Ao vivo: Ana Cañas emociona cantando Belchior em São Paulo

texto por Marcelo Costa
fotos por Fernando Yokota

No Brasil de 60, 70 anos atrás, o intérprete reinava. As grandes vozes da era de ouro do rádio recebiam canções de alguns dos melhores compositores do período e colocavam sua distinta marca vocal. Esse modelo foi caindo em desuso quando a figura do cantor compositor entrou em cena trazendo consigo uma “vantagem” inabalável: ele estava ali cantando algo que ele próprio compôs, o que, de certa forma, compensava em alguns casos a desvantagem vocal e acrescentava um componente de (um, dois, três) “honestidade” ao material, já que ele estava compartilhando uma experiência que (sempre em teoria) ele próprio sentiu.

A discussão em torno da questão intérprete vs cantautor é muita mais profunda e complexa do que o parágrafo anterior sinaliza (Carmen Miranda não compunha, mas a maravilhosa “Disseram Que Eu Voltei Americanizada”, de Luís Peixoto e Vicente Paiva, é mais Carmen Miranda do que muita obra de cantautor por aí), e nomes mágicos de nossa música seguiram os anos 70 (impossível não citar Elis Regina num texto como esse aqui) e seguem até hoje (como as musas eternas Gal Costa e Maria Bethânia e, para citar alguém daqueles tempos com um disco maravilhosamente fresquinho, a grande Alaíde Costa com o recém-lançado “O Que Meus Calos Dizem Sobre Mim”) conquistando corações.

Sentado em uma mesa no fundo do elegante Blue Note São Paulo, localizado em um dos (diversos) pontos efervescentes da avenida Paulista, o Conjunto Nacional, todas essas ideias passavam pela cabeça do jornalista observando a cantautora Ana Cañas mergulhar de peito e coração abertos no repertório de Belchior, um artista que construiu uma carreira própria inabalável que, por fim, terminou em certo ostracismo autoinduzido, mas que foi venerado nas vozes dos mais dispares interpretes, de Elis Regina (a número 1) a Vanusa passando por Engenheiros do Hawaii, Los Hermanos e chegando em Wander Wildner e Emicida (entre tantos).

Falecido em 2017, Belchior viu, mesmo afastado do showbusiness, sua obra conquistar novas gerações (seu contentamento diante da coletânea tributo “Ainda Somos os Mesmos”, lançada pelo Scream & Yell em 2014, em revelação estampada no livro “Belchior – Apenas um Rapaz Latino-Americano”, de Jotabê Medeiros, é um motivo de orgulho para esse corpo editorial) e, infelizmente, soar tão atual nesses dias obscurantistas quanto quando foi produzida no século passado. As boas obras são atemporais, diria outro, mas isso serve como motivo para envelopar aquelas velhas canções em novos arranjos e lançá-las em disco e shows? Depende.

No caso de Ana Cañas, a resposta é um sonoro sim. O show “Ana Cañas canta Belchior”, derivado do disco homônimo lançado em 2021, é, numa palavra, emocionante. Porque Ana consegue algo raro no território das interpretações: ao contrário de artistas que tomam de maneira definitiva e inconteste a canção de outro autor pra si como se elas tivessem sangrado de seus próprios pulsos (a incomparável Elis era desse seleto grupo), Ana consegue compartilhar dos sentimentos do autor expondo-se, mas nunca o apagando. No palco, juntos, Ana Cañas e Belchior e seus 10 planetas em escorpião deslumbram num mise en scène que comove não por sua decantada grandiloquência, mas sim por sua delicadeza.

Conhecida por seu temperamento forte, seus posicionamentos corajosos e por seu bom humor, Cañas plana no palco tamanho a suavidade dos arranjos. Dada a excessos, ela se entrega num show delicado e comovente, que começa encorpado e intenso (afinal, é preciso trazer o público para dentro do espetáculo) com uma versão vigorosa de “Hora do Almoço”. Ao final, agradece: “Bem-vindos ao show que humildemente busca homenagear esse compositor, esse gênio da música brasileira, esse alicerce da nossa cultura, da nossa poesia, do nosso pensamento metafisico filosófico existencial e apaixonado que atravessa nossos corações: Antônio Carlos Belchior”.

“Apenas um Rapaz Latino Americano” vem na sequência mostrando uma das qualidades do show: ela inicia cantando “eu sou apenas um rapaz” e deixa o público completar “latino americano sem dinheiro no banco”, mas retoma a letra e a interpretação, evitando o caminho fácil do karaokê gritado, quando o público canta mais por osmose do que por sentimento, e fica nítido – pelos arranjos – que uma das estrelas da noite (talvez a maior) serão as letras de Belchior, algumas delas que muita gente cantou por anos a fio, mas não parou para entender o seu recado: nesse show, as letras soam desnudas, vivas, cortantes, como realmente são.

