Ao vivo: Congadar e Boogarins aquecem o frio mineiro com grandes shows em BH

Texto e fotos por Alexandre Biciati

Belo Horizonte tem registrado temperaturas baixíssimas nos últimos dias. Um frio incomum ao belo-horizontino que sugere noites mais caseiras em detrimento a programas fora de casa. O clima dos alpes, entretanto, não foi suficiente para impedir que a Autêntica tivesse a casa lotada para as apresentações de Congadar e Boogarins, que fizeram muita gente amarrar o casaco na cintura.

Com dois discos lançados, “Retirante” de 2019 e “Chora N’Goma” de 2022, o Congadar é uma banda de Sete Lagoas (MG) formada pela união de um grupo de Congado e uma banda de blues-rock. Sua música, baseada em uma séria pesquisa, homenageia o folclore mineiro e celebra a cultura popular do Congado e Folia de Reis – expressões religiosas afro-brasileiras. A formação chama atenção pela presença de três caixas (tambores do congado) à frente do palco, que são conduzidas por Mestre Carlos Saúva, Filipe Eltão e Wesley Pelé.

A mistura é profícua e funciona tão bem como já vimos acontecer com a Nação Zumbi, uma referência estética óbvia. O Congadar, porém, traz pro palco um teor regional tão próprio que não seria imprudente dizer que podemos estar diante da semente de um movimento musical de raízes mineiras. As letras do Congadar têm temática forte que evocam a cultura africana, que também se faz presente no viés rítmico dos tambores de Minas e até no tempero rockeiro que tem origem na cultura negra norte americana. Adicione a isso a presença do produtor e guitarrista Giuliano Fernandes, que tem no currículo discos gravados e dez anos de parceria com Lô Borges.

Após a abertura com “Aê Angola”, do novo disco, o Congadar tocou “Sá Rainha”, música de Maurício Tizumba regravada no primeiro disco. Tizumba chegou, inclusive, a fazer show com a banda em 2015 na própria Autêntica. Após “13 de Maio”, música de domínio público, a banda apresentou “Chora N’Goma”, que dá título ao trabalho recém-lançado. Quando tocaram “Marimbondo Amarelo”, lundu tradicional da Folia de Reis e um dos pontos altos do show, a pista já estava completamente entregue às batidas do congado e às distorções cada vez mais nervosas.

À medida que o show evoluía, a casa enchia, o frio dissuadia e a banda manifestava empolgação pela dimensão que o show tomava. Era notável a satisfação de Mestre Saúva e da dupla Igor Félix (guitarra) e Marcão Avellar (baixo), que chegou a registrar do palco a plateia do próprio celular. Na introdução de “Benção no Terreiro dos Antepassados (Branca Violência)”, Saúva fez discurso sobre a violência sofrida contra os negros: “Nossa luta é grande contra qualquer discriminação”. O público respondeu com braços erguidos e punhos cerrados, gesto de resistência e contra a opressão.

Ao final do show, Congadar tocou “Chico Rei”, música gravada durante a pandemia em 2019, cujo vídeo foi produzido com cada integrante tocando da própria casa. A música narra a história do lendário escravo trazido do Congo que comprou sua alforria e se tornou “rei” dos conterrâneos que libertou em Ouro Preto. Para fechar a apresentação, “Beco do Repolho” para lembrar que estávamos diante de uma banda que, acima de tudo, valoriza e canta suas origens.

O Boogarins, por sua vez, fez um show que faz jus à trajetória da banda goiana. Classificados como psicodélicos e lisérgicos, a banda tem um teor pop tão inédito que faz qualquer comparação com outros artistas do gênero soar irresponsável. Com sete discos lançados e turnês pela Europa e EUA na bagagem, a banda apresentou músicas dos dois últimos trabalhos. Batizados de “Machaca Vol. 1 e Vol. 2″, os álbuns são um compilado de edições inéditas de músicas de 2016 a 2018.

Antes mesmo do início do show, o layout do palco já chamava atenção pela presença da bateria no chão, perfilada com os demais instrumentos. Ynaiã Benthroldo, ex-Macaco Bong, é quem assume as baquetas desde 2014 e faz um trabalho digno de abrir a resenha. Benthroldo acrescenta à performance coletiva, tanto pela sobriedade e técnica de condução impecável, quanto pela pegada virtuosa com nuances brasileiras que, por mais de uma vez, arrancou aplausos dedicados.

A abertura do show foi com “Derramado” que figura no volume 2 da coleção de outtakes lançada em 2021, disco do qual também tocaram “Correndo em Fúria”. Em seguida, apresentaram do disco “Sombrou Dúvida” (2019): “Sombra ou Dúvida”, “Te Quero Longe” e “Passeio”. A pista se espremeu o quanto pôde na frente do palco cantando junto e se entregando à dinâmica complexa que, por vezes, descambava para uma jam com guitarras envolventes e improviso, levando a plateia ao transe. E por falar em transe, “Dislexia ou Transe” do mesmo disco, também estava no setlist.

Dinho Almeida (voz e guitarra), dono de uma voz aguda e melódica que lembra os predicados derretidos do rock sulista, transbordava carisma dançando e trocando sorrisos da ponta do palco. É ele quem interage com o público e dá ouvidos a cada elogio e pedido de música. A ponte que se estabelece é uma camada extra que ajuda a definir o “pop” da banda e faz da performance ao vivo do Boogarins uma experiência singular.

Em contraponto, ao lado de Benke Ferraz (guitarra solo), o baixista Raphael Vaz (Fefel) é bem mais comedido no âmbito da performance, mas foi carinhosamente encorajado pela plateia que gritou seu nome. Fefel cantou “Inocência” que está em “Manchaca Vol. 1”. Do mesmo disco ainda ouvimos “Sai de Cima”, “Cães do Ódio” e “Noite Bright”.

Do álbum “Lá Vem a Morte” (2018),o grupo trouxe “Onda Negra”, “Lvco 4” e “Foimal”, nessa ordem. Mas foi na dobradinha “Benzin” e “San Lorenzo” do disco “Manual” (2015) – indicado ao prêmio de Melhor Álbum de Rock em Língua Portuguesa no Grammy Latino em 2016 – que um mar de smartphones surgiu filmando na vertical.

O show já chegava ao final e Dinho mais uma vez voltou a atenção à pista. “Doce” era uma das mais pedidas e Dinho anunciou: “Ainda bem que ainda temos mais duas músicas preparadas”. Fecharam com “Lucifernandis” do primeiro disco “As Plantas Que Curam” e “Auchma”. A banda deixou o palco sob aplausos e pedidos pouco ousados de bis, já que era nítida a sensação de dever cumprido.

O Boogarins foi a grande responsável pela lotação da casa numa noite fria que arrastou fãs taxativos: “essa é a melhor banda brasileira de rock da atualidade”, enalteceu Adriano Maciel, que declarou já ter saído de BH para ver a banda na ocasião de abertura para o Tame Impala em São Paulo: “sou fã assumido”. E a banda responde a dedicação dos fãs à altura. Se os pedidos para tocarem “Doce” não foram contemplados no palco, quem esperou a banda sair da casa pôde ouvir uma palinha de Dinho que o fez do lado de fora da Autêntica. Coisas do midstream.

– Alexandre Biciati é fotógrafo: https://www.alexandrebiciati.com/

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