{"id":12651,"date":"2012-02-17T08:14:28","date_gmt":"2012-02-17T10:14:28","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=12651"},"modified":"2016-10-13T10:20:59","modified_gmt":"2016-10-13T13:20:59","slug":"cohen-classe-dignidade-e-elegancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/02\/17\/cohen-classe-dignidade-e-elegancia\/","title":{"rendered":"Cohen: classe, dignidade e eleg\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12653\" title=\"oldiideas\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/oldiideas.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/eduardomarciano\" target=\"_blank\">Gabriel Innocentini<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cOld Ideas\u201d. Leonard Cohen fez quest\u00e3o de deixar claro desde o t\u00edtulo: estamos em mundo de valores antigos. O que n\u00e3o significa dizer valores retr\u00f3grados. Quando cantou &#8220;The Future&#8221;, no come\u00e7o dos anos 1990, o &#8220;godfather of gloom&#8221; j\u00e1 dava como certa a degrada\u00e7\u00e3o na maneira com que os seres humanos se relacionavam. A quest\u00e3o que se impunha era: como viver nessa terra desolada? &#8220;Old Ideas&#8221; \u00e9 sua melhor resposta a tal interroga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Going Home&#8221; abre o disco com um breve coro feminino, como se estiv\u00e9ssemos em um lugar sagrado. \u00c9 o retorno de um mito, afinal. A primeira cole\u00e7\u00e3o de can\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas em oito anos. Em tom jocoso, o compositor subverte essa aura divina, recitando de modo mon\u00f3tono: &#8220;Amo conversar com Leonard Cohen \/ Ele \u00e9 um esportista e um pastor \/ Ele \u00e9 um bastardo folgado\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para entender o retorno deste mito \u00e9 preciso saber o motivo que o levou a voltar a compor e a cantar. Se dependesse de Cohen, ele ainda estaria meditando sobre a vida num mosteiro budista, local em que talvez tenha passado mais de metade de sua exist\u00eancia \u2013 vem da\u00ed esse desapego com a pr\u00f3pria pessoa, um humor agora depurado pela finitude da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para azar dele, e sorte nossa, sua empres\u00e1ria roubou todas as suas economias, fazendo com que Cohen se dispusesse a voltar aos palcos em uma longa turn\u00ea (que rendeu dois \u00e1lbuns ao vivo: \u201cLive in London\u201d, de 2008, e \u201cSongs From the Road\u201d, 2010) e \u00e0s grava\u00e7\u00f5es. Isto \u00e9, seu retorno surge a partir da corrup\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m em quem o \u201cgrocer of despair\u201d confiava. Assim como os salmistas oferecem suas can\u00e7\u00f5es a Deus, Leonard Cohen nos oferta suas d\u00favidas: como ser verdadeiro com os outros, tanto quanto se \u00e9 verdadeiro consigo mesmo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ele quer escrever uma can\u00e7\u00e3o de amor \/ Um hino ao perd\u00e3o \/ Um manual para viver com a derrota&#8221;. S\u00e3o ideias antigas, de dignidade e resist\u00eancia, que Cohen transmite. Ele sabe que n\u00e3o precisa mais cantar, recitando quase todas suas medita\u00e7\u00f5es contra bases de Hammond (o que d\u00e1 um som quente a muitas can\u00e7\u00f5es) e baixos sintetizados, auxiliado por coros delicados e discretas bases de bateria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de ouvir um grande mon\u00f3logo, uma grande medita\u00e7\u00e3o sobre a exist\u00eancia, j\u00e1 que n\u00e3o temos grandes sobressaltos com a melodia e a harmonia das can\u00e7\u00f5es. \u00c9 a depura\u00e7\u00e3o de um processo que come\u00e7ou em &#8220;Various Positions&#8221; (1984), com a ado\u00e7\u00e3o de sintetizadores, e se aprofundou com &#8220;I&#8217;m Your Man&#8221; (1988), quando Cohen uniu bases eletr\u00f4nicas e orquestra\u00e7\u00f5es. Neste sentido, como n\u00e3o apresenta novidades nem arranjos complexos, &#8220;Old Ideas&#8221; pode levar algu\u00e9m a pensar que \u00e9 um disco mais para ser lido do que ouvido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se pode, contudo, esquecer que a voz \u00e9 um dos elementos