Homenagem: O cineasta Breno Silveira (1964/2022) em uma entrevista sobre “Gonzaga – De Pai pra Filho” (2012)

entrevista por João Paulo Barreto

Essa entrevista foi concedida por Breno Silveira a mim em 2012. Dez anos atrás, o cineasta por trás de fenômenos de bilheteria como “2 Filhos de Francisco” (2005), trabalhava na divulgação de “Gonzaga – De Pai pra Filho”, obra que teve um profundo impacto em mim por trabalhar a relação entre o filho de Januário e Gonzaguinha. Eu havia perdido meu pai poucos meses antes. E tendo dividido com meu velho um amor imenso por Luiz Gonzaga, o filme de Breno me tocou profundamente. Eu lhe disse isso no papo. Muito gentil e atencioso, Breno percebeu o poder que aquele seu filme tinha e demonstrou um respeito palpável por isso.

Breno Silveira começou como assistente de fotografia em “Bete Balanço”, filme de 1984. Na década seguinte brilhou como diretor de fotografia em um dos grandes filmes brasileiros dos anos 90, “Carlota Joaquina” (1995), de Carla Camurati. Em 1996 trabalharia como diretor de fotografia do DVD “Barulhinho Bom – Uma Viagem Musical”, de Marisa Monte. Outro destaque como diretor de fotografia foi “O Homem do Ano” (2003), de José Henrique Fonseca. “2 Filhos de Francisco” (2005), seu primeiro filme como diretor, foi um sucesso. Daí vieram “Era Uma Vez…” (2008), “Gonzaga – De Pai pra Filho” (assista no Netflix, 2012), “Entre Irmãs” (2017) e “Dom” (2021).

O diretor estava filmando “Dona Vitória”, em Pernambuco, quando teve uma morte súbita. Infelizmente, dez anos depois dessa entrevista, com apenas 58 anos, ele veio a falecer, traído pelo coração. Dono de um cinema que dialogava com o público de maneira tão simples e eficiente, é um cara que fará falta. Como tributo ao realizador, o Scream & Yell resgata aqui a entrevista registrada há dez anos.


O jornalista João Paulo Barreto com Breno Silveira em 2012 / Foto de Vinicius Celestino

Diretor cujas obras tendem a um teor emocional, Breno Silveira disse ter se assustado quando percebeu que teria que registrar em filme a vida de um mito como Luiz Gonzaga. “A importância dele hoje é até difícil de mensurar”, explica o cineasta. O acesso às fitas de entrevistas gravadas por Gonzaguinha nos papos que este levou com o pai nos últimos anos de sua vida serviu como ponto de partida. A ideia era traçar um roteiro que focasse na relação conturbada entre esses dois ícones da música brasileira sem deixar de lada a trajetória do velho Lua. Com três atores vivendo as diferentes fases da vida de Gonzagão e uma reencarnação vivendo Gonzaguinha (Julio Andrade, ator que espanta pela semelhança com o filho do Rei do Baião), Breno diz que ficou muito feliz pela percepção do público nesse êxito da escolha do elenco.

Após o sucesso da cinebiografia da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano em “2 Filhos de Francisco” e do emocionante “À Beira do Caminho”, filme com João Miguel lançado em 2012, Breno Silveira deixa mais uma vez a marca de seu cinema emocional na história de outro ídolo da música e ajuda a tornar Luiz Gonzaga ainda mais eterno. É como diz a letra da canção-tema “Mundo do Lua”, interpretada por Gilberto Gil, “Que vocês ainda possam me escutar/ Através de minhas velhas gravações/ É sinal que o mundo vai continuar / A Viver de mitos, sonhos e paixões”. Com obras como “Gonzaga – De Pai pra Filho”, esse sinal cantado por Gil se torna ainda mais perceptível.

