Balanço: NOS Primavera Sound Porto 2022, em Portugal – Dia 3 (Pabllo Vittar, Helado Negro, Dinosaur Jr., Khruangbin, Squid)

Texto por Bruno Capelas e Anna Vitória Rocha
Fotos e vídeos por Bruno Capelas, exceto onde notado
SAIBA COMO FOI O DIA 1 e o DIA 2 DO FESTIVAL

O terceiro dia do NOS Primavera Sound, além de ter sido o mais lotado, foi provavelmente o mais eclético do festival portuense. Tal como a primeira noite, o sábado teve ingressos esgotados – mas com público mais concentrado e chegando mais tarde para ir atrás de atrações como Interpol e Gorillaz. Quem chegou mais cedo, porém, teve a chance de se surpreender com bons momentos, com Helado Negro, Dinosaur Jr. e a brasileiríssima Pabllo Vittar, aquecendo a noite já quente no Porto. Quem desviou dos palcos principais, por sua vez, pode ver rotas alternativas interessantes e caóticas, como a banda pós-punk Squid e a cantora Grimes fazendo um DJ set. É…

O que você confere a seguir, pelo terceiro dia seguido, é um relato horário, pessoal e honesto das desventuras da dupla de repórteres Bruno Capelas e Anna Vitória Rocha, entre guitarras sujas, bolinhos de bacalhau e sanduíches com cogumelos. Ao final, um saldo geral de um festival provocativo, ousado, agradável e de boa estrutura. Para quem pratica turismo olhando a agenda de shows, o Porto merece demais estar na rota – especialmente para aqueles que sofrem de FOMO, preferem escolher entre menos opções ou simplesmente amam um vinho do Porto. Então, pronto?

18h – 20h

Helado Negro / Foto: Bruno Capelas

Bruno Capelas: Certas pessoas costumam ter um tipo de sonho recorrente em que andam, andam, andam e nunca chegam a lugar nenhum. Comigo, esse sonho acontece em festivais: é frequente a sensação de chegar na frente de um palco e só ouvir um “thank you, this is our last one!”. No Porto, isso rolou duas vezes seguidas: mal havíamos cruzado os portões do Parque da Cidade e o Dry Cleaning se despedia do público pouco antes das 18h – de longe, ainda na fila, deu pra ouvir sinais de um espetáculo vigoroso, digno de quem lançou um dos melhores discos de 2021.

(O atraso tem justificativa: antes do festival, uma degustação de vinhos do Porto na mais antiga cave de Portugal, a Real Companhia Velha, em Vila Nova de Gaia. Eram para ser quatro doses, mas foram cinco – porque a gente é brasileiro e não perde a oportunidade de desarmar as defesas e botar um sorriso no rosto. Vale a visita demais #dicasdeturismo).

Pausa pra uma Coca-Cola e um prego (agora sim, com carne!) e em frente rumo ao palco NOS, onde a banda Helado Negro abria os trabalhos. Ou melhor, fechava as contas com o semi-hit “Running”, cantado a plenos pulmões. Se em estúdio o grupo é lá meio sem sal, ao vivo ele consegue gerar calor que dá bastante vontade de tomar sorvete. Mas como todo sonho um dia acaba, finalmente um show inteiro: o Khruangbin, bastante apreciado pelo público majoritariamente europeu. O que não é necessariamente bom: tem virtuosismo demais e remelexo de menos nesse trio quase instrumental, cujo momento mais decente foi uma sequência de covers digna da Antena 1 FM ou de música de elevador. É preciso que se diga: às vezes faz falta uns discos do A Cor do Som e do Pepeu Gomes na vida das pessoas. Malacaxeta, baby!

Khruangbin / Foto de Bruno Capelas

Anna Vitória Rocha: Nesse último dia de cobertura, sinto que posso me permitir a partilha de um perrengue chique: o foda de prestigiar um festival europeu é ter que se confrontar com escolhas não apenas de quais bandas e artistas priorizar na agenda, mas também do que você vai abrir mão para aproveitar a cidade incrível em que os shows acontecem. Se nos dois primeiros dias a dificuldade esteve apenas em vencer as pernas cansadas para acordar cedo e turistar antes de tietar, no dia 11 a porra ficou séria. O Dry Cleaning subiria ao palco às 17h, mas a tarde foi dedicada à degustação de vinhos do Porto do outro lado da ponte D. Luís, em Vila Nova de Gaia.

