{"id":13441,"date":"2012-03-25T14:55:39","date_gmt":"2012-03-25T17:55:39","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=13441"},"modified":"2019-04-06T17:53:55","modified_gmt":"2019-04-06T20:53:55","slug":"entrevista-driving-music","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/03\/25\/entrevista-driving-music\/","title":{"rendered":"Entrevista: Driving Music"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-13446\" title=\"driving1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/driving1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por<\/strong><strong> <\/strong><strong><a href=\"http:\/\/twitter.com\/#%21\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Capelas<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 alguma coisa de diferente no mundo da m\u00fasica: se nos anos 80, no texto \u201cCan\u00e7\u00e3o, est\u00fadio e tensividade\u201d, Luiz Tatit tomava nota da import\u00e2ncia do est\u00fadio como diferencial para a can\u00e7\u00e3o popular, em 2012 pode-se ver que esse local de grava\u00e7\u00e3o pode ser qualquer lugar, de um quartinho todo empoeirado nos fundos de uma casa at\u00e9 uma pra\u00e7a ou um est\u00fadio cheio de equipamentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Driving Music, mais recente empreitada de F\u00e1bio Andrade, l\u00edder da finada banda punk fluminense The Invisibles, \u00e9 fruto dessa nova era. \u201cComic Sans\u201d, primeiro disco cheio da banda, foi gravado no quarto do apartamento de F\u00e1bio e \u00e9 um bom exemplo de como as novas possibilidades de grava\u00e7\u00e3o podem ser um novo caminho para a m\u00fasica hoje em dia. \u201cExistia outro modelo de trabalho que contemplava muito algumas pessoas, e n\u00e3o necessariamente as mais interessantes, as mais capacitadas, e hoje esse modelo n\u00e3o existe mais\u201d, diz ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cComic Sans\u201d foi lan\u00e7ado no meio do ano passado (voc\u00ea pode baixar o disco no <a href=\"http:\/\/driving-music.net\/home\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">site oficial<\/a>), pouco antes do cantor passar uma temporada em Nova York. Ao voltar, a Driving Music deixou de ser um projeto s\u00f3 dele para se tornar um grupo de verdade \u2013 chegando at\u00e9 a abrir para o Beady Eye no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje acompanhado de Gordinho (PELVs), Melvin (Carbona\/Tremend\u00f5es), Develly (PELVs) e Matos (ex-Cabaret), F\u00e1bio veio a S\u00e3o Paulo para fazer o primeiro show da Driving Music fora do estado do Rio de Janeiro. A apresenta\u00e7\u00e3o foi na Casa do Mancha, reduto indie na Vila Madalena \u2013 como se isso n\u00e3o fosse uma redund\u00e2ncia \u2013 e antes do show, o antigo guitarrista do The Invisibles bateu um papo com o Scream &amp; Yell.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma hora e meia de conversa, F\u00e1bio ressaltou a import\u00e2ncia de uma boa produ\u00e7\u00e3o \u2013 \u201ccompor bem \u00e9 essencial, mas produzir bem tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio, mas acho que muita gente ainda n\u00e3o entendeu isso\u201d \u2013 explicou porque n\u00e3o canta em portugu\u00eas \u2013 \u201cportugu\u00eas pra mim era Chico Buarque, e Chico Buarque era a minha m\u00e3e, e eu precisava negar a minha m\u00e3e aos 16 anos de idade\u201d \u2013 e disse que n\u00e3o entende jovem que n\u00e3o foi roqueiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele ainda comentou sobre os discos que mudaram sua vida, a relev\u00e2ncia de uma boa sequ\u00eancia de faixas dentro de um disco e exp\u00f4s sua vis\u00e3o sobre o Rio de Janeiro de 2012 \u2013 tanto na pol\u00edtica quanto na m\u00fasica.  Respira fundo, e deixe essa conversa te dirigir a outros lugares.  Um bom papo que voc\u00ea l\u00ea a seguir:<\/p>\n<p><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"100%\" height=\"295\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\" \/><param name=\"src\" value=\"http:\/\/player.soundcloud.com\/player.swf?url=http%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Fplaylists%2F865292%3Fsecret_token%3Ds-wCe7x&amp;show_comments=false&amp;show_playcount=true&amp;show_playcount=true&amp;show_artwork=true&amp;color=000000\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"100%\" height=\"295\" src=\"http:\/\/player.soundcloud.com\/player.swf?url=http%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Fplaylists%2F865292%3Fsecret_token%3Ds-wCe7x&amp;show_comments=false&amp;show_playcount=true&amp;show_playcount=true&amp;show_artwork=true&amp;color=000000\" allowscriptaccess=\"always\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Antes de tudo: o que \u00e9 o Driving Music? O que ele tem de diferente do que voc\u00ea tinha feito antes?<\/strong><\/span><br \/>\nEssa \u00e9 uma boa pergunta&#8230; na verdade&#8230; existem tantas defini\u00e7\u00f5es diferentes que a gente j\u00e1 nem sabe mais. [O projeto] come\u00e7ou em 2006 quando a minha banda anterior, o The Invisibles, acabou, e eu resolvi continuar. Na \u00e9poca, percebi que queria tocar mais, que o meu problema era com a banda, e n\u00e3o com a m\u00fasica. J\u00e1 acabei com a banda j\u00e1 sabendo que ia continuar e j\u00e1 com o nome de Driving Music. Desde o come\u00e7o, era com esse nome que eu lan\u00e7ava as m\u00fasicas que gravo em casa. At\u00e9 novembro de 2011, o Driving Music era quase que exclusivamente isso. Antes de lan\u00e7ar os primeiros EPs, gravei algumas demos que eram bem diferentes, que soavam mais parecido com o The Invisibles. Quando fui gravar o primeiro EP da banda, chamei alguns amigos para participarem, mas depois fui fazendo sozinho. O disco tamb\u00e9m teve colabora\u00e7\u00f5es. Mas, embora o [Gustavo] Matos tenha gravado algumas coisas de percuss\u00e3o e o Daniel [Develly] tenha feito uns teclados, &#8220;Comic Sans&#8221; era o disco que eu estava querendo fazer naquele momento.  Ent\u00e3o fui passar um tempo fora do Brasil, e quando eu estava l\u00e1, a gente recebeu um convite pra tocar num festival que o Queremos estava organizando, um pessoal do RJ que t\u00e1 levando um monte de bandas para l\u00e1, para abrir o show do Beady Eye. Eles ouviram o disco, gostaram e eu ainda n\u00e3o tinha banda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Era um projeto seu, gravando em casa, n\u00e3o tinha banda?<\/strong><br \/>\nPara n\u00e3o falar que isso nunca tinha acontecido, a gente chegou a fazer dois shows, numa forma\u00e7\u00e3o completamente heterog\u00eanea. Eu tocava bumbo, caixa e viol\u00e3o ao mesmo tempo, e a gente n\u00e3o tinha baterista&#8230; Era uma coisa bem menor, n\u00e3o tinha uma estrutura de banda tradicional, e tinha v\u00e1rias m\u00fasicas que n\u00e3o tinham baixo. N\u00e3o foi algo que a gente conseguiu continuar. Quando topei fazer esse show do Queremos \u00e9 que surgiu a forma\u00e7\u00e3o atual do Driving Music. Cheguei ao Brasil numa segunda e o show era na outra segunda. Ensaiamos quatro vezes e fizemos o primeiro show. De l\u00e1 para c\u00e1, n\u00e3o acho mais que o Driving Music seja um projeto solo meu. No come\u00e7o a gente chamava de coletivo para ter certa mobilidade, mas hoje digo que virou uma banda mesmo para tocar as m\u00fasicas que j\u00e1 gravei e para frente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ent\u00e3o quando o Driving Music gravar um pr\u00f3ximo trabalho, essa vai ser a banda?