{"id":128,"date":"2007-10-15T07:30:00","date_gmt":"2007-10-15T09:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/colunistas.ig.com.br\/revoluttion\/2007\/10\/15\/disco-da-semana-in-rainbows-do-radiohead\/"},"modified":"2024-02-06T14:14:14","modified_gmt":"2024-02-06T17:14:14","slug":"disco-da-semana-in-rainbows-do-radiohead","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/10\/15\/disco-da-semana-in-rainbows-do-radiohead\/","title":{"rendered":"M\u00fasica: &#8220;In Rainbows&#8221;, do Radiohead, \u00e9 muito mais &#8220;Kid A&#8221; (e &#8220;Com Lag&#8221;) do que &#8220;Hail To The Thief&#8221;. E \u00e9 um disca\u00e7o!"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/03\/radiohead_inrainbows.jpg\" \/><\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto por Marcelo Costa<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde a quarta-feira passada dia 10, &#8220;In Rainbows&#8221;, s\u00e9timo \u00e1lbum de in\u00e9ditas do Radiohead, pode ser comprado em vers\u00e3o MP3 pelo site oficial da banda. O pre\u00e7o \u00e9 por conta do fregu\u00eas, mas custa no m\u00ednimo US$ 0,45 &#8211; valor que a administradora de cart\u00e3o de cr\u00e9dito cobra para efetuar a transa\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, para todos aqueles que n\u00e3o possuem um cart\u00e3o de cr\u00e9dito internacional e\/ou n\u00e3o acreditam na postura pol\u00edtica da banda de deixar o pre\u00e7o de seu trabalho para o pr\u00f3prio comprador, &#8220;In Rainbows&#8221; j\u00e1 est\u00e1 &#8220;dispon\u00edvel&#8221; em centenas de blogs e, no mesmo dia do lan\u00e7amento, mais de 50 usu\u00e1rios do Soulseek ofereciam o \u00e1lbum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Independente da forma que voc\u00ea vai obter as m\u00fasicas, uma coisa \u00e9 certa: &#8220;In Rainbows&#8221; \u00e9 um dos melhores discos que o Radiohead j\u00e1 lan\u00e7ou, e s\u00f3 isso representa muito, visto que a estrat\u00e9gia de lan\u00e7amento do \u00e1lbum foi t\u00e3o avassaladora e revolucion\u00e1ria que a banda corria o risco de deixar as can\u00e7\u00f5es em segundo plano. Isso n\u00e3o acontece porque &#8220;In Rainbows&#8221; re\u00fane um grupo conciso de can\u00e7\u00f5es que representa &#8211; e bem &#8211; a musicalidade de uma das bandas mais inteligentes dos \u00faltimos dez anos na m\u00fasica pop. &#8220;In Rainbows&#8221; come\u00e7a acelerado, violento, com batidas eletr\u00f4nicas se atropelando, detalhes de guitarras, crian\u00e7as berrando e efeitos para ir diminuindo a velocidade com o decorrer do disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s o an\u00fancio da banda &#8211; no dia 01 de outubro &#8211; sobre o lan\u00e7amento de um novo disco pipocaram na web dezenas de bootlegs contendo vers\u00f5es ao vivo das can\u00e7\u00f5es que iriam compor &#8220;In Rainbows&#8221;. Apesar da qualidade excelente da maioria das grava\u00e7\u00f5es, nenhuma alcan\u00e7a o n\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum nem d\u00e1 ao ouvinte uma id\u00e9ia clara do que a banda tem em sua mente perturbada. Se ao vivo as guitarras se sobressaiam, em est\u00fadio eles ainda marcam presen\u00e7a, mas as eletronices \u00e9 quem chamam a aten\u00e7\u00e3o. O interessante, por\u00e9m, \u00e9 que o Radiohead alcan\u00e7ou um est\u00e1gio raro na m\u00fasica pop: o de criar p\u00e9rolas atemporais. Quem trabalha com eletr\u00f4nica corre o imenso risco de soar datado no minuto seguinte, mas o Radiohead sai pela tangente trabalhando a melodia e alimentando os arranjos com centenas de detalhes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;15 Step&#8221; abre o \u00e1lbum com batidas de bateria se misturando a scratchs. At\u00e9 os 40 segundos \u00e9 s\u00f3 batida e a voz de Thom Yorke criando o clima, convidando o ouvinte a penetrar no mundo esquisito do Radiohead. Convite aceito, e uma guitarrinha esperta marca o canal esquerdo enquanto batidas se atropelam, crian\u00e7as berram, o baixo d\u00e1 um oi e teclados g\u00e9lidos fazem nevar sobre a melodia. Quando se percebe, era uma vez a can\u00e7\u00e3o. &#8220;Bodysnatchers&#8221; surge e \u00e9 uma porrada sensacional. Guitarras sujas disputam espa\u00e7o com a bateria &#8211; eletr\u00f4nica e humana &#8211; afundando a voz de Thom Yorke no refr\u00e3o, que diz: <em>&#8220;Eu n\u00e3o tenho a m\u00ednima id\u00e9ia sobre o que estou falando \/ Estou preso neste corpo e n\u00e3o posso sair&#8221;.