{"id":12448,"date":"2012-02-05T08:38:28","date_gmt":"2012-02-05T11:38:28","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=12448"},"modified":"2012-03-06T02:27:16","modified_gmt":"2012-03-06T05:27:16","slug":"o-album-postumo-de-amy-winehouse","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/02\/05\/o-album-postumo-de-amy-winehouse\/","title":{"rendered":"O \u00e1lbum p\u00f3stumo de Amy Winehouse"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/amy.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/#!\/ElvisRocha\" target=\"_blank\">Elvis Rocha<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c1lbuns p\u00f3stumos costumam ser uma jogada de gravadoras, familiares e parasitas em geral para faturar algum em cima de artistas que j\u00e1 levaram o destempero. De John Lennon a Renato Russo, a hist\u00f3ria da m\u00fasica popular est\u00e1 repleta de exemplos de gente que morreria de novo se pudesse ver o que \u00e9 feito com seu legado post-mortem.  Lan\u00e7ados muitas vezes com o caix\u00e3o mal ajeitado na tumba, discos dessa natureza servem na maioria das vezes para alimentar a necrofilia de f\u00e3s hist\u00e9ricos e aborrecer terrivelmente quem prefere uma reserva de senso cr\u00edtico sobre seus favoritos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Amy Winehouse subiu \u00e0 categoria de mito tr\u00e1gico do s\u00e9culo XXI ao morrer, ano passado, aos 27 anos, ap\u00f3s dois discos irrepreens\u00edveis e um sem-n\u00famero de confus\u00f5es envolvendo revistas de fofocas, relacionamentos e drogas \u2013 mais ou menos nessa ordem. \u201cLioness: Hidden Treasures\u201d re\u00fane material in\u00e9dito (ou nem tanto) da inglesa. A julgar por suas \u00faltimas apari\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e pela fraca regrava\u00e7\u00e3o de \u201cIt\u00b4s My Party\u201d \u2013 hit \u00f3bvio da internet, mas que j\u00e1 mostrava as limita\u00e7\u00f5es impostas pelo consumo de crack aos pulm\u00f5es e alcance vocal da cantora \u2013, havia uma certa raz\u00e3o para se ficar cabreiro diante das cinzas musicais de Amy.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cHidden Treasures\u201d, no entanto, revela-se uma boa surpresa. Esp\u00e9cie de \u201cBest of the Rest\u201d, o \u00e1lbum apresenta com dignidade o que a inglesa era quando n\u00e3o estava sem luvas dando de comer \u00e0s piranhas da morbidez alheia. O fraseado inusitado, o talento para composi\u00e7\u00f5es, as letras sagazes e todas as influ\u00eancias est\u00e3o dispostas nas 12 faixas que comp\u00f5em o \u00faltimo retrato (por enquanto) de Amy na ind\u00fastria fonogr\u00e1fica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Palmas para a Island Records, que, para escrever o obitu\u00e1rio de sua mina de ouro perdida, teve o bom senso de recrutar os homens que burilaram a menina insolente e insegura dos sub\u00farbios de Londres para transform\u00e1-la na refer\u00eancia est\u00e9tica de sua gera\u00e7\u00e3o: Salaam Remi e Mark Ronson. Como padrinhos zelosos, os dois (m\u00e9ritos maiores para o primeiro) finalizaram takes, resgataram grava\u00e7\u00f5es descartadas, corrigiram falhas e acrescentaram truques de est\u00fadio que deixariam a pupila contente como uma pinup rec\u00e9m-sa\u00edda da sala de maquiagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/bd9zGfGn1Ss\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/bd9zGfGn1Ss\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A compila\u00e7\u00e3o compreende a trajet\u00f3ria de Amy entre os anos de 2002 e 2011, pouco antes da not\u00edcia de sua morte invadir as redes sociais e tomar conta dos notici\u00e1rios. Novas vers\u00f5es de composi\u00e7\u00f5es conhecidas de seu repert\u00f3rio (\u201cTears Dry on Their Own\u201d e \u201cWake up Alone\u201d), m\u00fasicas n\u00e3o utilizadas nos dois \u00fanicos \u00e1lbuns de est\u00fadio: \u201cFrank\u201d (2003) e \u201cBack to Black\u201d (2006), regrava\u00e7\u00f5es de artistas que forjaram o estilo da cantora e, finalmente, esbo\u00e7os do que viria a ser o mil vezes abortado terceiro \u00e1lbum comp\u00f5em a colet\u00e2nea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tom