Cinema: “O Telefone Preto” mescla maldade humana e sobrenatural captando com precisão a essência do cinema setentista

texto por João Paulo Barreto

Há algo de atrativo na atmosfera cinematográfica da década de 1970 que gera uma sensação quase doentia de magnetismo para com temas relacionados a psicopatas e seriais killers nos Estados Unidos daquele período. No cinema atual, essa relação, claro, reflete diretamente as influências geradas por obras como “Halloween” (1978), de John Carpenter; “Quadrilha dos Sádicos” (1977), de Wes Craven ou “O Massacre da Serra Elétrica” (1974), de Tobe Hooper, para citar apenas três pilares desse gênero. Como reflexo do período, produções mais recentes, como “Zodíaco” (2007), e a série “Mindhunter” (2017), ambas de David Fincher, juntamente à nova trilogia “Halloween”, revigorada a partir de 2018, trazem um reconstruir exato da ambientação daquele período no sentido de abordar a ideia de uma época na qual a vigilância era menos eficiente, afinal, não havia internet, e a sociedade (principalmente os jovens) parecia um pouco mais, digamos, ingênua ou descuidada. Mas sabemos não ser esse exatamente o caso. O mal é ardiloso e sempre procura suas brechas para existir. A humanidade é boa. O problema é o indivíduo.

Baseado no conto homônimo de Joe Hill, cuja herança genética oriunda do pai, Stephen King, reflete um talento semelhante na escrita de histórias horripilantes, “O Telefone Preto” (“The Black Phone”, 2021), novo filme de Scott Derrickson, alcança de modo preciso essa recriação do período citado acima. E ainda consegue ir além. Situada durante meados da década de 1970, a trama que aborda a história de um sequestrador assassino de crianças que, dirigindo uma van nada convidativa, as atrai com balões pretos sob o pretexto de ser um mágico circense (ou seja, todos os clichês do estilo, mas, aqui, usados de modo a ainda causar surpresas), transporta o espectador para a tal década magnética de uma maneira calculada.

Utilizando não somente a eficiente direção de arte na ambientação de ruas e cenários domésticos e escolares como ferramentas de transposição à época citada, Derrickson, nos momentos nos quais sua trama insere visões imaginadas de um passado recente, se faz valer de uma fotografia a emular velhos vídeos caseiros em Super 8. Pode parecer algo simples e recorrente em sua utilização, mas ao equilibrar a textura daquelas imagens com o peso dramático da trama envolvendo a perda de entes queridos e a busca por qualquer traço de memória que revele alguma pista de paradeiros angustiantes, a opção do cineasta garante um resultado cujo impacto torna “O Telefone Preto” ainda mais claustrofóbico diante do cenário principal onde se passa a história.

Em sua abordagem sobrenatural em paralelo a um peso violentamente calcado na brutalidade da maldade humana, o longa prima por conseguir trazer uma análise do Homem como um ser cuja selvageria só encontra freios dentro do seu próprio labirinto mental. E isso quando realmente os encontra. Na pele do personagem O Sequestrador, alguém que, propositalmente, nem mesmo possui uma identidade própria a defini-lo, Ethan Hawke cria esse símbolo da selvageria perversa de modo assustadoramente crível. Nas expressões faciais definidas por uma máscara diabólica a captar as diversas “caras e bocas” que denotam seus vários estados psicóticos (méritos, também, para a lenda Tom Savini e seu trabalho como designer prostético), seu personagem se torna esse símbolo da ausência de qualquer traço humano no sentido esperançoso que a palavra ainda pode carregar. Sua figura, deste modo, existe apenas no aspecto bestial.

Tal comportamento bestial não se restringe, aliás, somente ao vilão do filme. De maneira a apresentar um estudo da maldade e da violência oriundas do ser humano como sua essência instintiva, mesmos seus personagens infantis parecem usar da brutalidade como meio de sobrevivência. Assim, ao focar no choque da perda da inocência daqueles jovens diante do instinto de sobrevivência que a violência física é capaz de proporcionar, Scott Derrickson cria uma brilhante analogia diante da premissa geral do conto de Joe Hill. Este, aliás, bebe da mesma fonte que Stephen King no clássico “It – A Coisa”, quando vemos toda uma cidade ceder à violência como um modo natural de enxergar o mundo e a realidade. Claro que a mesma, naquele caso, era manipulada por uma entidade malévola calcada no embate do bem vs. mal.

Aqui, esse abraçar da violência alcança quase todos os personagens infantis. A única exceção está no jovem protagonista vivido por Mason Thames, que concede ao seu Finney uma pureza e inocência que gradativamente vão se perdendo até que, em seu ápice, se despedaçam de uma só vez. Seu arco dramático demonstra essa perda de um modo tanto crescente quanto pragmático, buscando saídas de modo racional para o abismo onde fora atirado.

Claro que sua racionalidade pragmática cede espaço às inserções sobrenaturais trazidas pelo roteiro, com o telefone preto do título denotando tanto essa noção de contato espiritual, quanto um aspecto de busca por uma autoconsciência do personagem.

E de modo a inserir esse equilíbrio entre fé e pragmatismo, o filme ainda foca na crença católica de Gwen, a desbocada irmã de Finney. E quando a vemos rezar (e até xingar) diante de um altar improvisado para louvor a Jesus Cristo, é impossível não nos atentarmos para a imagem demoníaca de Ethan Hawke e sua máscara chifruda (em clara referência a Lúcifer) a representar um personagem que só pune aqueles que ele julga como mal-criados e desobedientes (em mais uma analogia à ideia doutrinadora comportamental religiosa), gerando, deste modo, essa rima temática com a maniqueísta ideia bíblica.

Ao final, o bem pode até vencer, mas as feridas deixadas não se fecham tão facilmente naqueles que escapam.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog Película Virtual

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