A loja de vinhos que fica na saída da sala de degustação é perfeitamente projetada para pegar o turista altinho e maravilhado com as bebidas, mais disposto do que nunca a deixar bons euros ali – e só pensar no impacto disso no orçamento após suar aquele álcool horas depois. Da mesma forma, estando altinha e apaixonada por vinhos, abrir mão do Dry Cleaning (responsável por um dos meus lançamentos favoritos de 2021!) não foi assim uma escolha tão difícil – até, claro, alcançar o palco quando o baixo pesado de Lewis Maynard emitia seus últimos acordes, encerrando o show com “Scratchcard Lanyard”.

Havia bastante público no palco Cupra dado o horário e acho que não falo só por mim quando afirmo que o grupo de pós-punk inglês merecia um slot de mais prestígio no festival. A parte boa: deu pra sentir que é só o começo dessa história.

Para forrar o estômago depois de tanto vinho, decidi experimentar o hambúrguer de cogumelo e feijão do Pé na Horta, acompanhado de batata chips com molho de alho. Aproveito para deixar minha indignação com a completa ausência de molhos da culinária portuguesa: custava caprichar no queijo derretido e no molho de alho também no lanche?

20h – 22h

Bruno Capelas: Durante quase dois anos trancado em casa, em vários momentos tive medo de nunca voltar a ver um show. E no relatório de pavores e sintomas que eu senti, um dos temores maiores era o de não poder mais presenciar algo que é das coisas mais belas da música: a capacidade de artistas, em cima de um palco, conseguirem produzir energia a partir de uma entrega, mesmo lidando com dificuldades técnicas e problemas de força maior. Felizmente, com três doses de vacina no braço e uma recente recuperação de covid-19, lá estava eu pra testemunhar isso de novo pelas mãos de três senhores “from the Eighties”, como bem lembrou Lou Barlow: o Dinosaur Jr.

Donos de um dos discos mais bonitos de 2021, “Sweep It Into Space”, o trio liderado por J. Mascis, o “Canhão de Massachusetts”, tinha de lidar com uma adversidade de turnê. Sem seus instrumentos (ah, a Jazzmaster!) por conta de um extravio de bagagem na Itália, o grupo pegou guitarras e baixos emprestados para fazer uma viagem cheia de som, suor, ruído e muito amor. Teve novidades (“I Ain’t” e “Garden”, esta cantada por Barlow e com Mascis esmerilhando no baixo), sujeira (“Little Fury Things”), riffs inesquecíveis (“Start Choppin’”) e “o som da noite, as baladas” (“Feel the Pain” e claro, a cover inesquecível de “Just Like Heaven”).

Um show pra abraçar amigos e desconhecidos, se jogar na rodinha de pogo (com pedidos de desculpa após cotoveladas) e se emocionar, a despeito das constantes pausas para Mascis achar a afinação em uma guitarra de outrem. Ao final, Barlow largou o baixo, foi pra frente do palco e lembrou as origens jurássicas com “Chunks”, releitura da banda de hardcore de Boston Last Rights. Porrada. Que alguém leve esse show pro Brasil em breve, pelo amor de Deus (o documentário contando a história deles já chegou).

Anna Vitória Rocha: Para matar a fome de um baixo pesado, voltei ao palco Cupra para prestigiar o Khruangbin… também conhecida como “Banda Querubim”. De posse do baixo, a magnética Laura Lee usava um vestido verde de plumas e altíssimos saltos cor de rosa. Sua franjinha e seus rebolados lânguidos não fizeram muito a cabeça dos brasileiros na passagem da banda pelo Brasil no Popload 2019 – se lembro bem, havia poucos gatos pingados na frente do palco do trio de Houston. Contudo, a história foi diferente no Porto, com a galera entregue e rebolativa, imersa na sonzera groovy dos querubins.

Ao meu lado, um Bruno Capelas mau humorado reclamava que aquela empolgação dos europeus era falta de Novos Baianos no repertório. Eu curti o show, mas fui obrigada a concordar. Já no final, o Khruangbin resolveu jogar pra galera com um medley de covers que misturou trechos de “Bennie and The Jets” (Elton John), “Wicked Game” (Chris Isaak) e “True” (Spandau Ballet), que fez a galera ensaiar até um corinho.

