{"id":10541,"date":"2011-11-09T08:12:16","date_gmt":"2011-11-09T10:12:16","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=10541"},"modified":"2017-07-14T10:47:24","modified_gmt":"2017-07-14T13:47:24","slug":"sobre-discos-estranhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/11\/09\/sobre-discos-estranhos\/","title":{"rendered":"Sob o CEL: Sobre Discos Estranhos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-10542\" title=\"lulu\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/lulu.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Sob O CEL #6<br \/>\npor Carlos Eduardo Lima<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00eas j\u00e1 ouviram \u201cLulu\u201d, disco de Lou Reed e Metallica? Imagino que a maioria deve ter achado uma grande m&#8230;, j\u00e1 devem ter, inclusive, deletado a pasta com os arquivos MP3 dos respectivos computadores, certo? Afinal de contas, qual o sentido em ouvir um senhor de setenta anos falando de v\u00edsceras, morte, viol\u00eancia, secundado por um quarteto de sujeitos de meia idade, posando de mauz\u00f5es, descascando riffs no piloto autom\u00e1tico? Pois bem, eu achei \u201cLulu\u201d muito interessante, cheio de fios condutores, inquieta\u00e7\u00e3o genu\u00edna, prenhe de desejo em sair de uma zona de conforto mortal, que pode acabar com a pouca arte que ainda existe na m\u00fasica pop.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo que voc\u00ea tenha achado \u201cLulu\u201d horroroso, h\u00e1 uma tradi\u00e7\u00e3o de valoriza\u00e7\u00e3o desses discos estranhos ao longo dos tempos. O que parecia estranho ontem, pode ser cult, genial hoje. Isso \u00e9 um mecanismo normal de evolu\u00e7\u00e3o do pensamento ou do que os historiadores preconizam, de que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel analisar algo quando est\u00e1 inserido em seu pr\u00f3prio tempo. &#8220;Isso \u00e9 fun\u00e7\u00e3o dos jornalistas&#8221;, eles costumam dizer. Sendo assim, me vejo numa sinuca, com o c\u00e9rebro oscilando entre os modos &#8220;ontem&#8221; e &#8220;hoje&#8221;. S\u00f3 que \u201cLulu\u201d e tudo o que vem em forma de inspira\u00e7\u00e3o dele, vem de ontem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lou Reed achou interessante criar m\u00fasicas para uma pe\u00e7a alem\u00e3 do in\u00edcio do s\u00e9culo e, sabe-se l\u00e1, achou que o Metallica seria ideal para sonorizar suas letras barra pesada sobre uma bailarina que \u00e9 v\u00edtima de viol\u00eancias mil. James Hetfield e seus cupinchas acharam tudo muito bom, tudo muito bem, e embarcaram nessa galera. At\u00e9 porque, se pensarmos bem, o Metallica n\u00e3o faz nada interessante desde o \u00e1lbum preto, de 1991. Qualquer disco de in\u00e9ditas da banda gravado em cerca de vinte anos fica sem gra\u00e7a se comparado com esse mamute de sucessos, que trazia &#8220;Enter Sandman&#8221;, &#8220;Nothing Else Matters&#8221; e cia. Podemos chamar \u201cLulu\u201d de disco estranho. S\u00e3o dez m\u00fasicas num \u00e1lbum duplo, a maioria varando os oito minutos, nas quais Lou murmura a letra e o Metallica toca riffs e climas, de forma praticamente desconexa. Parece uma experi\u00eancia de mixar a voz e o instrumental de can\u00e7\u00f5es distintas. Deu certo, ao menos pra mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1999, Iggy Pop lan\u00e7ou \u201cAvenue B\u201d. Ningu\u00e9m teve paci\u00eancia para ouvir as declama\u00e7\u00f5es de um, dois minutos do Iguana sobre sua vida, seu passado, suas mem\u00f3rias, afinal de contas, este era um disco reflexivo, quase autobiogr\u00e1fico, algo extremamente raro na carreira de Iggy. Mais: trazia o trio de indie-jazz Medeski, Martin &amp; Wood como banda de acompanhamento e a produ\u00e7\u00e3o pl\u00e1tica de Don Was. O resultado foi detonado nos quatro cantos do mundo. Outro dia reouvi o disco e ele desceu muito redondo. Parece que a gente vai ficando mais velho e vai entendendo essas crises de autobiografia, da vontade de falar de n\u00f3s mesmos, das lembran\u00e7as, daquelas coisas que nos definem. No meio de \u201cAvenue B\u201d h\u00e1 uma cover incendi\u00e1ria de &#8220;Shakin&#8217; All Over&#8221;, de Johnny Kidd And the Pirates, que parece como se Iggy quisesse dizer aos impacientes algo como: &#8220;Olhem, eu estou aqui, me deixem refletir um pouco, mas ainda sou eu, daqui a pouco eu volto&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-10544\" title=\"iggy\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/iggy.jpg\" alt=\"\" width=\"603\" height=\"204\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/iggy.jpg 603w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/iggy-300x101.