{"id":10301,"date":"2011-10-27T19:37:28","date_gmt":"2011-10-27T21:37:28","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=10301"},"modified":"2020-03-22T01:32:04","modified_gmt":"2020-03-22T04:32:04","slug":"o-revival-nao-declarado-das-girl-groups","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/10\/27\/o-revival-nao-declarado-das-girl-groups\/","title":{"rendered":"Revival n\u00e3o declarado das Girl Groups"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/andretakeda\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Andr\u00e9 Takeda<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela era a garota mais inteligente do Col\u00e9gio de Aplica\u00e7\u00e3o de Porto Alegre. O que, para um cara de dezesseis anos como eu, significava que ela era a garota mais inteligente do mundo. Talvez sua \u00fanica falha foi ter se apaixonado por mim. E n\u00e3o digo isso com falsa mod\u00e9stia. Logo, logo voc\u00eas v\u00e3o me dar raz\u00e3o. Enfim, ela era definitivamente a mulher mais inteligente do mundo. Mas estava longe de ser uma CDF. Porque existe um abismo enorme entre um g\u00eanio e um CDF. Ela simplesmente n\u00e3o precisava estudar, porque muitas vezes sabia mais do que os pr\u00f3prios professores. Al\u00e9m disso, sabia o quanto era bonita e que todos os marmanjos do Aplica\u00e7\u00e3o olhavam para as suas pernas quando jogava v\u00f4lei. Por isso, n\u00e3o se importava em sumir do col\u00e9gio comigo, beber com os meus amigos, passar a tarde me beijando no seu apartamento enquanto seus pais estavam trabalhando, ou at\u00e9 mesmo ficar cinco horas em p\u00e9 porque eu queria ser um dos primeiros na fila do show do New Order. Ou seja, ela era a namorada perfeita. Pena que de perfeito eu sempre tive pouco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez seja o meu sangue japon\u00eas, mas acho que tenho um humor quase perverso em minhas rela\u00e7\u00f5es. Vai saber. A verdade \u00e9 que, depois de mais ou menos um ano juntos, fomos convidados para uma festa de quinze anos de uma menina de outra turma do col\u00e9gio. Eu havia chegado no tal clube h\u00e1 uns vinte minutos com dois amigos meus. \u00d3bvio que j\u00e1 est\u00e1vamos b\u00eabados. Foi ent\u00e3o que a vi entrar com suas amigas, sorrindo para mim, e fiz uma das coisas que mais me arrependo em toda a minha vida. Ela usava um vestido verde, cheio de camadas. Verde, muito verde. E eu tive a infeliz ideia de dizer &#8220;Nossa, tu parece um repolho&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e9rio? S\u00e9rio, Andr\u00e9? Repolho? Eu realmente gostava dela. Eu estava apaixonado. Eu sonhava em passar o resto da minha vida em suas pernas de jogadora de v\u00f4lei. Mas n\u00e3o fui capaz de dizer que ela estava linda. Que estava com saudades. Que queria dan\u00e7ar o \u00faltimo single do New Order ao seu lado. N\u00e3o. S\u00f3 consegui chamar a garota mais inteligente do mundo de repolho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00d3bvio que imediatamente ela come\u00e7ou a chorar. Saiu correndo pelo sal\u00e3o do clube. E s\u00f3 a vi de novo na sa\u00edda da festa. L\u00e1 estava ela sentada no ch\u00e3o, ao lado de uma escadaria, aos beijos com outro menino. Foi a primeira vez que fui tra\u00eddo. E nem me senti t\u00e3o corno assim. Porque, no fundo, sabia que ela tinha raz\u00e3o. Sei que ela me viu tamb\u00e9m. Mas n\u00e3o dissemos nada um ao outro. Fui embora, em sil\u00eancio, sozinho. E, na segunda, lembro que terminamos definitivamente nosso relacionamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ambos sab\u00edamos que ela merecia algo melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Provavelmente ela j\u00e1 tenha esquecido essa hist\u00f3ria. E se n\u00e3o esqueceu, Peixinha Cleo, hoje pe\u00e7o desculpas em p\u00fablico. Porque \u00e9 dessa hist\u00f3ria tipicamente adolescente, desse roteiro digno de John Hughes, dessa pequena com\u00e9dia rom\u00e2ntica que lembro toda vez que penso em escrever algo sobre a minha paix\u00e3o pelas girl groups. Afinal, foi a garota mais inteligente do mundo que gravou para mim uma fita K7 com aquela que seria a minha m\u00fasica favorita de todos os tempos: &#8220;Be My Baby&#8221;, das Ronettes.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"The Ronettes - Be My Baby - live [HQ]\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jrVbawRPO7I?