A seguir, mais uma escolha difícil: colar no calcanhar de J. Mascis para carimbar o show do Dinosaur Jr. na minha carteirinha indie ou dar atenção aos meus pés cansados? Correndo o risco de colocar meu relacionamento sob ameaça, fiquei com a segunda opção. Para evitar o inchaço que me pegou na noite anterior, decidi curtir o privilégio do Parque da Cidade para ouvir o Dinosaur Jr. deitada na grama, aproveitando o por do sol. De tempos em tempos as guitarras me chamavam, então eu levantava o corpo para aproveitar o espetáculo completo. O encerramento com um cover pesado de “Just Like Heaven” emocionou o suficiente para me fazer cravar o show no meu top 5 particular do festival.

22h – 0h

Pabblo Vittar / Foto: Bruno Capelas

Bruno Capelas: Há algumas semanas, eu cometi a empáfia de dizer aqui neste site que quero viver na república federativa de Emicida. E ao testemunhar sua passagem pelo NOS Primavera Sound, preciso estender esse território para Pabllo Vittar, uma das artistas mais interessantes que o Brasil produziu nos últimos anos. Pabllo é uma pessoa, e ao mesmo tempo, uma ideia: a ideia de um país pop, sofrente, romântico, safado, rebolativo e, acima de tudo, com espaço para sermos todos iguais nesta noite. Um país que, mais uma vez, entra num cometa pra deixar o mundo todo requebrando com amor, ao mesmo tempo em que olha para si sem medo de sentir orgulho por ser o que é.

No Porto, Pabllo não fez uma apresentação perfeita. Ela sofreu com falta de luz, falhas de microfone, problemas no áudio de suas bases… e xingou muito fora do Twitter. Seu repertório também foi inconstante: se em Barcelona e no Coachella valia muito usar os feats em inglês para falar com o público global, em Portugal (e acompanhada por muitos brasileiros), a cantora podia ter aproveitado mais seu repertório na flor do Lácio, especialmente destacando as canções do incrível “Batidão Tropical”. (Presença constante nos últimos shows da cantora enquanto ideia, o líder das pesquisas presidenciais só apareceu discretamente, em um chapeuzinho vermelho com seu nome, e em um breve “faz o L”, mas a mensagem estava dada).

Mas quando Pabllo acertava, era rajada atrás de rajada, com coreografias incríveis, pose de diva acessível e muito espaço para mostrar seu talento vocal. E quando os hits vinham, era preciso sair de baixo. Ruim da cabeça ou doente do joelho todos mexeram a rab… bunda ou dançaram coladinho ao som de “Vai Passar Mal”, “Amor de Que”, “A Lua Me Deu”, “Sua Cara”, “Parabéns”, “Bandida”, “Rajadão” (que mistura, meu Deus!), ou “Zap Zum”, numa coleção de petardos que já soa invejável. Visivelmente emocionada, Pabllo encerrou o show conquistando mais um território em seu projeto de dominação global. É KO, meu amor.

Anna Vitória Rocha: Antes que o leitor julgue a negligência com o Dinosaur Jr, o momento “modo avião” tinha uma excelente causa: Pabllo Vittar, minha headliner da noite. O ano era 2015 e eu era só uma estagiária de assessoria de imprensa da Universidade Federal de Uberlândia. No geral, o trabalho envolvia escrever releases sobre pesquisas de destaque e eventos universitários que ninguém ligava muito. Até o dia que caiu na minha mesa a missão de fazer uma nota sobre um certo aluno do curso de Design que acabara de lançar um clipe com considerável repercussão nas redes sociais. A música era “Open Bar”, uma versão nacional de “Lean On”, sucesso do Major Lazer que marcou aquele verão. No clipe, figurinhas carimbadas da noite uberlandense. A estrela, direto da UFU, era Pabllo Vittar. Taí uma carteirada que dou sem modéstia alguma.

Sete anos depois, Pabllo foi responsável por botar fogo em um dos shows mais animados do festival, colocando todo mundo para cantar, dançar e gritar seus sucessos. Seu repertório era de alguém que fez bem o dever de casa da carreira internacional, misturando a fritação hyperpop de “Rajadão”, feats em inglês e espanhol com nomes estrelados (sendo Lady Gaga o maior destaque), o “Open Bar” que a trouxera até ali e o forró brega pra ninguém botar defeito.

