Cinema: “Pleasure”, de Ninja Thyberg, é um olhar inteligente (e um tanto quanto dúbio) sobre a indústria pornô

texto por Renan Guerra

A sueca Ninja Thyberg foi uma adolescente que participava de grupos e movimentos antipornografia, pois ela entendia que esse era um espaço de opressão feminina. Já na vida adulta, ela passou a questionar essa visão dicotômica da indústria pornográfica dividida entre bom e mal, e passou a se engajar em movimentos relacionados ao pornô feminista. Em 2013, ela lançou um curta chamado “Pleasure”, sobre a indústria pornô, e que seria o ponta pé inicial do longa-metragem que chega agora ao Brasil através da plataforma de streaming da MUBI.

O curta foi premiado em Cannes em 2013, porém lá, naquela época, Ninja nunca havia conversado com pessoas da indústria pornô e escreveu seu filme com base no que ela acreditava ser a realidade dessas pessoas. Para o projeto do longa metragem de mesmo nome, “Pleasure” (2021), ela decidiu mergulhar na indústria pornô de vez e fez uma série de entrevistas com atores, produtores e profissionais do ramo. Sua ideia era trazer um olhar mais sincero sobre a indústria e suas complexidades. Para isso, o elenco de “Pleasure” é composto essencialmente por atores pornôs, a única atriz não-pornô é a protagonista, Sofia Kappel.

Sofia é Bella Cherry, uma jovem que se muda da Suécia para Los Angeles em busca de se tornar uma estrela da indústria pornô. O filme basicamente irá acompanhar diferentes experiências de Bella: sua relação com as outras mulheres da indústria, seu olhar sobre problemáticas desse mercado e suas experiências positivas e negativas durante as gravações. Se olharmos analiticamente, o filme é um tratado sobre relações de poder no universo do trabalho, é sobre ego, abusos de poder, escolhas profissionais e a nossa dúbia relação com o dinheiro. Tudo isso, óbvio, ganha contornos mais complexos quando se coloca a lente do trabalho sexual, uma questão cheia de meandros, moralismos e, claro, abusos e exploração.

O filme de Ninja Thyberg foi classificado em alguns textos como um tratado quase documental sobre a indústria pornô e até foi lido por alguns como um manifesto anti indústria pornográfica, porém talvez essa seja uma leitura rasa. O filme fica nesse limite dúbio em que não romantiza a indústria pornô, mas também não a vilaniza, buscando retratar esses personagens marginalizados e mal vistos pela sociedade numa tentativa de Ninja de humanizar e trazer complexidade para essas pessoas – algo próximo daquilo que o cinema de Sean Baker (“Projeto Flórida”, “Red Rocket”) faz.

Sofia Kappel é incrível e sedutora como Bella Cherry, ela nos atrai e nos envolve nessa narrativa, sustentando uma personagem que nem sempre é a mais fácil de se gostar, já que ela toma atitudes bastante questionáveis durante a trama. O elenco de atores pornôs é excelente e traz complexidade e nuances para os diferentes tipos que passam na tela. Porém, fora das telas, muitos deles não ficaram felizes com o retrato que Ninja Thyberg fez da indústria pornô. Em uma matéria muito interessante da IndieWire, alguns artistas envolvidos no projeto falaram sobre as suas sensações ao assistir o filme já finalizado.

“Pleasure” é um filme complexo, bastante divisivo, há pessoas que acharam ele chocante, forte, tenso, há outras que leram a história de forma mais leve, mais humanista, mas é fato que o filme é realmente dúbio. Ele nos apresenta questões, mas não elabora respostas e possibilidades, o que pode ser um prato cheio para diferentes leituras. No entanto, o filme de Ninja não é um filme antipornografia, ainda que nas mãos de militantes anti indústria pornô ele possa virar sim um retrato de “tudo de ruim que há na indústria”, e servir de munição para pessoas que culpabilizam e estigmatizam esses profissionais, e, nesse sentido, é natural que muitos atores envolvidos não tenham ficado felizes com o resultado final.

As leituras sobre o filme podem variar, mas o fato é que “Pleasure” é um filme muito bom, bem conduzido, com direção de atores excelente e, apesar de tudo, Ninja parece ter um respeito muito grande por esses atores e profissionais envolvidos no projeto, há um cuidado em tentar dar conta dessa complexidade humana que há numa indústria que move muito dinheiro. “Pleasure” é um filme que merece ser visto, debatido e entendido em sua complexidade, isto é, respeitando esses profissionais envolvidos e considerando as suas histórias nessa narrativa.

Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava

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