principais do disco. Na \u00e9poca de &#8220;Various Position&#8221;, Leonard Cohen recebeu um conselho do mestre zen-budista Sasaki Roshi: &#8220;Voc\u00ea devia cantar mais triste. Porque voc\u00ea \u00e9 assim&#8221;. Agora o conselho foi seguido \u00e0 risca e, com o minimalismo dos arranjos, faz com que nossa aten\u00e7\u00e3o se volte inteiramente para sua voz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos 77 anos, a voz de Cohen est\u00e1 esculpida pelo tempo, pelo \u00e1lcool e pelo cigarro, uma voz de aut\u00eantica sabedoria, a quem se deve prestar aten\u00e7\u00e3o: &#8220;Mostre-me o lugar \/ onde a Palavra um homem se tornou \/ Mostre-me o lugar \/ onde o sofrimento come\u00e7ou&#8221;. Em alguns momentos ouvimos a penit\u00eancia de um homem, bem ao estilo Cohen, \u00e9 claro, como em &#8220;Anyhow&#8221;, que termina com o apelo &#8220;Tenha piedade de mim&#8221;. Vai longe o tempo em que escrever e cantar &#8220;Chelsea Hotel #2&#8221; parecia correto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O in\u00edcio de &#8220;Darkness&#8221;, com seu dedilhado pontuado pelos bord\u00f5es, pode fazer os f\u00e3s mais saudosos pensarem que o Leonard Cohen do per\u00edodo voz e viol\u00e3o est\u00e1 de volta. Mas logo com cerca de 30 segundos entram o teclado, a bateria e o coro, numa das can\u00e7\u00f5es mais empolgantes do disco, apesar do tema: &#8220;Apanhei as trevas \/ bebendo do seu copo \/ e perguntei: \u00e9 contagiosa? \/ Voc\u00ea disse: beba-a&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/WzbH8e3Byfg\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/WzbH8e3Byfg\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cCrazy Love\u201d reverte a decep\u00e7\u00e3o nost\u00e1lgica com &#8220;Darkness&#8221;. No entanto, ele adota um distanciamento frio: &#8220;Estou velho e os espelhos n\u00e3o mentem \/ Mas o louco tem lugares mais profundos \/ para se esconder do que dizer adeus&#8221;. Poucos compositores s\u00e3o capazes de escrever versos desse quilate hoje em dia. Em alguns momentos, como em \u201cAmen\u201d, Cohen se aproxima de uma expectativa rilkeana por Deus: \u201cEstamos sozinhos e estou ouvindo \/ ouvindo com tanta for\u00e7a que chega a doer\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegamos ent\u00e3o a &#8220;Come Healing&#8221;, centro espiritual do disco. Se voc\u00ea n\u00e3o se arrepiar aqui \u00e9 melhor deitar e n\u00e3o levantar mais. Um coro feminino canta as primeiras estrofes, pedindo pela cura do corpo e da mente. A can\u00e7\u00e3o flutua num espa\u00e7o quase sagrado. Uma pausa curta e ent\u00e3o Cohen, com a voz esmagada, mas inacreditavelmente firme, diminui suavemente a entona\u00e7\u00e3o, como se descesse \u00e0 Terra para cantar: &#8220;Eis as portas da miseric\u00f3rdia \/ no espa\u00e7o arbitr\u00e1rio \/n enhum de n\u00f3s merece \/ gra\u00e7a ou crueldade&#8221;. Este \u00e9 o espa\u00e7o onde o ser humano pode alcan\u00e7ar a reden\u00e7\u00e3o, ainda em plano terreno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 dif\u00edcil acreditar que o disco tenha ainda mais tr\u00eas can\u00e7\u00f5es depois deste testamento musical, po\u00e9tico e espiritual. Cohen louva o mundo material novamente em &#8220;Banjo&#8221;, folk despretensioso e at\u00e9 leve perto do que acabamos de ouvir. Com slide guitar e gaitinha &#8220;Lullaby&#8221; encaminha o disco discretamente para o final. &#8220;Different Sides&#8221; encerra o disco com uma letra complexa, que demanda muitas audi\u00e7\u00f5es at\u00e9 uma compreens\u00e3o mais clara sobre quais lados seriam esses (amorosos, religiosos, ambos talvez).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algu\u00e9m mais ranzinza pode dizer que tudo n\u00e3o passa de venera\u00e7\u00e3o a um mito que poderia estar enterrado. Que \u00e1lbuns vindos da cova j\u00e1 se tornaram um novo nicho no mercado (Johnny Cash resgatado por Rick Rubin, Bob Dylan cantando do outro lado de l\u00e1 em &#8220;Time Out of Mind&#8221;). Argumentos como esses soam mesquinhos diante de uma medita\u00e7\u00e3o desprovida de sentimentalismo, t\u00e3o distante da superficialidade despreocupada e da exalta\u00e7\u00e3o vazia, comuns em nosso tempo. Cantar a morte n\u00e3o d\u00e1 ibope.