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o existe nada mais adolescente do que as girl groups dos anos 50 e 60. &#8220;Will You Love Me Tomorrow&#8221;, das Shirelles, que \u00e9, na minha opini\u00e3o, o maior cl\u00e1ssico do g\u00eanero, fala sobre uma garota que n\u00e3o sabe se o seu namorado ainda vai gostar dela depois da primeira vez. Essa primeira vez pode ser um cinema, um beijo, mas ainda penso que a Carole King estava se referindo ao sexo. Com letra tamb\u00e9m de King, &#8220;One Fine Day&#8221;, das Chiffons, \u00e9 o ponto de vista daquela que est\u00e1 esperando apenas um olhar do gostos\u00e3o da turma, do bairro, da escola. A pr\u00f3pria Ronnie Spector das Ronettes diz em sua autobiografia que o verso &#8220;for every kiss you give me, I&#8217;ll give you three&#8221;, de &#8220;Be My Baby&#8221;, se referia a beijos na bochecha. Porque ela ainda nem tinha 18 anos quando o maluco do Phil Spector escreveu e produziu essa obra-prima como forma de declarar seu amor pela cantora. E a tr\u00e1gica &#8220;The Leader of The Pack&#8221;, das Shangri-Las, conta a hist\u00f3ria de uma menina que sai com um rebelde que morre em um acidente de moto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E eis que, de repente, me dou conta que grande parte do que estou ouvindo em 2011 tem claras refer\u00eancias \u00e0s girl groups. Musicalmente, &#8220;Sadness is a Blessing&#8221;, da Lykke Li, e &#8220;Bumper&#8221;, do Cults, bebem diretamente na fonte do formato cl\u00e1ssico do pop norte-americano da \u00e9poca de ouro da jukebox. &#8220;Love Life&#8221;, do Girls, poderia muito bem ser um single escrito no lend\u00e1rio Brill Building, em Nova Iorque, onde compositores como Carole King, Gerry Goffin, Doc Pomus, Ellie Greenwich, Jeff Barry, Jerry Leiber, Mike Stoller, Burt Bacharach, entre outros, batiam cart\u00e3o e juntos escreveram mais hits que os Beatles e os Stones juntos. E &#8220;The Memory is Cruel&#8221;, da espanhola Russian Red, tem aquele toque dram\u00e1tico, quase tr\u00e1gico, das produ\u00e7\u00f5es de George Shadow Morton, o c\u00e9rebro por tr\u00e1s das Shangri-las.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos esses m\u00fasicos s\u00e3o jovens. Bem jovens, eu diria. Quase saindo da adolesc\u00eancia. E o mais interessante \u00e9 perceber que a tem\u00e1tica de suas letras nem sempre parece adolescente. Estamos crescendo mais r\u00e1pido? Ficando maduros antes do tempo? Ou os versos da Russian Red n\u00e3o parecem adolescentes porque ser adolescente e ser adulto hoje \u00e9 a mesma coisa? Eu diria que perdemos a inoc\u00eancia do &#8220;beijo na bochecha&#8221; e somos mais melanc\u00f3licos. Lykke Li tem apenas 25 anos e realmente acreditamos quando ela canta &#8220;tristeza, sou sua garota&#8221;. Tenho vontade de dizer &#8220;C&#8217;mon, Lykke, tu \u00e9 novinha, bonita, talentosa, a melhor coisa que veio da Su\u00e9cia depois da vodca Absolut, deixa esse papo de tristeza de lado, por favor&#8221;. Mas esse \u00e9 o mundo moderno. Onde jovens de vinte e poucos anos s\u00e3o capazes de escrever can\u00e7\u00f5es sobre separa\u00e7\u00f5es como se tivessem vivido um casamento de d\u00e9cadas. Duvida? Ent\u00e3o presta aten\u00e7\u00e3o na letra de &#8220;The Memory is Cruel&#8221;. Mesmo os Raveonettes, cuja sonoridade \u00e9 100% girl groups, tem algo de melanc\u00f3lico em suas letras quase sempre sexuais. E a banda ainda tem uma doce can\u00e7\u00e3o com o t\u00edtulo nada inocente de &#8220;Boys Who Rape (Should All Be Destroyed)&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu, que \u00e0s vezes acho que nasci na \u00e9poca errada, adoro este revival n\u00e3o declarado das girl groups. H\u00e1 tempos que n\u00e3o ouvia tanto disco novo como em 2011. E realmente espero que isso sirva como inspira\u00e7\u00e3o para que mais gente, adolescente ou n\u00e3o, corra atr\u00e1s de bandas como Shirelles, Chiffons, Ronettes, Crystals, Shangri-Las, Marvelettes, Dixie Cups. Ou que pelo menos ou\u00e7am todos os cl\u00e1ssicos que a Carole King escreveu em sua vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, aconte\u00e7a o que acontecer, nunca chame a sua namorada de repolho. Porque n\u00e3o \u00e9 preciso ser a garota mais inteligente do mundo para saber que vivemos em um girl world. E, se pisarmos na bola, elas sempre v\u00e3o encontrar um cara mais legal que a gente. Tenha certeza disso.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Lykke Li :: Sadness Is a Blessing :: Tower Records, Dublin\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/bGuzT9UAmRg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*******<br \/>\n<em>Andr\u00e9 Takeda \u00e9 autor dos livros \u201cO Clube dos Cora\u00e7\u00f5es Solit\u00e1rios\u201d (2001), \u201cCassino Hotel\u201d (2004) e \u201cA Menina do Castelinho de J\u00f3ias\u201d (2011). \u00c9 colaborador de primeira hora do Scream &amp; Yell e assina atualmente o Tumblr <a href=\"http:\/\/euqueroseramigo.tumblr.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Eu Quero Ser Amigo<\/a> al\u00e9m de publicar suas fotografias no <a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/andretakeda\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/www.flickr.com\/photos\/andretakeda\/<\/a><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; O momento decisivo de Russian Red, por Andr\u00e9 Takeda (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/08\/29\/o-momento-decisivo-de-russian-red\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Um Adolescente nos Anos 80, uma s\u00e9rie em 10 cap\u00edtulos, por Andr\u00e9 Takeda (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/pms_cnts\/tkum.html\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Love Life&#8221;, do Girls, poderia muito bem ser um single escrito no lend\u00e1rio Brill Building, em Nova Iorque. 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