Três filmes: Mike Nichols 1966, 1967 e 2007

por Marcelo Costa

Cineasta nascido em Berlim em 1931 naturalizado estadunidense após a família fugir para a América na Segunda Guerra Mundial, Mike Nichols é um dos poucos profisisonais do meio do cinema que ganhou prêmios nas quatro mais importantes premiações do showbizz americano: Oscar, Emmy, Grammy e Tony. Apenas Audrey Hepburn, Barbra Streisand, Mel Brooks e Rita Moreno também conseguiram tal feito. Entre suas maiores obras estão os dois primeiros filmes da sequencia abaixo mais o polêmico “Ânsia de Amar” (1971), e os sucessos “Uma Secretária de Futuro” (1988) e “Closer – Perto Demais” (2004). Ganhou Oscar, Globo de Ouro e Bafta em 1967 por “A Primeira Noite de Um Homem”. Faleceu aos 83 anos em 2014.

“Quem Tem Medo de Virginia Woolf?”, Mike Nichols (1966)
Existem pessoas no mundo que tão aí só pra desgraçar a vida dos outros (você deve conhecer um par delas, diz ai) e o casal Martha e George é daqueles que, em noites “iluminadas”, podem ferrar bonito a vida de pobres mortais. Martha (Elizabeth Taylor espetacular num papel que lhe rendeu um Oscar de Melhor Atriz) é filha do reitor de uma universidade onde seu marido, George, leciona (Richard Burton, também marido de Elizabeth na vida real na época, e também indicado ao Oscar, estatueta de Melhor Ator que perdeu para Paul Scofield por seu papel em “O Homem Que Não Vendeu Sua Alma”, grande vencedor de 1967 com seis Oscars). Eles se amam (aparentemente) no mesmo grau que se odeiam (por uma série de fracassos conjuntos), e com o nível de graduação alcoólica alto no sangue, não são as melhores companhias do mundo, algo que Dick (George Segal também ótimo), o jovem professor de biologia que acaba de entrar no corpo docente da universidade, e sua adorável esposa Honey (Sandy Dennis maravilhosa e premiada com o Oscar de Melhor Atriz (Tonta) Coadjuvante – o filme ainda venceu Direção de Arte, Figurino e Fotografia P&B), já meio altinhos devido a festa de confraternização na casa do pai de Martha, o reitor, irão descobrir logo logo. A estreia de Mike Nichols no cinema não poderia ter sido melhor. Ainda que o roteiro transpareça claramente que “Who’s Afraid of Virginia Woolf?” nasceu como peça de teatro (de Edward Albee, grande sucesso na Broadway), a força interpretativa dos dois casais de atores pega o espectador pelo pescoço e o deixa sem respirar num filme denso, tenso e pesado, que em 1966 já falava abertamente sobre aborto, traição, humilhação e sonhos não realizados como se os personagens estivessem tomando um delicioso sorvete debaixo do sol do inferno. É possível vislumbrar o quanto a vida pode dar errado (e de quantas formas) numa noite de bebedeira, mas Martha, George, Dick e Honey vão além se dando ao luxo de dançar com seus próprios fantasmas. Filmaço!