<\/strong><br \/>\nSim. S\u00e3o eles mesmo, definitivamente. Por outro lado, ainda gosto muito de fazer as coisas em casa e mexer muito tempo nas m\u00fasicas. Gosto de ficar brincando que nem maluco, fazer m\u00fasica com programa\u00e7\u00e3o de bateria, passar uma tarde em casa e gravar um monte de coisa. Mas hoje a participa\u00e7\u00e3o \u00e9 da banda inteira. No show, os arranjos j\u00e1 est\u00e3o bem diferentes do que s\u00e3o no disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pegando um gancho do que voc\u00ea falou, eu queria que voc\u00ea contasse melhor como foi essa hist\u00f3ria de gravar uma jam consigo mesmo em &#8220;Afterglow&#8221;.<\/strong><br \/>\nUm dos motivos porque o The Invisibles terminou foi porque eu estava cansado de ficar correndo atr\u00e1s pra marcar ensaio e demorar seis meses pra gravar duas m\u00fasicas. Falei pra mim mesmo que queria fazer as coisas no meu tempo, com mais agilidade e n\u00e3o ficar dependendo dos outros. Acho que at\u00e9 gravar as duas primeiras demos do Driving Music, eu estava tentando provar pra mim mesmo que conseguiria fazer isso. S\u00f3 no primeiro EP \u00e9 que acredito que tem uma tentativa de apresentar algo diferente. \u00c9 uma maluquice gravar sozinho: tem um lado muito bom porque n\u00e3o tem ningu\u00e9m te inibindo, principalmente na hora de gravar voz. \u00c9 libertador. Mas gera essa maluquice de, no momento que aparece uma m\u00fasica que pede um cuidado especial, voc\u00ea tem de quebrar a cabe\u00e7a pra resolver aquilo sozinho tamb\u00e9m.  No caso de &#8220;Afterglow&#8221;, a m\u00fasica tem uma frase s\u00f3. Tem algumas altera\u00e7\u00f5es, mas a m\u00fasica \u00e9 basicamente sustentada em um \u00fanico verso. Eu n\u00e3o tinha como tocar isso no viol\u00e3o sem saber quantos versos ia durar, quantas partes ela ia ter&#8230; Acabei deixando a m\u00fasica l\u00e1 pro final das grava\u00e7\u00f5es. Normalmente, voc\u00ea come\u00e7a a gravar uma m\u00fasica pela bateria, mas a bateria sou eu quem fa\u00e7o, ent\u00e3o eu tamb\u00e9m n\u00e3o sabia que m\u00fasica tinha de tocar, porque n\u00e3o tinha acabado de escrev\u00ea-la. Foi um jogo de recorta e cola muito maluco. Primeiro, gravei uma base no viol\u00e3o. Em cima do viol\u00e3o fiz a bateria, que me fez mudar coisas no viol\u00e3o. Voltei no viol\u00e3o para gravar coisas de novo, ent\u00e3o coloquei a voz. Por isso falei que era uma jam comigo mesmo, uma vez que um instrumento demandava o que o outro ia fazer. \u00c0s vezes tive de gravar tudo de novo. At\u00e9 o final do disco, n\u00e3o sabia o que achar dessa m\u00fasica. Sabia que ela seria a primeira, mas eu n\u00e3o tinha muita confian\u00e7a por causa da estrutura \u201cnova\u201d dela. Sabia o que tinha que fazer com \u201cas outras\u201d, mas n\u00e3o com \u201cAfterglow\u201d. Muita gente acha a melhor m\u00fasica do disco, algo que nunca imaginei, e \u00e9 tamb\u00e9m uma das que mais gosto de tocar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/O0I-0UEM0I4\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/O0I-0UEM0I4\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cAfterglow\u201d tamb\u00e9m chama a aten\u00e7\u00e3o porque tem um sampler meio perdido no comecinho dela. \u201cSettle\u201d \u00e9 outra m\u00fasica que tem um sampler \u2013 voc\u00ea disse certa vez que \u00e9 uma grava\u00e7\u00e3o do James Joyce. Conta mais desses dois samplers, e por que eles t\u00e3o no disco?<\/strong><br \/>\nFoi absolutamente casual. Como cr\u00edtico de cinema, tenho o costume de analisar e analisar depois a obra pronta. Penso at\u00e9 hoje sobre o &#8220;Comic Sans&#8221;, e muitas coisas n\u00e3o me ocorreram na \u00e9poca da grava\u00e7\u00e3o. Quando gravei, estava ouvindo muito o The Books, que \u00e9 uma banda que adoro, e eles trabalham com &#8220;found sound&#8221;. Eles v\u00e3o atr\u00e1s de grava\u00e7\u00f5es em sebos, em fitas cassetes perdidas, grava\u00e7\u00f5es de voz que eles n\u00e3o fazem ideia do que sejam, e usam isso como o vocal de uma m\u00fasica. Uma boa parte das can\u00e7\u00f5es deles n\u00e3o \u00e9 cantada, mas trabalham em cima desses samplers, que aparecem dos lugares mais absurdos o poss\u00edvel. E em &#8220;Afterglow&#8221; tinha essa introdu\u00e7\u00e3o enorme com a qual eu n\u00e3o sabia muito bem o que fazer. Achei interessante usar um sampler ali, e por algum motivo me ocorreu pegar uma dessas grava\u00e7\u00f5es de curso de ingl\u00eas, que o professor coloca para os alunos ouvirem nas aulas. Era curioso para mim usar essa grava\u00e7\u00e3o em um disco que \u00e9 todo cantado em ingl\u00eas, algo que as pessoas sempre comentam. Achei que era uma boa piada come\u00e7ar com o mais b\u00e1sico o poss\u00edvel da l\u00edngua inglesa, que \u00e9 a pessoa te ensinando a falar o pa\u00eds de onde voc\u00ea veio. Por coincid\u00eancia, no CD que eu peguei tinha uma mulher falando que era do Brasil, de Porto Alegre, com um sotaque nada brasileiro. Para mim isso fez um baita sentido, porque eu n\u00e3o posso falar que fa\u00e7o m\u00fasica brasileira. Sou brasileiro, mas lido com refer\u00eancias completamente externas \u2013 como um estrangeiro. Com o sampler do Joyce foi o mesmo caso. Fiz &#8220;Settle&#8221;, que era uma m\u00fasica complicada de ser resolvida porque tinha uma introdu\u00e7\u00e3o barulhenta. Era uma das minhas preocupa\u00e7\u00f5es que as faixas estivessem bem ligadas umas com as outras, que existisse integra\u00e7\u00e3o. Coloquei um ru\u00eddo enorme no come\u00e7o de &#8220;Settle&#8221; para fazer essa passagem, e achei que tamb\u00e9m coubesse um sampler ali. Nesse momento lembrei de um amigo meu que \u00e9 f\u00e3 de Joyce e que me falou que existia na Internet uma grava\u00e7\u00e3o do Joyce lendo um trecho do &#8220;Finnegan&#8217;s Wake&#8221;, isso em 2008. Na grava\u00e7\u00e3o, come\u00e7a o Joyce lendo uma l\u00edngua que n\u00e3o d\u00e1 pra saber se \u00e9 ingl\u00eas mesmo. J\u00e1 me perguntaram se era indiano. Quando comecei a ouvir aquilo \u00e9 que eu realmente n\u00e3o consegui entender uma palavra do que ele dizia &#8211; e isso \u201cfechava\u201d com a ideia do estrangeirismo, e de como a l\u00edngua pode ir do mais b\u00e1sico, isto \u00e9, do &#8220;eu sou brasileiro&#8221; at\u00e9 as express\u00f5es e deforma\u00e7\u00f5es do Joyce. Isso n\u00e3o \u00e9 importante para o disco, mas \u00e9 o tipo de detalhe que me d\u00e1 a sensa\u00e7\u00e3o de unidade. Tem essa camada escondida pra quem quiser ir adiante tentar entender um pouco mais sobre o \u00e1lbum. Acho que isso constr\u00f3i uma narrativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E por que cantar em ingl\u00eas? \u00c9 uma op\u00e7\u00e3o, uma condi\u00e7\u00e3o, uma necessidade? Voc\u00ea passou um tempo fora do Brasil, tem algo a ver com isso?