Contudo, talvez tenha faltado a Pabllo a confiança para entender que não havia nada mais para ser provado ao público do NOS Primavera Sound – diferentemente de outras grandes arenas em que ela passou recentemente, como o Coachella e a edição de Barcelona do festival. Estávamos ali para ver Pabllo Vittar e celebrar o que ela faz de melhor, com sofrência pra quem é de sofrência, safadeza para quem é de safadeza, e até romance para quem calhou de passar aquela véspera de Dia dos Namorados podendo se esfregar em seu par ao som de “K.O.”. Se as faixas em inglês dessem lugar a alguns hits que ficaram de fora (como “Triste com Tesão” e “Modo Turbo”), seria um show perfeito. Ainda assim, me emocionei ouvindo tecnobrega por reencontrar Pabllo Vittar gigante, das notinhas universitárias para o pódio de uma das maiores e mais interessantes artistas do Brasil.

Após o show, mais uma pausa para recarregar as baterias, dessa vez com um cachorro vegetariano. Novamente, registro meu desgosto pela falta de molho. Se no Brasil brigamos nas redes sociais para decidir se pode ou não ter purê de batata no dogão, do outro lado do oceano ainda é preciso lutar por direitos básicos como o do molho de salsicha. Mas divago.

De cantinho no palco do Interpol, deu vontade de tapar o umbigo para não deixar Paul Banks sugar de mim toda a pulsão de vida reunida no show da Pabllo. A Anna Vitória adolescente, que ouviu “Turn On The Bright Lights” até fazer bico, não me reconheceria, mas numa coisa preciso concordar com ela: “Evil” continua sendo uma canção boa demais.

Anna Vitória reinvidicando o molho de salsicha no dogão tuga

0h – 2h

Bruno Capelas: A esta altura da noite, parecia que quase tudo de bom que havia pra acontecer já tinha acontecido – a ponto da gente se perder um pouquinho nas horas. Acerte o seu daí que eu arredondo o meu daqui: Pabllo começou seu show às 21h20, e encerrou pouco depois das 22h. Na sequência, lá pelas 22h30, veio o Interpol e seu status quase inexplicável de headliner, com Paul Banks e sua turma botando pra esfriar todo sentimento que Mascis & Pabllo (já pensou essa parceria?) trataram de cultivar. Melhor dar uma última passada na praça de alimentação e zerar a lista de quitutes portugueses, com direito a um rissole de leitão e um bolinho de bacalhau (€3,5) da Cafetaria Duarte. Não estava bom, mas garantiu a sustância necessária para os últimos passos da noite.

Confesso que não entendo muito bem o que se passa na cabeça de um curador de festival que, em vez de marcar um show de um artista ou um set de um DJ, chama um artista pra fazer um DJ set. Mas, de qualquer forma, a gente só vive uma vez na vida pra ter história pra contar. Nesse Primavera Porto, eu posso dizer que vi a mãe dos herdeiros mais ricos do mundo, Grimes, mixar “Orinoco Flow”, da Enya, em meio a seus beats. Teve mais: um trechinho de “Creep”, do Radiohead, e a americana falando besteira: “I’m sorry for anything wrong, don’t blame me”.

O fim de um festival não podia ser melancólico assim: era preciso encerrar em grande estilo. E foi no discreto palco Binance, para um grupo de gatos pingados que não quiseram ver o Gorillaz, o conjunto inglês Squid fez uma belíssima apresentação. A receita é conhecida, mas é boa: cinco moleques cheios de energia, alternando bases pós-punk com poderosas viagens instrumentais, com direito a solos de trompete e bonitas guitarras ruidosas. Destaque para o baterista/vocalista Ollie Judge, um irmão gêmeo de Ed Sheeran e do Júlio do “Cocoricó”, que animou os presentes – e mostrou porque a banda merece demais ser vista de perto. Tempo de partir – no finzinho, ainda deu pra ouvir uns trechos do Gorillaz, rápido o suficiente para não estragar a memória do showzaço do Blur neste mesmo Parque da Cidade, há nove anos.

Interpol / Foto: Bruno Capelas

Anna Vitória Rocha: O NOS Primavera Sound é um festival tão mágico que deixa a gente capaz de esquecer um evento digno de nota na madrugada no Parque da Cidade: o DJ set da Grimes. Os graves pesados que ela mandou nas pickups eram altos o suficiente para dispensar uma visita ao palco, mas como eu perderia a oportunidade de passar os próximos meses podendo dizer em toda mesa de bar que vi “um DJ set da Grimes em Portugal”?

Como se soubesse que estava ali para ser anedota, a ex-esposa de Elon Musk – e, confesso, uma das minhas artistas problemáticas favoritas – cumpriu bem sua missão. Quem mais lançaria Enya, Radiohead e Mariah Carey num intervalo de poucos drops?

