{"id":12407,"date":"2012-02-02T08:15:12","date_gmt":"2012-02-02T10:15:12","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=12407"},"modified":"2016-10-13T10:21:12","modified_gmt":"2016-10-13T13:21:12","slug":"a-visita-cruel-do-tempo-jennifer-egan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/02\/02\/a-visita-cruel-do-tempo-jennifer-egan\/","title":{"rendered":"Literatura: A Visita Cruel do Tempo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12408\" title=\"visita\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/visita.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/eduardomarciano.\" target=\"_blank\">Gabriel Innocentin?i<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA visita cruel do tempo\u201d, romance que deu a Jennifer Egan o pr\u00eamio Pulitzer de fic\u00e7\u00e3o em 2011 (edi\u00e7\u00e3o nacional da\u00a0Intr\u00ednseca), \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201cWhite Album\u201d da fic\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea. O disco cl\u00e1ssico dos Beatles apresentava uma diversidade de g\u00eaneros, anunciava o isolamento dos integrantes e dialogava com a produ\u00e7\u00e3o cultural de seu tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E quanto ao livro?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bem: est\u00e1 l\u00e1 a divers\u00e3o na variedade de formas (quer um cap\u00edtulo narrado em slides? ou prefere o perfil de uma celebridade, parodiando David Foster Wallace e escrito por um presidi\u00e1rio que conta uma hil\u00e1ria tentativa de estupro? quem sabe um cap\u00edtulo narrado em segunda pessoa? tudo bem, que tal uma s\u00e1tira pol\u00edtica protagonizada por uma assessora de imprensa? e o que me diz de um cap\u00edtulo sobre paran\u00f3ia tecnol\u00f3gica?); est\u00e1 l\u00e1 o isolamento das pessoas (uma garota de 12 anos que se comunica com sua problem\u00e1tica fam\u00edlia pelo computador, o irm\u00e3o de 13 anos obcecado pelas pausas nas can\u00e7\u00f5es pop); est\u00e1 l\u00e1 a reflex\u00e3o sobre a cultura contempor\u00e2nea: as celebridades, o marketing, os aparelhos de comunica\u00e7\u00e3o que deixam todos online em tempo integral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Milagre: funciona!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jennifer Egan tem a m\u00e3o segura e certeira para comandar a pirotecnia t\u00e9cnica. O cat\u00e1logo de fic\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea e p\u00f3s-moderna (paran\u00f3ia, novas formas de contar uma hist\u00f3ria, narra\u00e7\u00e3o em primeira, terceira e segunda (!) pessoas, preocupa\u00e7\u00e3o com as novas tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o, questionamento sobre a linguagem) \u00e9 t\u00e3o bem amarrado quanto as melhores s\u00e9ries televisivas. N\u00e3o \u00e0 toa, Egan confessou ter se inspirado em \u201cPulp Fiction\u201d e \u201cThe Sopranos\u201d para estruturar sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela tem a seu favor a brevidade \u2013 menos de 350 p\u00e1ginas \u2013 ao passo que os Beatles se estenderam demais no \u201cWhite Album\u201d \u2013 o dispens\u00e1vel lado quatro do LP duplo. Se o \u00e1lbum \u00e0s vezes pode soar desorganizado e condescendente, despretensioso e imperfeito, o livro de Egan jamais exibe tais caracter\u00edsticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, mas e o enredo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A trama come\u00e7a a girar em torno de um produtor musical cuja banda com amigos de adolesc\u00eancia fracassou. Bennie Salazar \u00e9 separado, pai, tem uma ajudante cleptoman\u00edaca e suspira pelo tempo em que a ind\u00fastria era anal\u00f3gica. \u00c9 a partir desses dois personagens que a hist\u00f3ria se desenrola. O SOPA e o PIPA censuraram o resto da sinopse sob risco de spoiler.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/PUhIEEwSSSo\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/PUhIEEwSSSo\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se alguma can\u00e7\u00e3o do \u201cWhite Album\u201d pudesse resumir o livro seria \u201cHappiness is a Warm Gun\u201d: nada faz crer que o in\u00edcio ir\u00e1 conduzir ao final, tamanhas as reviravoltas de ritmo (mudan\u00e7as de andamento entre 9\/8 e 12\/8) e de autonomia das partes. O rumo imprevis\u00edvel confere encanto e graciosidade ao romance, que transita por tr\u00eas continentes ao longo de um per\u00edodo de meio s\u00e9culo (mais ou menos da d\u00e9cada de 1980, em S\u00e3o Francisco, at\u00e9 algum ano indefinido da d\u00e9cada de 2020, em Nova York). Ao final de cada cap\u00edtulo o leitor se pergunta: o que a autora vai aprontar agora?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como um belo disco, os cap\u00edtulos de Egan v\u00e3o se gravando em nossa mem\u00f3ria e quanto mais a agulha gira, mais forte fica a impress\u00e3o. Como \u00e9 o caso do cap\u00edtulo 5, singelamente intitulado &#8220;Voc\u00eas&#8221;, um dos contos mais pungentes produzidos neste mil\u00eanio, com um desencanto t\u00edpico dos melhores contos de Raymond Carver &#8211; &#8220;Por que n\u00e3o dan\u00e7am?&#8221;, por exemplo. Ainda no terreno dos adultos de meia-idade com vidas despeda\u00e7adas, o cap\u00edtulo &#8220;De A a B&#8221; faz crer que Stephanie \u00e9 vizinha da Nancy de &#8220;Quer ver uma coisa?