Balanço: NOS Primavera Sound Porto 2022, em Portugal – Dia 1 (DIVV, Nick Cave, Tame Impala, Caroline Polachek, Kim Gordon)

Texto por Bruno Capelas e Anna Vitória Rocha
Fotos e vídeos por Bruno Capelas, exceto onde notado
SAIBA COMO FOI O DIA 2 e o DIA 3 DO FESTIVAL

Se 2022 é o ano em que o Brasil receberá sua primeira edição do Primavera Sound, a temporada também marca os 10 anos da primeira jornada internacional do festival barcelonês. Realizado desde 2012, mas com interrupções em 2020 e 2021 por conta da pandemia, o NOS Primavera Sound, no Porto, é um bom ponto de partida para quem deseja entender o que esperar por aí. Foi pensando nisso (e também em ver grandes shows e nos melhores vinhos do Porto) que o Scream & Yell designou a dupla-casal Bruno Capelas e Anna Vitória Rocha para cobrir o festival – é a terceira vez que o S&Y está no evento e vale relembrar como foi em 2013 e 2019.

Sediado no belíssimo Parque da Cidade, entre o oeste da cidade do Porto e o município vizinho de Matosinhos, o NOS Primavera Sound é uma versão redux & deluxe do irmão mais velho catalão. Em 2022, traz, como dizem os lusitanos, “cabeças de cartaz” do porte de Nick Cave & The Bad Seeds, Tame Impala, Pavement, Beck, Gorillaz e Interpol, além de um sem número de shows entre novas leituras do pop alternativo, indie velho e sensações recentes. Para dar conta de tudo isso, a dupla de repórteres resgata um antigo formato do S&Y, contando o que viram em pequenos textos ao longo do intervalo de duas horas. “Então, vamos a isto?”

18h-20h

Foto de Hugo Lima / NOS Primavera Sound

Bruno Capelas: Chegar foi difícil, mas entramos. Após uma tarde na Fundação Serralves (um museu de arte contemporânea com projeto de tirar o fôlego de Álvaro Siza Vieira – o mais premiado arquiteto português – e uma bela exposição do brasileiro Leonilson), partimos para o Parque da Cidade esperando os ônibus na Avenida da Boavista. Um, dois, três… todos lotados e passando reto. O jeito foi recorrer a um Uber para chegar a tempo. Enquanto a credencial de imprensa saiu rápida, vale notar a longa fila para o público, que se estendia do portão até a Praça Cidade do Salvador, ponto de descida dos ônibus para o festival. Uma vez lá dentro, uma rápida passeada pela praça de alimentação, com opções para todos os gostos – dos clássicos pizza e hambúrguer até tradições do Porto, como a Cervejaria Gazela, dona de um lanche de linguiça que conquistou até o coração de Stephen Malkmus.

Mas enquanto o Pavement só toca na sexta, era hora de outras viagens – e coube ao DIIV a tarefa de abrir os trabalhos no palco Cupra, bem na entradinha do festival. Muita marra, muitas guitarras e belas canções naquela baguncinha gostosa entre o shoegaze, o post punk e um cadinho de post-rock, com boas conversas entre as guitarras de Zachary Cole Smith e Andrew Bailey. Também tinha muita gente sem máscara, o cheiro da verdinha e bastante empolgação dos presentes, surpreendendo o DIIV. Um bonito show, muito bem harmonizado com cidra Somersby – 500ml saíam por 6€, mais 1€ para o copo reutilizável do festival. Show encerrado, hora de encher a barriga…

Anna Vitória Rocha: Em minha primeira experiência num festival de música fora do país, foi quase reconfortante viver um perrengue para chegar até o Parque da Cidade. O relógio indicava o fim da tarde no Porto, mas o sol ardia no ponto de ônibus. Era fácil identificar outros primaverers no local – um pouco pelas roupas, um pouco pelo semblante preocupado de quem via os ônibus passarem apinhados de gente, impossibilitando até a abertura das portas.

Eu era a única de preto e mangas compridas – a meia arrastão e o casaco de pelinhos foi o melhor que minha mala pode entregar para o encontro com Nick Cave). Já as europeias estavam primaveris com vestidos frescos e estampados, sapatos abertos, chapéus e bonés. Aquele céu trincando de azul era motivo de celebração, assim como o desabrochar dos festivais depois de um longo inverno pandêmico. Brasileira capiau que sou, fiquei intimidada pelo vento no Porto, assim como a mistura de trauma e cautela me fez manter a máscara no rosto, algo pouco visto pela cidade.

