{"id":12540,"date":"2012-02-12T13:21:08","date_gmt":"2012-02-12T16:21:08","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=12540"},"modified":"2020-01-23T01:13:37","modified_gmt":"2020-01-23T04:13:37","slug":"a-dialetica-grant-delrey","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/02\/12\/a-dialetica-grant-delrey\/","title":{"rendered":"A dial\u00e9tica Grant-DelRey"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12541\" title=\"lana_del_rey\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/lana_del_rey.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/lana_del_rey.jpg 400w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/lana_del_rey-150x150.jpg 150w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/lana_del_rey-300x300.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/#!\/federowski\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Federowski<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escrever sobre Lana Del Rey depois do tsunami digital que definiu o anti-delrey\u00edsmo como o g\u00eanero liter\u00e1rio do novo mil\u00eanio \u00e9 um pouco desanimador. Mas o fato \u00e9 que, por mais saturada que esteja a websfera, j\u00e1 faz pelo menos dois meses que se descobriu que o Bruce Wayne por tr\u00e1s da popstar era nada mais nada menos do que a girl-next-door franzina e cheia de sardas Lizzy Grant e a indigna\u00e7\u00e3o coletiva n\u00e3o d\u00e1 sinais de perder a for\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 claro, os l\u00e1bios. Parece que uma das maior ofensas a que seus admiradores fren\u00e9ticos foram submetidos foi perceber que talvez Lana houvesse feito cirurgias pl\u00e1sticas para fazer com que seus l\u00e1bios fossem t\u00e3o carnudos quanto o necess\u00e1rio. Mesmo que isso n\u00e3o seja uma quest\u00e3o musical por si s\u00f3, fica a impress\u00e3o de que a angelinajolieza\u00e7\u00e3o dos l\u00e1bios da popstar representa tudo aquilo que h\u00e1 de errado em sua m\u00fasica: ela foi constru\u00edda, semicolcheia por semicolcheia, verso por verso, de maneira a parecer ser aquilo que n\u00e3o \u00e9 \u2013 de maneira a parecer aquilo que pode ser vendido. E talvez a maior ofensa de todas tenha sido que, at\u00e9 algu\u00e9m desenterrar Lizzy Grant do cemit\u00e9rio de bytes, a manobra deu certo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 compreens\u00edvel que isso aborre\u00e7a apreciadores de m\u00fasica, principalmente os f\u00e3s ativos no cen\u00e1rio de cr\u00edtica online, que t\u00eam (temos) a mania de colocar sua capacidade de aprecia\u00e7\u00e3o est\u00e9tica acima da dos outros reles mortais. Insistir nesse ponto, entretanto, \u00e9 birra. E claro, como se espera que ocorra, ap\u00f3s a torrente de textos agressivos, pessoais e ofensivos sobre a pobre Del Rey, as resenhas mais ponderadas definiram seu \u00e1lbum como o que ele \u00e9: um disco pop acima da m\u00e9dia, n\u00e3o espetacular nem revolucion\u00e1rio, mas que faz o que se espera de um \u00e1lbum pop.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas ainda \u00e9 interessante se perguntar por que a reinven\u00e7\u00e3o da cantora causou tanto furor. Num texto na revista online Slate, o cr\u00edtico Jonah Weiner \u2013 que guarda sempre um espa\u00e7o no cora\u00e7\u00e3o para a pol\u00eamica, \u00e9 bom deixar claro \u2013 j\u00e1 mostrou que um artista pop se transformar para o sucesso n\u00e3o \u00e9, de modo algum, uma novidade. Numa sketch em que a queen do buzz \u00e9 entrevistada por Seth Meyers, no programa Saturday Night Live:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Seth Meyers \u2013 \u201cAlguns cr\u00edticos destacaram que voc\u00ea tentou estabelecer uma carreira como cantora h\u00e1 alguns anos sob seu verdadeiro nome, Lizzy Grant, e eu imagino que eles acham que seu novo nome, Lana Del Rey, soa como um trunfo de marketing.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Lana del Rey\/Lizzy Grant \u2013 \u201cSim, e eles est\u00e3o absolutamente corretos. Nenhum m\u00fasico s\u00e9rio mudaria seu pr\u00f3prio nome. Exceto talvez Sting, Cher, Elton John, Lady Gaga, Jay-Z, todo mundo que est\u00e1 no hip-hop e claro, Bob Dylan.