{"id":10820,"date":"2011-11-22T19:51:08","date_gmt":"2011-11-22T21:51:08","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=10820"},"modified":"2017-07-14T10:47:16","modified_gmt":"2017-07-14T13:47:16","slug":"ringo-starr-sua-banda-e-a-microhistoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/11\/22\/ringo-starr-sua-banda-e-a-microhistoria\/","title":{"rendered":"Sob o CEL: Ringo Starr e a Microhist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-10821\" title=\"ringo1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/ringo1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center; \"><strong>Sob O CEL #7<br \/>\npor Carlos Eduardo Lima<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea sabe o que \u00e9 microhist\u00f3ria? Eu te conto: \u00e9 um g\u00eanero de pesquisa dentro do estudo da Hist\u00f3ria, empreendido pelos italianos Carlo Ginzburg e Giovanni Levi, cujo prop\u00f3sito \u00e9 explicar contextos sociais, econ\u00f4micos, pol\u00edticos, entre outros, a partir da observa\u00e7\u00e3o mais reduzida poss\u00edvel. Grosso modo, \u00e9 como definir toda uma sociedade ou grandes aspectos dela a partir do estudo de um grupo reduzido de pessoas ou mesmo de um indiv\u00edduo. Foi nesse conceito que pensei durante todo do show de Ringo Starr e sua All-Starr Band no palco do Citibank Hall lotado (15\/11\/11). Sen\u00e3o vejamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ringo \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, um coadjuvante. Essencialmente, o baterista, por mais que seja imprescind\u00edvel para uma banda de rock existir, \u00e9 uma figura que tende ao status de emin\u00eancia parda. Salvo raras exce\u00e7\u00f5es, o sujeito que fica l\u00e1 atr\u00e1s espancando os tambores \u00e9 um cara menos importante que o guitarrista principal ou o vocalista. Ringo sempre soube disso e, desde o in\u00edcio dos Beatles, pediu para que seu set de bateria fosse colocado num plano mais elevado, sob a desculpa de que queria ver a plat\u00e9ia. Bem, na verdade, Richard Starkey queria ser visto tamb\u00e9m. Mesmo assim, ele nunca venceu a condi\u00e7\u00e3o de Beatle menos importante, chegando a ser detonado por muita gente que duvidava de seu talento como baterista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, Ringo sempre foi um excelente m\u00fasico e sua presen\u00e7a foi decisiva para que os Beatles fizessem a revolu\u00e7\u00e3o sonora que se viu a partir de 1965. At\u00e9 ent\u00e3o, o lance era ditar o ritmo das levadas, algo em que, diga-se de passagem, ele \u00e9 um dos melhores de todos os tempos. Poucos bateristas s\u00e3o t\u00e3o precisos e capazes de segurar um andamento como Ringo. Para os detratores da criatividade do homem, basta uma audi\u00e7\u00e3o mais cuidadosa de can\u00e7\u00f5es como &#8220;A Day In The Life&#8221;, &#8220;Strawberry Fields Forever&#8221;, &#8220;Taxman&#8221;, &#8220;Tomorrow Never Knows&#8221;, &#8220;I Want You&#8221;, &#8220;Sexy Sadie&#8221;, &#8220;Helter Skelter&#8221;, enfim, um monte de m\u00fasicas dos Beatles que t\u00eam a centelha de inventividade de Ringo, em cria\u00e7\u00f5es s\u00f3 dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O &#8220;detalhe&#8221; \u00e9 que Ringo estava numa banda liderada por dois g\u00eanios, cada um a seu modo, que roubavam toda a aten\u00e7\u00e3o, al\u00e9m da presen\u00e7a discreta, por\u00e9m marcante, de um cara como George Harrison. Restava a Ringo ser o &#8220;boa pra\u00e7a&#8221;, o &#8220;engra\u00e7ado&#8221;. Pois bem, os Beatles acabaram em 1970 e cada um deu in\u00edcio \u00e0 sua respectiva carreira solo. Se analisarmos as trajet\u00f3rias solo de John, Paul, George e Ringo, elas s\u00e3o, como diriam os professores de geometria, opostas pelo v\u00e9rtice. A origem \u00e9 comum e