{"id":13628,"date":"2012-04-05T08:36:28","date_gmt":"2012-04-05T11:36:28","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=13628"},"modified":"2019-07-09T10:44:08","modified_gmt":"2019-07-09T13:44:08","slug":"the-wall-live-uma-conjuncao-de-antiteses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/04\/05\/the-wall-live-uma-conjuncao-de-antiteses\/","title":{"rendered":"The Wall Live: conjun\u00e7\u00e3o de ant\u00edteses"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-13630\" title=\"roger1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/roger1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Ismael Machado<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos grandes clich\u00eas contados como se fosse uma realidade fechada na hist\u00f3ria do rock \u00e9 que o movimento punk surgiu para dar fim e cabo de um estilo grandiloquente na m\u00fasica pop, personificado pelos gigantes do progressivo, do glam rock e das bandas de arena. Queen, Led Zeppelin, Yes, Emerson, Lake and Palmer e tantos mais estariam fadados ao esquecimento total, ao limbo da inutilidade. Nada mais falso. Enquanto o punk ia, sim, cavando espa\u00e7o, mas abrigado por jornalistas \u2018descolados\u2019, antes mesmo dessa express\u00e3o existir, os \u2018dinossauros\u2019 continuavam a lotar est\u00e1dios, a vender muito e a transformar o rock em espet\u00e1culo. N\u00e3o houve, no entanto, banda que simbolizasse mais essa dicotomia entre o supostamente novo (o punk) e o arcaico (os dinossauros) quanto o Pink Floyd. A c\u00e9lebre camiseta \u2018I hate Pink Floyd\u2019, vestida por integrantes dos Sex Pistols, \u00edcone punk, parecia demarcar uma zona de confronto, como uma declara\u00e7\u00e3o expl\u00edcita de guerra. E quem venceu? Se \u00e9 poss\u00edvel uma resposta caetanizada, seria afirmar que ambos. E nenhum dos dois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O punk cresceu e foi assimilado pelo sistema, chegando a liderar as paradas de sucesso. Nirvana e Green Day representam bem a chegada do punk ao topo. E os dinossauros continuam bem vivos. Prova disso foi a bem sucedida turn\u00ea de Roger Waters em solo brasileiro. N\u00e3o foi a primeira vez e, a depender da vontade do p\u00fablico, n\u00e3o ser\u00e1 a \u00faltima. Waters veio comprovar uma tese n\u00e3o escrita, mas verdadeira. S\u00e3o as grandes bandas, as que fizeram hist\u00f3ria, as que tem maiores possibilidades de turn\u00eas lucrativas, capazes de arrastar um p\u00fablico heterog\u00eaneo, com idades variadas. De U2 a AC\/DC, de Rolling Stones a Madonna, de Black Sabbath a Pearl Jam, quem arrasta multid\u00f5es s\u00e3o os que possuem pelo menos 20 anos de estrada nas costas. E n\u00e3o h\u00e1 como negar. Poucas bandas na hist\u00f3ria da m\u00fasica pop s\u00e3o t\u00e3o queridas e emblem\u00e1ticas como o Pink Floyd. Foi com essa grife que Roger Waters fincou os p\u00e9s novamente em palcos brasileiros para apresenta\u00e7\u00f5es em Porto Alegre, Rio e S\u00e3o Paulo (duas vezes).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na capital paulista, o show foi no Morumbi, dias 1 e 3 de abril. No domingo, est\u00e1dio lotado, com show marcado para as 19h30. Come\u00e7ou com apenas cinco minutos de atraso. Ou seja, exemplo a ser seguido. Shows cedo terminam mais cedo e permitem uma volta para casa mais tranq\u00fcila ou a continuidade na noite. \u00c9 uma l\u00f3gica certeira. Waters veio ao Brasil com o show que reproduz na \u00edntegra o disco duplo \u201cThe Wall\u2019, do Pink Floyd. Lan\u00e7ado em 1979, o disco se tornou um dos cl\u00e1ssicos floydianos. Talvez seja o canto de cisne de criatividade inventiva do grupo, mas, ao mesmo tempo, foi praticamente o disco que, tendo sequencia no \u201cFinal