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/cE6wxDqdOV0\"><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/cE6wxDqdOV0\"><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Popstars n\u00e3o precisam ser verdadeiros. Eles precisam ter m\u00fasicas que cumpram sua fun\u00e7\u00e3o \u2013 quer seja gerar choro o suficiente para hidratar o Saara (\u201cVideo Games\u201d) ou funcionar como background de um nightclub de Blade Runner (\u201cDiet Mountain Dew\u201d). Se para o mundo do pop ela deve ser acusada de algo, \u00e9 de atirar em dire\u00e7\u00f5es demais. Destilando as camadas de \u00f3dio e rancor de sua plateia, Lana Del Rey est\u00e1 seguindo o manual do artista pop da etapa zero em diante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 nesse momento que qualquer ser humano que j\u00e1 teve um leve vest\u00edgio de pretens\u00e3o art\u00edstica ou usou m\u00fasica como uma forma de lidar com a pr\u00f3pria vida (isto \u00e9, foi um adolescente) tem um enfarto. Manuais n\u00e3o t\u00eam a ver com arte. Arte \u00e9 individual, subjetiva, e de modo alguma pode ser reduzida a um procedimento! Manuais e regras e padroniza\u00e7\u00f5es s\u00e3o o que os adultos num filme de Steven Spielberg ou de John Hughes usariam para manter a juventude entretida e sem rebeldia. E claro, olhando para a o percurso da m\u00fasica pop at\u00e9 hoje, \u00e9 evidente que o que se mant\u00e9m relevante \u00e9 aquilo que conseguiu escorregar pelos dedos desse grande mecanismo e mesmo assim encontrar seu lugar no mercado protegidos por um gigante dedo-do-meio voltado aos executivos que achavam que entendiam desse neg\u00f3cio de arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mesma l\u00f3gica fundou os arcabou\u00e7os da cren\u00e7a de que a m\u00fasica independente, descentralizada e embasada por uma rede imensa de comunica\u00e7\u00e3o chamada Internet \u00e9 mais expressiva e verdadeira do que qualquer coisa no Top 200 da Billboard. Com gravadoras menores, h\u00e1 menos interfer\u00eancia, h\u00e1 menos neg\u00f3cios, h\u00e1 menos ind\u00fastria. Isso \u00e9 evidente at\u00e9 antes do boom do Nirvana: grava\u00e7\u00f5es lo-fi soam aut\u00eanticas e art\u00edsticas porque o artista se expressa com a m\u00ednima media\u00e7\u00e3o da tecnologia. What you see is what you get. E no final, a express\u00e3o pessoal fica com a maior pureza imagin\u00e1vel num cen\u00e1rio t\u00e3o monet\u00e1rio quanto o da m\u00fasica pop.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo isso, \u00e9 claro, se viv\u00eassemos num filme de Steven Spielberg ou de John Hughes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A verdade, como sempre, \u00e9 muito mais complexa. \u201cNebraska\u201d, de Bruce Springsteen, \u00e9 um \u00e1lbum extremamente confessional e honesto, mas isso n\u00e3o tira o poder de express\u00e3o de \u201cThe River\u201d \u2013 talvez no \u00faltimo caso ele seja at\u00e9 mais marcante: h\u00e1 mais uma vari\u00e1vel na equa\u00e7\u00e3o, os clich\u00eas vend\u00e1veis, com os quais Springsteen joga, a cada m\u00fasica, e organiza de maneira a adequar-se a seu significado; o Guided By Voices chegou a gastar bastante dinheiro comprando equipamentos antigos em seus discos mais recentes para replicar o ambiente t\u00e9cnico de suas primeiras grava\u00e7\u00f5es; e mesmo o ambiente independente produziu bandas como Death Cab for Cutie, The Shins e Plain White Ts, que poderiam facilmente tocar em qualquer r\u00e1dio de grande difus\u00e3o (no caso do Plain White Ts, tocou). O que, por mais que soe como uma cr\u00edtica ferrenha (ser\u00e1?), n\u00e3o \u00e9 necessariamente ruim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto mais se olha de perto para o mercado da m\u00fasica independente, mais se \u00e9 poss\u00edvel perceber que ele \u00e9 exatamente isso: um mercado, assim como o mercado da m\u00fasica pop. Talvez com regras diferentes, mas no fundo os artistas que nele se encontram t\u00eam de achar um equil\u00edbrio entre comercializa\u00e7\u00e3o e express\u00e3o assim como teriam de fazer caso assinassem com a Warner ou com a EMI. Fazer m\u00fasica expressiva \u00e9 dif\u00edcil em qualquer lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Bag1gUxuU0g\"><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Bag1gUxuU0g\"><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lizzy Grant chegou aos holofotes por meio do Guardian, da Pitchfork e, no Brasil, do Popload \u2013 os mesmos caminhos que trilharam bandas como Strokes, Arctic Monkeys, Franz Ferdinand e todas os primeiros term\u00f4metros do indie dos anos 2000 &#8211; e um v\u00eddeo lo-fi no YouTube que legitimou uma aura da nova d\u00e9cada. Seguir nesse caminho poderia, provavelmente, levar a dois destinos: sucesso entre