A Capa do Disco: The Stone Roses e sua ligação com a arte de Jackson Pollock

texto por Luciano Ferreira

A discussão é antiga, mas sempre atual: como as capas de discos, magnânimas no formato vinil, como se fossem um quadro, se tornaram algo tão banal, pobre e mesquinho na era dos CD’s, principalmente nos primórdios da digitalização. Quem coleciona, com toda certeza tem alguma capa de CD que chega a dar tristeza de tão pobre que é a produção. Em alguns casos, um pedaço de papel com a foto do álbum na frente e um lado branco no verso falando sobre as maravilhas do compact disc, como conservá-lo, etc… Com o tempo, até surgiram trabalhos gráficos inusitados, diferentes, de capas para CDs, mas, ainda assim, não se compara ao vinil.

Exemplo disso é a belíssima capa do álbum de estreia dos mancunianos The Stone Roses, lançado em 1989, que leva o nome da própria banda: uma pintura abstrata de John Squire chamada “Bye Bye Badman” declaradamente inspirada no trabalho do pintor estadunidense Jackson Pollock, artista bastante referenciado pela banda britânica, no geral, e por Squire, que futuramente se dedicará a pintura, em particular. Pollock nasceu em 1912 e morreu de um acidente de carro em 1956, aos 44 anos de idade. É considerado um dos criadores do expressionismo abstrato ou action painting, que valorizava a espontaneidade, o movimento corporal e gestual durante a criação da obra.

“Number 1A”, de Jackson Pollock, exposto no MoMA, em Nova York

Pollock utilizava tinta líquida e a técnica de pintura por gotejamento, despejando a tinta sobre a tela e criando linhas e formações aleatórias. Sua forma de trabalhar consistia em colocar a tela no chão, despejar a tinta líquida e utilizar o próprio corpo como instrumento para a criação, numa espécie de imersão física do artista na pintura. Ele utilizou a técnica entre 1947 e 1951, quando resolveu abandoná-la. São justamente desse período algumas de suas telas mais conhecidas: “Number 1” e “Autumn Rhythm: Number 30” (tela tão grande que precisou ser pintada num celeiro), ambas de 1950, e “Número 5” (1948), uma das obras mais famosas do Abstracionismo, vendida em 2006 por US$ 140 milhões, um recorde na época.

The Stone Roses em 1989

A dupla John Squire (guitarra) e Ian Brown (vocal) já estava envolvida com música desde 1980 – Brown chegou até a tocar contrabaixo – e o The Stone Roses surge efetivamente em 1983. Entre entradas e saídas de integrantes e um processo de evolução musical, levou seis anos até que seu estrondoso primeiro álbum fosse lançado. Antes disso, o grupo gravou com Martin Hannet (Joy Division, New Order, Magazine), o álbum “Garage Flowers”, que poderia ter sido o debute do grupo. A insatisfação da banda com o resultado final, porém, fez com que o disco ficasse engavetado até 1996. Apenas duas faixas desse registro seriam utilizadas em seu álbum de 1989, “I Wanna Be Adored” e “This is the One”.

Pode parecer coincidência, mas é justamente com “Elephant Stone”, o single da banda lançado em outubro de 1988, que as coisas começam a mudar. E lá estão pela primeira vez as referências a Jackson Pollock: a capa de inspiração abstrata, cortesia de John Squire, e o b-side “Full Fathom Five”, título de uma das pinturas de Pollock. Essa faixa é a mesma “Elephant Stone”, só que tocada ao contrário. “Made of Stone”, o single seguinte, lançado em março de 1989, segue pagando tributo à Pollock: a faixa-título é uma homenagem de Ian Brown: “Seus nós dos dedos embranquecem no volante / A última coisa que suas mãos vão sentir / Seu voo final não pode ser atrasado / Sem-terra, apenas o céu é tão sereno”. O b-side “Going Down” traz Ian cantando “There she looks like a painting Jackson Pollock’s ‘Number 5’”. A capa, mais uma vez a cargo de John Squire, é uma referência à famosa pintura de Pollock citada na letra.