&#8221;, outro conto de Carver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Destaca-se ainda o cap\u00edtulo dist\u00f3pico &#8220;Linguagem pura&#8221;, em que a tecnologia atua como um v\u00edrus na pr\u00f3pria linguagem da narra\u00e7\u00e3o. Jennifer Egan infiltra a s\u00e1tira com muita habilidade, como no caso dos cap\u00edtulos iniciais, em que o vocabul\u00e1rio da terapia psicanal\u00edtica torna os dramas dos personagens um tanto quanto c\u00f4micos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/U-g2X8NVVK4\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/U-g2X8NVVK4\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA visita cruel do tempo\u201d \u00e9 um romance sobre o rock, portanto, sobre autodestrui\u00e7\u00e3o. Personagens que abandonaram seus sonhos ou se deixaram corromper ou que buscaram um caminho deliberado de sabotarem a si mesmos. Personagens tr\u00e1gicos que est\u00e3o na \u201cdesolation row\u201d de Bob Dylan. Personagens vencidos pelo tempo, a se indagarem: como chegamos at\u00e9 aqui?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o \u00e9 apenas sobre rock, \u00e9 tamb\u00e9m sobre uma cultura pervertida pelo marketing e pela tecnologia. E, se quisermos ser ainda mais precisos: n\u00e3o \u00e9 apenas sobre rock, autodestrui\u00e7\u00e3o, marketing e tecnologia, mas tamb\u00e9m sobre a dificuldade de comunica\u00e7\u00e3o. Em todas as \u00e9pocas. Entre casais, entre pais e filhos, entre melhores amigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da\u00ed o impacto do cap\u00edtulo narrado em segunda pessoa, cuja mudan\u00e7a de foco narrativo nas frases finais irrompe com a for\u00e7a da mem\u00f3ria e do desejo mixados, para usar o verso de Tom Waits. Da\u00ed tamb\u00e9m o impacto das 70 p\u00e1ginas em slides, feitos por Alison, uma pr\u00e9-adolescente que poderia ser amiga do Oskar de \u201cExtremamente Alto &amp; Incrivelmente Perto\u201d. Da\u00ed o impacto ainda maior da obsess\u00e3o de Lincoln, irm\u00e3o de Alison, pelos tempos silenciosos na m\u00fasica: a intui\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia precoce sobre a morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas acima de tudo, acima das pirotecnias de storytelling de Jennifer Egan, est\u00e1 a preocupa\u00e7\u00e3o com o tempo. Alguns cr\u00edticos dizem que todo romance \u00e9 sempre sobre o tempo; outros, que \u00e9 sempre sobre o desejo. \u201cA visita cruel do tempo\u201d flutua em tom de elegia, na uni\u00e3o proustiana entre tempo, mem\u00f3ria e desejo. O tempo n\u00e3o perdoa, ao contr\u00e1rio da autora, que trata seus personagens de forma delicada e sens\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jennifer Egan n\u00e3o adota a sintaxe tortuosa nem a an\u00e1lise psicol\u00f3gica aprofundada de Proust, preferindo a regra do \u201cshow, don\u2019t tell\u201d, com cada cap\u00edtulo funcionando quase como um conto. Em entrevista, ela afirmou que o princ\u00edpio organizador do livro foi a descontinuidade. \u00c9 a experi\u00eancia simultaneamente fragment\u00e1ria e intensa da mem\u00f3ria que lhe permite as acrobacias ol\u00edmpicas de t\u00e9cnica narrativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A visita cruel do tempo&#8221; \u00e9 um prod\u00edgio. De arquitetura formal, de t\u00e9cnica e da capacidade de tocar o cora\u00e7\u00e3o do leitor, que certamente fechar\u00e1 o livro com a vontade de fazer uma releitura \u2013 um prazer semelhante ao de ouvir um grande disco no repeat. Se quiser saber onde est\u00e1 e aonde pode ir a fic\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, sente e leia \u201cA visita cruel do tempo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12409\" title=\"jennifer\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/jennifer.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>&#8211; Gabriel Innocentini (siga <a href=\"http:\/\/twitter.com\/eduardomarciano\" target=\"_blank\">@eduardomarciano<\/a>) \u00e9 jornalista e j\u00e1 escreveu para o Scream &amp; Yell sobre Tom Waits (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/12\/22\/a-urgencia-de-tom-waits\/\">aqui<\/a>), Thomas Pynchon (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/10\/29\/livvro-vicio-inerente-de-thomas-pynchon\/\">aqui<\/a>), Charles Bukowski (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/07\/04\/nas-beiradas-do-sonho-americano\/\">aqui<\/a>), Jorge Ben (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/04\/05\/a-alegria-segundo-jorge-ben\/\">aqui<\/a>) e Bob Dylan (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/11\/09\/discografia-comentada-bob-dylan-parte-1\/\">aqui<\/a>)<a href=\"http:\/\/popbacana.wordpress.com\/\" target=\"_blank\"> <\/a><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; &#8220;Extremamente Alto &amp; Incrivelmente Perto&#8221;, de Jonathan Safran Foer, por Jonas Lopes (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/02\/03\/os-dois-livros-de-jonathan-safran-foer\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; &#8220;\u00c1lbum Branco&#8221;, dos Beatles, virou lenda com brigas e trag\u00e9dia, por Marcelo Orozco (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/secoes\/albumbranco.html\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Gabriel Innocentin?i\nRomance de Jennifer Egan \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201cWhite Album\u201d da fic\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea. \u00c9 como ouvir um grande disco no repeat&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/02\/02\/a-visita-cruel-do-tempo-jennifer-egan\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":32,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12407"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/32"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12407"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12407\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12417,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12407\/revisions\/12417"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12407"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12407"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12407"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}