{"id":11401,"date":"2011-12-28T08:31:49","date_gmt":"2011-12-28T11:31:49","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=11401"},"modified":"2016-09-09T17:31:30","modified_gmt":"2016-09-09T20:31:30","slug":"cinema-um-dia-lone-sherfig","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/12\/28\/cinema-um-dia-lone-sherfig\/","title":{"rendered":"Cinema: Um Dia, Lone Sherfig"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-11402 aligncenter\" title=\"umdia\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/umdia.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por\u00a0<a href=\"http:\/\/twitter.com\/#%21\/superoito\" target=\"_blank\">Tiago Faria<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na contracapa do livro &#8220;Um Dia&#8221;, lan\u00e7ado no Brasil pela editora Intr\u00ednseca, o leitor encontra uma s\u00e9rie de elogios: \u201cInteligente, engra\u00e7ado, sagaz e, por vezes, insuportavelmente triste\u201d (The Times); \u201cDif\u00edcil encontrar uma com\u00e9dia rom\u00e2ntica t\u00e3o afiada e doce\u201d (The Independent). H\u00e1 muitos outros superlativos em tons alaranjados \u2013 e a tentativa de l\u00ea-los de uma vez s\u00f3 pode diexar o leitor tonto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o que geralmente acontece com best sellers: eles querem nos convencer de que s\u00e3o eventos importantes, essenciais para o mundo liter\u00e1rio. Mesmo quando, na maioria das vezes, servem apenas e simplesmente para mostrar que n\u00e3o devemos levar muito a s\u00e9rio as resenhas do The Times e do The Independent.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Li &#8220;Um dia&#8221; e n\u00e3o vejo por que mentir: \u00e9 um romance divertido. T\u00e3o gracioso e sentimental quanto, digamos, os minutos finais de um epis\u00f3dio de Grey\u2019s Anatomy. E movimentado como uma season finale de 24 Horas. Muita coisa acontece na trama. E, importante dizer, \u00e9 um livro que parece ruim, muito ruim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ruim, em primeiro lugar, porque n\u00e3o \u00e9 escrito com muito esmero: David Nicholls, o autor, usa um tom informal e engra\u00e7adinho, adotado \u00e0 rodo por pupilos de Nick Hornby \u2013 na maior parte dos casos, para ocultar falta de rigor com a prosa. Quem gosta de literatura sabe que pode ser terr\u00edvel passar dias, semanas na companhia de um escritor que maltrata as palavras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em segundo lugar, ruim porque faz pouco caso de uma premissa instigante. O plano de Nicholls \u00e9 acompanhar dois personagens durante vinte anos. Mas \u2013 eis o pulo do gato \u2013 ele pretende destacar apenas as situa\u00e7\u00f5es que ocorreram a cada 15 de julho. Ano a ano, pois, o leitor reencontrar\u00e1 aquelas duas pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desafio parece grande, enorme. Talvez s\u00f3 um bom escritor (e isso Nicholls est\u00e1 longe de ser) seria capaz de resolv\u00ea-lo: cada cap\u00edtulo teria que ser simultaneamente muito banal (um dia, afinal e antes de tudo, \u00e9 apenas um dia) e interessante o suficiente para prender a aten\u00e7\u00e3o de leitores que querem ler a love story bobinha da esta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-11403\" title=\"umdia2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/umdia2.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"401\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/umdia2.jpg 600w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/umdia2-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O autor, muito malandramente, usa um truque tol\u00edssimo para facilitar esse processo: cap\u00edtulo a cap\u00edtulo, ele recorre a uma s\u00e9rie de recursos manjados para situar o leitor na trajet\u00f3ria completa dos personagens. Flashbacks, por exemplo. Ou di\u00e1logos oportunos, do estilo: \u201cSabe a Emma? Pois \u00e9: nos \u00faltimos 11 meses, ela casou, teve tr\u00eas filhos, acampou no Hava\u00ed, mudou de emprego tr\u00eas vezes, ensaiou pe\u00e7as de teatro e aprendeu franc\u00eas.\u201d \u00c9 como se Nicholls estivesse trapaceando dentro de um jogo que ele pr\u00f3prio inventou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais estranho \u00e9 quando o 15 de julho subitamente se transforma num dia onde eventos muito especiais acontecem, todos de uma vez s\u00f3. Uma viagem incr\u00edvel para o litoral, digamos. Sempre que se esbarra num desses cap\u00edtulos, a pergunta inevit\u00e1vel surge: mas isso tudo n\u00e3o poderia ter acontecido no dia 17?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme &#8220;Um Dia&#8221;, escrito pelo pr\u00f3prio Nicholls, tamb\u00e9m vai lenta e sorrateiramente ignorando esse ponto de partida e (como o livro) acaba por se transformar numa com\u00e9dia rom\u00e2ntica trivial. No decorrer do longa, \u00e9 poss\u00edvel esquecer de todos os desafios da premissa: a montagem, sempre muito \u00e1gil, aplica uma flu\u00eancia sem tempos mortos a uma narrativa naturalmente fragmentada, que deveria se movimentar aos solavancos (e se, no per\u00edodo de um ano, 90% dos personagens tivessem morrido num desastre a\u00e9reo? E se, no dia 15 de julho de 1990, a mocinha estivesse em coma? etc).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo \u2013 no filme e no livro \u2013 parece um desperd\u00edcio. O projeto do romance permitia a Nicholls as aventuras mais imprevis\u00edveis, mais loucas. Charlie Kaufman teria feito estragos. O escritor, no entanto, prefere arredondar a trama com os desencontros mais \u00f3bvios do manual de instru\u00e7\u00f5es de com\u00e9dias rom\u00e2nticas \u2013 no filme, a pregui\u00e7a se torna aparente (j\u00e1 que ele todo n\u00e3o \u00e9 difere muito de um t\u00edpico ve\u00edculo para Julia Roberts ou para a pr\u00f3pria Anne Hathaway).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme parece melhor que o livro porque somos poupados das gracinhas e galanteios de Nicholls (elas se limitam aos di\u00e1logos, e ta\u00ed algo que o homem sabe escrever) e porque a dire\u00e7\u00e3o de Lone Sherfig (a assepsia em nome de mulher) funciona como uma esp\u00e9cie de resenha para o texto original, resumindo a trama \u00e0s situa\u00e7\u00f5es essenciais (e \u00e9 um resumo eficiente: ningu\u00e9m precisa ler o romance se ele cair no vestibular) e apontando o defeito principal do livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que \u00e9: nessas p\u00e1ginas, faltam personagens complexos e naturalmente cheios de vida, capazes de seduzir o leitor mesmo nos 15 de julho em que nada acontece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object width=\"600\" height=\"340\" classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Noshw3upFw4\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Noshw3upFw4\" \/><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Tiago Faria (siga\u00a0<a href=\"http:\/\/twitter.com\/#%21\/superoito\" target=\"_blank\">@superoito<\/a>) \u00e9 jornalista e escreve no\u00a0<a href=\"http:\/\/superoito.com\/\" target=\"_blank\">http:\/\/superoito.com<\/a><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211;\u00a0&#8220;Hist\u00f3rias como a de &#8216;Um Dia&#8217; s\u00e3o bonitas e emocionam, mas&#8221;&#8230;, por Adriano Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/06\/08\/livros-um-dia-de-david-nicholls\/\" target=\"_self\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Tiago Faria\nTudo \u2013 no filme e no livro \u2013 parece um desperd\u00edcio. 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