Enfim, a banda encontrou na produção de John Leckie – que coproduziu e produziu os dois singles citados, respectivamente, e que havia trabalhado com o Pink Floyd nos álbuns “Meddle” e “Wish You Were Here” – a química perfeita para a sua música, ligada aos anos 60 através dos elementos psicodélicos e guitarras melodiosas. A cozinha poderosa e cheia de groove de Reni e Mani também merece elogios, antenada com a cena das raves e toda a cultura indie-dance que deflagaria o movimento Madchester no final dos anos 1990, fundindo música indie com elementos de acid house , psicodelia e o pop dos anos 1960 – o termo foi cunhado por Tony Wilson, da Factory Records (já assistiu a “24 Hour Party People”?), e além do Stone Roses destaca bandas como Happy Mondays, Inspiral Carpets, Charlatans, James e 808 State.

Para a capa do álbum de estreia autointitulado dos Stone Roses, John Squire utilizou como método a técnica popularizada por Pollock (a tinta respingada foi parar não só na pintura de Squire como também nos instrumentos da própria banda) tendo como inspiração um documentário que ele e Ian Brown haviam assistido na BBC Channel 4 marcando os 20 anos dos distúrbios estudantis que aconteceram em Paris em maio de 1968 – por isso as faixas azul, branca e vermelha (liberdade, igualdade e fraternidade), símbolo da Revolução Francesa, na lateral esquerda da arte da capa.

E os limões?

Em entrevista, o vocalista Ian Brown explicou a razão de estarem na capa: “Quando estive em Paris, conheci um homem de 65 anos que nos disse que, se você chupar um limão, os efeitos do gás de pimenta são cancelados. Ele ainda pensava que o governo da França poderia ser derrubado um dia; ele esteve lá em 68 e tudo. Então ele sempre carregava um limão com ele para que pudesse ajudar na frente”. Utilizados como um símbolo de protesto e desafio contra a ordem vigente, os limões ficaram tão marcantes na arte do primeiro disco dos Stone Roses que, quando a banda se reuniu em 2012, você poderia até comprar uma jaqueta com a arte completa com as frutas cítricas presentes. Ian Brown a usou no festival V 2012.

Ian Brown no V Festival 2012

Em outra entrevista, John Squire revelou sobre a origem e de onde veio a inspiração para o verde usado de fundo da arte: “foi baseada na cor da água e da espuma na Giant’s Causeway”. Também conhecido como “Calçada dos Gigantes”, o local fica na Irlanda do Norte e é formada por um conjunto de cerca de 40 mil colunas de pedras interligadas. “The Stones Roses” entrou para a história e é considerado por muitos como um dos principais discos do rock britânico não só dos anos 90 (Oasis, Blur e todo o britpop reverenciam o disco), mas de todos os tempos: em 2006, uma enquete promovida pelo tabloide The Observer com um colegiado formado por 100 nomes, entre músicos e críticos, trouxe o álbum no topo da lista, com “Revolver”, dos Beatles, em segundo lugar, e “London Calling”, do Clash, em terceiro. No mesmo ano, a New Musical Express publicou também sua lista com “The Stone Roses” em primeiro lugar, e “The Queen Is Dead”, dos Smiths, em segundo.

A “Calçada dos Gigantes”

No aniversário de 20 anos do disco, um pacote luxuoso chegou às lojas com três vinis, três CDs (com o álbum, mais demos, raridades e singles), um DVD com um show de 1989 em Blackpool, um livreto de 48 páginas contendo fotos inéditas e novas entrevistas com os integrantes da banda, um pendrive em formato de limão com todo o conteúdo em MP3 e, como não podia deixar de ser, seis gravuras artísticas de 12 polegadas pintadas por John Squire na época do disco (destacadas na imagem abaixo): “One Love”, que ilustrou a coletânea “The Complete Stone Roses”, de 1995; “Double Dorsal Doppelgänger One (Detail)”, arte usada no single “Fools Gold”; dois recortes de “Sugar”; um recorte de “Untitled 1” e, por fim, um recorte de “Bye Bye Badman”, exatamente o detalhe que traz as três faixas que fazem alusão ao símbolo da Revolução Francesa. Após retornar em 2012, a banda anunciou um novo hiato em 2017. John Squire, porém, segue pintando. Você pode conferir as obras do guitarrista em seu site oficial, de preferência ouvindo “The Stone Roses”…

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 Luciano Ferreira é editor e redator na empresa Urge :: A Arte nos conforta e colabora com o Scream & Yell.

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