{"id":11470,"date":"2012-01-03T23:19:49","date_gmt":"2012-01-04T01:19:49","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=11470"},"modified":"2019-11-28T12:00:19","modified_gmt":"2019-11-28T15:00:19","slug":"sobre-arte-e-falta-de-educacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/01\/03\/sobre-arte-e-falta-de-educacao\/","title":{"rendered":"Sobre arte e falta de educa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-11471\" title=\"benharper\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/benharper.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Texto por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/#%21\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Vinhas<\/a><br \/>\nFoto por <a href=\"http:\/\/www.stephansolon.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Stephan Solon<\/a><\/strong><strong> (Via Funchal)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Show do Ben Harper, Via Funchal, S\u00e3o Paulo, 9 de dezembro. O cantor texano vai fazer um n\u00famero a capella no meio do belo spiritual \u201cWhere Could I Go\u201d. Pede sil\u00eancio \u00e0 plat\u00e9ia e&#8230; n\u00e3o \u00e9 atendido. O ru\u00eddo das conversas entre os presentes \u00e9 t\u00e3o estridente que o cantor n\u00e3o \u00e9 ouvido. Literalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Junho, BMW Jazz Festival no Parque do Ibirapuera. Antes de come\u00e7ar o show de abertura (Joshua Redman Trio), algu\u00e9m da organiza\u00e7\u00e3o pede aos espectadores que sentem no ch\u00e3o para que todos possam ter uma boa vis\u00e3o do palco. Acontece assim. Mas quando a atra\u00e7\u00e3o principal \u2013 Sharon Jones &amp; The Dap Kings \u2013 sobe ao palco, algumas dezenas de pessoas no meio do p\u00fablico se levantam. Os gritos de \u201csenta!\u201d s\u00e3o respondidos com outros gritos: \u201clevanta!\u201d Como conseq\u00fc\u00eancia, depois de duas m\u00fasicas sem vis\u00e3o do palco todos se capitulam e ficam em p\u00e9 \u2013 e muita gente n\u00e3o v\u00ea nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algum s\u00e1bado de maio, uma sala do Cinemark do Shopping P\u00e1tio Paulista. Durante uma sess\u00e3o de \u201cX-Men: Primeira Classe\u201d, um casal sustenta uma conversa durante toda a dura\u00e7\u00e3o do filme. Novamente, isso \u00e9 literal: dos trailers aos cr\u00e9ditos, n\u00e3o se calam por intervalos superiores a 30 segundos. O falat\u00f3rio \u00e9 \u201ccomplementado\u201d por diversas telas luminosas de smartphones e celulares que teimam em permanecer acesos gra\u00e7as ao fato de seus donos terem ignorado completamente os avisos para desligar tais aparelhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o dois exemplos pessoais, mas estou certo de que o leitor ter\u00e1 v\u00e1rios outros. Espero que seja do sofr\u00edvel ponto de vista de espectador, e n\u00e3o no lament\u00e1vel papel do protagonista. O que acontece? Qual \u00e9 o problema?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema tem v\u00e1rios nomes, v\u00e1rias ra\u00edzes, mas poderia ser resumido como \u201cfalta de educa\u00e7\u00e3o\u201d. Ou melhor, \u201cdesrespeito\u201d. Desrespeito pela obra art\u00edstica que est\u00e1 sendo exibida, pelo artista em si, e, evidentemente, pelo restante do p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro, qualquer pessoa que n\u00e3o viva em isolamento social j\u00e1 flagrou casos ainda mais graves de prepot\u00eancia e desrespeito nas ruas, nos supermercados, em estacionamentos e em qualquer outro lugar. Mas vamos nos ater aos espet\u00e1culos, ao maravilhoso mundo do showbiz, remunerado gra\u00e7as ao valor que cada um de n\u00f3s est\u00e1 disposto a pagar por uma apresenta\u00e7\u00e3o, uma obra art\u00edstica ou uma pe\u00e7a de comunica\u00e7\u00e3o \u2013 chame como quiser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando foi que o p\u00fablico se tornou t\u00e3o desrespeitoso? Alguns podem crer que isso teria a ver com a tecnologia port\u00e1til, mas isso n\u00e3o explica atitudes como as descritas nos dois primeiros par\u00e1grafo. Por\u00e9m, \u00e9 certo que tal tecnologia deixou as pessoas um pouco prejudicadas em sua no\u00e7\u00e3o de respeito ao pr\u00f3ximo, a mesma perda de no\u00e7\u00e3o que faz algu\u00e9m dar maior import\u00e2ncia a uma chamada no celular do que \u00e0 conversa que est\u00e1 travando cara a cara no momento. Ou ser\u00e1 que a tecnologia n\u00e3o fez nada, apenas atua como o \u00e1lcool, que quando usado sem medida serve para trazer \u00e0 tona o mais pat\u00e9tico de nosso \u00edntimo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a resposta for positiva \u2013 e s\u00e3o grandes as chances de s\u00ea-la, pense bem \u2013 fica claro que a coisa come\u00e7a mais anteriormente, tendo a mesma raiz que faz neguinho achar que ele pode beber e dirigir que \u201cn\u00e3o vai dar nada\u201d (\u201cdirijo melhor quando bebo, fico mais atento\u201d, me disse um taxista