Entrevista: OZU lança “Burnout”, álbum que critica o neo-liberalismo ao som de neo-soul, trip-hop e nu-jazz

entrevista por Bruno Lisboa

Formada em 2016, em Cotia, São Paulo, a OZU está na estrada há seis anos e tem como ponto central de sua abordagem sonora dialogar com os anos 90 através de influências ligadas ao trip-hop, ao neo-soul e o nu-jazz.

Seu primeiro álbum, “Inner”, foi lançado em 2018 e de lá para cá o grupo realizou diversas apresentações em festivais amadurecendo sua sonoridade. Como fruto destas experiências o grupo lançou “Burnout” em 2022.

No novo disco, o trio Juliana Valle (voz), Francisco Cabral (compositor/tecladista) e Sue-Elie Andrade-Dé (guitarrista) dá continuidade natural ao primeiro registro, promovendo o diálogo harmônico entre a introspecção e melodias dançantes. Liricamente, as canções cantadas em bom inglês abordam o a pandemia e as agruras de um período que ainda deixa marcas na sociedade.

A entrevista abaixo feita por e-mail com com Franscisco Cabral e o faixa a faixa na sequencia revelam os bastidores de “Burnout”, abordam influências, o processo criativo do trio, participações especiais, o mercado fonográfico, volta aos palcos e muito mais.

O trio foi formado em 2016 tendo como referências sonoridades ligadas aos anos 90, época em que o trip hop, o neo soul e o hip hop trouxeram novos ares à música produzida na época que, essencialmente, eram conduzidas por guitarras distorcidas e pelo peso da era grunge. Nesse sentido como se deu para vocês a relação com o universo da música e de que maneira essa estética sonora norteou o que vocês fazem na Ozu?
O grunge e o trip hop trazem a simplicidade aliada à potência expressiva. O neo-soul e o hip-hop trazem o groove e os elementos de música negra. Tudo isso sempre foram critérios essenciais para as nossas composições. Talvez o grunge não esteja tanto nas nossas influências, mas entendemos a importância que ele teve para os rumos na música dos anos 90.

A língua inglesa foi a forma escolhida para vocês se comunicarem para com o público. A escolha por essa vertente foi estética, mercadológica ou ambas? E em tempos nos quais é possível “rastrear” melhor de onde partem os ouvintes através das plataformas de streaming como tem sido a receptividade no mercado internacional?
A escolha foi puramente estética. Fizemos diversas tentativas de compor em português, mas a prosódia não encaixou e achamos que as composições ficaram aquém. Não pela língua, mas talvez por nossa própria dificuldade de encontrar uma harmonia entre as duas coisas (língua e música). O nosso público é predominantemente brasileiro, mas temos alguma projeção na Europa. Curiosamente em países não anglófonos, como Alemanha e Polônia.

Se a arte é (ou pode ser) fruto do seu tempo, “Burnout” consegue, conceitualmente, refletir parte das agruras da contemporaneidade. Para tanto, quais são intenções do disco e qual é o papel da arte em tempos conflitantes como os nossos?
O disco é essencialmente um convite à reflexão, em forma crítica, do nosso atual modelo econômico (neo-liberalismo) que nos induz a uma forma pós-moderna de pensar a vida. A arte traz o lado subjetivo da reflexão, que não é menos importante. Porém, é essencial estar a par das reflexões objetivas, como no trabalho do filósofo Byung-chul Han, por exemplo.

Falando sobre o processo de gravação do novo disco quais as diferenças mais substanciais entre “Inner” (2018) e “Burnout” (2022)?
Não são muitas. Entretanto, em “Burnout” tivemos acesso a mais recursos. Por exemplo, gravamos os vocais no estúdio Aurora e a bateria no C4.

Com a volta do mercado dos shows como tem sido a experiência de retomada?
É um respiro. Tocar ao vivo é o que amamos… Estávamos sufocados e agora voltamos à superfície para respirar!

FAIXA A FAIXA, “Burnout”, por OZU

01) Pre Date – É a faixa que abre o segundo álbum da Ozu, “Burnout”, e também uma das primeiras faixas a ser composta pela banda. Essa música faz uma crítica às novas formas de consumo da arte, onde o público é mais seduzido pelo discurso do que pela obra em si. Apesar da temática crítica, os samples, a bateria orgânica e as linhas de baixo marcantes deixam essa música com sabor dançante e neo-soul.