<\/strong><br \/>\nPodia ser uma boa explica\u00e7\u00e3o&#8230; &#8220;ah, estava morando fora e resolvi fazer o disco&#8221;. \u00c9 um pouco menos casual que isso. Tinha quatro m\u00fasicas gravadas quando marquei essa temporada de passar cinco meses em Nova York. Falei pra mim mesmo tr\u00eas semanas antes de viajar: \u2018se n\u00e3o acabar o disco agora, s\u00f3 vou voltar a poder mexer nele em novembro\u2019. Na \u00e9poca, nem tinha todas as m\u00fasicas prontas \u2013 tr\u00eas delas eram apenas rascunhos de ideias. Parei tudo na vida: fiquei tr\u00eas semanas resolvendo coisas da viagem e gravando, e foi esse o tempo de gesta\u00e7\u00e3o do disco. Compus, escrevi letra, gravei e masterizei tudo em tr\u00eas semanas. Foi um processo intenso, acordava e dormia com o disco, para poder ficar cinco meses mais tranquilo, fazendo divulga\u00e7\u00e3o. Gostei da palavra que voc\u00ea usou para &#8220;cantar em ingl\u00eas&#8221;: \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o. Nunca tive vontade de escrever em portugu\u00eas. Quer dizer: escrevo texto, prosa em portugu\u00eas, trabalho diariamente com a l\u00edngua e adoro ela. Mas a ideia de m\u00fasica sempre foi vinculada \u00e0 m\u00fasica anglo-sax\u00e3, essa foi a minha forma\u00e7\u00e3o. Especialmente pelo fato de onde eu vim: n\u00e3o sou da capital, sou do interior do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>De onde?<\/strong><br \/>\nBarra Mansa. \u00c9 uma cidade pequena perto de Volta Redonda. De certa forma, escolher ouvir rock quando voc\u00ea tem dez anos de idade era uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O Melvin, que toca comigo, tamb\u00e9m toca no Monobloco. Isso era, e ainda \u00e9 absurdo pra mim, totalmente impens\u00e1vel.  S\u00e3o duas coisas totalmente inconcili\u00e1veis, embora sejam para ele \u2013 e que \u00f3timo para ele que s\u00e3o! Mas para mim n\u00e3o s\u00e3o, porque tem algo de pol\u00edtico em se negar a fazer algumas coisas. Que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a l\u00edngua portuguesa, mas s\u00e3o um s\u00edmbolo de se ouvir m\u00fasica em ingl\u00eas. No come\u00e7o isso foi um processo baseado muito em tentativa e erro, compondo olhando dicion\u00e1rio. Aprendi ingl\u00eas lendo encarte de outras bandas. Era um processo de colagem. As minhas primeiras m\u00fasicas em ingl\u00eas t\u00eam letras muito ruins, com um ingl\u00eas muito prec\u00e1rio. Mas, ao mesmo tempo, percebi que era um caminho interessante escrever em ingl\u00eas como um estrangeiro, um n\u00e3o nativo da l\u00edngua, um pouco como o [escritor argentino Jorge Luis] Borges fez com o espanhol. O Borges escreveu em espanhol a vida inteira, mas ele foi alfabetizado em ingl\u00eas, e ele achou que em algum momento ia ser interessante voltar para a l\u00edngua da terra dele com essa perspectiva de quem foi formado em outra l\u00edngua. Pra falar de outro exemplo, de um cineasta que gosto muito, o S\u00e9rgio Leone. Ele faz faroeste americano na It\u00e1lia, que \u00e9 algo completamente estrangeiro&#8230; Ser um estrangeiro em uma l\u00edngua me permite fazer constru\u00e7\u00f5es de frases diferentes, combina\u00e7\u00f5es de palavras que um nativo n\u00e3o faria. N\u00e3o sei o quanto isso \u00e9 percept\u00edvel, mas \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 algo rand\u00f4mico, mas tento combinar palavras que de alguma maneira expressem esse estrangeirismo. Sempre achei que o mais interessante de viajar n\u00e3o era, sei l\u00e1, ir pra Disney e ver a Disney. O mais interessante era voc\u00ea ir num restaurante e ver como voc\u00ea vai dar a gorjeta naquele lugar, essas diferen\u00e7as menores. Como se d\u00e1 ou n\u00e3o bom dia para o porteiro. Isso te exp\u00f5e no seu estrangeirismo. Tinha essa ideia de que isso poderia acontecer com a minha m\u00fasica, que ela pudesse ser diferente porque n\u00e3o vem de fora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/ymeSumqwXVo\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/ymeSumqwXVo\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea citou S\u00e9rgio Leone, Borges, Joyce, trabalha como cr\u00edtico de cinema, tuas m\u00fasicas t\u00eam v\u00e1rios momentos visuais&#8230; Que tipo de coisas te inspira a compor?<\/strong><br \/>\nA primeira resposta \u00e9 clich\u00ea: tudo. Mas, sabendo que tudo influencia, o que posso dizer que conscientemente me influencia? Uma das ideias por tr\u00e1s do \u201cComic Sans\u201d era trabalhar a partir de can\u00e7\u00f5es dos outros. Ou seja: can\u00e7\u00f5es minhas, mas que nascem de ideias que tirei de alguma m\u00fasica de algu\u00e9m. No come\u00e7o, isso era um projeto de \u00e1lbum. Queria pegar o &#8220;Yankee Hotel Foxtrot&#8221; do Wilco e refazer. &#8220;Orange Traffic Cones&#8221; \u00e9 uma m\u00fasica que nasceu assim: ela \u00e9 a minha &#8220;Kamera&#8221;. Como come\u00e7a &#8220;Kamera&#8221;? Com uma batidinha e um vocal mais grave e contido que o resto do disco. &#8220;Aphasic Singalong&#8221; \u00e9 a minha &#8220;War on War&#8221;. Foi um processo consciente: partia sempre da ideia principal, mas juntava com outras coisas e sa\u00eda com uma coisa que fosse diferente, mas tivesse algo original. Esse projeto acabou se perdendo no meio do disco, mas ainda tem certas can\u00e7\u00f5es que t\u00e3o nele e s\u00e3o assim&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Engra\u00e7ado voc\u00ea ter falado do Wilco porque na primeira vez que ouvi o \u201cComic Sans\u201d eu pensei que tinha muito de Wilco e de Elliott Smith nele. Foram duas refer\u00eancias que vieram f\u00e1cil na minha cabe\u00e7a.<\/strong><br \/>\nVou te falar que nunca tinha ouvido direito um disco do Elliott Smith at\u00e9 tr\u00eas meses atr\u00e1s. N\u00e3o tem nenhuma influ\u00eancia. Mas sempre vi os filmes do Gus Van Sant, que t\u00eam as m\u00fasicas dele. Isso \u00e9, eu nunca tinha parado pra ouvir, mas sabia o que era. Coincidentemente ou n\u00e3o essas m\u00fasicas j\u00e1 tinham sido apresentadas pra mim. \u00c9 engra\u00e7ado: &#8220;Orange Traffic Cones&#8221; \u00e9 &#8220;Kamera&#8221; muito claramente pra mim, mas as pessoas falam em Blur, em Beck. Quando acabei de gravar ano passado, falei pro Daniel: &#8220;estava tentando fazer &#8216;Kamera&#8217;, mas saiu uma mistura de Norah Jones com Jota Quest&#8221;. Realmente achei isso (risos). E cada um acha uma coisa diferente, o que \u00e9 interessante por uma matriz espec\u00edfica. Fico feliz que voc\u00ea tenha achado Wilco&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vejo Wilco em quase todo o disco, e alguma coisa de Manic Street Preachers em &#8220;Settle&#8221;&#8230;<\/strong><br \/>\n(interrompe) Que \u00e9 uma banda que nunca ouvi. &#8220;Settle&#8221; pra mim \u00e9 H\u00fcsker D\u00fc, de uma maneira desconstru\u00edda. Tem muito a ver com o estilo da minha banda anterior. Peguei uma m\u00fasica de punk-rock, a desmontei e joguei uns peda\u00e7os fora. N\u00e3o tem bateria, nem baixo&#8230; \u00c9 muito maluco isso: mesmo tendo muita clareza de onde eu estava tirando as m\u00fasicas, depois ou\u00e7o o disco de novo e descubro uma frase mel\u00f3dica muito parecida com coisas diferentes. \u00d3bvio que tenho o interesse de fazer algo meu e original, mas nesse sentido sou meio maneirista. N\u00e3o tem como eu fazer m\u00fasica sem passar pelo &#8220;Yankee Hotel Foxtrot&#8221;, hoje. Como n\u00e3o tem como n\u00e3o