Faixa a faixa: Andrezza Santos detalha seu delicioso segundo disco, “EUTRÓPICA”

texto por Marcelo Costa
fotos por Andressa Santos

Foram quase dois anos de trabalho para que Andrezza Santos fosse da concepção à finalização de “EUTRÓPICA”, seu segundo álbum de estúdio, lançado em abril. Nascida em São Paulo e radicada no interior da Bahia, origem de sua família e onde reside atualmente, Andrezza dividiu o novo álbum em três EPs de quatro faixas, cada um deles com nuance e climas particulares.

O primeiro dos EPs, “Sapopemba”, lançado em 2021, é mais denso, urbano e paulista; o segundo EP, “Carranca”, também de 2021, por sua vez, soa mais calmo e contemplativo (e conta com a presença de Josyara, que divide com Andrezza a autoria de “Eu Vou, Você Vem?” e coproduz a faixa). O terceiro EP, “Atlântica” (2022), que fecha o disco, é mais solar, dançante e nordestino.

Como a cantautora deixa claro no faixa a faixa abaixo, citando diversos estilos musicais, o elo entre os três EPs é, como diz o release, “a simbiose musical de tantos Brasis que coexistem nesse imenso país e a vasta herança da música nordestina, experimentada por Andrezza através do xote, ciranda, axé, samba de coco e brega funk, sem deixar de fora sua grande inspiração no rock”.

O resultado é um álbum forte e conciso que, apesar de ter nascido dividido em três partes, consegue conectar as nuances particulares de cada um dos três EPs numa faceta brasileiríssima. “Às vezes, planejamos algo, mas as circunstâncias mudam e os planos seguem essa impermanência. O disco foi feito assim, ele mesmo apontando seu próprio norte”, explica Andrezza Santos.

Abaixo, Andrezza aprofunda o olhar sobre cada uma das 13 canções (a bluesy “Vênus em Gêmeos” surge como faixa bônus) que compõe “EUTRÓPICA”, que teve Iago Guimarães na produção musical com coprodução da própria Andrezza ao lado de Soneca Martins e DJ Werson. Fala, Andrezza!

Andrezza Santos – Faixa a faixa “EUTRÓPICA”

01. “Sem DDD”: Esta foi a última canção do primeiro EP do disco, o “Sapopemba”, ou seja, a última que foi composta e produzida e isso se deu porque, durante o processo de produção das outras músicas que vieram antes, eu sentia a necessidade de compor algo que pudesse abrir o conceito do disco “EUTRÓPICA”, do motivo pelo qual eu quis fazer este álbum. Tanto é que acabou ficando muito espontâneo, o arranjo, a voz guia ficou como voz oficial. Ela nasceu do jeito que foi produzida. Apesar de ter sido a última, foi muito rápida para gravar e finalizar.

02. “A Gente Ia Longe”: O nascimento de “EUTRÓPICA” começou com esta música. Compus em 2019 junto à Sibele Fonseca e, desde então, a deixei bem guardada porque queria esperar o momento certo para lançá-la. Desde que a música foi finalizada, já tínhamos a consciência de que ela tinha um apelo muito forte e que, de alguma forma, as pessoas teriam bastante identificação com ela. Quando entramos em estúdio, já foi com essa intenção de construir um arranjo que trouxesse partes de mim, no sentido das referências musicais, de coisas que eu já estava fazendo em meu trabalho, como scat singing, ou misturar os gêneros musicais com rock, trazer experimentos da música latina. O arranjo dela traz tudo que penso sobre meu trabalho. Gosto muito do arranjo e da produção final, e, em termos de arranjo mesmo, esta é minha preferida do disco.

03. “Vagão Vazio”: Esta música fala muito sobre deixar ir, mas também sobre memórias e sobre estar presente e atento aos detalhes do dia a dia, porque às vezes nos damos conta desses detalhes depois que eles já passaram. Eu queria muito trazer São Paulo, minha cidade natal, para essa música. Trazer imagens de São Paulo que pudessem ficar em nossa memória, e o vagão vazio é algo que está sempre na minha memória, de estar saindo de um curso que eu fazia na Luz, pegar o metrô lotado, horário de pico, e de repente aparece um vagão vazio e todo mundo desesperado para pegar esse vagão, conseguir sentar, eu queria muito trazer essa imagem. Também tem a parte da salsa, que gosto muito, é muito gostoso para ouvir e dançar, tem os instrumentais que, querendo ou não, são caóticos por conterem muitos instrumentos juntos mas com uma batida interessante. Quando levei essa ideia para Iago Guimarães (produtor) e Soneca Martins (guitarrista), pensamos muito nisso, como iríamos misturar salsa tradicional com rock e chegamos a essa fórmula, cujo resultado é a “Vagão Vazio”.

