de Winslet, cuja beleza parece criada por computador, tamanha a perfei\u00e7\u00e3o do rosto, do sorriso, do ruivo dos cabelos e da pitada de atrevimento que a atriz empresta ao personagem. Mas h\u00e1 muito mais para ver em &#8220;Titanic&#8221;: o drama humano est\u00e1 presente, a morte aos montes tem lugar e a espera impotente diante do naufr\u00e1gio reduz o ser humano a quase nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 bom lembrar que o barco era a mais avan\u00e7ada pe\u00e7a de tecnologia europ\u00e9ia, a ep\u00edtome da grandeza, do eurocentrismo, do &#8220;homem adulto branco sempre no comando&#8221;, de Caetano Veloso em &#8220;O Estrangeiro&#8221;. Por branco, entenda o rico, o socialmente vi\u00e1vel, n\u00e3o o de tez alva. O personagem de Di Caprio e seus amigos irlandeses est\u00e3o muito mais para &#8220;negros sociais&#8221; do que qualquer outra coisa. Era um mundo de Commmon Wealth, ou seja, de um Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico agonizante e invi\u00e1vel, que se insinuaria dois anos depois, com a Primeira Guerra Mundial. A paz dos vencedores em 1918 somente postergaria esse fim para 1945, ap\u00f3s a Segunda Guerra, que colocou os Estados Unidos e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica como novos p\u00f3los de comando no mundo. A Europa do s\u00e9culo XIX \u00e9 o pr\u00f3prio barco: enorme, altivo, com muita gente, muita beleza, mas podre, erodida em sua base, com uma arrog\u00e2ncia de s\u00e9culos de dom\u00ednio que trouxeram a ilus\u00e3o de que tudo era menor. Erraram feio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">James Cameron reconstituiu o filme para a vers\u00e3o em tr\u00eas dimens\u00f5es. Ele teria constru\u00eddo modelos em 3D para cada frame de &#8220;Titanic&#8221;, o que significaria cerca de 300 mil modelos para os 194 minutos de dura\u00e7\u00e3o. O que, convenhamos, \u00e9 um trabalho \u00e1rduo, mas que condiz com a grandeza de n\u00fameros que o filme cont\u00e9m de origem. A id\u00e9ia do uso do 3D tamb\u00e9m passou pelo uso da profundidade na tela, ou seja, as imagens n\u00e3o saltam, se aprofundam, o que confere uma nova vis\u00e3o a alguns momentos memor\u00e1veis, como a inunda\u00e7\u00e3o da cabine do veteran\u00edssimo capit\u00e3o E.J Smith, a sequ\u00eancia do resgate de Jack logo no in\u00edcio do naufr\u00e1gio, como a pr\u00f3pria correria desesperada por um lugar nos botes: uma analogia ao inevit\u00e1vel choque de classes que teria lugar em 1917 e que seria o grande temor do Ocidente nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-13873\" title=\"titanic2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/titanic2.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A impress\u00e3o que temos \u00e9 que o filme n\u00e3o envelheceu um dia. A jun\u00e7\u00e3o de maquetes e efeitos especiais \u00e9 perfeita, dando a id\u00e9ia de &#8220;melhor de dois mundos&#8221; a servi\u00e7o da reconstitui\u00e7\u00e3o da realidade. As atua\u00e7\u00f5es de Kate Winslet e, v\u00e1 l\u00e1, de Leonardo di Caprio, s\u00e3o competentes e interessantes, sobretudo a dela, indicada para o Oscar de 1998, perdendo para Helen Hunt, de &#8220;Melhor \u00c9 Imposs\u00edvel&#8221; (filme de James L. Brooks, que tomou de &#8220;Titanic&#8221; tamb\u00e9m o Oscar de Melhor Ator, que ficou com Jack Nicholson). Pareceu justo na \u00e9poca. Hoje, com alguns anos de janela, fica a d\u00favida se Winslet e sua deslumbrante beleza e compet\u00eancia n\u00e3o seriam merecedoras do pr\u00eamio. O fato \u00e9 que &#8220;Titanic&#8221; \u00e9 um dramalh\u00e3o hist\u00f3rico tipicamente hollywoodiano, de