passar pelo &#8220;Pet Sounds&#8221;, pelo &#8220;Revolver&#8221;, dos Beatles. N\u00e3o d\u00e1 pra ignorar algumas refer\u00eancias&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como elas apareceram na sua vida? Fala um pouco mais sobre esses tr\u00eas discos e a import\u00e2ncia deles pra voc\u00ea&#8230;<\/strong><br \/>\nA primeira vez que eu ouvi Wilco foi um presente de uma amiga de Volta Redonda que me deu o &#8220;Being There&#8221;. \u00c9 um \u00e1lbum que tinha sido bem criticado na \u00e9poca. Ela comprou, n\u00e3o gostou e me deu. Ficou guardado muito tempo l\u00e1 em casa e eu me lembro claramente da sensa\u00e7\u00e3o de quando ouvi. Estava indo de \u00f4nibus do Rio para Barra Mansa, estava calor e o \u00f4nibus estava com a janela aberta, e botei o disco pra ouvir e ele fez um sentido absurdo. T\u00e3o absurdo que, quando o \u201cYankee\u201d saiu, eu n\u00e3o encontrei muito sentido naquilo porque o \u201cBeing There\u201d ainda era o disco que eu n\u00e3o conseguia superar. O que \u00e9 pra mim hoje o disco da Joanna Newsom, que eu considero infinito, algo que n\u00e3o consigo superar pessoalmente. \u00c9 um problema monumental na minha vida aquele disco, uma obra-prima absurda. Comprei o \u201cYankee\u201d, ouvi um pouco, e ent\u00e3o teve o show do Wilco no Rio em 2005, que eles abriram com &#8220;Poor Places&#8221;. Foi quando o disco se revelou pra mim, tocado ao vivo na minha frente. E foi algo angustiante porque eu sabia que estava vendo o show da minha prov\u00e1vel banda favorita a partir daquele momento e nem conhecia todas as m\u00fasicas que eles estavam tocando. Felizmente depois consegui ver o Wilco mais cinco vezes, ent\u00e3o&#8230; J\u00e1 t\u00e1 at\u00e9 bom. Desisti de esperar eles virem de novo. A experi\u00eancia com os Beatles foi um pouco diferente&#8230; era uma das poucas coisas que dividi com a minha m\u00e3e, que ela tinha em casa. Parte dessa coisa de cantar em ingl\u00eas era porque cantar em portugu\u00eas era Chico Buarque, e Chico Buarque era a minha m\u00e3e&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea estava tentando negar a sua m\u00e3e&#8230; (risos)<\/strong><br \/>\nNaquele momento, para mim, era muito importante negar a minha m\u00e3e e o meu pai. P\u00f4, eu tinha uma banda de punk-rock&#8230; Mas fui explorar a discografia dos Beatles depois, j\u00e1 mais velho, com 19, 20 anos. Eu falei do &#8220;Revolver&#8221;, mas podia ser o &#8220;\u00c1lbum Branco&#8221;&#8230; Talvez o meu favorito hoje seja o &#8220;Abbey Road&#8221;, que acho um disco inacredit\u00e1vel, assim como o &#8220;Sgt. Pepper&#8217;s&#8221; ou o &#8220;Rubber Soul&#8221;. Acho que toda a m\u00fasica pop est\u00e1 tentando at\u00e9 hoje lidar com os Beatles. \u00c9 um neg\u00f3cio que fez e faz um estrago tamanho que as pessoas t\u00e3o at\u00e9 hoje tentando lidar, tendo aquilo como uma refer\u00eancia que n\u00e3o d\u00e1 pra se ignorar. O &#8220;Pet Sounds&#8221;, ao contr\u00e1rio do que \u00e9 comum, n\u00e3o veio junto com os Beatles. Ele veio antes. Por culpa do The Invisibles, eu ouvia muita coisa que era influenciada por Ramones. E os Ramones foram influenciados pelos Beach Boys, ent\u00e3o Beach Boys foi uma das primeiras bandas antigas fora do nicho de punk-rock que fui procurar ouvir. E comecei ouvindo &#8220;Fun Fun Fun&#8221;, &#8220;Be True to Your School&#8221;, &#8220;Surfin&#8217; USA&#8221;, at\u00e9 que um dia baixei o &#8220;Pet Sounds&#8221; e acabou tudo. E hoje nem s\u00f3 o &#8220;Pet Sounds&#8221;, mas tamb\u00e9m os discos que eles fizeram depois tamb\u00e9m me impressionam muito, como o &#8220;Smile&#8221;, o &#8220;Friends&#8221;&#8230; N\u00e3o consigo pensar em m\u00fasica descolado desses discos. M\u00fasica pra mim est\u00e1 ligado ao que esses discos s\u00e3o. Felizmente, ainda tem discos saindo que mexem comigo da mesma maneira, como o \u00faltimo da Joanna Newsom, por exemplo. &#8220;Agora entrou um dado novo aqui que eu n\u00e3o vou conseguir ignorar&#8221;. A Joanna Newsom \u00e9 uma compositora extraordin\u00e1ria, mas uma letrista sem igual. Achava o Jeff Tweedy um grande letrista, mas quando chega a Joanna Newsom, ela faz tudo parecer um pouco menos grandioso. Mas isso \u00e9 papo de an\u00e1lise, um pouco&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/ExIYNvojVRA\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/ExIYNvojVRA\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pegando um pouco a ideia da juventude, uma vez voc\u00ea falou numa entrevista que &#8220;achava que a juventude n\u00e3o se completa se voc\u00ea n\u00e3o vai a shows de rock&#8221;.<\/strong><br \/>\nN\u00e3o entendo jovem que n\u00e3o foi roqueiro, da mesma maneira como n\u00e3o entendo m\u00fasica sem pensar nos Beatles. Isso fecha um pouco o que eu disse a respeito de cantar em ingl\u00eas. Voc\u00ea tem que estar puto com alguma coisa, de alguma forma, porque voc\u00ea \u00e9 jovem e tem muita energia. Quem dera eu tivesse o foco de saber para onde direcionar minha energia naquela \u00e9poca. N\u00e3o sabia o que fazer com a minha banda \u2013 e ela at\u00e9 existiu por bastante tempo, e lan\u00e7ou discos. Mas \u00e9 uma coisa que voc\u00ea precisa. Especialmente no meu caso, crescendo numa cidade que n\u00e3o tinha nada. L\u00e1 teve show de rock quando eu comecei com a minha banda. E quem ia ao show eram os meus amigos, as pessoas com as quais eu me relacionava, que era quem ouvia rock na cidade. \u00c9 um neg\u00f3cio muito restrito. Juventude tem muito a ver com isso. Eu n\u00e3o queria ouvir jazz quando eu tinha 18 anos, por mais que hoje escute Nina Simone e ache a coisa mais inacredit\u00e1vel do mundo. O punk-rock nunca foi exatamente m\u00fasica com M mai\u00fasculo. \u00c9 \u00f3bvio que tem can\u00e7\u00f5es incr\u00edveis, e discos incr\u00edveis, mas n\u00e3o era s\u00f3 uma quest\u00e3o musical, mas de postura com o mundo, energia e comunidade. \u00c9 uma obra que s\u00f3 faz sentido dentro daquela comunidade, e quando ela se expandia ela meio que acabava. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que o Clash nunca pode continuar sendo uma banda de punk-rock: quando eles come\u00e7am a ficar muito grandes aquilo deixa de ter sentido. Acho que \u00e9 uma coisa \u00e9tica tamb\u00e9m, que pra mim \u00e9 forte. Praticamente n\u00e3o ou\u00e7o mais nada de punk-rock, embora muita gente da Driving Music tenha vindo desse mesmo meio. \u00c9 um lance \u00e9tico de tentar fazer coisas diferentes. Jovem que n\u00e3o gostou de rock, pra mim, n\u00e3o \u00e9 a ideia de jovem que eu tenho, sem querer desrespeitar ningu\u00e9m. Se fosse estar no meu dicion\u00e1rio, ouvir rock seria uma condi\u00e7\u00e3o \u2013 e obviamente n\u00e3o me considero mais um jovem. Estou gravando um disco com viol\u00e3o, e tenho quase trinta anos&#8230; Mas essa coisa de guitarra alta, de se perder frequ\u00eancias do seu ouvido pra sempre porque um puto botou um amplificador alto pra caralho e voc\u00ea saiu com aquele zumbido e voc\u00ea nunca mais vai ouvir aquilo&#8230; Sempre achei esse risco muito impressionante. Hoje n\u00e3o quero mais perder frequ\u00eancias, mas naquela \u00e9poca eu achava importante, morrer um pouco, perder algumas coisas no processo. O rock \u00e9 algo muito violento, e acho viol\u00eancia, enquanto conceito, uma coisa importante pra vida. Sair do mesmo lugar, se destruir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pegando outra frase sua: &#8220;Minha maior vontade \u00e9 fazer m\u00fasica como um padeiro faz p\u00e3o&#8221;. Eu tentei de v\u00e1rios jeitos interpretar essa frase e nenhum deles se encaixou direito. Queria que voc\u00ea falasse um pouco mais disso tamb\u00e9m.