Adentrar no universo mítico de um monumento como Gonzagão. Você tinha ideia do desafio que seria transformar a vida desse cara em filme?
Para mim, é um desafio muito duro falar de um cara que mitifica ainda mais com o passar do tempo. Isso é muito bonito. Se você vai a vários lugares do nordeste, Gonzaga ainda é a mola de tudo. Não tem São João sem que ele não seja o cara mais tocado. Todo ano ainda é assim. Ele cresceu com o tempo. A importância dele hoje em dia é difícil de medir. É um ícone nordestino de uma importância absurda e é de uma responsabilidade tremenda ter que retratar um cara que é um mito. Eu juro que cada vez que eu pisei em Pernambuco, que é a terra de meus avós, eu pensava: “cara, eu tô fazendo a história desse cara? Tô maluco!” (risos) Mas acho que no filme consegui ter a sorte de encontrar um eixo que foram essas fitas. E através dessa relação, consigo mostrar uma parte de Gonzagão. Não um todo, porque acho que ia precisar de uns dez filmes pra contar toda a vida dele. No mínimo. Nem em uma minissérie eu acho que conseguiria. Até mesmo porque esse filme vai se transformar em uma minissérie da Globo onde poderei colocar outras coisas. Mas é porque Gonzagão é muito grande. A gente não tem ideia do tamanho desse mito. Acho que a maior dificuldade nessa produção, nesses sete anos em que a história está comigo, foi chegar em um roteiro que tivesse começo, meio e fim e contasse as histórias que eu achasse importantes para que o público entendesse um pouco de Gonzagão. Mas que eu tinha certeza que não ia contar tudo, afinal, ele é muito grande.

No filme, assim como em “2 Filhos de Francisco”, você opta por inserir o próprio personagem real na trama. No caso de Gonzagão, imagens e áudios de arquivo permeiam a projeção. Você acredita que essa mistura de documentário com ficção ajuda na construção da narrativa?
Essa dúvida me surgiu durante a montagem. Quando escrevi o roteiro, nunca pensei em fazer isso. Mas, de alguma forma, comecei a sentir falta da figura do Gonzagão no filme. Esse cara era mais emblemático, eu acho, do que o que eu tinha conseguido filmar. Isso acrescenta de alguma forma para o público que não conhece a figura de Luiz Gonzaga. Porque quem sabe da importância dele, de alguma forma, no filme, vai entender sem precisar da interferência da imagem de arquivo. Mas quando eu mostrava para um público mais jovem, algumas dessas pessoas não tinham ideia da imagem dele. E aquilo causava uma potência, sabe? Porque o cara se assustava! “Pô, mas esse era o cabra?” Isso acontecia quando eu mostrava para aquele público mais novo, ou figuras lá do Rio de Janeiro que não o conheciam direito. Porque Gonzagão é aquele cara muito forte no nordeste, mas de alguma forma, no sul, ele é menos lembrado. Então, para esse público, a diferença era de ter uma imagem de arquivo ou não era tão grande que eu cheguei à conclusão que tinha que inserir.

Você acha que isso pode facilitar, também, em uma possível carreira do longa no exterior?
Quando penso no filme, concluo que ele tem de ser bom, também, para o estrangeiro. Não porque penso que ele obrigatoriamente tenha que fazer carreira internacional, mas, sim, porque a gente não tem que pressupor que as pessoas conheçam Luiz Gonzaga. Eu sempre penso nisso. “2 Filhos de Francisco” foi bem pra caramba lá fora. Vendeu pra Ásia inteira. Abri sete salas em Tóquio. E é uma história muito brasileira, mas de alguma forma, ela está contada de um jeito que você não pressupõe que sejam dois caras famosos. Então, essa opção de inserir a imagem real consegue emoldurar para uma pessoa que não conhece o Luiz Gonzaga. E essa inserção do material de arquivo causa um furor, sabe? É muito louco.