Contudo, no momento em que passamos todos a recalcular nossa rota de partida, nos tornamos todos iguais. Aproveitei o Uber para tirar um cochilo, momento pelo qual meu corpo me agradeceria lá pela 1h da manhã. Pulseiras no braço, segui pela entrada direto para o palco Cupra. Ali, a banda DIIV fazia um show empolgado, com seus integrantes surpresos pela calorosa recepção do público do festival: “This isn’t normal for us, feels like watching TV”, disse o vocalista em determinado momento. Em bom português: “O que é isso, um filme?”.

Joguei o nome deles no Google para um dever de casa rápido. Em 2013, quando eles ainda eram novidade, Lúcio Ribeiro fez a defesa do grupo como algo que vai além do que se espera de mais uma bandinha do Brooklyn. Quase 10 anos depois, o quarteto me soou exatamente como uma bandinha do Brooklyn, mas de um jeito ótimo. Um quentinho no coração que nos lembra que ser indie é ruim, mas também é bom demais.

20h-22h

Kim Gordon / Foto: Bruno Capelas

Bruno Capelas: Comida é negócio sério em festival. Para abrir os trabalhos, um dos sanduíches (ou sandes, dizem os portugueses) mais gostosos da vida: a sandes de leitão com queijo de ovelha (7€) da Casa Guedes, tradicional estabelecimento portuense, acompanhada de dois bolinhos de bacalhau (5€). Tão bom que a gente nem lembra da fila longa.

Longo também foi o caminho para chegar até o palco “alternativo” Binance – patrocínio da corretora de criptomoedas que substituiu o antigo palco… Pitchfork. Sinal dos tempos. Em compensação, parece que o tempo não passou para Kim Gordon, a diva que o indie merece. Com sol ainda forte e acompanhada por uma banda só de mulheres, ela subiu ao palco para mostrar as canções de seu primeiro disco solo, “No Home Record”, de 2019, em um espetáculo experimental. É o caso clássico de show que funcionaria melhor num teatro que num festival, mas que ao mesmo tempo dá a um festival sua razão de existir, instigando o público.

A quinta-feira era dia de Nick Cave and the Bad Seeds, mas antes ainda tinha espaço para Sky Ferreira, que chegou 20 minutos atrasada e fez uma apresentação curta, com apenas seis canções. Depois de tanto ruído, foi bom ouvir refrões pop, cantados pela ala mais teen do Primavera. Mas às vezes, certo shows são como sorvete de casquinha: depois do frescor, parece que derretem na memória. Já outros, como um bom pastel de nata… só crescem. E era o que viria a seguir.

Sky Ferreira / Foto: Bruno Capelas

Anna Vitória Rocha: Comida era uma das minhas grandes preocupações da noite: sou vegetariana e não andava dando muita sorte com as opções sem carne dos menus do Porto. Na primeira praça de alimentação, essa angústia foi aos poucos se dissipando, já que quase todos os foodtrucks traziam ao menos uma alternativa veggie em seus cardápios. Em nome do bom jornalismo, decidi experimentar o prego vegan da Central dos Pregos, com tofu, cogumelo e pimentões fazendo as vezes do bife da versão original da iguaria (o combo, com batata, saiu por 9€). Após quase uma hora de fila, confesso que achei que faltou sal à mistura, apesar do sabor satisfatório de maneira geral.

Terminei as batatas (com bastante ketchup) enquanto atravessava o local a passos rápidos para não perder o primeiro show marcado na minha agenda da noite: Sky Ferreira. Os 20 minutos de atraso da cantora (de ascendência portuguesa, como o sobrenome denuncia) foram quase uma metáfora para a espera (de nove anos!) dos fãs por seu aguardado segundo álbum. A entrada no palco, sem gracinhas ou desculpas, foi uma espécie de anticlímax que talvez indique que não devemos esperar grandes coisas do “Masochism”.

“Oh fuck”, foi o que ela disse antes de começar a cantar “Boys”, um dos hits de “Night Time, My Time”, como quem se arrepende de uma brincadeira que foi levada a sério demais, iniciada num tempo em que o mundo era muito diferente.