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 603px) 100vw, 603px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1994 os Paralamas do Sucesso tamb\u00e9m se viram \u00e0s voltas com um disco estranho. \u201cSeverino\u201d veio \u00e0 luz do dia puxado pela faixa &#8220;Caga\u00e7o&#8221;, com o verso &#8220;Tenho caga\u00e7o de descer ladeira abaixo, tenho caga\u00e7o de pensar demais&#8221; e talvez seja o maior fracasso de vendas da carreira da banda (segundo dados n\u00e3o oficiais vendeu 55 mil c\u00f3pias em 1994 enquanto o \u00e1lbum \u201cHoje\u201d, de 2005, mesmo em tempos de MP3 alcan\u00e7ou 80 mil). Se ouvirmos as can\u00e7\u00f5es de \u201cSeverino\u201d, ser\u00e1 muito dif\u00edcil imaginar que esses s\u00e3o os mesmos caras que fizeram \u201cO Passo de Lui\u201d dez anos antes. A influ\u00eancia \u00e9 tropicalista, as refer\u00eancias s\u00e3o m\u00faltiplas, desde arte moderna de Arthur Bispo do Ros\u00e1rio e literatura, passando pelas reflex\u00f5es do centen\u00e1rio de descobrimento da Am\u00e9rica, numa homenagem pungente ao Portugal da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia em &#8220;Navegar Impreciso&#8221;, com vocais de Tom Z\u00e9 e Linton Kwesi Johnson. Mais que olhar para o mundo, sintoma vis\u00edvel nos convidados e na produ\u00e7\u00e3o de Phil Manzanera, guitarrista do Roxy Music, Herbert, Bi e Barone v\u00e3o al\u00e9m e olham para Brasil e Am\u00e9rica Latina, respectivamente em &#8220;Vamo Bat\u00ea Lata&#8221; e &#8220;Dos Margaritas&#8221;. O argentino Fito Paez tamb\u00e9m d\u00e1 as caras na vers\u00e3o hisp\u00e2nica de &#8220;Quase Um Segundo&#8221; e Brian May sola em &#8220;El Vampiro Bajo El Sol&#8221;. Pense: quando alguma banda de rock nacional fez algo minimamente parecido em termos de esfor\u00e7o de express\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lulu Santos era um hitmaker. Na verdade, Lulu Santos ainda mostrou-se hitmaker depois de \u201cPopsambalan\u00e7o e Outras Levadas\u201d, de 1988. Num tempo em que n\u00e3o era cool e moderno citar as levadas grooveadas de Jorge Ben, Lulu resolveu fazer um disco inteiro num clima de tangenciava alguns preceitos tropicalistas e nacionais, mas n\u00e3o o &#8220;nacional&#8221; do rock que se fazia aqui na \u00e9poca, mas uma olhada para o samba e alguns ritmos nativos de outros tempos. Ningu\u00e9m gostou do resultado, apesar de &#8220;Brum\u00e1rio&#8221; tocar nas r\u00e1dios na \u00e9poca. As pessoas tamb\u00e9m n\u00e3o estavam sintonizadas no que Lulu queria dizer com o disco, talvez apenas se divertir tocando guitarra de uma forma diferente do que vinha fazendo h\u00e1 tempos. O fato \u00e9 que \u201cPopsambalan\u00e7o e Outras Levadas\u201d era um &#8220;disco voador&#8221; num 1988 em que o rock nacional come\u00e7ava a enxergar que era preciso mudar algo se quisesse manter-se na ordem do dia. Era estranho ouvir aquelas levadas de guitarra, mas deve ter custado pelo menos um pux\u00e3o de orelha da gravadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse detalhe que \u00e9 grande demais, o de ter necessidade de expressar-se, \u00e9 que est\u00e1 faltando \u00e0 m\u00fasica pop hoje em dia. Se pensarmos que os exemplos dados aqui \u2013 e h\u00e1 muitos mais, de Ed Motta em \u201cUm Contrato Com Deus\u201d (1990), David Bowie com \u201cLow\u201d (1977), Caetano Veloso com \u201cAra\u00e7\u00e1 Azul\u201d (1972), Beach Boys com \u201cPet Sounds\u201d (1966) a R.E.M. com \u201cMonster\u201d (1994) \u2013 s\u00e3o obras que demonstram a necessidade humana de express\u00e3o al\u00e9m do formato preestabelecido. Nada de can\u00e7\u00f5es assobi\u00e1veis, nada de refr\u00e3os f\u00e1ceis em composi\u00e7\u00f5es de tr\u00eas minutos, a tem\u00e1tica ser\u00e1 dif\u00edcil, complicada, antipop, longe da zona de conforto, fora dos par\u00e2metros. O povo fica em frenesi hoje pela simples apari\u00e7\u00e3o de Chico Buarque e Marisa Monte lan\u00e7ando discos medianos, imagine se algu\u00e9m resolve cutucar a mesmice? Por isso que disse outro dia que o rock nacional precisava de um \u201cTitanomaquia\u201d, algo que demonstre que h\u00e1 gente viva por a\u00ed, com disposi\u00e7\u00e3o para ir contra algo limitador. Acredite, todos os artistas mencionados aqui correm ou correram riscos com esses discos estranhos e isso \u00e9 muito bom. Arte, como j\u00e1 dizia o cineasta Glauber Rocha, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 talento, \u00e9 coragem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/PrcL5DE8QuQ\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/PrcL5DE8QuQ\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Ts_7BYubYws\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Ts_7BYubYws\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/DekMC6x1PII\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/DekMC6x1PII\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CEL \u00e9 Carlos Eduardo Lima, historiador,     jornalista e f\u00e3 de m\u00fasica. Conhece Marcelo Costa por carta desde o  fim    dos anos 90, quando o Scream &amp; Yell era um fanzine escrito  por  ele e   amigos, l\u00e1 em sua natal Taubat\u00e9. J\u00e1 escreveu no S&amp;Y por  um  bom   tempo, em idas e vindas. Hoje tem certeza de que o mundo como  o    conhec\u00edamos acabou l\u00e1 por volta de 1994\/95 mas n\u00e3o est\u00e1 conformado  com    isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/sob_o_ceu\/\"><strong>LEIA OUTRAS COLUNAS DE CARLOS EDUARDO LIMA NO SCREAM &amp; YELL<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Sob o CEL #6\nArtistas correm riscos com discos estranhos e isso \u00e9 bom. 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