04. “Cheganças”: Essa nasceu do meu encontro com o duo Antônima, composto por Yasmin Oli e Nath Gonçalves. Nath é minha amiga de escola, desde o ensino médio, porém, fomos ter mais vínculos depois da escola, então, quando surgiu este projeto dela, o Antônima, pensei que a gente tinha que fazer algo juntas em algum momento e, logo depois, comecei a bolar o “EUTRÓPICA”. Nos reunimos online para conversar sobre essa música e a conversa trouxe muitos pontos positivos, tanto da minha parte quanto da de Yasmin, que assina a composição comigo. Fomos compondo por whatsapp mesmo, ela trouxe a ideia da essência da música e fomos ajustando. Tivemos um pouco de dificuldade na gravação porque foi naquele momento do auge da segunda onda da pandemia e tínhamos um prazo para entregar o EP, o que me deixou ansiosa e com receio, já que elas não podiam sair porque estava muito arriscado ir em estúdio e coisas assim. Mas, mesmo assim, isso não interferiu, nem minimizou a potência que é essa música, que inclusive fez parte de uma propaganda da TV Grande Rio, de Petrolina (PE), no especial de final de ano. Eu ouço muitos retornos legais sobre essa música, o que me deixa muito satisfeita. Fico muito feliz com essa parceria e com o resultado.

05. “Eu Vou, Você Vem?” (Participação Josyara): Tenho um carinho muito grande por esta canção porque sempre admirei muito o trabalho de Josyara, desde que a conheci, e eu queria muito produzir algo com ela, e neste processo de querer trabalhar com ela, percebi que temos histórias muito parecidas, porém ao contrário: eu nasci na capital, em São Paulo, e fui para o interior da Bahia, em Juazeiro, e ela saiu de Juazeiro para morar na capital. Quando começamos a pensar no que íamos compor, mandei a letra para ela e ela musicou essa letra, o que para mim é uma imensa honra ter uma letra minha musicada por ela. Ela também colocou algumas partes da letra e quando estávamos produzindo foi um processo incrível porque ela também fez a coprodução e foi uma troca muito interessante e, mesmo sendo online, parecia que ela estava ali fisicamente pensando em tudo. Ela gravava, enviava para nós, mandava ideias, a gente mandava ideias para ela. Iago sempre tentava conectar as coisas de uma maneira que não fugisse do conceito do trabalho. Foi um processo muito bom, com conversas muito potentes durante o processo, tanto pelo encontro quanto pela letra. Aprendi muito fazendo essa música.

06. “O Aquário e O Caranguejo”: Essa música foi feita durante a pandemia por Ailton Nery e Manu Fonseca, que fizeram a letra e me mandaram. Quando vi, gostei muito e musiquei a letra. Até então, eu não tinha pretensão de gravá-la, mas quando eu estava pensando no conceito de “Carranca”, o segundo EP de “EUTRÓPICA”, achei que ela cabia porque eu queria colocar um xote, algo que eu gosto muito, e que fosse um xote leve, bem gostoso de ouvir. Quando começamos a produzir, foi muito rápido o processo, já tinha tudo na mão. Não queríamos um xote tradicional, então os únicos elementos que colocamos é o triângulo e a zabumba bem lá no fundo. Acho que o protagonismo ficou mesmo com a guitarra e a bateria, que deixou mais forte. Gosto muito dessa música, tanto é que fizemos o clipe dela depois.

07. “Revoada”: Compus essa para um espetáculo de dança, convidada para produzir a trilha sonora. Foi minha primeira trilha sonora e eu estava no processo de finalização do projeto quando tive a ideia da letra e foi quando apresentei isso para a companhia de dança, eles gostaram e a música acabou entrando no espetáculo. A cena final do teatro é com a bailarina dançando essa música. Senti que ela cabia também em “EUTRÓPICA”, conversei com a companhia para pedir liberação para usar no disco. “Revoada” fala sobre o presente, sobre coisas que fui aprendendo e absorvendo com o tempo e que eu sentia necessidade de falar de maneira mais sutil e leve.

08. “Ciranda Feminina”: Já tem uns três anos que durante os shows coloco o público para dançar uma ciranda, que tem um ritmo do qual gosto muito, é um ritmo forte, até então eu não tinha feito nenhuma ciranda. Um pouco antes de entrar a pandemia, compus a letra, mandei para Daiane Menezes, uma amiga, com quem terminei a letra e ainda antes da pandemia também, entrei em estúdio para gravá-la porque minha ideia era lançar essa música no Dia das Mulheres. Começamos o processo e foi quando iniciou a pandemia, então deixei a música guardada durante um tempo, maturando. Quando comecei a elaborar o disco, logo pensei que “Ciranda Feminina” tinha que entrar. Ela também foi muito fácil de produzir porque as ideias já estavam na cabeça. É claro que quando começa a colocar os instrumentos, pensar em arranjos, acaba virando outra música, mas tentamos manter no instrumental a ideia da letra que é sobre resiliência, sacudir a poeira e seguir em frente.

