Cinema: “O Peso do Talento” traz Nicolas Cage se auto-referenciando como um símbolo da cultura pop

texto por João Paulo Barreto

Nicolas Cage. Se esse nome não desperta em você cinéfilo um senso imediato de sarcasmo, talvez não tenhas acompanhado com muita atenção as últimas duas décadas de trabalho deste operário da atuação que tem uma média de seis filmes lançados a cada ano. Mas, cuidado: apesar de comum sentimento quando suas histriônicas atuações são pautadas, sarcasmo, aqui, pode injustamente rimar com um desprezo por alguém que, apesar de parecer atuar no piloto automático visando arrecadar o máximo possível para sanar suas dívidas (o que é verdade, de fato), tem em seu processo de construção algo profundamente artístico e ímpar.

Na profissão de jornalista cultural, acompanhar a carreira de Nicolas Cage se tornou, desde meados da década de 2000, uma espécie de tour de force pelos limites da composição artística na ambição criativa atrelada ao processo de se atuar. Criticar com sarcasmo é uma tentação à qual é fácil ceder se não tomarmos cuidado. Mas há algo ali que merece um olhar atento.

Durante os últimos 22 anos, a carreira do homem que quase foi o Superman de Tim Burton se tornou uma série de altos e baixos que vão desde uma merecida indicação ao Oscar pelo seu trabalho com Spike Jonze e Charlie Kaufman em “Adaptação”, de 2002 (ele tinha arrebatado a estatueta sete anos antes, por “Despedida em Las Vegas”, de 1995), passando pelo ótimo “O Senhor das Armas” (2005), até chegar ao começo da descida da ladeira com “O Sacrifício” (2006) e sua notória cena das abelhas.

Após isso foram vários tropeços, um respiro de alívio com o insano “Vício Frenético” (2011), de Werner Herzog, duas adaptações da Marvel um tanto curiosas (“Motoqueiro Fantasma” em 2007 e 2011) e uma série de outras construções de atuação no mínimo excêntricas que foram desenhando esse caminho em direção a um injusto fundo do poço no que se refere à pobreza de roteiros que chegavam às suas mãos de operário. Mas sua redenção estava prestes a chegar.

Sendo um ator que parece não ter muito a perder, Cage costuma apostar em diversos papeis. Uma boa parte deles tem suas origens em mentes de jovens roteiristas e cineastas que almejam um despontar de suas próprias carreiras e se esforçam em suas escritas. Assim, a sorte de topar com pessoas dispostas a arriscar em produções que fogem do mais do mesmo, bem como têm em baixos orçamentos e independência das amarras dos grandes estúdios fatores positivos para os seus desenvolvimentos, muitas vezes serve como um alavancar de momentos de sua própria trajetória.

Em resumo: Nicolas Cage é um ator que foge da zona de conforto na qual vários astros de Hollywood permanecem por décadas. Cage, não. Ele arrisca. E a loteria lhe traz elogiados projetos dentro de um cinema de gênero com filmes como “Mandy” (2018), “A Cor Que Caiu do Espaço” (2019) e “Pig” (2021), três passos definitivos para esta nova primavera em sua carreira.

Você pode chamá-lo de canastrão, de único, de maravilhoso ou de terrível. Não importa o nível da sua admiração ou do seu desprezo ao se referir ao Mr. Coppola (sim, ele faz parte do clã). Uma coisa, porém, é inegável: seu talento (para o bem ou para o mal) e afinco pela profissão que escolheu são pontos densamente perceptíveis em cada projeto assumido. No notório vídeo acima no qual ele destrincha suas principais composições. Ao falar de “Feitiço da Lua” (1987), por exemplo, Cage explica ter se inspirado em “Metrópolis” (1927), clássico do expressionismo alemão dirigido por Fritz Lang, para criar um dos momentos mais dramáticos do longa.

No mesmo filme, inclusive, ele pretendia usar uma voz que remetia à atuação do ator francês Jean Marais no clássico dirigido por Jean Cocteau em 1946, “A Bela e a Fera”. A ideia, porém, foi rejeitada por Norman Jewison, diretor, ao ver algumas das cenas já gravadas com aquele artifício de atuação. Mas ao assistir ao vídeo e vê-lo explicar com detalhes como funcionou cada uma das suas construções como ator naquela seleção de trabalhos é perceber que, apesar de vários roteiros pobres no decorrer dos anos, o que temos ali é um exemplo de comprometimento e talento (novamente: para o bem ou para o mal).

Após se tornar essa figura folclórica dentro do showbiz, alguém que diverte fãs que reconhecem cada nuance de suas atuações, percebendo as marcas “cageanas” que vão desde olhares insanos e ameaçadores (“A Outra Face”, 1997), até expressões tristes de cachorro abandonado (“Cidade dos Anjos”, 1998) e, claro, seus gritos ameaçadores a entregar uma empolgação genuína com pequenos detalhes (“Coração Selvagem”, 1990), em “O Peso do Talento”, Nicolas Cage, interpretando a si mesmo, logrou a proeza de se auto-referenciar.

Brincando com cada um desses detalhes de suas construções, mas pontuando falas sérias e pertinentes sobre sua labuta (“Nunca encarei isso como uma carreira, mas como um trabalho. Alimento minha família e pago minhas contas com ele”, afirma em uma cena), o aqui personagem Nicky Cage, quase falido, precisa ceder à proposta milionária de Javi, barão espanhol vivido por Pedro Pascal, para uma visita a Maiorca. O que seria um rápido e bem remunerado trabalho de celebridade, se torna uma guerra contra traficantes e que tem a CIA agindo como sombra de Javi.

Fã declarado do ator, Javi, na construção hilária do versátil Pedro Pascal, cria momentos impagáveis nas cenas com Cage. Sua presença em tela admirando-o e buscando uma conexão com seu ídolo é um reflexo do nosso próprio sentimento na admiração por aquela figura. E quando vemos Cage cair na piscina entornando uma long neck (em referência a “Despedida em Las Vegas”), ou quando o escutamos proferir a frase chave ligada às famigeradas abelhas de “O Sacrifício”, ou, ainda, quando vemos a face do Nicolas Cage atual sobrepor-se à da estátua de cera de Castor Troy, seu personagem em “A Outra Face”, a percepção é de estarmos diante de um símbolo da cultura pop.

E se essa mesma cultura pop é capaz de criar ídolos descartáveis, bom, creio que ainda valha a pena admirar alguém tão constante como esse operário da atuação que recusou o nome do seu tio Coppola, pois queria sobreviver por méritos próprios e o faz em uma carreira que já dura 41 anos e mais de 100 trabalhos.

Ps. Aproveitando, conta pra nós: qual seu filme favorito com Nicolas Cage? O qual o que só de lembrar você ri?

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog Película Virtual.

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