{"id":11114,"date":"2011-12-07T08:14:59","date_gmt":"2011-12-07T11:14:59","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=11114"},"modified":"2019-02-14T02:51:38","modified_gmt":"2019-02-14T04:51:38","slug":"descoberta-ruptura-e-james-blake","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/12\/07\/descoberta-ruptura-e-james-blake\/","title":{"rendered":"Descoberta, ruptura e James Blake"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-11115\" title=\"james_blake\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/james_blake.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por<\/strong> <strong><a href=\"http:\/\/twitter.com\/#!\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Capelas<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dividir a m\u00fasica em g\u00eaneros \u00e9 uma coisa curiosa. O que deveria servir para guiar e dar uma melhor refer\u00eancia sobre um determinado artista ou estilo acaba, pelo lado oposto, limitando as can\u00e7\u00f5es que ouvimos. Como uma esp\u00e9cie que n\u00e3o gosta de mudan\u00e7as, privilegiamos o conforto, nos centrando em alguns nichos e, por vezes, deixamos passar trabalhos art\u00edsticos interessant\u00edssimos, escondidos sob um r\u00f3tulo preestabelecido. O que pode acontecer quando se deixam esses r\u00f3tulos de lado \u00e9 o que os angl\u00f3fonos chamariam de \u201ca breakthrough\u201d, que em bom portugu\u00eas pode significar tanto descoberta quanto ruptura. \u00c9 o caso, por exemplo, de uma das grandes revela\u00e7\u00f5es desse 2011: o cantor ingl\u00eas James Blake.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Influenciado pela cena dubstep londrina, que se caracteriza por produ\u00e7\u00f5es muito bem amarradas, com linhas de baixo fortes e baterias reverberantes, James Blake chama a aten\u00e7\u00e3o com sua voz l\u00edmpida e potente, fazendo o que alguns arriscam chamar de post dubstep, criando mais uma nomenclatura que pouco diz sobre si mesma. Seu disco de estreia, \u201cJames Blake\u201d, e o rec\u00e9m-lan\u00e7ado EP \u201cEnough Thunder\u201d, entretanto, mostram que ele \u00e9 mais do que uma vozinha bonita \u2013 ser\u00e1 um dos destaques do S\u00f3nar S\u00e3o Paulo, que acontecer\u00e1 em maio de 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira vez que alguns holofotes foram apontados para o cantor foi em 2010, quando lan\u00e7ou a m\u00fasica \u201cCMYK\u201d, na qual fazia colagens de antigas e obscuras can\u00e7\u00f5es de soul, em um loop de quatro minutos e pouco. Era um pren\u00fancio do que ele pr\u00f3prio poderia fazer com suas cordas vocais, quando unidas \u00e0 sua capacidade como produtor. Entretanto, s\u00f3 isso n\u00e3o bastaria pra lev\u00e1-lo muito longe. Era preciso algo mais, e Blake talvez tenha encontrado em suas letras a maneira de ir al\u00e9m: elas chamam a aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 por serem muito emotivas, mas tamb\u00e9m porque ele as resume em apenas poucas linhas. Essa concis\u00e3o, que poderia criar padr\u00f5es tetricamente repetitivos, acaba por ser uma das grandes armas do cantor. Em &#8220;I Never Learnt to Share&#8221;, por exemplo, ele repete por quatro minutos apenas duas frases: &#8220;My brother and my sister don&#8217;t speak to me \/ But I don&#8217;t blame them&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 como se Blake tentasse repetir a experi\u00eancia que Van Morrison teve em \u201cAstral Weeks\u201d, exposta pelo cr\u00edtico americano Lester Bangs em seu arrasador artigo sobre o \u00e1lbum, dispon\u00edvel aqui no Brasil no livro \u201cRea\u00e7\u00f5es Psic\u00f3ticas\u201d: \u201cVan Morrison est\u00e1 interessado, obcecado com a quantidade de informa\u00e7\u00e3o verbal ou musical que ele consegue imprimir no menor espa\u00e7o poss\u00edvel e, de maneira inversa, qu\u00e3o longe ele consegue esticar uma nota, palavra, som ou imagem. Capturar o instante, ou um carinho ou um belisc\u00e3o. Ele repete certas frases a extremos que, na boca de qualquer outro, seriam rid\u00edculas, porque ele est\u00e1 esperando uma vis\u00e3o se descortinar, tentando, da maneira mais livre poss\u00edvel, arrast\u00e1-la pelos cotovelos\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/isIABK-0ohQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, enquanto o irland\u00eas Morrison joga com essas ideias mexendo com a velocidade e a altura das notas que canta naturalmente, Blake se utiliza dos efeitos