{"id":11225,"date":"2011-12-14T19:58:29","date_gmt":"2011-12-14T21:58:29","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=11225"},"modified":"2019-07-09T10:44:56","modified_gmt":"2019-07-09T13:44:56","slug":"a-reportagem-que-percebe-o-outro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/12\/14\/a-reportagem-que-percebe-o-outro\/","title":{"rendered":"A reportagem que percebe o outro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-11226\" title=\"sujando\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/sujando.jpg\" alt=\"\" width=\"276\" height=\"365\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/sujando.jpg 276w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/sujando-226x300.jpg 226w\" sizes=\"(max-width: 276px) 100vw, 276px\" \/><br \/>\n<strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/EdneideArruda\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Edneide Arruda<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diz-se h\u00e1 muito que foi-se o tempo das grandes reportagens. Com o advento das m\u00eddias sociais ent\u00e3o, essa pr\u00e1tica jornal\u00edstica parece mesmo ter se tornado coisa do passado. Hoje vale o imediatismo, a instantaneidade, o texto breve, a superficialidade. Vive-se um tempo de liquidez de tudo: de falas, da poesia, da m\u00fasica, da vida, do amor e de pequenas outras coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O feliz contraponto a estes jornalismos cada vez mais sensacionalistas,  superficiais e mercantis, est\u00e1 exposto no livro \u201cSujando os sapatos \u2013 O Caminho Di\u00e1rio da Reportagem\u201d, que Ismael Machado lan\u00e7ou em agosto em Bel\u00e9m e mais recentemente no 9\u00ba FestCine Amaz\u00f4nia, realizado em Porto Velho, Rond\u00f4nia, em novembro \u00faltimo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No livro, Ismael re\u00fane reportagens produzidas entre 2008 e 2011, para o Di\u00e1rio do Par\u00e1. Atraentes e suaves, as reportagens, feitas no cora\u00e7\u00e3o da floresta amaz\u00f4nica &#8211; aldeias, garimpos, comunidades quilombolas e ribeirinhas e em um casar\u00e3o esquecido no centro da capital paraense &#8211; mostram o que deixamos de perceber: o outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao ver, ouvir, sentir e deixar falar este outro, o jornalista d\u00e1 vez e voz a personagens an\u00f4nimas. Descrevendo realidades por meio de constru\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias que cortam a alma do leitor sens\u00edvel, Ismael se fez ouvir. Ao apresentar sua obra, Ricardo Kotscho afirma: \u201cAo terminar de ler o livro, eu me senti como se estivesse voltando de mais uma reportagem pelas profundezas da Amaz\u00f4nia, com a vantagem de n\u00e3o ter sa\u00eddo de casa\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro jornalista que sujou os sapatos pa\u00eds afora em busca de uma boa hist\u00f3ria para contar, Kotscho destaca que Ismael Machado \u201cainda vai aonde outros rep\u00f3rteres, faz muito tempo, deixaram de ir, para n\u00e3o sujar os sapatos\u201d. Muito procedente. Atravessando estradas, rios e igarap\u00e9s paraenses Ismael emprestou seu corpo aos perigos de lugares perdidos no misterioso mundo amaz\u00f4nico, p\u00f4s suas m\u00e3os a servi\u00e7o da reprodu\u00e7\u00e3o de falas que n\u00e3o s\u00e3o registradas pela grande imprensa e arregalou os olhos para ver o homem caboclo: jogadores de peladas, m\u00e3e preenchida de dor pela perda de filhos, menina ind\u00edgena em momentos de rituais ou menina-m\u00e3e ainda na inf\u00e2ncia, a mulher lutadora, quem at\u00e9 hoje revive os duros tempos da Guerrilha do Araguaia; quem alimentou o sonho de ouro no garimpo, o bispo que luta pelo direito \u00e0 inoc\u00eancia, vidas no manic\u00f4mio, sobreviventes nas ilhas pr\u00f3ximas de Bel\u00e9m, camel\u00f4s que lutam pela vida, a  realidade depois dos \u00e1ureos tempos das madeireiras e as dif\u00edceis vida nas ilhas pr\u00f3ximas de Bel\u00e9m. S\u00e3o todas hist\u00f3rias de uma legi\u00e3o de cidad\u00e3os e cidad\u00e3s deserdados do Estado e desprovidos de cidadania.