Jobim e Frank Sinatra s\u00e3o marotamente desrespeitados com scats substituindo versos originais de \u201cThe Girl From Ipanema\u201d; \u201cValerie\u201d, dos Zutons, \u00e9 vertido para um skazinho suingado repleto de metais; e o tributo \u00e0s influ\u00eancias que marcaram a segunda e principal fase da carreira \u00e9 pago, com altos e baixos, na inclus\u00e3o da \u00f3tima \u201cOur Day Will Come\u201d, do grupo de r&amp;b Ruby and The Romantics, e na vers\u00e3o irregular de \u201cWill You Love Me Tomorrow\u201d, can\u00e7\u00e3o de Carole King que chegou \u00e0s paradas de sucesso pela primeira vez nas vozes das Shirelles, nos come\u00e7o dos anos 1960.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 momentos ass\u00e9pticos e pouco inspirados, claro. \u201cHalf Time\u201d e \u201cBest Friends, Right?\u201d se enquadram no primeiro grupo, enquanto \u201cLike Smoke\u201d, com o rapper americano Nas, n\u00e3o justifica sua inclus\u00e3o no \u00e1lbum \u2013 dando a impress\u00e3o de ter sido finalizada por Salaam Remi nas coxas, por falta de material mais consistente para completar o n\u00famero de faixas pedido pela gravadora. Simplesmente n\u00e3o funciona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas s\u00e3o tr\u00eas, e por raz\u00f5es distintas, as can\u00e7\u00f5es que representam o que h\u00e1 de melhor entre os tais tesouros escondidos de Amy Winehouse. \u201cBetween the Cheats\u201d, a primeira delas, traz o toque de Midas. \u00c9 o tipo de registro que explica porque Mrs. Winehouse flanou em vida degraus acima da concorr\u00eancia. Os primeiros compassos prometem um doo-woop absolutamente banal para, segundos depois, abrir espa\u00e7o para o bombardeio: \u201cI would die before I divorce ya&#8230;\u201d N\u00e3o \u00e9 jazz. N\u00e3o \u00e9 hip-hop. N\u00e3o \u00e9 blues. N\u00e3o \u00e9 apenas pop. E o que s\u00e3o estas divis\u00f5es de frases, esta maneira de combinar s\u00edlabas e notas fazendo parecer f\u00e1ceis malabarismos vocais que orgulhariam as maiores? \u00c9 a fagulha de originalidade que dava acesso ao sal\u00e3o ocupado por Ella, Aretha, Dinah e outras. Amy seria a debutante nessa festa restrita, mas se despediu antes do baile come\u00e7ar. \u201cBetween the Cheats\u201d, hit potencial de \u201cHidden Treasures\u201d, destr\u00f3i qualquer d\u00favida a respeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/_OFMkCeP6ok\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/_OFMkCeP6ok\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tony Bennett \u00e9 o \u00faltimo representante de uma linhagem da m\u00fasica americana que presenteou o mundo com vozes como Frank Sinatra, Dean Martin e Sammy Davis Jr. O \u00edtalo-americano que despachou \u201cWhat a Wonderful World\u201d para o amigo Louis Armstrong por consider\u00e1-la uma can\u00e7\u00e3o menor (!), nos \u00faltimos anos tem investido na parceria com novidades da m\u00fasica pop. A velha hist\u00f3ria: renovar a plat\u00e9ia, dar novo g\u00e1s \u00e0 carreira etc. Creditada como a \u00faltima grava\u00e7\u00e3o da cantora, em mar\u00e7o do ano passado, \u201cBody and Soul\u201d traz o apoio luxuoso do velho crooner e evidencia, para os que quiserem ouvir, a luta de uma mulher ciente dos males que imp\u00f4s a si mesmo tentando salvar o talento em eros\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bennett \u00e9 generoso, pede licen\u00e7a, toma conta das notas mais altas e faz as vezes de um tio carinhoso e protetor naquele que seria o primeiro passo para a recupera\u00e7\u00e3o da confian\u00e7a perdida de Amy nos est\u00fadios. Gravada em Abbey Road e lan\u00e7ada como primeiro single do \u00e1lbum \u201cDuets II\u201d, \u201cBody and Soul\u201d chegou r\u00e1pido ao topo das paradas no Reino Unido, vendendo, assim como \u201cHidden Treasures\u201d, milh\u00f5es de c\u00f3pias em poucas semanas. Foi a \u00fanica can\u00e7\u00e3o que Bennett se recusou a cantar \u00e0 \u00e9poca do lan\u00e7amento de \u201cDuets\u201d por considerar a parceira, falecida meses antes, sem substitutas \u00e0 altura. Enfim, uma faixa de enorme for\u00e7a simb\u00f3lica para fechar o pacote.