Sem contar que as versões originais das canções de Gonzagão são difíceis de serem recriadas por causa da técnica única que o velho Lua possuia.
Pois é. Por exemplo, ninguém tocava o “Vira e Mexe” do jeito que eu queria. Nenhum sanfoneiro. Nenhum! Quando eu via as imagens, eu dizia: ”Mas olha o safado como toca!”. Aí alguém sempre me dizia que aquele era um suingue que só um sanfoneiro como Gonzagão tinha. Era uma particularidade dele. Então, pensei, “vou ter que ter ele mesmo tocando essa música porque não estou aguentando esse ‘Vira e Mexe’ de estúdio que vocês fizeram” (risos). Essa acabou sendo a primeira imagem de arquivo que inseri. Lembro de ter falado: “Vocês estão com um estúdio moderno, com três ou quatro sanfoneiros! Esse cara está somente com uma zabumba e um triangulo e o som que está vindo da imagem real é dez vezes mais bonito do que o que vocês gravaram para acompanhar o Chambinho (do Acordeon, ator que vive Gonzaga na fase adulta)”. Essa foi a primeira vez que senti falta do original. Então pus e ficou só aquele. Aí quando veio “Asa Branca”, eu falei: “Ah, rapaz, ‘Asa Branca’ é maior do que isso!”. Só o real iria dar a imagem de quem foi esse cara. Não adiantava ser uma superprodução, pois só o real iria conseguir transmitir a dimensão dele.

E aqueles vídeos famosos dele, como a história de seu retorno a Exu e o reencontro com Januário? No filme, percebi que a história não estava na integra. Foi doloroso ter que cortar alguns trechos?
O áudio original me dava vontade de colocar a cena na integra. A fala do “cheiro do velho, do cheiro da família” ou o barulho do “timbungado” do caneco, eu tinha vontade de colocar aquilo tudo. E ficava desesperado na montagem quando percebia que tinha que cortar (risos). Escutava o pessoal na sala de montagem me dizendo que esse filme completo que eu queria fazer não seria possível. Então, o jeito era cortar. O problema era que quando cortava na voz de Gonzaga, cortava também na imagem, sendo que a cena original que eu gravei tinha toda a reconstrução daquele momento. Pra você ter uma ideia, toda a cena até o momento chave, que era o abraço dele no pai, tinha quase dez minutos. Então, a ideia era cortar todos aqueles minutos para sermos objetivos, uma vez que a cena teria seu auge no abraço e na festa pelo retorno do Luiz.

A escolha dos atores que viveram o Gonzagão foi algo bem eficiente, uma vez que são três gerações e a transição de um para o outro ocorre de modo bem natural. Quando vemos o adolescente Lula na interpretação de Land Vieira passar para o Chambinho do Acordeon e, em seguida, para o Adélio Lima, sentimos uma naturalidade na transição. Como foi a seleção desse elenco?
Uma das coisas que mais me deixa feliz é esse tipo de comentário. O Merten (Luiz Carlos Merten, crítico de cinema do jornal Estadão), escreveu exatamente isso. Ele falou que são três figuras que você não percebe a diferença entre elas. E são três atores totalmente diferentes!