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com textos leves, frases curtas e palavras cotidianas, Ismael fala ao leitor pelo cora\u00e7\u00e3o, e parece acolher as dores, saudades e paix\u00f5es que seus personagens protagonizam. Na garimpagem de uma hist\u00f3ria, ele percebe diferen\u00e7as, avista esperan\u00e7as, registra reclama\u00e7\u00f5es e imprime seu DNA de profissional que, avesso \u00e0 objetividade jornal\u00edstica, se emociona com cenas simples e cotidianas. DNA, ali\u00e1s, outrora exibido em Porto Velho, onde, militando em reda\u00e7\u00f5es de jornais, na d\u00e9cada de 1990, criticava corajosamente o que considerava mau gosto, mau h\u00e1bito, mau jornalismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 se disse que o bom jornalismo \u00e9 a arte de contar hist\u00f3rias. Ismael conta hist\u00f3rias excelentes de pessoas reais que nasceram, se criaram e vivem no  bioma mais conhecido no mundo. Em suas narrativas, Ismael d\u00e1 vida aos relatos orais que colheu em suas andan\u00e7as por vilas, comunidades e povoados, ouvindo hist\u00f3rias de vida de gente simples e que tem sonhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m revela o conflito existente entre as tradi\u00e7\u00f5es e o progresso. Conflito, ali\u00e1s, percebido particularmente entre jovens e velhos ind\u00edgenas, como se pode verificar numa passagem do texto \u201cO &#8216;nascer&#8217; social de Crian\u00e7as Temb\u00e9\u201d, no qual o jornalista faz a seguinte descri\u00e7\u00e3o: \u201cChico Rico tem passado os dias na aldeia temb\u00e9 que fica no Alto Rio Guam\u00e1, no munic\u00edpio de Capit\u00e3o Po\u00e7o. Tem ajudado a repassar aos mais jovens detalhes de antigos rituais que quase se perderam no tempo. Como a l\u00edngua, que quase deixou de existir. Como as velhas hist\u00f3rias que mant\u00e9m unido o povo temb\u00e9\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Referia-se o autor ao ritual &#8216;Festa da Mo\u00e7a&#8217;, tradi\u00e7\u00e3o premiada pelo Minist\u00e9rio da Cultura, que corresponde a um rito de passagem pelas meninas da fase de crian\u00e7a para a de adolescente. O jornalista descreve a festa a partir de relatos da garota que viveu seu momento de passagem, embalada por cantos e dan\u00e7as do povo Temb\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ismael fez o que se convencionou chamar de jornalismo liter\u00e1rio, tamb\u00e9m chamado de jornalismo de autor ou diversional \u2013 t\u00e9cnica que foge do notici\u00e1rio superficial e factual. Ao contr\u00e1rio do que se diz, este g\u00eanero ainda atrai profissionais que se arriscam a fazer algo para al\u00e9m dos limites, t\u00e9cnicas e regras da reda\u00e7\u00e3o. S\u00e3o profissionais sabedores de que ainda existem leitores que apreciam ler fatos envolvendo a vida de pessoas reais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Felipe Pena, professor de Mestrado e Doutorado em Comunica\u00e7\u00e3o da Universidade Federal Fluminense, jornalismo liter\u00e1rio n\u00e3o significa apenas fugir das amarras da reda\u00e7\u00e3o ou exercitar a veia liter\u00e1ria em um livro-reportagem. Tampouco significa abominar as regras de reda\u00e7\u00e3o. \u201cSignifica potencializar os recursos do jornalismo, ultrapassar os limites dos acontecimentos cotidianos, proporcionar vis\u00f5es amplas da realidade, exercer plenamente a cidadania, romper as correntes burocr\u00e1ticas do lide, evitar os definidores prim\u00e1rios e, principalmente, garantir perenidade e profundidade aos relatos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A not\u00edcia de que no meio da Amaz\u00f4nia tem um profissional fazendo jornalismo com letras grandes, de forma humanizada, dando vez e voz a gente de carne e osso que nunca \u00e9 lembrada pela m\u00eddia tradicional \u00e9 por demais alvissareira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/uOJYZhXgr-c\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/uOJYZhXgr-c\"><\/embed><\/object><br \/>\n******<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span>O livro \u201cSujando os Sapatos &#8211; O Caminho Di\u00e1rio da Reportagem\u201d, de Ismael Machado, pode ser encomendado diretamente com o autor aqui: <\/span><a href=\"mailto:%20ismael.machado@hotmail.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><span class=\"gI\">ismael.machado@hotmail.com<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Edneide Arruda\nLivro de Ismael Machado re\u00fane reportagens produzidas entre 2008 e 2011 no cora\u00e7\u00e3o da floresta amaz\u00f4nica&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/12\/14\/a-reportagem-que-percebe-o-outro\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11225"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11225"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11225\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":52365,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11225\/revisions\/52365"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11225"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11225"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11225"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}