um jeito que Hollywood parece estar deixando de ser, de grandeza e extravag\u00e2ncia. \u00c9 daqueles filmes simples de compreender e de realiza\u00e7\u00e3o extremamente dif\u00edcil. Se voc\u00ea teve chance de acompanhar uma filmagem, qualquer que seja, saber\u00e1 o motivo. \u00c9 filme de vil\u00e3o, de mocinho, de mocinha, daqueles que a gente torce, chora, d\u00e1 vexame no cinema e capta a rasteira mensagem de &#8220;ame e seja voc\u00ea mesmo, n\u00e3o importa o que aconte\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na parte da a\u00e7\u00e3o passada no tempo presente, a veteran\u00edssima atriz Gloria Stuart faz a personagem de Kate Winslet j\u00e1 centen\u00e1ria, que, ap\u00f3s ver que h\u00e1 uma miss\u00e3o de resgate aos destro\u00e7os do Titanic, entra em contato com os exploradores, para poder ver o que acharam e contar sua hist\u00f3ria, que, at\u00e9 ent\u00e3o, estivera em segredo. E a\u00ed vem aquele dilema que assombra os que defendem que a vida era boa no passado (Eu!), materializado no fato de que os tempos idos s\u00f3 t\u00eam sentido como lembran\u00e7a lograda no presente. Ou seja, pra n\u00e3o complicar demais: o passado n\u00e3o existe, s\u00f3 como algo contaminado por nossa exist\u00eancia. Parece \u00f3bvio, mas esse rastilho de pensamento filos\u00f3fico \u00e9 a mola mestra do pr\u00f3prio roteiro de James Cameron, inserindo um romance-drama num dos maiores naufr\u00e1gios da hist\u00f3ria, levando a fatalidade de todos a servir de pano de fundo para um rito de passagem definitivo em uma passageira adolescente fict\u00edcia, aproximando as esferas de maneira bastante convincente. Nada mal para um filme-pipoca de or\u00e7amento e bilheteria milion\u00e1rias, n\u00e3o? Veja, nem que seja para dar mais muni\u00e7\u00e3o para afundar ainda mais o grande barco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PS: Claro que &#8220;My Heart Will Go On&#8221;, a can\u00e7\u00e3o-tema do filme, interpretada pela canadense Celine Dion, \u00e9 onipresente e extremamente irritante. A disputa do Oscar de Melhor Can\u00e7\u00e3o de 1998 n\u00e3o poderia ter sido mais surreal, com Elliott Smith defendendo &#8220;Miss Misery&#8221;, que ele compusera para &#8220;G\u00eanio Indom\u00e1vel&#8217;, acompanhado apenas por seu viol\u00e3o, e sendo inapelavelmente derrotado pela canadense, mas protagonizando um momento raro de artista independente batendo de frente com um medalh\u00e3o da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica. Quase o mesmo abismo entre os passageiros ricos e pobres do &#8220;Titanic&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/5d9ILag7mRA\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/5d9ILag7mRA\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Carlos Eduardo Lima (siga <a href=\"http:\/\/twitter.com\/#%21\/celeolimite\" target=\"_blank\">@celeolimite<\/a>) assina a coluna Sob o CEL (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/sob_o_ceu\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; &#8220;Avatar&#8221;, de James Cameron, \u00e9 uma bobagem que surpreende, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/01\/11\/avatar-de-james-cameron\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; &#8220;Melhor \u00c9 Imposs\u00edvel&#8221;, &#8220;Pulp Fiction&#8221;, &#8220;Magn\u00f3lia&#8221; e outros: Uma D\u00e9cada em 15 Filmes (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/cinema\/15filmes.html\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Carlos Eduardo Lima\nA impress\u00e3o \u00e9 que o filme n\u00e3o envelheceu. 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