<\/em> Os teclados g\u00e9lidos voltam a surgir, e remetem a trilogia berlinense de David Bowie. No final, a can\u00e7\u00e3o parece um carro desgovernado. As guitarras aumentam, a batida da bateria acelera e tudo acaba abruptamente em microfonia. Candidata a cl\u00e1ssico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois da tempestade, a calmaria. &#8220;Nude&#8221; j\u00e1 era conhecida fazia tempo, e a vers\u00e3o final da can\u00e7\u00e3o (que pode ser encontrada em mais uns cinco arranjos diferentes por ai tamb\u00e9m com o nome de &#8220;Big Ideas&#8221;) transformou a m\u00fasica em uma balada glacial com backings e teclados fazendo a cama em que os desejos sombrios se deitam, se enrolam e se enforcam: <em>&#8220;N\u00e3o tenha grandes id\u00e9ias \/ Elas n\u00e3o v\u00e3o acontecer \/ Voc\u00ea ira para o inferno \/ Para o que sua mente suja pensa&#8221;, <\/em>diz a letra, que ainda avisa, no refr\u00e3o: <em>&#8220;Ela te beija com a l\u00edngua e te empurra para a cama: n\u00e3o v\u00e1, voc\u00ea vai querer voltar de novo&#8221;<\/em>. Thom Yorke canta magnificamente bem. &#8220;Weird Fishes\/Arpeggi&#8221; \u00e9 o que nome sugere: duas can\u00e7\u00f5es em uma. Na primeira parte a bateria \u00e9 sincopada e repetitiva, com uma guitarra comandando, outra uma oitava abaixo no canal esquerdo, e uma terceira surgindo para engrossar a melodia alguns segundos depois. Ap\u00f3s os quatro minutos (quando come\u00e7a a segunda parte), a can\u00e7\u00e3o fica fantasmag\u00f3rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na bel\u00edssima &#8220;All I Need&#8221; quem toma as r\u00e9deas \u00e9 o contrabaixo, desnudo e poderoso. Um pianinho surge mais a frente, mas a can\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 t\u00e3o impregnada na pele que fica dif\u00edcil retirar a linha de baixo da cabe\u00e7a. \u00c9 neste momento que o caos surge com Thom Yorke gritando: <em>&#8220;Est\u00e1 tudo errado, est\u00e1 tudo certo, est\u00e1 toda errada&#8221;<\/em>. &#8220;Faust Arp&#8221; \u00e9 ac\u00fastica e traz viola e cordas. Soa estranha e bela ap\u00f3s toda tempestade de baterias eletr\u00f4nicas segundos atr\u00e1s, como se fosse um momento de reflex\u00e3o no meio do fim do mundo. As baterias retornam martelando de forma descompassada em &#8220;Reckoner&#8221;, que lembra muito a safra &#8220;Kid A&#8221; e termina perguntando: <em>&#8220;Eu atendo a todas as suas necessidades?&#8221;<\/em> &#8220;House of Cards&#8221; \u00e9 um dos pontos altos de &#8220;In Rainbows&#8221;, um jazzinho eletr\u00f4nico espacial de fazer rob\u00f4s chorarem. Na letra, o personagem diz que n\u00e3o quer amizade, s\u00f3 sexo, aconselha a outra parte a esquecer de seu castelo de cartas, pois ele vai desabar, mas antes avisa: <em>&#8220;Jogue as chaves na tigela e d\u00ea um beijo de boa noite em seu marido<\/em>&#8221; (assista &#8220;Tempestade de Gelo&#8221;, de Ang Lee, que a frase &#8211; e a letra &#8211; se explica).