A noite acabou no gramado orvalhado, a alguns metros da “sonzera doida” oferecida pela banda Squid. Banda de bueiro e pós-punk pra quem não tem medo de se sujar, mas um som cheio de energia que nós conduziu até a saída do festival com a carga de vida pra lá de cheia, ainda que o corpo pedisse arrego. A escolha final, dessa vez muito fácil: ver o Gorillaz, responsável por lotar o Parque da Cidade naquela noite, ou aproveitar para chegar em casa mais cedo? Tomamos o ônibus de volta sem qualquer remorso, mas já pensando em onde e quando acontece o próximo show.

Passando a régua…

Bruno Capelas: Após três dias de sobe-e-desce-ladeira, o NOS Primavera Sound fechou 10 anos de existência com muita graça e um cheirinho de alecrim. Mesmo menor e mais focado no rock que o irmão catalão, o festival lusitano foi capaz de servir como um radar do que mais de interessante se produz na música atual, do rock mais barulhento ao pop, passando pelo Brasil tropical e pela vaga hispanohablante que assalta as paradas de sucesso. (Isso porque faltou perna, tempo ou disposição para conferir nomes como Black Midi, Jenny Beth, Arnaldo Antunes ou Little Simz, que aumentariam radicalmente esta lista).

Com um passaporte para três dias custando 155 euros (e entradas por dia na faixa dos 70 euros, já no último lote), o festival tem ainda boa infraestrutura, farta opção de comida & bebida e preços razoáveis – uma pena que ainda vivemos no país de Paulo Guedes. É bonito demais ver ainda um evento que tem compromisso com seu porte e respeito a seu público, das filas de tamanho razoável às parcerias com o poder público para oferecer transporte mesmo em alta madrugada. Que sirva de inspiração.

Ao final, mais que tudo, sobram as boas lembranças de grandes shows – e como é bom poder celebrar a música ao vivo neste 2022, mesmo que sob cuidados. (Eram raros os presentes que usavam máscara no festival, enquanto a TV portuguesa passou dias a alertar sobre altas na taxa de contágio por conta dos eventos de grande porte, nuvem cinza que paira no horizonte aqui e d’além-mar). Ainda assim, que beleza poder se arrepiar de novo com a música. Para repetir uma velha frase: como diria Geraldo Vandré, a vida não se resume a festivais… mas bem que poderia.

Foto: Hugo Lima / NOS Primavera Sound

Anna Vitória Rocha: Se todos no mundo fossem iguais a você, Primavera Sound, a vida do fã de música seria mais feliz. Não poderia haver evento melhor para celebrar esse retorno ao mundo depois de dois anos de uma realidade mais empobrecida – nos mais diversos sentidos – e silenciosa. De porte menor que seu irmão mais velho, o NOS Primavera é perfeito para quem quer ouvir boa música sem sacrificar (muito) o corpinho, com espaço suficiente para descobertas e encontros há muito aguardados.

Fiquei especialmente emocionada (me deixem, a pandemia me fez sentimental) com a diversidade do público. Se nos festivais brasileiros o que predomina é um público mais jovem ou então homogêneo em relação à vibe dos artistas do line-up, o Parque da Cidade estava de portas abertas tanto para os modernos como para pessoas que pareciam estar em seu primeiro festival – seja pela falta da pinta de alternativo ou só mesmo pela pouca idade. Deu gosto de ver famílias inteiras ocupando o espaço e aproveitando o evento à sua maneira, assim como um público mais velho que pode conferir seus ídolos de perto sem grandes sacrifícios. Frequento eventos assim há mais de dez anos e poder voltar para os festivais especificamente no Primavera Sound me fez ver que essa “carreira” pode ter uma longa vida.

Foto: Bruno Capelas

Top 5 do Festival

Bruno Capelas
1 – Nick Cave and the Bad Seeds
2 – Dinosaur Jr.
3 – Pabllo Vittar
4 – Pavement
5 – Maria José Llergo

Anna Vitoria Rocha
1- Nick Cave
2- Pabllo Vittar
3- Caroline Polachek
4- Pavement
5- Dinosaur Jr.

Foto de Hugo Lima / NOS Primavera Sound

SAIBA COMO FOI O DIA 2 e o DIA 3 DO NOS PRIMAVERA SOUND PORTO 2022

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