Ao vivo: Metallica entrega um excelente show na capital paulista com surpresas no set list (e sem bebê nascendo na plateia)

texto por Paulo Pontes
fotos por Fernando Yokota

Sabe aquela frase “viu um show, viu todos”? Quando é tudo milimetricamente planejado, quando o setlist é “engessado”? Então, tudo isso serve para muitos artistas e bandas — e sabemos que, mesmo assim, tem casos que valem o investimento, claro —, mas, se tem uma banda que não pode ter suas apresentações definidas desta forma, essa banda é o Metallica. Fato!

Durante a atual turnê do quarteto por terras tupiniquins, por exemplo, tivemos, no mínimo, quatro alterações no setlist entre uma cidade e outra. Em São Paulo, cidade foco deste texto, rolou até música do controverso “St. Anger” (2003) — vamos falar sobre à frente. Mas aí, você leitor(a) atento(a) pode perguntar: “Ok! Os shows não são todos iguais, mas o de SP foi bom?”. Foi… Muito!

Às 21h15, eis que surge nos telões (que proporcionaram momentos incríveis durante todo o show, diga-se de passagem) a clássica cena do cemitério de “The Good, the Bad and the Ugly” (1966) ao som de “The Ecstasy of Gold”, de Ennio Morricone. O Morumbi veio abaixo com a sequência de abertura: “Whiplash” e “Ride The Lightning”. É nesse início de show que James Hetfield (voz e guitarra), Lars Ulrich (bateria), Kirk Hammett (guitarra) e Robert Trujillo (baixo) relembram a todos as suas origens, mostram como, mesmo após 40 anos e mudanças no som durante todo esse período, o Metallica é, em sua essência, uma banda de thrash metal.

Se em Porto Alegre a apresentação do quarteto mostrou-se, em alguns momentos, “cansada ou com som fraco” — mas longe de ser ruim —, como relatou o colega Homero Pivotto Jr., na capital paulista o começo já foi avassalador em termos sonoros. Uma única ressalva fica para o volume da voz de James Hetfield, um pouco mais baixa na mixagem, mas detalhe resolvido em seguida.

Antes de incendiar fãs e recinto com “Fuel”, James interagiu com a plateia, brincando, “Se você for ter um bebê, por favor, venha aqui do lado”, referência à situação ocorrida no show da banda em Curitiba, no qual uma fã deu à luz durante a execução de “Enter Sandman”. Por falar em “Fuel”, a música foi responsável por um espetáculo à parte, com enormes labaredas sendo lançadas ao alto tanto pela extensão do palco quanto por suas laterais superiores.

Na sequência, James anuncia uma volta ao disco “Kill ‘Em All” (1983) para a execução do clássico “Seek & Destroy”. Mais uma para os fãs “das antigas”. “Holier Than Thou” foi a primeira do “Black Album” (1991) a dar as caras. Vale destacar que todos os quatro integrantes estavam muito bem e se divertindo no palco, principalmente Lars. Em seguida, a banda deixa o palco pela primeira vez; sons de artilharia de guerra entregam o que vem: “One”, música que originou o primeiro videoclipe da banda. Nos telões, soldados se transformam em esqueletos durante a música.

Mais uma do “Black Album”, disco que rendeu o maior número de músicas ao show — foram quatro —, dessa vez uma que sempre funciona muito bem ao vivo, “Sad But True”. Logo após esse verdadeiro hino da música pesada veio a grande surpresa da noite. James questiona a plateia se seria uma boa tocar algo do “St. Anger”. O momento de dúvida entre os fãs fica claro no estádio. Alguns risos pela plateia. Para quem esperava, de repente, a faixa-título, surpreendeu-se com “Dirty Window”. Lembra? Quem viu um show do Metallica não viu todos. É importante destacar como essa música ganha força ao vivo, já que em estúdio (devido ao fatídico som de bateria de todo o disco) a audição é sofrível. Foi uma grata surpresa para os fãs paulistas.

Rolou ainda outra que surpreendeu o público: “No Leaf Clover”, faixa presente no disco “S&M” (1995). Kirk Hammett deitou e rolou na música, distribuindo seus solos repletos de wah-wah. Podemos dizer que as quatro faixas que vieram depois, antes da saída da banda para o “bis”, formaram a sequência mais incrível do show: “For Whom the Bell Tolls”, “Creeping Death”, “Welcome Home (Sanitarium)” e “Master of Puppets”. Esta última o maior clássico da história do thrash metal. Se a apresentação terminasse aí, tenho certeza que a maior parte do público teria voltado para casa feliz da vida. Mas tinha mais.

Mais uma “surpresa” — entre aspas, pois ela havia sido executada tanto na Argentina quanto no Chile, mas até então não na atual turnê pelo Brasil —, “Spit Out the Bone” foi a única faixa do excelente “Hardwired… To Self-Destruct” (2016). E como não poderiam faltar, “Nothing Else Matters” e “Enter Sandman” fecharam um grande show de metal, com uma banda que sempre busca formas de deixar suas apresentações mais diversificadas e que ainda tem muita, mas muita mesmo, lenha para queimar. E nem precisam lançar mais discos para isso.

A abertura ficou a cargo dos brasileiros do Ego Kill Talent, banda formada por Jonathan Dörr (vocal, ex-Reação em Cadeia), Theo Van Der Loo (baixo e guitarra, ex-Sayowa), Jean Dolabella (bateria e guitarra, ex-Sepultura, Diesel/Udora), Raphael Miranda (bateria e baixo, ex-Sayowa) e Niper Boaventura (guitarra e baixo, ex- PullDown) — apresentação que, infelizmente, este redator não conseguiu chegar a tempo para acompanhar — e dos norte-americanos da Greta Van Fleet.

Com uma hora de show, os garotos agradaram muito o público com seu hard rock setentista, totalmente influenciado por Led Zeppelin (é interessante como até mesmo os trejeitos do quarteto britânico são “imitados” no palco), que, apesar de qualquer comparação, mostra uma banda muito boa e com ótimas composições. Os destaques ficam para o guitarrista Jake Kiszka e o vocalista Josh Kiszka.

Vale destacar que a apresentação do grupo norte-americano fez muitos jovens marcarem presença no estádio do Morumbi (e se empolgaram em faixas como “My Way, Soon” e “Highway Tune”), o que é extremamente positivo para a renovação do público. Além disso, todos demonstraram muito respeito pela banda e muitos — dava pra ouvir no entorno as pessoas que até então não conheciam o som da Greta — se surpreenderam positivamente. Um detalhe do show é que todas as imagens projetadas nos telões são em preto e branco, ajudando a amplificar o clima setentista das músicas.

– Paulo Pontes é colaborador do Whiplash, assina a Kontratak Kultural e escreve de rock, hard rock e metal no Scream & Yell. É autor do livro “A Arte de Narrar Vidas: histórias além dos biografados“.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/

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