{"id":1338,"date":"2009-04-29T21:17:54","date_gmt":"2009-04-30T00:17:54","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=1338"},"modified":"2023-04-19T23:15:47","modified_gmt":"2023-04-20T02:15:47","slug":"sinedoque-nova-york-de-charlie-kaufman","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/04\/29\/sinedoque-nova-york-de-charlie-kaufman\/","title":{"rendered":"Cinema: &#8220;Sin\u00e9doque Nova York&#8221;, de Charlie Kaufman, derrapa na hora de juntar as pe\u00e7as de um imenso quebra-cabe\u00e7a chamado\u2026 filme"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1339\" title=\"&quot;Sin\u00e9doque Nova York&quot;\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/sinedoque.jpg\" alt=\"\"><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Por Marcelo Costa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida de Caden Cotard est\u00e1 um caos. Ele \u00e9 dramaturgo e est\u00e1 finalizando uma pe\u00e7a de teatro, mas o caos come\u00e7a em casa. Sua filha est\u00e1 fazendo coc\u00f4 verde, o leite est\u00e1 vencido e sua mulher, uma pintora bastante particular, j\u00e1 n\u00e3o o ama mais. S\u00f3 estas primeiras linhas j\u00e1 poderiam render um filme, mas o espectador n\u00e3o tem a m\u00ednima id\u00e9ia do que lhe espera ap\u00f3s esta apresenta\u00e7\u00e3o inicial de &#8220;Sin\u00e9doque Nova York&#8221;, estr\u00e9ia na dire\u00e7\u00e3o do badalado roteirista Charlie Kaufman.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kaufman debutou no cinema assinando o roteiro de &#8220;Quero ser John Malkovich&#8221;, dirigido por Spike Jonze, que voltaria a trabalhar com o roteirista em &#8220;Adapta\u00e7\u00e3o&#8221;. O roteirista ainda assinou duas parceiras com Michel Gondry, &#8220;A Natureza Quase Humana&#8221; e &#8220;Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembran\u00e7as&#8221;. Por \u00faltimo, George Clooney dirigiu um roteiro dele em &#8220;Confiss\u00f5es de uma Mente Perigosa&#8221;. Apesar da varia\u00e7\u00e3o de diretores, a personalidade de Kaufman brilha (\u00e0s vezes mais, outras menos) nos cinco filmes escritos por ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com um hist\u00f3rico brilhante conquistado menos de 10 anos de cinema, nada mais natural que esperar que o roteirista ouse ainda mais em seu filme de estr\u00e9ia como diretor, por\u00e9m ningu\u00e9m poderia imaginar que \u2013 sem ningu\u00e9m para lhe dar tapinhas na m\u00e3o \u2013 Charlie Kaufman poderia ir t\u00e3o longe em &#8220;Sin\u00e9doque Nova York&#8221;, uma f\u00e1bula com tons de absurdo que s\u00f3 encontra concorrente no cinema moderno nas obras de David Lynch, que chega inclusive a soar como refer\u00eancia em algumas passagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os vinte primeiros minutos de &#8220;Sin\u00e9doque Nova York&#8221; s\u00e3o deliciosos, por\u00e9m Charlie Kaufman leva seus personagens por trilhas dif\u00edceis de acompanhar nos 104 minutos seguintes. H\u00e1 em &#8220;Sin\u00e9doque Nova York&#8221; um pouco de cada um dos outros roteiros assinados por Kaufman, que volta a investigar temas que lhe s\u00e3o t\u00e3o caros como o senso de inadequa\u00e7\u00e3o do homem moderno (chegando ao ponto de, no final, n\u00e3o sabermos se Caden Cotard (interpretado muito bem por Philip Seymour Hoffman) e a loucura que cerca o momento da cria\u00e7\u00e3o (e d\u00e1-lhe metalinguagem).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o acredite na simplicidade, meu amigo (a). Esses dois temas est\u00e3o longe de esgotar &#8220;Sin\u00e9doque Nova York&#8221;. Tanta coisa surge pela tela que muitas portas abertas n\u00e3o se fecham e \u00e9 preciso bin\u00f3culos para perceber os detalhes como se estiv\u00e9ssemos observando uma bel\u00edssima pintura de menos de um cent\u00edmetro de comprimento. Ap\u00f3s o p\u00e2nico inicial, Charlie Kaufman deixa seus personagens caminharem sozinhos dentro de um enorme galp\u00e3o, e ali o filme se desenrola com os personagens principais virando coadjuvantes