inescap\u00e1vel, mas os rumos foram distintos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paul montou os Wings, desmontou, gravou discos corret\u00edssimos, alguns cl\u00e1ssicos e sempre privilegiou a melodia. John montou a Plastic Ono Band, colocou pra fora seus dem\u00f4nios, desmontou a banda e pariu outros cl\u00e1ssicos. George gravou aquele que pode ser o melhor disco de um ex-Beatle, &#8220;All Things Must Pass&#8221;, al\u00e9m de outros trabalhos muito bonitos, se engajou nas causas sociais, colecionou amigos e carr\u00f5es. Nosso amigo Ringo gravou um belo tributo \u00e0s can\u00e7\u00f5es que seus pais gostavam em \u201cSentimental Journey\u201d, com produ\u00e7\u00e3o de Quincy Jones, al\u00e9m de um belo disco em 1973, chamado simplesmente \u201cRingo\u201d, com participa\u00e7\u00e3o de seus ex-companheiros de banda e um monte de amigos. A vida em conjunto nos 60&#8217;s, no entanto, sempre os manteve juntos e em termos de compara\u00e7\u00e3o, novamente Ringo perdeu para seus ex-colegas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade \u00e9 injusto dizer que \u201cBeaucups Of Blues\u201d e \u201cGoodnight Vienna\u201d s\u00e3o discos discretos, mas Ringo s\u00f3 voltou a gravar \u00e1lbuns interessantes nos anos 90, com \u201cTime Takes Time\u201d (1992) e \u201cVertical Man\u201d (1998). Depois vieram os bons \u201cRingorama\u201d (2003), \u201cLiverpool 8\u201d (2008) e o cortante \u201cY Not\u201d (2010), que traz parceria com Van Dyke Parks, o letrista de \u201cSmile\u201d, dos Beach Boys, al\u00e9m de Paul McCartney e Joss Stone. Entretanto, o que mant\u00e9m Ringo em forma e nos palcos \u00e9 sua All Starr Band. O conceito de uma banda rotativa, liderada por Ringo, pertence ao produtor David Fishof. Com experi\u00eancia de sobra no ramo do showbiz, Fishof apresentou a id\u00e9ia a Ringo no distante ano de 1989, chegando a produzir shows da banda at\u00e9 2003. O pr\u00f3prio conceito \u00e9 uma vingan\u00e7a com as chamadas &#8220;primeiras divis\u00f5es do rock&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se Ringo foi coadjuvante nos Beatles, \u00e9 poss\u00edvel dizer que, salvo poucas exce\u00e7\u00f5es, todos os m\u00fasicos que participaram e participam da All Starr Band s\u00e3o, de alguma forma, coadjuvantes do pr\u00f3prio rock&#8217;n&#8217;roll. Gente que figurou em bandas de sucesso, mas n\u00e3o era o mais carism\u00e1tico de seus integrantes; gente que emplacou um ou dois hits em toda a carreira; gente que estava no mais profundo ostracismo, gente talentosa e injusti\u00e7ada, enfim, um bando de m\u00fasicos com muita vontade de subir no palco e acertar contas com a vida, com o destino e tudo mais. N\u00e3o \u00e9 brincadeira, gente, tudo isso \u00e9 muito s\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imagine Peter Frampton. O cara dominou o mundo em 1976\/78. Era jovem, bonito e talentoso o suficiente para ir adiante com seu \u201cFrampton Comes Alive\u201d, um dos discos ao vivo mais famosos e vendidos da hist\u00f3ria do rock. Que nada. Frampton caiu no ostracismo ao longo das d\u00e9cadas de 1980\/90, gravando discos espor\u00e1dicos e integrou a All Starr Band em 1997. Gente como Todd Rundgren, Billy Preston, Randy Bachman, Felix Cavaliere, Nils Lofgren, Simon Kirke, Eric Carmen, Joe Walsh, Clarence Clemmons, Greg Lake, Howard Jones, Colin Hay, entre muitos outros sujeitos das segundas e terceiras divis\u00f5es do rock, j\u00e1 estiveram nas fileiras do projeto. Mais impressionante \u00e9 ver que gente gra\u00fada como Levon Helm e Rick Danko (The Band), Jack Bruce (Cream), John Entwistle (The Who) e Dr.John tamb\u00e9m j\u00e1 bateram ponto por l\u00e1. Explica-se: Ringo \u00e9, de fato, um boa pra\u00e7a e todo mundo parece gostar muito dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que depreendemos de tudo isso? Claro que a All Starr Band, cujo mote \u00e9 que &#8220;todos os participantes t\u00eam seu momento de estrela&#8221;, \u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o para fazer justi\u00e7a e se divertir. A atual encarna\u00e7\u00e3o, apesar de ser a mais fraca, tamb\u00e9m segue esse lema e traz o baterista Greg Bissonette, os guitarristas Wally Palmar (The Romantics) e Rick Derringer (The McCoys); os tecladistas Edgar Winter (solo) e Gary Wright (Spooky tooth, solo); o baixista Richard Page (Mr.Mister) e o percussionista multitarefas Mark Rivera. Cada um deles assume a fun\u00e7\u00e3o de frontman ao longo da noite e pequenos lados-B s\u00e3o enfileirados no palco para a lembran\u00e7a fugidia de uns e outros, na base do &#8220;ah, eu conhe\u00e7o essa m\u00fasica!&#8221;. A sensa\u00e7\u00e3o vem em &#8220;Talking In Your Sleep&#8221; e &#8220;What I Like About You&#8221; (Romantics), &#8220;Hang On Sloopy&#8221; (The McCoys), &#8220;Dream Weaver&#8221; e &#8220;My Love Is Alive&#8221; (Gary Wright) e na colossal &#8220;Free Ride&#8221;, de Edgar Winter, que tamb\u00e9m estra\u00e7alha tudo em &#8220;Frankstein&#8221;. Mesmo as babinhas &#8220;Kyrie&#8221; e &#8220;Broken Wings&#8221;, do Mr. Mister, n\u00e3o fazem feio \u2013 dentro do contexto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A estrela (trocadilho n\u00e3o-intencional, vejam) \u00e9 mesmo Ringo, que est\u00e1 em forma do alto dos seus 71 anos. Ele usa e abusa do carisma nato e conquista a plat\u00e9ia em quest\u00e3o de segundos. Manda bala em can\u00e7\u00f5es dos Beatles \u2013 &#8220;I Wanna Be Your Man&#8221;, &#8220;Act Naturally&#8221;, &#8220;Boys&#8221;, &#8220;Yellow Submarine&#8221; e &#8220;With A Little Help From My Friends&#8221;, que vem emendada com &#8220;Give Peace A Chance&#8221;, de um tal de John Lennon. Vers\u00f5es particularmente legais de &#8220;Photograph&#8221;, j\u00f3ia composta por George Harrison em 1973, e da cover dos tempos de Liverpool para &#8220;Honey Don&#8217;t&#8221;, de Carl Perkins, atestam a divers\u00e3o na plat\u00e9ia e no palco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um show de coadjuvantes, gente que viu de perto a fama e a fortuna do rock, que perdeu bondes, tomou decis\u00f5es erradas, pensou uma coisa e fez outra, viu o bonde virar a esquina, gente que se tornou &#8220;has been&#8221;, enfim, gente que deu a volta por cima, fazendo o que mais gosta, talvez salvando da lama rasteira do showbiz uma li\u00e7\u00e3o de persist\u00eancia, perseveran\u00e7a e autoconfian\u00e7a. Posso estar equivocado, mas Ringo Starr e sua All Starr Band s\u00e3o exatamente isso. \u00c9 justo que ela exista e leve multid\u00f5es formadas por gente que curtiu tudo isso h\u00e1 tempos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-10822\" title=\"ringo2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/ringo2.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CEL \u00e9 Carlos Eduardo Lima, historiador,     jornalista e f\u00e3 de m\u00fasica. Conhece Marcelo Costa por carta desde o  fim    dos anos 90, quando o Scream &amp; Yell era um fanzine escrito  por  ele e   amigos, l\u00e1 em sua natal Taubat\u00e9. J\u00e1 escreveu no S&amp;Y por  um  bom   tempo, em idas e vindas. Hoje tem certeza de que o mundo como  o    conhec\u00edamos acabou l\u00e1 por volta de 1994\/95 mas n\u00e3o est\u00e1 conformado  com    isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/sob_o_ceu\/\"><strong>LEIA OUTRAS COLUNAS DE CARLOS EDUARDO LIMA NO SCREAM &amp; YELL<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Sob O CEL #7\nRingo \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, um coadjuvante. 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