“A Primeira Noite de Um Homem”, de Mike Nichols (1967)
Em seu segundo filme, o primeiro colorido, Nichols inspira-se no romance “The Graduate” (título original e muito mais apropriado do filme) de 1963 de Charles Webb, adaptado por Buck Henry e Calder Willingham, para contar a história do jovem Benjamin (Dustin Hoffman perfeito), que, aos 21 anos, acabou de se formar na graduação, mas não tem a mínima ideia do que fazer de seu futuro, algo que o assusta de forma a deixá-lo recluso e melancólico. As coisas começam a mudar na cabeça de Benjamin quando a Sra. Robinson (Anne Bancroft maravilhosa), esposa do sócio de seu pai, passa a seduzi-lo, situação que movimenta a primeira parte do filme, impecável, entre momentos cômicos e de sensualidade que culminam em algumas cenas absolutamente clássicas da nova graduação (agora sexual) de Benjamin. A história, porém, toma um novo rumo quando a filha da Sra. Robinson, Elaine (Katharine Ross), retorna de sua graduação, e tanto os pais de Benjamin quanto o pai dela desejam um relacionamento entre os dois (para desespero da mãe e amante do rapaz), tendendo ao drama e ao suspense, e a calma com que a história estava sendo tratada no começo cede lugar a uma correria que não valoriza e nem aprofunda os sentimentos dos personagens, fazendo com que as decisões tomadas por eles soem gratuitas, vazias e tolas. Isso, no entanto, não impediu que o filme fosse um sucesso avassalador na época, tendo custado US$ 3 mi e faturado mais de US$ 100 mi (números atualizados dão conta de que o filme, hoje, teria arrecadado quase US$ 900 milhões!), e tornasse a trilha sonora composta por Simon & Garfunkel um clássico da cultura pop. O próprio filme se tornou um ícone sendo citado de “Quanto Mais Idiota Melhor” e “Simpsons” a “500 Dias Com Ela” e músicas de George Michael – além, claro, das covers de “Mrs. Robinson” (sendo a do Lemonheads a mais celebrada), o que torna o desafio crítico mais injusto, afinal clássicos são clássicos, e vice-versa. Porém, é preciso dizer: ainda que revolucionário e um brilhante documento de época, “The Graduate” é um clássico, mas não envelheceu tão bem quanto “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?”….

“Jogos do Poder”, de Mike Nichols (2007)
Para o 19º e último filme de sua carreira, 40 anos depois, o cineasta apoiou-se em um roteiro ágil escrito por Aaron Sorkin (que domina a arte de tratar assuntos sérios de maneira cômica sem soar – tão – leviano, vide “A Rede Social”, “Moneyball”, “A Grande Jogada” e “Os 7 de Chicago”), baseado no livro “Charlie Wilson’s War: The Extraordinary Story of the Largest Covert Operation in History” (2003), de George Crile III, para contar a história do congressista do Texas, Charles Wilson, cujos esforços levaram à Operação Ciclone, programa dos Estados Unidos para organizar e apoiar os mujahideen afegãos durante a Guerra Soviético-Afegã. (1979-1989), que viria a causar a derrota dos russos. A história, no entanto, começa antes e flagra um político (vivido com sobriedade por Tom Hanks) mais preocupado com mulheres, drogas e noitadas regadas a bom uísque do que com política internacional. Em seu escritório no congresso em Washington só trabalham mulheres jovens e bonitas, entre elas sua assessora Bonnie Bach (Amy Adams), e o congressista ainda mantém um caso com a socialite e influenciadora política (de direita) Joanne Herring (Julia Roberts), que de sua mansão em Houston irá “coordenar” uma das maiores operações secretas da história da CIA (e um dos maiores investimentos dos EUA em uma guerra de outro país), tendo o agente Gust Avrakotos (Philip Seymour Hoffman, como sempre, sensacional) como coordenador da força tarefa. Esses quatro grandes atores desfilam em cena com frases afiadas e grandes atuações (Hoffman foi indicado ao Oscar como Ator Coadjuvante) numa trama que, a rigor, está aqui para reforçar que foram os próprios EUA que criaram Bin Laden (algo que eu e você sabemos, mas a grande maioria dos estadunidenses não) – Tom Hanks “não ficou feliz” com um final que mostrava as Torres Gêmeas bombardeadas e Sorkin teve que “optar” por algo mais sutil. Eficiente, “Jogos do Poder” (“Charlie Wilson’s War” no original) é extremamente didático ao mostrar como é feita a política em um mundo repleto de conchavos e manipulado por (pessoas com muito) dinheiro. Outro filmão.

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell desde 2000 e assina a Calmantes com Champagne

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