“A Palo Seco”, inevitavelmente, traz lágrimas aos olhos (afinal aquele desespero voltou a ser moda em 2020/2021/2022). “Velha Roupa Colorida” surge com palmas na introdução e a alegria tomando conta do ambiente quando Ana marca o verso “uma nova mudança vai acontecer”, e se transforma em euforia quando ela altera o trecho final para “64 nunca mais”. Os primeiros gritos da noite contra o atual presidente surgem e logo são encobertos por um coro de “olê olê olá” enaltecendo o líder das pesquisas presidenciais. “Comentário a Respeito de John” valoriza a boa banda que traz Adriano Grineberg (teclados, escaleta), Fabá Jimenez (guitarra, violão), Loco Sosa (bateria) e Estevan Sinkowitz (baixo).

Recebida com aprovação pelo público, “Paralelas” (que letra, que letra, que letra) surge num arranjo emocionante. Na pausa, Ana Cañas conta que a esposa e os filhos de Belchior estavam sentados à mesa na frente dela no show anterior (houve uma apresentação às 20h e essa, que acompanhamos, às 22h30) e revela, para gargalhadas gerais: “Então, estou considerando esse show mais tranquilo pra mim, porque não passava um wi-fi no meu fiofó. Agora estou mais relaxada”. De posse do violão, ela canta um trecho da apaixonada e apaixonante “Divina Comédia Humana”, e brinca ao final: “Acho que o Belchior entendeu o Tinder”.

Talvez a música de Belchior mais compartilhada nas redes sociais (e sentida pelo povo) nos últimos anos (até em pedras na lua deve existir uma pixação com a frase “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”), “Sujeito de Sorte” surge em um arranjo mais encorpado e roqueiro, com Ana celebrando no meio: “Estamos vivos e vacinados! Viva o SUS, viva a Ciência” e provocando: “A terra é redonda”. Ao final, uma mulher a pede em casamento, e ela responde “Desculpa, eu sou não monogâmica” para, na sequência, elogiar a audiência comicamente “Olha, o público das 20h foi bacana, mas o das 22h30, só os doidos agora” (risos).

Ana, então, conta como nasceu o projeto: “No comecinho da pandemia ficamos muito assustados com o cenário que se apresentou diante da distopia coletiva do vírus. Para nós, da música, foi muito duro porque nosso ganha pão vem da estrada. Então nos reunimos para fazer uma live em homenagem ao Belchior para reunir fundos para ajudar nossos amigos músicos que estavam vendendo seus instrumentos para alimentar os filhos. Para ser honesta, eu nem sabia o que estava fazendo, e fomos surpreendidos por uma corrente de afeto de fãs do Belchior que pediram para que a gente gravasse um disco e fizesse shows. Eu fui pesquisar, li biografias, vi centenas de entrevistas no Youtube e fui ouvir os discos”, conta Cañas.

Em seu mergulho na obra de Antônio Carlos Belchior, Ana Cañas encontrou “um ser-humano maravilhoso, uma pessoa simples, humilde, consciente e aguerrida, naturalmente”. E, para introduzir uma canção que a assombrava por sua genialidade, conta que foi analisar o mapa astrológico de Belchior para entender como ele podia ter parido aquela música. E descobriu que “Belchior tem seis planetas em escorpião! Eu tenho quatro… Entendi tudo, entendi de onde saiu essa música e, pra quem não sabe, escorpião é basicamente sexo, sexo, sexo e… sexo”. Essa foi a deixa para uma versão poderosa de “Coração Selvagem”.

Mais uma das canções assombrosamente belas do artista cearense surge na noite, “Retrato em 3×4”, que ela dedica aos nordestinos presentes, (os enaltecendo) “para além deles saberem votar”, e aproveita o arranjo para contar a sua própria história de garota que, brigada com a mãe, saiu de casa e foi morar numa pensão vivendo de distribuir panfleto em farol, amostra grátis em supermercados e vender coxinha até que um amigo a convidasse para cantar em um teste para um bar e… o resto é história ( que podem – e merecem – serem lidas em seu Instagram, aqui e aqui)

“Medo de Avião” é recebida efusivamente pela plateia assim como a eternamente linda “Alucinação”, com os celulares iluminados do público desenhando uma cena bonita no ambiente à meia luz do Blue Note São Paulo, e “Galos, Noites e Quintais”, que fecha a primeira parte da noite com sua frase forte: “Não sou feliz, mas não sou mudo: Hoje eu canto muito mais”. Para o bis, claro, “Como Nossos Pais”, com Ana saboreando cada silabazinha de cada palavra da letra (é preciso falar de novo: que letra) num arranjo mínimo de piano, baixo e violão quase inaudíveis, para que nada da letra seja perdido, tudo seja sentido, encerrando com muita emoção uma noite especialíssima.

Como já foi dito aqui em outra oportunidade, via de regra, em 90% dos casos da música pop, um show é, mais do que qualquer outra coisa, uma celebração de nostalgia. Ainda que carregue todos os elementos dessa constatação, “Ana Cañas canta Belchior” se valoriza e salta aos olhos e ouvidos tanto pela interpretação delicada e respeitosa que eleva a figura de Belchior sem diminuir a de Ana Cañas quanto pela atualidade de um repertório poderoso que só vem ganhando força com o passar dos anos (o que valeria outro textão). E que, apesar de memes, tiktoks e versões, continua emocionando. Muito.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/

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