02) Out of Reach – Uma homenagem. Uma música que nasce eletrônica e nos ensaios ganha uma sonoridade tão forte que passa a ser orgânica. Pela primeira vez, Ozu usa os metais com mais protagonismo, marcando melodia e também textura. Essa música conta com a participação de Marco Stoppa, trompetista da Nômade Orquestra, banda com a qual Ozu já colaborou na faixa “Meia-Água”, gravada numa sessão ao vivo disponível no YouTube (que você pode assistir ao fim do faixa a faixa).

03) Ominous – É o primeiro single deste segundo. Com sabor mais pop, a faixa traz uma crítica à pós-modernidade, temática que atravessa o álbum todo, mas sem perder a sua característica trip-hop. A faixa é a que mais traduz também o lo-fi hip hop para o universo das canções, conceito que marca uma das propostas mais importantes desse novo álbum. Aqui a banda busca sintetizar sonoridades contemporâneas criando assim um estilo singular. Uma música com uma base eletrônica forte que conta uma história em seu aspecto instrumental mais do que em seu aspecto lírico. A faixa contará com um videoclipe a ser lançado no segundo semestre de 2022.

04) Remember – Uma mistura interessante entre texturas e ritmo. Um baixo marcante e os diversos timbres de sintetizador fazem dessa canção uma das mais equilibradas entre a proposta do novo disco, se aproximando de uma das maiores inspirações da banda para o novo álbum – o produtor britânico Bonobo, um dos maiores expoentes do selo vanguardista europeu Ninja Tune Records.

05) Winter – Uma música para os apreciadores de músicas onde o piano é o protagonista. “Winter” (“Inverno” em inglês) é um jazz com letra politizada, que retrata a situação atual do nosso país. Definitivamente prioriza a harmonia. A linha de voz e as outras texturas fazem dela uma música lenta, reflexiva e com clima melancólico, quase romântico, que oferece a perspectiva de dias melhores.

06) Bonnie – Uma música que já era executada ao vivo, mas sem letra. Inclusive é possível ver sua versão puramente instrumental no nosso show no Sesc instrumental Brasil em 2019 (na integra no final do texto). Ao longo do tempo ganhou uma melodia de voz inspirada nas canções folclóricas celtas. Com certeza uma faixa diferenciada.

07) Illusive – Uma música que existe há muito tempo no repertório ao vivo da Ozu, mesmo antes do lançamento do primeiro álbum. Depois de passar por várias mudanças de arranjo, a faixa hoje traz uma linha de baixo mais agressiva que a fez ganhar o seu lugar. É com certeza uma das faixas mais marcantes do disco, para apreciadores de trip-hop e música de clima intenso e agressivo como algumas trilhas sonoras.

08) Project 101 – Literalmente uma das quatro primeiras músicas compostas pela banda. Foi executada no primeiro show ao vivo e pode ser encontrada no “The Downbeat sessions vol. 02 – B-Sides”. Um trip-hop clássico! Para apreciadores de Portishead, Massive Attack e Sneaker Pimps.

09) Phantom – Inicialmente com a intenção de soar mais neo-soul, a faixa ganhou uma cara mais anos 70 com seus timbres imitando baixa resolução. A banda se orgulha particularmente dessa música por ter inovado usando timbres e roupagem moderna, elementos frequentemente ouvidos nas várias rádios de lo-fi em versão instrumental, transpondo esses conceitos para o campo da música de canção.

10) Flyer – Outra faixa que existia em versão instrumental e ganhou letra. Essa faixa também pode ser vista na apresentação do Sesc Instrumental Brasil em 2019. É uma tradução bem marcante da sonoridade lo-fi para o universo das canções e uma das mais marcantes da nova fase da banda que transita entre o neo-soul, o jazz e o nu-jazz. Para os amantes de lo-fi.

11) Burnout – A música que leva o título do novo álbum da OZU simboliza o sintoma dos tempos atuais. Contrapondo seu clima dançante, a faixa faz crítica ao neoliberalismo tardio e à pós-modernidade. Apesar da temática crítica, seu lado mais “pop” é um experimento interessante da banda, mais conhecida como uma banda brasileira de trip-hop. “Burnout” e seu conceito foram criados pouco antes da pandemia, por isso, dois anos depois de sua primeira concepção, a faixa está mais atual do que nunca. Novos processos de composição foram desenvolvidos para trazer um resultado que conversa tanto com as influências dos anos 90 quanto com as sonoridades atuais. O trip-hop e o neo-soul estão presentes.

– Bruno Lisboa  escreve no Scream & Yell desde 2014. A foto que abre o texto é de Mariana Harder

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