h\u00e1 poucas semanas. Um taxista!), ou que pode estacionar numa vaga para deficientes quando n\u00e3o o \u00e9, ou passar no caixa r\u00e1pido do supermercado \u2013 aqueles para \u201cat\u00e9 15 volumes\u201d \u2013 com 60 produtos. Aquela postura que revela que o \u00fanico limite que importa \u00e9 o seu pr\u00f3prio, e que \u201cos incomodados que se mudem\u201d, o individualismo sem pensar no que significa a individualidade alheia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa simplifica\u00e7\u00e3o grosseira, \u00e9 bem poss\u00edvel que seja isso. O que nos leva de novo aos espet\u00e1culos art\u00edsticos. Pense: a experi\u00eancia da arte \u00e9 individual. O que me emociona pode n\u00e3o ter efeito algum em voc\u00ea, e vice-versa. Os fatores que fazem uma pessoa se interessar \u2013 e se apaixonar intensamente \u2013 por uma can\u00e7\u00e3o, por um disco, um filme, um livro, uma HQ, s\u00e3o subjetivos, \u00e0s vezes ao ponto do insond\u00e1vel. Mas a viv\u00eancia da maior parte dessas pe\u00e7as \u00e9 coletiva: ir a um show, a um cinema, at\u00e9 mesmo a um parque para ler. Voc\u00ea traz aquela obra para seu mundo, mesmo em meio a uma multid\u00e3o. At\u00e9, claro, ser interrompido por algu\u00e9m que est\u00e1 vivenciando sua vontade de ser inconveniente, e que \u201cse defende\u201d com o argumento de \u201ceu paguei pra entrar e fa\u00e7o o que eu quiser\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro: o dinheiro d\u00e1 o direito supremo. \u201cPago logo posso\u201d \u2013 uma consequ\u00eancia natural do \u201ctenho logo existo\u201d. E a\u00ed n\u00e3o importa o que aconte\u00e7a ao outro. Paguei, e se estou l\u00e1 para beber, encher o saco alheio e gritar \u201cvai curintia\u201d enquanto um m\u00fasico canta \u00e0 capella, posso faz\u00ea-lo. Est\u00e1 inclu\u00eddo no ingresso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os danos desse tipo de comportamento s\u00e3o not\u00e1veis, \u00e9 s\u00f3 ver como nosso tecido social est\u00e1 pu\u00eddo. Por\u00e9m n\u00e3o consigo deixar de achar que os efeitos disso na experi\u00eancia emocional da arte s\u00e3o mais dolorosos. Afinal, a arte sempre foi a fuga da realidade sombria, ou a porta de entrada para realidades melhores. Mas quando a experi\u00eancia coletiva da arte vai sendo substitu\u00edda pela experi\u00eancia da embriaguez coletiva e do assomo das vontades mesquinhas e infantis de uma significativa parcela do p\u00fablico, fica dif\u00edcil para a arte cumprir esses objetivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Est\u00e1 ficando dif\u00edcil ir ao cinema e a shows, e isso n\u00e3o tem a ver com ranzinzice de velho. Tem a ver com querer o melhor que a m\u00fasica tem a oferecer, mas os shows est\u00e3o deixando de ser uma celebra\u00e7\u00e3o musical para se tornar uma balada cara. E a\u00ed, faz pouca diferen\u00e7a se quem est\u00e1 tocando \u00e9 o Chiclete Com Banana ou o Bob Dylan.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acho que o \u00faltimo momento de respeito declarado e admir\u00e1vel que vi pelo espet\u00e1culo foi no show do ZZ Top, maio de 2010, em S\u00e3o Paulo. Dois t\u00edpicos \u201ctioz\u00f5es roqueiros\u201d na fila da cerveja batendo um papo. Um diz em tom queixoso:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Porra, cerveja a seis paus e ainda \u00e9 Itaipava. Parece pre\u00e7o de zona!<br \/>\n&#8211; \u00c9\u00e9\u00e9&#8230; \u2013 retruca o outro, lentamente. Mas na zona n\u00e3o toca ZZ Top!<br \/>\n&#8211; Pode crer! Isso justifica o pre\u00e7o \u2013 finaliza o primeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/diversita.com.br\/silencio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-11473\" title=\"silencio\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/silencio.jpg\" alt=\"\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Apoiamos a campanha acima, do Diversita, e ainda estendemos: Seja educado. Ponto. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8211; Leonardo Vinhas<\/strong><span> assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<\/span><a href=\"..\/2011\/12\/13\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a><span>) no Scream &amp; Yell e j\u00e1 entrevistou o Lambchop em 2002 (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musicadois\/lambchop.htm\">aqui<\/a>) e escreveu sobre o show do Ben Harper em S\u00e3o Paulo (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/12\/13\/a-sorte-de-ver-ben-harper-ao-vivo\/\">aqui<\/a>)<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Cenas da vida em SP: show de Bonnie \u2018Prince\u2019 Billy ou vel\u00f3rio?, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2008\/11\/28\/cenas-da-vida-em-sao-paulo-parte-bonnie-prince-billy\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Leonardo Vinhas\nQuando foi que o p\u00fablico se tornou t\u00e3o desrespeitoso? 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