eletr\u00f4nicos do Auto Tune para criar camadas e mais camadas que se sobrep\u00f5e. Por vezes, chega-se at\u00e9 a ter a impress\u00e3o de que existe um dueto entre o cantor londrino e si pr\u00f3prio \u2013 sugest\u00e3o que tamb\u00e9m \u00e9 dada pela capa de \u201cJames Blake\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro diferencial que existe em \u201cJames Blake\u201d, o disco, \u00e9 o contraste que se estabelece entre o cristalino vocal do ingl\u00eas e a base que ele pr\u00f3prio construiu para suas can\u00e7\u00f5es. Trata-se de um recurso que intensifica a expressividade das can\u00e7\u00f5es ao soar confessional (na j\u00e1 citada &#8220;I Never Learnt to Share&#8221;), pedindo ajuda ao sentir-se perdido em meio a sonhos e amores (a lind\u00edssima &#8220;Wilhelm&#8217;s Scream&#8221;), ou lamentando-se (em \u201cUnluck\u201d), de maneira quase inocente e ing\u00eanua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Blake \u00e9 um int\u00e9rprete t\u00e3o poderoso que poderia conceber um disco inteiro apenas \u00e0 capella sem qualquer problema \u2013 como atesta na vers\u00e3o que fez de \u201cA Case of You\u201d, uma das gemas do repert\u00f3rio de Joni Mitchell. Entretanto, \u00e9 quando adiciona os efeitos eletr\u00f4nicos que fazem cama para sua voz que sua obra ganha contornos ainda mais interessantes. Para um desavisado ou algu\u00e9m que n\u00e3o \u00e9 f\u00e3 de m\u00fasica eletr\u00f4nica, as batidas e ru\u00eddos chegam a incomodar &#8211; e muito &#8211; num primeiro momento, como se estivesse justamente atrapalhando a can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, \u00e0 medida que se avan\u00e7a nas audi\u00e7\u00f5es do \u00e1lbum, percebe-se que toda essa base ruidosa serve como um sinal de reitera\u00e7\u00e3o do desespero que a interpreta\u00e7\u00e3o do cantor traz \u00e1 tona. Como se os efeitos ali colocados reafirmassem a insolubilidade dos problemas expostos por Blake: h\u00e1 sim, um limite para o amor, e a chance de isso mudar \u00e9 inacreditavelmente pequena em meio \u00e0 vida agitada, confusa e por vezes nonsense que se tem nos dias de hoje. Ou ainda, como ele pr\u00f3prio diz, em \u201cEnough Thunder\u201d, que encerra o EP de mesmo nome: \u201cn\u00f3s s\u00f3 podemos esperar para partir o cora\u00e7\u00e3o agora\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de extremamente cruel, essas no\u00e7\u00f5es guardam dentro de si mesma uma assustadora e intensa beleza, rara de se ver hoje em dia. T\u00e3o rara que capta a aten\u00e7\u00e3o at\u00e9 mesmo de quem a ignoraria em outras circunst\u00e2ncias. E \u00e9 justamente a\u00ed que reside a for\u00e7a de James Blake. Esque\u00e7a os r\u00f3tulos e ou\u00e7a \u201cJames Blake\u201d e \u201cEnough Thunder\u201d, a descoberta (ruptura) ir\u00e1 valer a pena.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/q9LTCwdswx0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Bruno Capelas \u00e9 estudante de jornalismo e assina o blog\u00a0<a href=\"http:\/\/pergunteaopop.blogspot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pergunte ao Pop<\/a><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; \u201cAstral Weeks?, de Van Morrison, por Lester Bangs (texto original <a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musica\/astral.html\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; S\u00f3nar S\u00e3o Paulo 2012 ter\u00e1 Bjork, Justice, James Blake, Four Tet e mais. Veja o line-up <a href=\"http:\/\/www.sonarsaopaulo.com.br\/pt\/programacao.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Eis um int\u00e9rprete t\u00e3o poderoso que poderia conceber um disco inteiro apenas \u00e0 capella sem qualquer problema&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/12\/07\/descoberta-ruptura-e-james-blake\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":14,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[3504],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11114"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11114"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11114\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":50433,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11114\/revisions\/50433"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11114"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11114"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11114"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}