Cinema: “Os Amores Dela”, de Charline Bourgeois-Tacquet, conquista com uma protagonista egoísta, tinhosa e sedutora

 texto por Renan Guerra

Raoul que amava Anaïs que amava Daniel que amava Emilie que também amava Anaïs. Nada como uma adaptação da “Quadrilha”, de Drummond, para resumir os encontros e desencontros do filme francês “Os Amores Dela” (“Les amours d’Anaï”, 2021), estreia em longa-metragem da diretora Charline Bourgeois-Tacquet, que ganhou vários prêmios com seu segundo curta, “Pauline Enslaved” (2018).

Anaïs (Anaïs Demoustier) está fazendo seu doutorado em Letras, sua tese está atrasada, mas ela parece mais interessada em flertar no universo da literatura parisiense. Anaïs está em vias de terminar seu relacionamento com Raoul (Christophe Montenez), quando conhece o editor Daniel (Denis Podalydès), um homem bem mais velho. No final das contas, ela acaba se encantando e se seduzindo é por Emilie (Valeria Bruni Tedeschi), uma famosa escritora que tem um relacionamento há 12 anos com Daniel. Anaïs não tem muitos freios e acaba se entregando a essa espécie de aventura juvenil (ou pós-jovem? Anaïs já está chegando aos 30).

O cenário é basicamente uma Paris ensolarada e o litoral francês, em que esses personagens circulam entre praias, colóquios e outros pequenos eventos. Nesse universo pequeno burguês eles até que têm seus problemas financeiros, Anaïs, por exemplo, está devendo o aluguel, mal tem emprego, e mesmo assim está sempre viajando para lá e para cá, gastando um dinheiro que não tem, não sabemos como. De todo modo, os problemas mundamos são menores no filme, interessa à diretora esses pequenos encontros, os romances casuais.

“Os Amores Dela” fala sobre esses romances fugazes de nosso tempo e também sobre as possibilidades existenciais das mulheres no agora. É fácil conectar a Anaïs com outras personagens marcantes, como a Frances, de “Frances Ha” (Noah Baumbach, 2013), ou mesmo a Julie, do recente “A Pior Pessoa do Mundo” (Joachim Trier, 2021). Anaïs, Frances e Julie estão na mesma fase da vida, têm essa energia de viver o agora sem muitas regras e também parecem perdidas perante o seu futuro. Porém há uma diferença aqui: por mais que Frances e Julie sejam um bocadinho egoístas, elas não chegam nem aos pés do ego exacerbado de Anaïs, algo que em determinados momentos é o charme de “Os Amores Dela” e em outros é o seu defeito.

É extremamente divertido ver as andanças e as maluquices de Anaïs na tela, porém ela não é nenhum pouco uma personagem apaixonante, seu egoísmo e seu desrespeito pelo outro são muito palpáveis. Trata-se de um personagem divertido e sedutor na tela, mas na vida real seria uma pessoa insuportável, do tipo que ninguém gosta de ter por perto, pois ela é extremamente bagunçada, está sempre atrasada, ignora as necessidades dos outros, mente descaradamente e até quando sua mãe está entrando em um processo de quimioterapia, sua grande preocupação é “como EU ficarei sem ela”. Talvez seja um retrato de uma geração individualista? Talvez, mas Anaïs soa mais como uma pessoa mimada e isso em determinados momentos chega a irritar.

É difícil explicar: Anaïs não é uma protagonista adorável, mas mesmo assim “Os Amores Dela” é um filme adorável. Os personagens que cercam Anaïs tem muito mais bom senso e sabem muito mais viver em sociedade – até porque eles são mais maduros que ela, mais bem decididos e… mais velhos. Emilie, por exemplo, é extremamente interessante e sedutora, e brilha demais nas mãos de Valeria Bruni Tedeschi. O que não deixar de ser interessante é como os personagens se deixam levar pelo furacão Anaïs, mas sempre só até um ponto; nessa ciranda, Anaïs sempre acaba fechada em seu egoísmo. Nesse jogo entre individualismo e afetividade, “Os Amores Dela” é como um primo veranil do recente “Paris, 13º Distrito” (2022), porém nem tão cínico muito menos corajoso do que o filme de Jacques Audiard.

“Os Amores Dela” pende sempre mais para esse clima de leveza romântica, desses encontros amorosos pequenos burgueses, tanto que em certa medida lembra aquele clima dos filmes de Éric Rohmer, aquele jogo entre hedonismo e existencialismo. E talvez nesse jogo de referências, o filme de Charline Bourgeois-Tacquet não seja tão grandioso quanto os seus pares, porém é uma deliciosa experiência, que nos leva por esse passeio em que quase podemos sentir o calor do sol que emana da tela e o cheiro da maresia. Anaïs é tinhosa, mas é difícil resistir à sua sedução!

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava

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