Cut\u201d, de 1983, exp\u00f4s em demasia as escaramu\u00e7as internas dos integrantes da banda. O grupo dissolveu-se para ressurgir fraturado anos depois, com David Gilmour, o guitarrista, ganhando, junto aos companheiros Nick Mason e Rick Wright, o direito de usar o nome da banda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Roger Waters seguiu ent\u00e3o carreira solo, mas n\u00e3o demorou muito e come\u00e7ou a alternar turn\u00eas com o repert\u00f3rio de \u2018Dark Side of the Moon\u2019, o disco mais bem sucedido do Pink Floyd e \u2018The Wall\u2019. O segundo, um retrato quase expressionista dos traumas infantis de Waters, cujo pai morreu em combate, \u00e9 um libelo contra a guerra, o sistema educacional repressor, os estados totalit\u00e1rios e a aliena\u00e7\u00e3o urbana. Foi transformado em filme pelo ingl\u00eas Alan Parker. \u00c0 \u00e9poca, Waters disse ter odiado a vers\u00e3o para o cinema. Mas embora no show haja uma cr\u00edtica aos s\u00edmbolos do capitalismo e do consumismo, como o McDonalds e a Mercedes Benz por exemplo, Waters n\u00e3o rasga dinheiro. Sabe o quanto o filme \u2018The Wall\u2019 \u00e9 querido pelos f\u00e3s. Por isso, usa a vers\u00e3o cinematogr\u00e1fica de Parker como fio condutor do espet\u00e1culo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-13633\" title=\"roger2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/roger2.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E essa \u00e9 a palavra que melhor se encaixa no show \u2018The Wall\u2019. Espet\u00e1culo. Outra a ser usada poderia ser \u2018impactante\u2019. \u00c9 complicado fugir dessas duas express\u00f5es para definir as duas horas em que Waters apresenta o disco-show. \u00c9 um espet\u00e1culo extremamente visual e bomb\u00e1stico, com o tel\u00e3o em forma do muro branco que caracteriza a capa do disco tomando conta de toda a extens\u00e3o do palco e indo al\u00e9m. As imagens projetadas nele atingem um grau de qualidade que fazem, em muitos momentos, o p\u00fablico esquecer que no palco h\u00e1 uma banda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 essa, talvez, a principal virtude e ao mesmo tempo o calcanhar de Aquiles de um show como o que tem sido apresentado por Roger Waters. A grandiloq\u00fc\u00eancia da apresenta\u00e7\u00e3o garante a emo\u00e7\u00e3o vivenciada pelos f\u00e3s. Imposs\u00edvel n\u00e3o se deixar impressionar. Al\u00e9m disso, as boas can\u00e7\u00f5es est\u00e3o ali. De \u2018Mother\u2019 a uma sempre emocionante \u2018Comfortably Numb\u2019, o passeio pelo disco atinge f\u00e3s nost\u00e1lgicos e os de \u00faltima hora. Une gera\u00e7\u00f5es. Mas ao mesmo tempo, h\u00e1 uma indisfar\u00e7\u00e1vel frieza em tudo. Milimetricamente pensado, o show n\u00e3o permite momentos m\u00ednimos de descontra\u00e7\u00e3o ou improvisos. Inclusive o \u2018intervalo\u2019, de cerca de 20 minutos, remete a uma \u00f3pera teatral, com a divis\u00e3o por atos. E o retorno, com \u2018Hey You\u2019, uma das mais aguardadas, sendo executada por tr\u00e1s do muro, sem a visualiza\u00e7\u00e3o dos m\u00fasicos gera uma sensa\u00e7\u00e3o estranha. Tudo isso, aliado ao fato de que a interpreta\u00e7\u00e3o soa extremamente igual ao disco, remete \u00e0 quase certeza de que grande parte vocal \u00e9 \u2018playback\u2019. Se isso dep\u00f5e contra ou a favor, vai de cada um.