Para não dizer que não há mais nada para esperar dela, o palco Super Bock viu a estreia de duas novas canções: “Don’t Forget” e “Innocent Kind”. Meu masoquismo felizmente se esgotou antes e achei melhor sair à francesa para garantir um lugar na plateia do Nick Cave. Acho que acabei não perdendo muita coisa.

22h-0h

Nick Cave and The Bad Seeds / Foto de Hugo Lima, NOS Primavera Sound

Bruno Capelas: Certos artistas parecem incapazes de fazer um show ruim. É algo que parece ir contra sua ética de trabalho ou as leis de sua natureza – como se o simples ato de subir ao palco já fosse uma liturgia. E isso pode acontecer mesmo sob as condições mais difíceis. Alguém já disse que um dos acontecimentos mais tristes que pode acontecer a alguém é enterrar um filho. E Nick Cave, que já havia perdido o caçula Arthur em 2015, velou o segundo filho, Jethro, há cerca de um mês. Muita gente achou que ele ia cancelar a apresentação no Porto, mas talvez como uma prova de fé (na arte, sobretudo), lá estava o australiano no palco principal do festival.

Foi uma apresentação incrível, da primeira gota de suor até a última palma no bis: escudado pelos Bad Seeds, com destaque para o grande Warren Ellis, Cave fez uma viagem pelo melhor de seu repertório, entre clássicos (“The Mercy Seat”, “The Ship Song”, “From Her to Eternity”), pedradas (“Get Ready for Love”, “Red Right Hand”, “Tupelo”) e canções soturnas mais recentes (“Higgs Boson Blues”, incrível como sempre). Como diria outro soturno, Leonard Cohen, as canções mais escuras de Nick Cave tem sempre uma rachadura por onde passa a luz – atestando, mais uma vez, o poder salvador da música. E talvez não haja melhor canção para dizer isso do que “Into My Arms”, entoada por um Cave visivelmente emocionado e mais de 10 mil pessoas ali presentes. “Obrigado, Portugal”, disse ele, em sotaque digno de Mercearia São Pedro. Mas a gente é que agradece.

Anna Vitória Rocha: Pontual, elegante e com terno extremamente bem passado: foi assim que Nick Cave tomou o palco principal do NOS Primavera Sound exatamente às 21h20, a golden hour do Parque da Cidade. Eu, que por uma série de motivos esperava um show mais intimista e soturno, fui chacoalhada pela abertura com “Get Ready For Love”.

Acostumada ao calor e à energia do público brasileiro, demorei um pouco para entrar no show, ainda que Nick Cave já estivesse entregue ao público do gargarejo na primeira faixa, distribuindo apertos de mão e espalhando seu “cheirão de Azzaro” na grade. Ou talvez, pensei comigo depois, ele fosse apenas um ídolo pagão que desce dos céus para desfilar entre seus fiéis que estendem o braço para tocar sua imagem, como devotos que se acotovelam para roçar num santo em procissão.

Na manhã do dia 9, os assinantes da “The Red Hand Files”, newsletter em que Nick Cave responde cartas de seus fãs, receberam uma missiva sobre amor e fé. Foi um dos primeiros números enviados após a morte de Jethro Cave, segundo filho que o músico perde. “O que é Deus?”, perguntou Sue, direto de Paris. Em sua resposta, Cave escreveu que Deus é amor, sendo o amor uma necessidade que até a mais cética das criaturas é capaz de sentir. No evangelho segundo Nick Cave, nossa busca por amor e nossa insistência em amar é o que faz a beleza permanecer em um mundo que também é tão cruel, enquanto o trauma é um “fogo purificador” que nos permite encontrar, mas encontrar de verdade, o que existe de bom no mundo.

Para mim, essa resposta explica a beleza, a entrega, a energia e a comunhão que Nick Cave foi capaz de conjurar em suas duas horas de show no NOS Primavera Sound. Em meio a tragédias pessoais e coletivas, algo de sagrado nos faz resistir. E se por alguns minutos me parecia quase impossível entrar no show por conta dos ruídos do entorno, quando Nick Cave deixou o palco pela última vez eu já não queria mais sair dali.

0h-2h

Tame Impala / Foto: NOS Primavera Sound

Bruno Capelas: A cidade do Porto é um desafio para os joelhos – e o Parque da Cidade não é diferente. Haja perna para voltar até a entrada e conferir o Cigarettes After Sex, uma banda que eu ouvi muito lá pra 2017, enquanto fazia plantão, preenchia planilhas ou andava de ônibus. Um som meio triste, meio sensuellen… e muito chato ao vivo. A paciência não durou três músicas – e foi uma portuguesa que definiu o espírito da coisa: “este gajo é uma seca, foda-se, todas as músicas são iguais”.