<\/strong><br \/>\nSou um grande apreciador de culin\u00e1ria. Acho um p\u00e3o bem feito um neg\u00f3cio muito nobre. Mas o que eu queria dizer \u00e9 que eu n\u00e3o quero que a m\u00fasica seja uma exce\u00e7\u00e3o na minha vida. Quero fazer m\u00fasica todo dia, como um cara vai l\u00e1 pra padaria todo dia e faz p\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>At\u00e9 porque a m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 a tua atividade profissional&#8230;<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, mas mesmo se fosse. V\u00e1rios artistas conseguiram fazer isso acontecer. Alguns cineastas que v\u00e3o e pegam a c\u00e2mera todo dia pra filmar alguma coisa. \u00c9 mesmo a coisa da atividade di\u00e1ria: o padeiro fazendo p\u00e3o, o pedreiro subindo um muro, e voc\u00ea est\u00e1 ali fazendo o seu trabalho, n\u00e3o no sentido de remunera\u00e7\u00e3o, mas no sentido de trabalho mesmo, por sua for\u00e7a ali. Isso me interessa muito, que a m\u00fasica seja um ato de trabalho cont\u00ednuo. Por mais que eu n\u00e3o v\u00e1 lan\u00e7ar coisas todos os dias, eu n\u00e3o queria ter uma banda para ensaiar uma vez por m\u00eas, ou lan\u00e7ar um disco a cada tr\u00eas, quatro anos, que acaba sendo a rotina das bandas independentes brasileiras. As bandas aqui duram 15, 20 anos, mas ficam se arrastando. N\u00e3o quero isso. M\u00fasica pra mim \u00e9 uma atividade di\u00e1ria, de alguma forma, seja ouvindo, compondo, escutando outros discos com o sentido de pesquisar refer\u00eancias e novos sons. Pensar que cada dia estou fazendo um pouco. E \u00e9 engra\u00e7ado que desde o lan\u00e7amento do \u201cComic Sans\u201d eu n\u00e3o tenho nenhuma m\u00fasica pronta. A cada dia tenho gravado ideias, frases, riffs, e uma hora vou juntar todas elas e tentar ver no que d\u00e1. Um pouquinho a cada dia, uma hora vou encontrar o sentido disso tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Outra coisa engra\u00e7ada que voc\u00ea falou uma vez e que eu queria discutir \u00e9 a seguinte. Ia rolar um show da banda e voc\u00ea falou que estava fazendo tanta divulga\u00e7\u00e3o que parecia um vendedor barato.<\/strong><br \/>\nP\u00f4, nem lembrava disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ia te perguntar justamente disso: hoje o artista tem que compor, tem que produzir, tem que divulgar o seu trabalho e correr atr\u00e1s de marcar os shows, porque n\u00e3o tem um executivo que vai chegar no final do m\u00eas e te dar um contracheque para viver. Como \u00e9 que voc\u00ea encara isso?<\/strong><br \/>\nCara, existia outro modelo de trabalho que contemplava muito algumas pessoas, e n\u00e3o necessariamente as mais interessantes, as mais capacitadas, e hoje esse modelo n\u00e3o existe mais. Acho que n\u00e3o s\u00f3 na arte, mas na vida tamb\u00e9m, aquela coisa de voc\u00ea ter um emprego e uma carreira j\u00e1 est\u00e1 com os dias contados. N\u00e3o vejo muito futuro nisso, nessa vida meio de funcion\u00e1rio p\u00fablico, as pessoas precisam pensar no que elas t\u00e3o fazendo, as coisas n\u00e3o v\u00e3o andar se elas n\u00e3o pararem pra olhar. Mas vale dizer que vender a minha banda, a minha m\u00fasica, n\u00e3o \u00e9 exatamente a melhor coisa que eu fa\u00e7o no mundo. \u00c9 muito dif\u00edcil hoje que voc\u00ea consiga algu\u00e9m que se interesse para ouvir o seu disco, e entendo isso porque eu acho dif\u00edcil me interessar para ouvir os discos dos outros. \u00c9 um processo lento, \u00e0s vezes frustrante, mas n\u00e3o tenho escolha, e tamb\u00e9m ningu\u00e9m me deve nada. N\u00e3o sei como voc\u00ea ouviu o disco pela primeira vez&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acho que foi quando saiu o link no pr\u00f3prio Scream &amp; Yell&#8230; Mas foi engra\u00e7ado porque eu peguei para ouvir o disco agora antes da entrevista e descobri nele coisas diferentes do que eu tinha ouvido na primeira vez. Nunca tinha me impressionado com &#8220;Skatepark&#8221;, e hoje \u00e9 a m\u00fasica que mais gosto do disco&#8230;<\/strong><br \/>\n\u00c9 um coment\u00e1rio que j\u00e1 ouvi v\u00e1rias vezes: a cada show que fazia, alguns amigos mudavam de m\u00fasica favorita. Acho bacana isso que vai mudando&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/ni5N2A2E4U8\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/ni5N2A2E4U8\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 um disco que tem camadas sonoras: a percep\u00e7\u00e3o dele muda o quanto mais voc\u00ea ouve. E isso tem muito a ver com a produ\u00e7\u00e3o do disco, que pra mim est\u00e1 muito bem amarrada. Em algum dos teus textos, voc\u00ea comenta que &#8220;compor bem \u00e9 essencial, mas produzir bem \u00e9 necess\u00e1rio tamb\u00e9m&#8221;.<\/strong><br \/>\nAcho que essa \u00e9 a quest\u00e3o essencial da m\u00fasica brasileira independente hoje. Os m\u00fasicos ainda n\u00e3o entenderam que um timbre \u00e9 t\u00e3o importante quanto uma nota. Por isso, acho que existem can\u00e7\u00f5es \u00f3timas e compositores excelentes, mas tenho muita dificuldade de ouvir porque acho o som muito mal gravado. Acho que dei sorte, porque gosto de ficar horas na frente do computador fazendo essa porra. \u00c9 um trabalho de maluco, mas adoro. O meu est\u00fadio, que \u00e9 um quartinho na minha casa, \u00e9 o meu habitat natural. \u00c9 onde me sinto mais estimulado. Mesmo que demore muito tempo, \u00e9 ali que vou processar ou gravar melhor um som que quero. N\u00e3o sou nada estudado nisso: fa\u00e7o muitas cagadas, erro muito, mas um pouco do que o disco tem de diferente \u00e9 justamente isso. Um exemplo \u00e9 que aplico na minha voz um efeito que ningu\u00e9m aplica em voz, que \u00e9 um efeito para teclado, um simulador de \u00f3rg\u00e3o. Filtro quase todas as vozes por ali. Uma hora tive essa ideia e resolvi experimentar, e acabou funcionando. Se as can\u00e7\u00f5es n\u00e3o fossem boas, nada disso serviria. Sou muito interessado em compositores cl\u00e1ssicos do pop, no estilo cl\u00e1ssico de composi\u00e7\u00e3o pop, composi\u00e7\u00f5es em quatro tempos, com verso, refr\u00e3o, ponte, tudo muito bem explicado, as coisas nos lugares delas. Acho dif\u00edcil demais fazer isso \u2013 Bruce Springsteen \u00e9 um cara que faz isso divinamente bem. O \u00faltimo disco do Ron Sexsmith, \u201cLong Player Late Bloomer\u201d, que \u00e9 um desses caras pra mim, \u00e9 um disco muito dif\u00edcil de ouvir pra mim porque \u00e9 super mal produzido. A produ\u00e7\u00e3o \u00e9 pra tentar facilitar o contato da m\u00fasica com as pessoas, e no Brasil pouca gente percebeu isso at\u00e9 agora. \u00c9 um trabalho vital para o disco sobreviver, para o disco n\u00e3o parecer um disco feito na d\u00e9cada de 80, com todos os cacoetes que ainda n\u00e3o foram abandonados, porque se est\u00e1 acostumado a fazer as coisas daquele jeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o mais interessante disso tudo \u00e9 que voc\u00ea produziu isso totalmente em casa.