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Old Ideas&#8221; continuar\u00e1 a ser ouvido, n\u00e3o apenas porque podem ser as \u00faltimas palavras de um mito, mas porque dizem respeito \u00e0 exist\u00eancia, porque s\u00e3o transmitidas com sabedoria e gravidade, compaix\u00e3o e humor. A obra e a vida de Cohen s\u00e3o uma busca de valores como disciplina, integridade e generosidade. Comportar-se com dignidade na hora da morte, este \u00e9 apenas um dos legados de Leonard Norman Cohen, um homem que certa vez escreveu: &#8220;Se n\u00e3o se tornar o oceano \/ voc\u00ea vai ficar enjoado \/ todos os dias&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/maccosta\/2692407920\/\" target=\"_blank\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12659\" title=\"leo_cohen\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/leo_cohen.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/leo_cohen.jpg 600w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/leo_cohen-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&#8211; Gabriel Innocentini (siga <a href=\"http:\/\/twitter.com\/eduardomarciano\" target=\"_blank\">@eduardomarciano<\/a>) \u00e9 jornalista e j\u00e1 escreveu para o Scream &amp; Yell sobre Tom Waits (<a href=\"..\/2011\/12\/22\/a-urgencia-de-tom-waits\/\">aqui<\/a>), Thomas Pynchon (<a href=\"..\/2011\/10\/29\/livvro-vicio-inerente-de-thomas-pynchon\/\">aqui<\/a>), Charles Bukowski (<a href=\"..\/2011\/07\/04\/nas-beiradas-do-sonho-americano\/\">aqui<\/a>), Jorge Ben (<a href=\"..\/2011\/04\/05\/a-alegria-segundo-jorge-ben\/\">aqui<\/a>) e Bob Dylan (<a href=\"..\/2010\/11\/09\/discografia-comentada-bob-dylan-parte-1\/\">aqui<\/a>)<a href=\"http:\/\/popbacana.wordpress.com\/\" target=\"_blank\"> <\/a><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Os tr\u00eas primeiros discos de Leonard Cohen&#8230; em vers\u00f5es remasterizadas (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/06\/11\/primeiros-discos-de-leonard-cohen-ganham-reedicao-luxuosa\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Leonard Cohen &#8211; I\u2019m Your Man, o document\u00e1rio (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2006\/10\/26\/leonard-cohen-em-sao-paulo\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Aos 74 anos, o poeta canadense lan\u00e7a seu quarto registro ao vivo (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/08\/23\/conor-oberst-peter-doherty-e-leonard-cohen\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cTen New Songs\u201d, Leonard Cohen: uma voz grave desfilando belos versos (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musica\/leonardcohenresenha.html\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Tr\u00eas horas de Leonard Cohen em Paris, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2009\/07\/09\/tres-horas-de-leonard-cohen-em-paris\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Leonard Cohen ao vivo no Festival de Benic\u00e0ssim, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/tag\/fib2008\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Gabriel Innocentini\n&#8220;Old Ideas&#8221;. Leonard Cohen fez quest\u00e3o de deixar claro j\u00e1 no t\u00edtulo de seu novo \u00e1lbum: estamos em mundo de valores antigos&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/02\/17\/cohen-classe-dignidade-e-elegancia\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":32,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12651"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/32"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12651"}],"version-history":[{"count":16,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12651\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":40654,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12651\/revisions\/40654"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12651"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12651"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12651"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}