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Analisando os epis\u00f3dios que culminaram no ocaso da vida de Amy Winehouse, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar o porqu\u00ea de \u201cA Song for You\u201d ter sido a escolhida para ocupar a \u00faltima vaga deste trem de despedida. Composta por Leon Russel, a can\u00e7\u00e3o veio \u00e0 luz pela primeira vez na interpreta\u00e7\u00e3o poderosa de um tal Mr. (Donny) Hattaway , refer\u00eancia que Amy enfileirou ao lado de Ray Charles em \u201cRehab\u201d, seu hino de desprezo \u00e0s chatices infind\u00e1veis das cl\u00ednicas de recupera\u00e7\u00e3o. No grande cart\u00e3o de visitas do que foi sua carreira (e sua vida, por que n\u00e3o?), ela dizia, com a petul\u00e2ncia caracter\u00edstica dos que pensam ter controle sobre o v\u00edcio, que teria muito mais a aprender com o \u00eddolo do que qualquer burocrata do sistema de sa\u00fade ingl\u00eas seria capaz de imaginar. Hattaway, de exist\u00eancia e carreira err\u00e1ticas, escreveu sua \u00faltima nota na hist\u00f3ria ao ser encontrado morto em um quarto de hotel de Nova York, aos 34 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cLioness: Hidden Treasures\u201d termina com uma curiosa sensa\u00e7\u00e3o de luto e tristeza. Michael Jackson morreu ap\u00f3s ter esgotado seu arsenal criativo e oferecido ao mundo tudo o que podia como artista \u2013 foi essa certeza, do esgotamento e da irrelev\u00e2ncia, e n\u00e3o os medicamentos, que o mataram lentamente ao longo dos anos. Os tesouros escondidos de Amy, por sua vez, deixam um n\u00f3 na garganta, daqueles inc\u00f4modos, que s\u00f3 os relacionamentos mal resolvidos s\u00e3o capazes de impingir. \u201cSe tivesse sido isso. Se fosse daquele jeito? Poderia ter sido assim&#8230;\u201d N\u00e3o foi. O legado destas grava\u00e7\u00f5es \u00e9 confirmar o g\u00eanio da R\u00ea Bordosa brit\u00e2nica, uma artista que poderia ter produzido mais, oferecido muito mais, mas aceitou viver, talvez sem saber exatamente onde estava se metendo, sob as regras faustianas da mitologia pop. Assim como os que a fazem companhia agora, Amy Winehouse pagou o pre\u00e7o da ingenuidade. E o pop, como diria o velho Gessinger, n\u00e3o poupa absolutamente ningu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/SX8Sb9zSO1Q\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/SX8Sb9zSO1Q\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p>&#8211; Elvis Rocha (siga <a href=\"https:\/\/twitter.com\/#!\/ElvisRocha\" target=\"_blank\">@ElvisRocha<\/a>) \u00e9 jornalista em Bel\u00e9m e edita o Amaz\u00f4nia Jornal<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Conhe\u00e7a as faixas que comp\u00f5e &#8220;Lioness: Hidden Treasures&#8221; (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2011\/11\/01\/o-disco-postumo-de-amy-winehouse\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Amy Winehouse, 27 anos, sucumbiu \u00e0 fama, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2011\/07\/23\/amy-winehouse-27-anos\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cBack to Black\u201d, Amy Winehouse: 11\u00ba melhor disco dos anos 00 (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/12\/09\/top-20-internacional-da-decada-00\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Elvis Rocha\nConhe\u00e7a as tr\u00eas can\u00e7\u00f5es que representam o que h\u00e1 de melhor entre os tais tesouros escondidos da cantora Amy Winehouse\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/02\/05\/o-album-postumo-de-amy-winehouse\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12448"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12448"}],"version-history":[{"count":18,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12448\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12450,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12448\/revisions\/12450"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12448"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12448"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12448"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}