<\/strong><br \/>\nTalvez nem conseguisse fazer em est\u00fadio, porque \u00e9 um trabalho demorado e caro, acho que n\u00e3o conseguiria pagar algu\u00e9m pra ficar ali operando as coisas para mim. Outra coisa bacana de se gravar em casa \u00e9 que ele n\u00e3o tem nenhum isolamento ac\u00fastico, ent\u00e3o pega muito do som do ambiente, da minha empregada lavando prato na cozinha, das velhinhas do andar de cima. Se essa ideia de fazer m\u00fasica igual um padeiro faz p\u00e3o serve, ent\u00e3o tem que se considerar tamb\u00e9m o ambiente em que esse p\u00e3o \u00e9 feito. E tem reverbera\u00e7\u00e3o do quartinho&#8230; \u00c9 muito f\u00e1cil hoje gravar um disco perfeitinho. O que tamb\u00e9m \u00e9 um problema: n\u00e3o basta entrar num est\u00fadio e sair com um disco lindo, limpo e prefeito. O dif\u00edcil \u00e9 fazer um disco do Guided by Voices, que gravava numa fita cassete e acabavam chegando num som que voc\u00ea conseguia identificar n\u00e3o s\u00f3 pelas m\u00fasicas, mas tamb\u00e9m pela produ\u00e7\u00e3o dos caras. Tudo o que se envolve ali \u00e9 pensado artisticamente, e eu estava tentando isso. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que acho o primeiro disco do Bon Iver lindo, mas n\u00e3o tenho a menor paci\u00eancia de ouvir o segundo. O primeiro disco tem a marca do lugar onde o disco foi gravado. No segundo tem quinze pessoas cantando com ele num est\u00fadio normal, fica parecendo, sei l\u00e1, o Coldplay (risos). Os meus discos favoritos t\u00eam isso: eles t\u00eam algo de impresso de como eles foram feitos neles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma critica ao \u201cComic Sans\u201d dizia que n\u00e3o era um disco simples, mas um disco simples de ser ouvido. \u00c9 um disco que n\u00e3o tem problemas pra ser ouvido na \u00edntegra &#8211; quando ouvi o disco pelas primeiras vezes, eu ouvia no metr\u00f4, ou no \u00f4nibus, que eram ambientes que n\u00e3o me trariam problemas pra ouvi-lo. Uma das coisas que ajudam isso \u00e9 o pensamento nas sequ\u00eancias de m\u00fasica. Percebo que voc\u00ea tem uma preocupa\u00e7\u00e3o especial em fazer um caminho ao longo do disco.<\/strong><br \/>\nVoc\u00ea falou disso e pensei logo no Sondre Lerche, que \u00e9 um dos meus m\u00fasicos favoritos. Uma das caracter\u00edsticas do trabalho dele \u00e9 pegar algo que \u00e9 complicado e fazer parecer muito f\u00e1cil \u2013 e como compositor, ele \u00e9 bem mais sofisticado que eu, seja nos arranjos ou na maneira que ele usa os acordes e como os encadeia. Compartilho essa inten\u00e7\u00e3o dele de fazer uma m\u00fasica com andamento 7\/4, que voc\u00ea nunca vai ouvir no r\u00e1dio, e mesmo assim fazer com que o ouvinte n\u00e3o perceba que ela tem um &#8220;peda\u00e7o faltando&#8221;. As pessoas quando v\u00eam tocar comigo normalmente se surpreendem com a quantidade de notas nas m\u00fasicas, e principalmente, na maneira como essas notas mudam de uma parte para a outra. Dificilmente fa\u00e7o um refr\u00e3o igual ao anterior, porque acredito que \u00e9 necess\u00e1ria uma mudan\u00e7a que a pr\u00f3pria dura\u00e7\u00e3o da m\u00fasica precisa impor. Sen\u00e3o fica uma coisa muito quadrada, muito tediosa. O tempo transcorrido da can\u00e7\u00e3o precisa afetar a pr\u00f3pria can\u00e7\u00e3o, ela precisa sofrer com isso. Se a m\u00fasica come\u00e7a e termina do mesmo jeito, acho que algo n\u00e3o aconteceu. Quanto a isso da ordem das m\u00fasicas, \u00e9 uma coisa que sempre me preocupei, desde o tempo do The Invisibles. E agora lembrei que uma das minhas brincadeiras favoritas de inf\u00e2ncia era pegar um disco e criar uma nova sequencia, ou ficar fazendo colet\u00e2neas, ou misturar coisas, ou escolher dez discos de um artista e selecionar m\u00fasicas para fazer um \u00e1lbum s\u00f3. Sempre me interessou muito como esse cont\u00ednuo, o que tem um pouco a ver com o que depois virou minha paix\u00e3o por cinema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea pode jogar uma m\u00fasica no lixo se voc\u00ea coloc\u00e1-la entre duas outras que n\u00e3o fa\u00e7am sentido. \u00c9 uma brincadeira que muita gente faz hoje com as mixtapes&#8230;<\/strong><br \/>\nAcho que vou mais al\u00e9m: escrevo pensando na faixa 5. &#8220;T\u00e1 faltando uma faixa 5&#8221;. Na \u00e9poca do Invisibles ainda, dei uma entrevista e um cara me perguntou: &#8220;p\u00f4, mas qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre a 5 e a 6?&#8221;. Falei que a diferen\u00e7a era que a 5 vinha depois da 4 e a 6 vinha depois da 5. \u00c9 uma diferen\u00e7a elementar, mas a m\u00fasica vai responder a alguma coisa que est\u00e1 vindo antes e vai preparar para o que vem depois. Nesse disco, vai um pouco al\u00e9m: queria construir algo que fosse quase uma pe\u00e7a inteira, com liga\u00e7\u00f5es entre as can\u00e7\u00f5es que dessem alguma organicidade. Em alguns momentos isso acontece bem para mim, no come\u00e7o de &#8220;Skatepark&#8221;, por exemplo. Gosto muito do come\u00e7o de &#8220;Lavender Suit&#8221;, com aquelas guitarras gravadas ao contr\u00e1rio. \u00c9 algo que sempre foi forte pra mim, e voltou a ser com o \u201cComic Sans\u201d porque ele \u00e9 meu primeiro \u00e1lbum cheio desde 2004 \u2013 desde aquele ano eu lancei muita coisa avulsa, demo, EP. \u00c9 algo que eu acho que vai ficar mais forte nos pr\u00f3ximos trabalhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/TXBozlmrYd0\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/TXBozlmrYd0\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #000000;\">Por que \u201cComic Sans\u201d?<\/span><\/strong><br \/>\n(pausa breve) Achava que era a hora de algu\u00e9m resgatar a fonte da m\u00e1 fama p\u00fablica (risos). Nunca tive alguma rela\u00e7\u00e3o com a fonte, mas achei que era um t\u00edtulo bom, sonoro e achava um absurdo que ningu\u00e9m tinha lan\u00e7ado um disco com esse nome. Sim, fiz a pesquisa no Allmusic pra ver. Agora descobri que tem um cara do Rio que vai chamar um EP chamado &#8220;Cosmic Sans&#8221;. \u00c9 uma boa gag, porque eu n\u00e3o queria que ficasse um disco sisudo, porque a gente n\u00e3o \u00e9 uma banda sisuda \u2013 os shows t\u00eam at\u00e9 certo lado de comediante, quando estamos inspirados. Mas ao mesmo tempo em que \u00e9 uma gag, eu achava que a outra via nesse nome era uma brincadeira com o Sans, que vem de ser sem serifa, mas pode ser uma leitura para &#8220;sem humor&#8221;. Tem uma dualidade ali de negativo-positivo dentro do pr\u00f3prio nome do disco. E quando falei pras pessoas, ningu\u00e9m achou que era uma m\u00e1 ideia, ent\u00e3o ficou. Tem gente que acha que o pr\u00f3ximo disco vai chamar Helvetica (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E por que Driving Music?