09. “A Culpa É Sua Se Eu Sou Feliz”: Essa música é um presente que eu recebi de Manuca Almeida e Lu Almeida, que de alguma forma confiaram em mim para transmitir essa mensagem. Ela nasceu em 1º de outubro de 2021, aniversário da neta de Manuca, e é a primeira música dele que assinamos como parceiros desde que ele fez sua passagem. Ela tem uma mensagem forte, objetiva e, para “Atlântica”, o terceiro EP, fiquei pensando em como trazer a essência dessa música de maneira que chegue com leveza mas ao mesmo tempo com essa raiz baiana. Então pensamos em fazer um pagodão baiano leve, que tem referências do lo-fi e da bossa nova também. A música diz por si só, eu só a verbalizei.

10. “Sair Sozinha”: Essa foi a primeira composição do terceiro EP, “Atlântica”, e eu estava num processo mental meio difícil na época, tendo que produzir as músicas, mas minha energia estava meio caótica. Foi Iago que me tirou desse fundo do poço, me incentivando muito. Ele me mandou várias ideias de música para tentar me ajudar e me motivar, me inspirar de alguma forma, e me mandou “Sair Sozinha” por último e quando ouvi a primeira vez, a estrofe inicial e o refrão, logo vi que era aquilo. Já levantei da cama, comecei a compor, produzir, convidei o DJ Werson, também uma pessoa muito querida, para estar nesse processo todo, então tem a mão dele nessa produção musical. Essa música também fala por si só, tem essas referências do axé com um pouco de forró estilo Desejo de Menina e finaliza com um rock alternativo. Essa música traz muito da minha essência, que é isso da mistura de estilos. Tenho muito orgulho dela, é uma música que já toquei ao vivo algumas vezes e as pessoas a entendem muito rápido, aderem fácil a ela, ao ritmo, então isso dá um valor muito grande para essa canção, além de ela ter me ajudado muito em um período difícil.

11. “Deita ou Sai de Cima” (Kadett 95): A primeira vez que ouvi um carimbó foi assistindo um DVD da banda Calypso ao vivo na Amazônia e logo já fiquei apaixonada por tudo aquilo, o ritmo, os figurinos, aquelas saias rodadas girando e quis trazer essa referência para “Atlântica”. Essa foi a única música feita inteira em estúdio, letra, instrumental, tudo. Nesse processo, pensei que ela tinha que ser um carimbó, mas um carimbó do meu jeito, com aquelas guitarrinhas. Durante a gravação e produção do arranjo, senti a necessidade de trazer uma outra referência que é muito importante para mim que é o Kadett 95, que é o carro que tenho, e mesmo não sendo alguém do rap, escrevi uns versos com essa pegada para entrar nessa música usando essa história do Kadett, que tem tudo a ver com “EUTRÓPICA”. Gostei muito de como ela foi feita e das referências que ela tem, além de ser uma das que mais deixa o público agitado e dançante durante o show ao vivo, já virou passinho de TikTok e me divirto demais quando toco e canto.

12. “Amor de Portelinha”: Essa música primeiramente foi lançada como single, em 2020, antes da pandemia, que fala sobre amores de bar. É uma parceria minha com Pablo Luan, e, pelo menos o pessoal que me acompanha, gostou muito desse som. Durante o processo de “EUTRÓPICA”, pensei que eu tinha que colocar essa música no repertório do disco porque ela tem esse afeto das pessoas e DJ Werson produziu a versão remix, que é um brega funk, um estilo que também tem tudo a ver com “Atlântica”, algo mais dançante. Foi muito fácil de pensar e produzir essa nova versão e também é uma música que coloca todo mundo para dançar e curtir muito nos ao vivos.

13. “Vênus em Gêmeos”: Essa foi composta também no começo da pandemia e, a princípio, ela não ia entrar no disco, mas eu também não sentia que ela caberia como um single. Porém, depois pensei que ela precisava estar no disco de qualquer maneira, principalmente por ter uma veia blues, que é um estilo que gosto muito, faz parte das minhas referências, principalmente essa parte do scat singing, de poder me expressar mais vocalmente e essa música possibilitava tudo isso. O tema fala sobre as relações com pessoas com “vênus em gêmeos”, que podem ser meio caóticas – tive uma experiência que foi! Foi uma produção tranquila, já sabíamos como trazer ela para o blues e gostei bastante de como ficou, uma balada romântica, mas ao avesso.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

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