A seguir, uma rápida passada pela tenda eletrônica (com Nídia fazendo fritar com “Baile de Favela”), e… sim, o Tame Impala. Há uma década, eles marcaram época, abrindo espaço para uma nova psicodelia. Hoje, parece tudo velho. De longe, parece que as grandes guitarras e refrões lá do começo (“Feels Like We Only Go Backwards”, que hit) viraram um Jamiroquai meio enfumaçado, sujinho, sem graça, sem dinâmica. E ali, entre uma fumaça de cigarro e outra, um pensamento solto: quando a gente não precisa mais comprar um disco pra consumir a música, a barreira de entrada pra um som que não incomoda muito é menor. Talvez por isso (e pelos algoritmos & playlists automáticas) é que eu tenha escutado tanto o Cigarettes After Sex e que tanta gente ouça o Tame Impala. Quando o número de plays vira o de vendas, isso influencia um lineup – mas nem toda banda que é boa no meu quarto é boa ao vivo, especialmente quando faltam refrões.

Se você discorda, é porque alguém botou algo no meu Porto Tônica de latinha (4€). Mas se concorda, encerre a noite com um refrão gostoso: “So Hot You’re Hurting My Feelings”, popzinho gostoso de Caroline Polachek, num show que surpreendeu. Outra surpresa foi a volta pra casa, de ônibus, fácil e sem filas. E bora dormir que amanhã tem Pavement.

Anna Vitória Rocha: Não me parecia correto impor qualquer outro tipo de música sobre meu corpo depois da verdadeira unção de Nick Cave, por isso decidi descansar e matar um tempo na área dedicada à imprensa. Com Coca-Cola, Sprite, cerveja e banheiros limpos de cortesia, foi ali que me dei um certo tempo para absorver aquelas últimas duas horas. Ao fundo era possível ouvir o show do Cigarettes After Sex, um sonzinho pau-mole que serviu de trilha sonora enquanto eu andava sem pressa entre os palcos e apertava meu casaco de pelinhos contra o corpo para me proteger do vento – um excelente figurino, no final das contas.

Já com as pernas doloridas e o cansaço de mais de doze horas fora de casa batendo, parei no quiosque da Taylor’s para prestigiar um Porto Tônica – we’re really not in Kansas anymore. Mais algumas pernadas e chegamos ao palco Binance, em que Caroline Polachek encerraria minha primeira noite. A ideia era aproveitar os morrinhos do parque para curtir o show de longe e sem máscara, bebericando meu drink, mas a energia da artista foi tão contagiante que decidi chegar perto e – pasme! – dançar.

Caroline Polachek (ou Caroline Bolachinha, como gosto de chamá-la) tem só 1,60m, mas parece ganhar alguns centímetros de braços e pernas quando dança no palco de forma adoravelmente desajeitada, com movimentos ao mesmo tempo estranhos e harmônicos. Ela sabe que não dança como uma cantora pop tradicional, mas achou um jeito de fazer isso dar certo do seu jeito. Para mim, é uma boa forma de resumir sua identidade enquanto artista: uma mistura de Kate Bush e Carly Rae Jepsen, uma criatura diáfana que pode ser sua melhor amiga.

Prova disso foi o show que fez o público dançar na madrugada com os sucessos de “Pang”, seu álbum de estreia, e boas surpresas, como o cover de “Breathless”, do The Corrs, e “Billions”, um lançamento recente de um álbum sucessor que deve pintar logo mais. Temos bons motivos para aguardar sua passagem pelo Brasil. Tame Impala who?

Caroline Polachek / Foto de Hugo Lima, NOS Primavera Sound

Top 3 do primeiro dia de NOS Primavera Sound

Bruno Capelas
1 – Nick Cave and the Bad Seeds
2 – DIIV
3 – Caroline Polachek

Anna Vitória Rocha
1 – Nick Cave and the Bad Seeds
2 – Caroline Polachek
3 – DIIV

Foto de Hugo Lima / NOS Primavera Sound

SAIBA COMO FOI O DIA 2 e o DIA 3 DO NOS PRIMAVERA SOUND PORTO 2022

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