<\/strong><br \/>\n(outra pausa breve). Caralho, n\u00e3o me lembro de onde isso veio exatamente. Desde que tirei a carteira de habilita\u00e7\u00e3o, ou\u00e7o m\u00fasica no carro. Eu vim do Rio at\u00e9 aqui com seis horas de m\u00fasica ininterruptas, e \u00e9 um momento bom para mim [o de dirigir ouvindo m\u00fasica]. Talvez tenha a\u00ed alguma rela\u00e7\u00e3o com o cinema de imagem e movimento, com a m\u00fasica de fundo, olhando pela janela&#8230; Quando pensei num nome, tamb\u00e9m fiquei chocado que n\u00e3o existia nenhuma banda chamada Driving Music, porque para mim era um nome muito bom. O myspace j\u00e1 estava registrado porque um cara lan\u00e7ou uma colet\u00e2nea de techno com esse nome, mas n\u00e3o existia nenhuma banda chamada Driving Music. E a\u00ed aparece outro duplo sentido: pode ser tanto m\u00fasica para dirigir quanto uma m\u00fasica que te leve para outros lugares. Ter &#8220;music&#8221; no t\u00edtulo tamb\u00e9m era algo que me agradava. Mas dificulta a pesquisa no Google, no Twitter, sempre aparece um monte de bobagem&#8230; (risos). E gosto da ideia de ser uma banda que tem um nome que pode ser qualquer coisa. Se um dia me der na telha de fazer um disco de m\u00fasica eletr\u00f4nica, pode soar coerente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma das interpreta\u00e7\u00f5es que voc\u00ea pode fazer do nome da banda \u00e9 justamente essa coisa utilit\u00e1ria: &#8220;T\u00e1, \u00e9 m\u00fasica para dirigir&#8221;, e da\u00ed pode-se degringolar para o costume hoje que muita gente tem de ouvir m\u00fasica n\u00e3o prestando aten\u00e7\u00e3o na m\u00fasica, como se ela fosse algo acess\u00f3rio \u00e0 vida. \u00c9 o que eu pensei quando ouvi o nome da banda. E quando eu escutava no metr\u00f4, ou no \u00f4nibus, \u00e9 porque era um disco calmo, e me ajudava a pegar no sono, da maneira que isso possa soar como um elogio&#8230;<\/strong><br \/>\n(interrompe). \u00c9 um bom disco pra dormir, e eu recebi isso mais de uma vez como um elogio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas como voc\u00ea v\u00ea isso de &#8220;m\u00fasica pra ouvir fazendo outras coisas&#8221;?<\/strong><br \/>\nGostaria que n\u00e3o fosse s\u00f3 isso, mas n\u00e3o depende muito de mim, na verdade. Depende da pessoa: se ela tiver parada pra ouvir as letras ela pode achar algo de diferente ali. Se ela ouvir no fone, talvez tamb\u00e9m. Fa\u00e7o disco pensando em fone de ouvido, mixo o disco com fone de ouvido, que \u00e9 algo que ningu\u00e9m faz, porque gosto de colocar coisas escondidas no disco. Aquilo de ter muitas camadas, e elas irem sendo achadas ao longo do tempo, tem um pouco a ver com isso. Gosto de premiar quem ouve o disco com fone. Mas uma coisa \u00e9 ouvir o disco com fone no sil\u00eancio, e outra \u00e9 ouvir no metr\u00f4, onde o barulho externo vai cortar uma por\u00e7\u00e3o de detalhes&#8230; Gosto da ideia de imers\u00e3o do fone, de fechar o olho e ouvir um disco falando s\u00f3 pra voc\u00ea. Poucos s\u00e3o os discos que me d\u00e3o um safan\u00e3o e me mandam parar pra escut\u00e1-los com a devida aten\u00e7\u00e3o. \u00c9 o caso da Joanna Newsom: parar pra ouvir o disco dela durante duas horas \u00e9 quase um ato pol\u00edtico, ouvir uma mulher ali cantando sobre universos que n\u00e3o s\u00e3o os seus, desconhecidos em boa parte das vezes. Tanto musicalmente como quando letrista, ela vai a uma s\u00e9rie de lugares que n\u00e3o s\u00e3o comuns. \u00c9 um comprometimento, voc\u00ea tem que parar pra fazer isso. E gosto disso: j\u00e1 vi filme de nove horas no cinema. Tem certa beleza nisso: a gente corre muito ultimamente, ent\u00e3o \u00e9 interessante falar &#8220;Vou ficar aqui durante nove horas vendo esse filme no cinema&#8221;. Um filme. Que nem sei se vai ser bom. Concordo com voc\u00ea, mas gostaria de concordar menos. M\u00fasica \u00e9 mais importante do que a gente costuma ver, mas tamb\u00e9m \u00e9 interessante esse fato dela ser meio &#8220;vagabunda&#8221;. A gente est\u00e1 t\u00e3o inserido no mundo em ouvir m\u00fasica por a\u00ed, em comercial, em qualquer lugar. Acho que a arte tem que ser assim, tem que estar ali para quem quiser pegar, tem que ir pra rua. N\u00e3o quero fazer m\u00fasica para um grupo espec\u00edfico de pessoas, mesmo sabendo que isso vai acontecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea quer ser ouvido?<\/strong><br \/>\nQuero. Se cantasse em portugu\u00eas, facilitava, mas quero sim. Existem n\u00edveis de compromisso que me permito ou n\u00e3o fazer. S\u00e3o bobagens minhas, mas s\u00e3o importantes. Claro que quero ser ouvido, n\u00e3o acredito em quem fala que quer ser underground. Esse lado meio &#8220;gueto&#8221; do punk-rock foi sempre algo que me afastou, isso de ser algo pra poucos. \u00c9 para poucos j\u00e1: cantar m\u00fasica em ingl\u00eas no Brasil \u00e9 pra poucos sim, e ponto final. Mas espero que, desses poucos, sejam todos. N\u00e3o vou ter o sucesso do Jota Quest, mesmo que tente fazer uma m\u00fasica parecida com a deles (risos). N\u00e3o tenho essa ilus\u00e3o, mas espero que a minha m\u00fasica seja o m\u00e1ximo que ela possa ser. Sen\u00e3o \u00e9 que nem assumir derrota antes de come\u00e7ar, e n\u00e3o acredito muito nisso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/pAL3ht0o9nA\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/pAL3ht0o9nA\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea teve uma banda por dez anos, que come\u00e7ou no interior e depois foi para o Rio de Janeiro, tocando l\u00e1 e que pode at\u00e9 ser chamada de &#8220;banda carioca&#8221;. Agora voc\u00ea tem o Driving Music. Queria saber como voc\u00ea v\u00ea a cena carioca nesses \u00faltimos tempos, porque existem aqueles que falam que ela morreu, enquanto tem gente que fala que ela nunca deixou de viver, e alguns que vem perspectiva nela de estar ressuscitando ou que ela nunca chegou a existir, que \u00e9 melhor ir pra S\u00e3o Paulo de uma vez&#8230;<\/strong><br \/>\n(interrompe) Mas existe cena em S\u00e3o Paulo, tamb\u00e9m?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 dif\u00edcil dizer. Existe porque todo mundo vem pra c\u00e1, porque tem bastante coisa aqui, mais gente que faz e que ouve m\u00fasica&#8230;<\/strong><br \/>\nGosto muito de S\u00e3o Paulo. Acho uma cidade muito interessante, e acredito que o Rio tem muito a aprender com S\u00e3o Paulo, e talvez S\u00e3o Paulo nem tanto com o Rio. Ando muito frustrado com o Rio. A cidade est\u00e1 indo para um caminho que acho muito triste.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas isso tem a ver com pol\u00edtica, com quem t\u00e1 no poder?<\/strong><br \/>\nCom a mentalidade do carioca de hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E que mentalidade \u00e9 essa?