o p\u00fablico alternativo, assinar um contrato com uma major e uma carreira em que metade de seus f\u00e3s chamariam a outra metade de sell-outs e seriam chamados de hipsters arrogantes; ou uma vida perp\u00e9tua em gravadoras pequenas, alcan\u00e7ando o cora\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica e de uma parcela pequena de ouvintes mas jamais o status de popstar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lana decidiu jogar com as regras das majors com um p\u00fablico que olha para esse jogo como um bando de regras e procedimentos que acabam com qualquer vest\u00edgio de autenticidade que resta na m\u00fasica pop. O grande p\u00fablico pode ser facilmente enganado por esse tipo de mecanismo (\u201cvoc\u00ea realmente acha que a Adele est\u00e1 sentindo isso que ela canta? Mesmo?\u201d), mas eles sabem melhor do que cair em truques \u00f3bvios, descart\u00e1veis e padronizados. E a descoberta de que ela falseou boa parte de sua vida anterior vem como uma facada no intestino porque significa que, pelo menos a princ\u00edpio, ela conseguiu enganar todo mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se Lana tivesse gravado as mesmas m\u00fasicas, mas assumido a persona de Lizzy Grant, a pol\u00eamica n\u00e3o seria t\u00e3o grande. Se ela tivesse virado Lana Del Rey, mas divulgado suas m\u00fasicas na MTV, em r\u00e1dios e na trilha sonora de Jersey Shore, tamb\u00e9m n\u00e3o. Ela decidiu escolher seu pr\u00f3prio caminho, o que teve resultados inesperados: apesar de ter alienado boa parte de seus f\u00e3s originais e da cr\u00edtica especializada, seu \u00e1lbum de estreia vendeu 117 mil c\u00f3pias numa s\u00f3 semana e se tornou o disco vendido mais r\u00e1pido em 2012 (ok, n\u00e3o chegamos nem metade de fevereiro, mas ainda significa algo). O futuro pode ser incerto, mas \u00e9 claro que pelo menos como estrat\u00e9gia a curto-prazo (e excetuando-se a performance ao vivo no Saturday Night Live, que deixou claro que, se ela queria escolher uma nova personalidade, talvez devesse ter ensaiado um pouco mais em frente ao espelho), a dial\u00e9tica Grant-DelRey deu certo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lana pode n\u00e3o ser uma grande artista e pode ser que n\u00e3o nos lembremos dela em seis meses, mas a movimenta\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica ao seu redor exp\u00f5e o quanto um cen\u00e1rio musical que, em meio ao lento decl\u00ednio da ind\u00fastria, se declara mais diverso, aberto e variado ainda \u00e9 pautado por orgulhinhos, preconceitos e fatos mais-do-que-previs\u00edveis por qualquer psic\u00f3logo de botequim que j\u00e1 tenha lidado com times de futebol, brincadeiras de crian\u00e7a ou qualquer din\u00e2mica de grupo. Talvez seja o momento de abrirmos m\u00e3o desse pique-bandeira sociol\u00f3gico e come\u00e7armos a olhar com mais profundidade para o que realmente importa, sob o risco de que, daqui a pouco, a m\u00fasica em si se torne o fator menos importante na decis\u00e3o de o que \u00e9 relevante e o que n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: center; \"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12542\" title=\"lana1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/lana1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"369\"><\/p>\n<p>&#8211; Bruno Federowski (siga <a href=\"https:\/\/twitter.com\/#!\/federowski\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@federowski<\/a>) estuda jornalismo e assina o blog <a href=\"http:\/\/blueandsentimental.blogspot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blues &amp; Sentimental<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Bruno Federowski\nSe Lana Del Rey tivesse gravado as mesmas m\u00fasicas, mas assumido a persona Lizzy Grant, a pol\u00eamica seria t\u00e3o grande?\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/02\/12\/a-dialetica-grant-delrey\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12540"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12540"}],"version-history":[{"count":19,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12540\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":54636,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12540\/revisions\/54636"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12540"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12540"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12540"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}