Ao vivo: Metallica faz bom show, ainda que burocrático, na abertura da turnê brasileira em Porto Alegre

texto por Homero Pivotto Jr.
fotos de Billy Valdez

O Metallica construiu sua carreira fazendo valer o título de um de seus clássicos: “Seek and Destroy”, petardo do debut “Kill ‘Em All” (1983). Isso porque buscou o sucesso, lutou por ele e, no caminho até atingi-lo, destruiu barreiras. Entre elas, as geográficas, excursionando pelo mundo — inclusive, foi a primeira banda a tocar na Antártida. Além disso, ao deixar de ser apenas um dos grupos pioneiros do thrash saídos da Bay Area (EUA) para se transformar, em nome de aceitação pop, numa máquina bem azeitada que leva rock pesado à massa, aniquilou limites impostos pela expectativa de admiradores mais antigos. A terceira passagem do quarteto por Porto Alegre, desta vez em um 5 de maio, na Fiergs, reforçou essa trajetória de quem é imperdoável na busca por seus objetivos.

Isso porque mostrou que o conjunto soube como atingir público e direcionar a carreira da maneira que julgou mais apropriada. Com ingressos oficialmente esgotados desde novembro de 2021 (alguns bilhetes que não seriam comercializados num primeiro momento foram disponibilizados para venda recentemente), o Metallica fez uma apresentação de duas horas. O repertório contemplou temas de diferentes fases — seja de quando a banda disputava território com pares como Exodus e Slayer ou da época em que abandonou os cabelos longos sendo combustível para canais de mídia especializados em música (e fofoca). De acordo com a assessoria do evento, o público da apresentação, que abriu a perna brasileira da nova turnê latino-americana da banda, chegou a 40 mil pessoas.

Mas é isso, são tantas credenciais nesses mais de 40 anos de estrada que nada mais importa? Não. O Metallica fez uma apresentação burocrática, em alguns momentos cansada ou com som fraco (no sentido de potência para quem assiste), em um espaço, historicamente, de difícil acesso na cidade. Mas, reforce-se, longe de ser ruim.

Assim como no show do Kiss em Porto Alegre — uma régua providencial, pois é o mais recente espetáculo de magnitude do showbusiness musical a ter passado por solo gaúcho —, a estrutura era de pompa: telões nababescos de led, pirotecnia, lasers e iluminação potente. Porém, menos envolvente e divertida. E, diferentemente da única visita que o Slayer fez ao Rio Grande do Sul, em 2017, com uma produção pensada para ser pesada e brutal, o maior expoente do big four do thrash americano pareceu sem punch. O baixo muito pouco se ouvia, ao menos de onde o escriba estava, na lateral esquerda perto dos PAs.

Pode-se dizer que o show começa antes mesmo da performance de James Hetfield (voz e guitarra), Lars Ulrich (bateria), Kirk Hammett (guitarra) e Robert Trujillo (baixo) entrarem em cena. Isso porque a execução do hino “It’s a Long Way to the Top (If You Wanna Rock’n’Roll)”, do AC/DC, e da trilha “The Ecstasy of Gold” (composta por Ennio Morricone para “Três Homens em Conflito”, cujas cenas eram exibidas no telão) são prenúncios conhecidos para que os quatro cavaleiros iniciem os trabalhos. O primeiro tema é a chicotada “Whiplash”, do matador “Kill ‘Em All”, de 39 anos atrás (1983).

“Ride the Lightning”, faixa-título do segundo registro de estúdio (1984) veio na sequência, e teve Lars batendo forte com suas indefectíveis baquetas pretas. Depois duas surpresas: “Harvester of Sorrow”, de “…And Justice for All” (1988) e “No Remorse”, outra do debut. As faixas não estavam nos setlists do Chile e da Argentina, por onde a banda passou antes de desembarcar no Brasil.

James, então, conversa com a plateia, dizendo que fazia muito tempo desde a última vez que esteve por estes pagos. “Obrigado por esperarem”, completou o frontman. “Seek and Destroy” contou com projeções de cartazes de shows, entre eles o de Porto Alegre no fim do século passado, ao lado do Sepultura. A densa “One” contou com barulho de tiros e explosões, além de fogos durante a execução, que deixavam um bafo quente no ar. Na parte visual, caveiras e soldados em marcha ilustravam a composição sobre guerra. Em “Sab but True” James promoveu um final barulhento, com microfonias. “Acho que estourei meus ouvidos”, brincou o cantor.

“Moth Into Flame” veio, como o nome sugere, trazendo mais pirotecnia e antecedendo a lenta “The Unforgiven”, com sua emblemática introdução sendo tocada em um violão elétrico. Um pássaro — Corvo, ao que pareceu — tomou os telões anunciando “From Whom the Bell Tolls”, com James fazendo uma visita a Lars no praticável de bateria. “Fuel” chegou sem tanto gás quanto podia se esperar.

O fim da primeira parte rolou com dois clássicos de “Master of Puppets” (1986): a música que batiza o terceiro disco do Metallica e, antes, a poderosa “Welcome Home (Sanitarium)”, mostrando a agilidade da mão direita de Hetfield. Esta última, também, novidade no repertório atual da gira pela América Latina. O bis abriu com “Blackened” e seguiu com dois hits do álbum autointitulado do Metallica, o famoso disco preto. Primeiro tivemos “Nothing Else Matters” com lasers cortando os ares, e ‘Enter Sandman’, finalizado com chuva de fogos de artifício – momento de maior vibração da plateia, que não demonstrou reações acaloradas em boa parte da apresentação.”.

Para fins de registro: o primeiro show do grupo em Porto Alegre ocorreu em 1999, no Hipódromo do Cristal, com abertura ofuscante do Sepultura; e o segundo no Parque Condor, em 2010, com os gaúchos da Hibria fazendo as honras da casa. A turnê segue com shows em Curitiba (07/05), São Paulo (10/05) e Belo Horizonte (12/05).

Abertura:
Antes da atração principal, duas bandas prepararam o terreno (e seguem com o Metallica para os outros shows nacionais da tour). Primeiro, foram os brasileiros da Ego Kill Talent, que já foram ato de abertura para outros artistas gringos renomados (Foo Fighters, Queens of The Stone Age) em o solo nacional.

Enquanto o grupo formado por Jonathan Dörr (voz, conhecido na cena gaúcha por ter sido linha de frente da banda Reação em Cadeia), Jean Dolabella (bateria e guitarra, ex-Sepultura), Theo Van Der Loo (guitarra e baixo), Raphael Miranda (bateria, baixo e guitarra) e Niper Boaventura (guitarra e baixo) executava sua mistura de rock alternativo noventista e stoner, o escriba e outros colega imprensa estavam presos no trânsito a caminho do evento.

Já os estadunidenses do Greta Van Fleet também mostraram serviço com seu hard rock setentista — os caras têm levado a controversa pecha de Led Zeppelin do rock hodierno. Um show competente, de uma banda que nitidamente tem qualidades, mas que não provocou empolgação nos presentes nem instigou o resenhista a buscar mais sobre a obra do conjunto.

– Homero Pivotto Jr. é jornalista, vocalista da Diokane e responsável pelo videocast O Ben Para Todo Mal.

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