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O disco est\u00e1 chegando ao fim, mas antes uma surpresa: &#8220;Jigsaw Falling Into Place&#8221; &#8211; outra famosa nas edi\u00e7\u00f5es bootleg, tamb\u00e9m conhecida como &#8220;Open Pick&#8221; &#8211; aparece com viol\u00f5es onde antes a guitarra comandava, e joga a vers\u00e3o final da can\u00e7\u00e3o para o grupo de m\u00fasicas nota 10 de &#8220;In Rainbows&#8221; ao chocar viol\u00f5es com bateria eletr\u00f4nica. As portas se fecham com baterias em eco e clima de despedida. \u00c9 &#8220;Videotape&#8221;, m\u00fasica em que Thom Yorke avisa: <em>&#8220;Esta \u00e9 minha maneira de dizer adeus \/ Porque eu n\u00e3o posso fazer isso cara-a-cara \/ Estou conversando com voc\u00ea \/ Antes que isso seja tarde demais \/ Atrav\u00e9s de meu videotape&#8221;<\/em>. O clima \u00e9 de lirismo. Thom come\u00e7a cantando sobre notas de piano. No refr\u00e3o, a bateria surge com ecos acompanhando a repeti\u00e7\u00e3o da palavra videotape, e fica quase at\u00e9 o final, quando a letra fecha a can\u00e7\u00e3o (e o \u00e1lbum) de forma encantadora: <em>&#8220;N\u00e3o importa o que acontece agora \/ Eu n\u00e3o terei medo \/ Porque hoje eu sei que terei tido \/ O dia mais perfeito que eu j\u00e1 vi&#8221;<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;In Rainbows&#8221; satisfaz toda ansiedade que surge na espera por um novo disco do Radiohead. \u00c9 um disco muito mais &#8220;Kid A&#8221; (e &#8220;Com Lag&#8221;) do que &#8220;Hail To The Thief&#8221;, e surge como um dos grandes \u00e1lbuns do quinteto brit\u00e2nico. Dez dias atr\u00e1s escrevi um texto sobre a genial pira\u00e7\u00e3o da banda em lan\u00e7ar o disco ela mesma, sem atravessadores (gravadoras), e apontei o grupo como o melhor dos \u00faltimos dez anos. Alguns leitores chiaram, mas acho que ainda n\u00e3o entenderam a import\u00e2ncia do Radiohead, musical e pol\u00edtica, para o cen\u00e1rio pop mundial. Certa vez escrevi (j\u00e1 faz um cinco anos) uma teoria da conspira\u00e7\u00e3o que versava sobre a descentraliza\u00e7\u00e3o da cultura norte-americana e anglo-sax\u00e3 via m\u00fasica pop mundial, cujo mote partia da for\u00e7a motriz de quatro bandas que faziam m\u00fasica para si mesmas deixando o fil\u00e3o sem her\u00f3is nem m\u00e1rtires <a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/outros\/macsete.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">(a id\u00e9ia toda est\u00e1 aqui)<\/a>: Radiohead, Flaming Lips, Mercury Rev e Wilco. Destas quatro, o Radiohead ainda \u00e9 a mais inventiva; ainda \u00e9 a banda que leva a m\u00fasica pop para o futuro; ainda faz pop exc\u00eantrico para as massas; ainda \u00e9 capaz de balan\u00e7ar o mundo do entretenimento com uma simples proposta (musical ou pol\u00edtica). N\u00e3o estamos falando de pouca coisa, caro leitor. \u00c9 a m\u00fasica como filosofia de vida, punk 77 vers\u00e3o 07. &#8220;In Rainbows&#8221; n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o disco da semana: \u00e9 o disco do ano. Nos vemos em dezembro.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"In Rainbows\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_lvqkQRb8iVo2obChPXi9XFRLoIyaxbTj8\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Radiohead - In Rainbows From the Basement (April 2008)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/DWuAn6C8Mfc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Marcelo Costa (<a href=\"http:\/\/twitter.com\/#%21\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@screamyell<\/a>) edita o Scream &amp; Yell e assina a Calmantes com Champagne<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;In Rainbows&#8221; satisfaz toda ansiedade que surge na espera por um novo disco do Radiohead. \u00c9 um disco muito mais &#8220;Kid A&#8221; (e &#8220;Com Lag&#8221;) do que &#8220;Hail To The Thief&#8221;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/10\/15\/disco-da-semana-in-rainbows-do-radiohead\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[341],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/128"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=128"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/128\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":79361,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/128\/revisions\/79361"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=128"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=128"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=128"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}