de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A guia para a loucura de Kaufman parece contar o seguinte: Adele, sua esposa, o deixou e levou consigo sua pequena filha Olive, de apenas 4 anos, para a Alemanha. Neste meio tempo, o dramaturgo recebe um pr\u00eamio de uma funda\u00e7\u00e3o que ap\u00f3ia a genialidade, e Caden se v\u00ea diante de seu maior sonho: escrever a melhor pe\u00e7a de teatro j\u00e1 escrita. Ele muda para Nova York, e constr\u00f3i uma pequena Nova York dentro de um galp\u00e3o. Os anos passam. As d\u00e9cadas passam, mas ele acha que foram dias. Cria-se um mito em torno da pe\u00e7a, e aos poucos fragmentos se juntam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seu primeiro longa-metragem, Charlie Kaufman quis abra\u00e7ar o mundo e falar tudo \u00e0quilo que queria falar para o p\u00fablico, desde a crueldade da arte que seduz o artista fazendo-o ref\u00e9m de si mesmo para, por fim, devor\u00e1-lo, passando por discuss\u00f5es filos\u00f3ficas acerca de &#8220;temas simples&#8221; (risos) como a vida, a morte, e a raz\u00e3o de se estar respirando neste mundo velho sem porteira at\u00e9 a completa falta de criatividade. Kaufman quis, mas n\u00e3o conseguiu. Falta ritmo para &#8220;Sin\u00e9doque Nova York&#8221;, que come\u00e7a c\u00f4mico e leve para terminar triste, amargo e introspectivo \u2013 como a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pela brecha aberta pelo filme sentimos a necessidade de algu\u00e9m que dome os impulsos de g\u00eanio de Charlie Kaufman, e os transforme em grande cinema como j\u00e1 aconteceu com &#8220;Quero ser John Malkovich&#8221; e &#8220;Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembran\u00e7as&#8221; (que rendeu a Kaufman o Oscar de Roteiro Original). Sozinho com a dire\u00e7\u00e3o e o roteiro em suas m\u00e3os, ele parece perdido (e s\u00f3 parece, pois \u00e9 bem poss\u00edvel \u2013 mais risos \u2013 que haja sim sentido em toda maluquice exposta na tela) como seu alter-ego Caden Cotard, que acaba tornando-se c\u00f3pia de si mesmo \u2013 e leva todo mundo consigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o tome essa perdi\u00e7\u00e3o conjunta proposta por Kaufman como dem\u00e9rito. Ele quer trazer o espectador para a trama, e em muitas passagens comove os olhos e toca a alma, mas parece derrapar na hora de juntar as pe\u00e7as deste imenso quebra-cabe\u00e7a chamado&#8230; filme. A grande quest\u00e3o, \u00f3bvia, \u00e9 que na verdade as pe\u00e7as est\u00e3o todas em ordem na cabe\u00e7a dele, mas para quem est\u00e1 de fora, juntar \u00e9 uma tarefa \u00e1rdua. O f\u00e3 do bom cinema de autor pode se arriscar sem medo de ser feliz, embora corra o grande risco de sair da sala do cinema n\u00e3o entendendo patavina do que viu. Ainda assim ser\u00e1 melhor do que assistir a &#8220;Velozes e Furiosos 4&#8221;, &#8220;Se Eu Fosse Voc\u00ea 2&#8221; e &#8220;Press\u00e1gio&#8221;. F\u00e1cil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Sin\u00e9doque Nova York&#8221;, de Charlie Kaufman<\/strong> \u2013 Cota\u00e7\u00e3o 2\/5<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-1340 aligncenter\" title=\"&quot;Sin\u00e9doque Nova York&quot;\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/sinedoque_foto.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"313\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/sinedoque_foto.jpg 520w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/sinedoque_foto-300x188.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8220;Adapta\u00e7\u00e3o&#8221;, por Marcelo Costa (<a href=\"http:\/\/www.gardenal.org\/bscene\/cinema\/adaptacao.htm\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8220;Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembran\u00e7as&#8221;, por Marcelo Costa (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/cinemadois\/brilhoeterno.html\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Marcelo Costa\nA vida de Caden Cotard est\u00e1 um caos. 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