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o quero parecer preconceituoso, quero parecer conceituoso, mas acho muito sintom\u00e1tico que o Rio tenha um prefeito que \u00e9 da Barra da Tijuca. Ele era um prefeitinho da Barra, e hoje \u00e9 o prefeito da cidade. E a Barra nunca foi exatamente um caminho que eu achasse interessante para a cidade, e o Rio est\u00e1 cada vez ficando mais parecido com a Barra. N\u00e3o adianta nem ir contra porque as pessoas querem isso mesmo. Uma hora, talvez, vou ter que sair pra outro lugar. N\u00e3o sei se ficando seis meses em S\u00e3o Paulo eu ia ser t\u00e3o simp\u00e1tico \u00e0 cidade quanto sou hoje, vira outra rela\u00e7\u00e3o. Tem coisas que me incomodam em S\u00e3o Paulo: aqui tudo vira ag\u00eancia de publicidade. N\u00e3o d\u00e1 pra fazer arte em um clima desses. \u00c9 um problema s\u00e9rio porque s\u00e3o coisas realmente muito diferentes, e \u00e9 um limite que n\u00e3o pode se perder porque viraria uma trag\u00e9dia. Em compensa\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma cidade que demanda um cuidado com as coisas que o Rio poderia aprender. Aquilo de as coisas poderem ser mais bem feitas. Mas, musicalmente, confesso com alguma tristeza que ap\u00f3s dez anos de banda fiquei ressentido com a m\u00fasica no Rio. Existiu um momento muito interessante com v\u00e1rias bandas fazendo algo ali, dialogando o que eu fazia; em outro, se tornou uma necessidade enorme minha achar que n\u00e3o tinha ningu\u00e9m ali que fizesse algo parecido com o que eu fa\u00e7o, ou melhor do que eu podia fazer, e a\u00ed virava uma competi\u00e7\u00e3o maluca. \u00c9 algo p\u00e9ssimo, mas talvez tenha sido importante pra mim que isso acontecesse em algum momento. E a\u00ed me desacostumei de ir a shows, ouvir bandas novas. Agora estou voltando a ver algumas coisas e estou me surpreendendo de alguma maneira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Com a m\u00fasica feita no Rio hoje?<\/strong><br \/>\n\u00c9. S\u00e3o coisas que digo que talvez n\u00e3o sejam exatamente o que eu gostaria que estivessem acontecendo, ou que eu veja como um caminho legal para a m\u00fasica carioca ou brasileira, mas h\u00e1 um caminho. Existe gente apontando pra algum lugar, e isso \u00e9 uma novidade. Nessa semana fui num show na Audio Rebel, que \u00e9 uma casa de shows que adoro. Ela \u00e9 de pessoas que tinham banda na \u00e9poca que eu tinha o Invisibles, e investiram em aparelhagem de som, fazendo uma casa de show que tamb\u00e9m \u00e9 est\u00fadio que tamb\u00e9m \u00e9 loja que tamb\u00e9m \u00e9 albergue&#8230; Fui ver o show do Dorgas l\u00e1, que eu nunca tinha visto. Continuei meio sem ver porque o show atrasou muito, e acabei tendo que ir embora no meio, peguei s\u00f3 tr\u00eas m\u00fasicas (risos). Mas vi a banda que abriu pra eles, que chama Novocaines, e vi coisas muito interessantes ali. O frontman cantava bem e tocava guitarra excepcionalmente bem, com o dedo, em um estilo particular. S\u00e3o garotos, com vinte e poucos anos, com uma pegada de rock setentista com alguma coisa de m\u00fasica brasileira, eles tocaram uma cover de Jorge Mautner. Achei interessante ver aquilo. N\u00e3o sei se eu chegaria em casa e botaria o disco para escutar, mas achei bacana que exista gente fazendo aquilo hoje. Mas, um pouco por conta desse ressentimento, que espero que esteja passando agora, m\u00fasica pra mim sempre foi algo solit\u00e1rio. Nunca tive muito di\u00e1logo com outras bandas, nunca achei que as coisas que a gente fazia vinham da mesma base. Hoje eu tenho boas conversas com outros m\u00fasicos&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os m\u00fasicos que hoje s\u00e3o da Driving Music vieram todos de outras bandas&#8230;<\/strong><br \/>\n\u00c9. O PELVs \u00e9 uma banda que sempre achei muito boa. Tinha muitos problemas, mas com um compositor muito inspirado e com melodias que eu achava muito bonitas. Estou cercado de pessoas que admiro. At\u00e9 mesmo pra vir tocar aqui na Casa do Mancha, teve toda uma ponte com o pessoal do Supercordas. S\u00e3o bandas que conhe\u00e7o mal os discos, mas j\u00e1 ouvi e achei bacanas. Ouvi o disco do Bonifrate, e acho um disco legal, e sinto um ponto comum pra gente ter conversa e interlocu\u00e7\u00e3o, que \u00e9 algo que eu senti por muito tempo que tinha se perdido. Sou talvez uma das pessoas menos indicadas pra falar da cena do Rio, porque passei muito tempo sem ver nada, mas o que tenho visto hoje em dia me anima mais do que me animava h\u00e1 cinco anos. Tem uma galera de m\u00fasica experimental surgindo dentro do AudioRebel, tem o Chinese Cookie Poets. Tem coisas interessantes sendo feitas, tem pensamento por tr\u00e1s. O problema do punk-rock \u00e9 que n\u00e3o existia o pensamento. Tinha muito impulso e pouca ideia, pouco direcionamento. E acho que hoje em dia tem gente com direcionamento no Rio, o que pra mim est\u00e1 sendo estimulante. Como acho o R\u00f4mulo Fr\u00f3es um cara que tem um direcionamento estimulante, embora seja um dos casos de discos que eu ache pessimamente mal gravado. R\u00f4mulo \u00e9 um compositor que n\u00e3o tenho d\u00favida do talento. No Rio, hoje, na verdade, a banda que a gente mais toca junto hoje tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma banda, \u00e9 um cara s\u00f3, que \u00e9 o M\u00e1rio Maria, que \u00e9 um cara extremamente talentoso e faz m\u00fasicas que adoro. Ele grava de uma maneira muito mais prec\u00e1ria do que eu, porque ele grava com o microfone do pr\u00f3prio laptop e a\u00ed capta tudo mesmo o que tem ao redor. Existem coisas que acho fascinantes nele. Eu sentia falta de ter pessoas com quem conversar sobre m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas voc\u00ea pode conversar sobre m\u00fasica com qualquer pessoa&#8230;<\/strong><br \/>\nSim, mas hoje converso como um fazedor de m\u00fasica, n\u00e3o s\u00f3 como quem ouve m\u00fasica, mas sim da perspectiva de quem faz m\u00fasica. As pessoas que fazem algo olham para aquilo de maneira diferente do que as pessoas que simplesmente s\u00f3 se relacionam com aquilo. \u00c9 o meu caso com o cinema: n\u00e3o sou um diretor, embora at\u00e9 escreva alguns roteiros para cinema e sobre cinema. N\u00e3o vou conseguir ter com um diretor uma rela\u00e7\u00e3o que dois diretores t\u00eam entre si, porque eles t\u00eam esse ponto em comum entre si. N\u00e3o \u00e9 o mesmo papo que vou ter com um artista pl\u00e1stico, embora todos sejamos artistas, e achemos um meio de conversa. Mas a especificidade da conversa estava perdida pra mim, e consigo v\u00ea-la voltando com algumas bandas, e algumas pessoas. \u00c9 pequeno, e devagar, mas n\u00e3o me preocupo em fazer tudo r\u00e1pido. N\u00e3o, o Rio n\u00e3o est\u00e1 bem. Mas ele j\u00e1 esteve muito pior, e isso me d\u00e1 um alento.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-13462\" title=\"driving2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/driving2.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"403\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/driving2.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/driving2-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Bruno Capelas \u00e9 estudante de jornalismo e assina o blog\u00a0<a href=\"http:\/\/pergunteaopop.blogspot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pergunte ao Pop<\/a>. Fotos por Clarissa de Oliveira. Tanto o \u00e1lbum &#8220;Comic Sans&#8221; quanto o &#8220;EP 2010&#8221; est\u00e3o dispon\u00edveis para download gratuito no site oficial do Driving Music: <a href=\"http:\/\/pergunteaopop.blogspot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/driving-music.net\/home\/<br \/>\n<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Bruno Capelas\nEm um papo cheio de boas ideias para refletir e discutir, F\u00e1bio Andrade apresenta a banda Driving Music. 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