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dedicando o concerto a Jean Charles de Menezes, o brasileiro assassinado pela pol\u00edcia brit\u00e2nica num metr\u00f4 em Londres, e criticando o \u2018terrorismo de Estado\u2019, Roger Waters fez o discurso certo \u00e0 plateia brasileira. Deve adaptar o discurso em cada pa\u00eds (na Argentina, a \u201cpauta\u201d foi as Malvinas). Como no filme, Waters critica a aliena\u00e7\u00e3o e o totalitarismo, mas reproduz um palco que o aliena dele com o p\u00fablico, que mal o v\u00ea. Repete o gesto com bra\u00e7os em \u2018x\u2019, numa alus\u00e3o nazista e fascista e o p\u00fablico embarca, reproduzindo o gestual. Nada mais simb\u00f3lico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018The Wall\u2019 acaba sendo uma conjun\u00e7\u00e3o de ant\u00edteses que fazem refletir a respeito dos caminhos atuais da m\u00fasica pop. \u00c9, ao mesmo tempo, a prova de que o punk estava certo ao tentar demolir as institui\u00e7\u00f5es grandiosas do rock, mas transmite a certeza de que o fracasso nessa tentativa n\u00e3o \u00e9 de todo mal. O show provoca catarse, por ser resultado de um repert\u00f3rio de uma das bandas mais criativas e inovadoras da hist\u00f3ria do rock, mas ao mesmo tempo retransmite a frieza tecnol\u00f3gica dos dias atuais. Impacta, mas n\u00e3o absorve. \u00c9 capaz de levar \u00e0s l\u00e1grimas os f\u00e3s de longa data, mas s\u00e3o l\u00e1grimas antigas, de um tempo outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Waters acaba utilizando um arsenal tecnol\u00f3gico que pretende levar o espectador a outra dimens\u00e3o sonora e visual. Acaba, no entanto, conduzindo os que amam a antiga banda, a quartos pequenos, com p\u00f4steres na parede e um disco rolando no aparelho de som. Dentro desse quarto, quem sabe, adolescentes sonhando com a possibilidade, quase inating\u00edvel, de assistir a um show do Pink Floyd. Ao tentar mostrar o futuro dos espet\u00e1culos de rock, Roger Waters nos faz fechar os olhos e pensar no ing\u00eanuo passado que se foi e que dinheiro algum ir\u00e1 comprar, mesmo que tentemos por duas horas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-13634\" title=\"roger3\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/roger3.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"403\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/roger3.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/roger3-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ismael Machado \u00e9 rep\u00f3rter especial do  Di\u00e1rio do Par\u00e1 e est\u00e1 lan\u00e7ando o   livro \u201cSujando os Sapatos &#8211; O Caminho  Di\u00e1rio da Reportagem\u201d. Saiba  mais  <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2011\/08\/24\/tres-livros-bacanas-dois-em-promocao\/\">aqui<\/a>. Fotos de MRossi e Rafael Koch Rossi (Divulga\u00e7\u00e3o T4F)<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; \u201cDiscovery\u201d: a cole\u00e7\u00e3o do Pink Floyd remasterizada, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/06\/27\/cds-discovery-pink-floyd\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Roger Waters: The Wall ao vivo em Los Angeles, por Fernanda Ezabella (<a href=\"..\/2010\/11\/30\/roger-waters-ao-vivo-em-los-angeles\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Progressivos, reacion\u00e1rios e conservadores, por Carlos Eduardo Lima (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/02\/13\/progs-reacionarios-e-conservadores\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Os 13 discos mais influentes de todos os tempos, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/01\/04\/os-treze-discos-mais-influentes-de-todos-os-tempos\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; NEU!, Kak, Julian\u2019s Treatment e mais no Rock Raro, por Wagner Xavier (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/secoes\/rockraro.html\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Ismael Machado\nO show provoca catarse, mas ao mesmo tempo retransmite a frieza tecnol\u00f3gica dos dias atuais. 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