Eu pensei que o Adélio Lima e o Chambinho eram a mesma pessoa!
(risos) Olha que lindo isso! Realmente, fico feliz. É aquela forma de atuar que a gente trabalha no set. Os trejeitos dos atores, as passagens. Tenho um cuidado muito grande com isso porque meu sonho era fazer com o mesmo ator. Mas já me deparei logo no começo com esse problema de selecionar o protagonista. Fiz uma porrada de testes de elenco com vários atores famosos, alguns globais até, e nenhum deles se parecia com o Gonzaga. Depois comecei a fazer testes para saber se algum deles tocava um instrumento. Um ou outro até tocava, mas sanfona era algo complexo. Depois eu quis que eles cantassem, e nenhum deles tinha aquele vozeirão do Gonzaga. Bom, aí nesse ponto eu já estava achando que havia entrado em um beco sem saída. E isso já com a data pra começar a filmar marcada e eu ainda não tinha meu protagonista. Mas não podia ser. Em algum canto desse país deve ter um Gonzaga, eu pensava. Aí começamos a anunciar nas rádios. Em Caruaru, nas rádios do nordeste. A partir desse ponto, apareceram cinco mil inscritos. Com essa quantidade de inscritos, eu comecei a perceber que com Luiz Gonzaga, nada era pequeno. Não tinha brincadeira pequena com ele. Aí tivemos que criar uma forma de triagem e separamos por foto todos aqueles que eram parecidos com ele. Aí a lista caiu para 100 pessoas mais ou menos parecidas. Depois separamos todos aqueles que eram músicos daqueles que tinham atuação. O número já caiu para quarenta. A partir daí seguimos para as entrevistas individuais. Dez foram escolhidos e trazidos para o Rio de Janeiro onde cinco deles foram selecionados para ficar em laboratório de atuação em uma casa de Copacabana junto comigo e com o preparador de elenco. Com esses cinco, comecei a perceber que não tinha todas as idades e só o Chambinho que tinha aquele sorriso largo que esbanjava a simpatia do Gonzaga. Nesse momento, o escolhi e mandei o Adélio embora. Expliquei a ele que não dava porque ele não tinha aquele sorriso largo do Chambinho, que era como do do Gonzagão. Foi quando ele me perguntou sobre a versão mais velha do Luiz e eu disse que preferia trabalhar com maquiagem. Mas o Chambinho não tinha a estrutura física da versão idosa do Luiz. Aí a condição que eu coloquei pro Adélio ganhar o papel foi ele engordar, no mínimo, dez quilos. E o cara engordou! Voltou ao Rio de Janeiro dez quilos mais gordo.

Gordo feito um major, como diria o velho Lula.
Exato. Gordo feito um major (risos). Ele falava assim. Esse texto, inclusive, está no filme. Mas não entrou para esse corte. É quando ele entrega a sanfona para penhorar e volta na mesma birosca anos depois. Nessa volta, ele pergunta ao dono que está ouvindo rádio se costuma tocar muito Luiz Gonzaga ali. O cara, sem reconhecer o homem, responde dizendo que toca demais. Luiz pergunta a ele se é verdade que o cantor é dali daquelas bandas. O dono da birosca se empolga dizendo que sim, ele é o filho de Januário, mas agora ele enricou. Tá gordo feito um major (risos).

O roteiro é baseado no livro da Regina Echeverria e nas fitas que Gonzaguinha gravou com entrevistas com pai. Como se deu o processo de filtragem para chegar ao material final?
Antes dessas fitas que me levaram a fazer o filme chegarem às minhas mãos, elas passaram pela Regina, que acabou fazendo uma bela biografia. A partir disso, a gente comprou os direitos do livro para fazer o longa. Com o tempo, eu acabei percebendo que as gravações me comoviam mais do que o próprio livro. Então, eu usei muito a obra, mas nas fitas tinham informações mais importantes e, fora isso, a quantidade de histórias que iam chegando das pessoas que viveram com ele era tão absurda que somente a biografia não deu conta. Então, o filme acabou tendo uma parte inspirada nela, mas o resultado final foi além. Afinal de contas, Luiz Gonzaga possui muito mais histórias do que um livro.

A música do Gilberto Gil (“Mundo do Lua”) entrou no projeto de que forma?
Eu procurei o Gil porque uma parte das músicas do Luiz Gonzaga foram regravadas por ele na ocasião de “Eu Tu Eles”, filme do Andrucha Waddington que eu fotografei. No disco do filme, ele regravou mais de dez músicas do Luiz. E aquela coisa me impressionou muito porque o Gil falava demais no Luiz Gonzaga. Quando esse projeto começou, uma das primeiras pessoas que eu fui entrevistar foi o ele. Na ocasião, Gil demonstrou interesse em me ajudar e criar uma parceria no projeto. Foi quando pedi a ele uma canção e que me ajudasse na seleção das músicas. Ele respondeu que “pra Gonzagão, qualquer coisa na terra”. Pouco antes de eu terminar o corte do filme, mandei para ele algumas imagens. Acabou que ele me procurou depois dizendo que tinha se emocionado e que havia composto uma canção sobre o Luiz Gonzaga, “Mundo do Lua”, cuja letra abre o filme. Uma canção linda demais.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog Película Virtual.

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