Cinema: “A Fratura”, de Catherine Corsini, é um poderoso e envolvente filme político

texto de Renan Guerra

“A Fratura” (“La Fracture”, 2021) começa assim: um casal de lésbicas em crise briga e planeja sua separação. Em meio a uma discussão na rua, uma delas tropeça, cai e quebra o braço. Em outro ponto de Paris, um motorista de caminhão participa de protestos contra o presidente Macron, entra em choque com a polícia e é atingido na perna. Esses três personagens irão se encontrar na sala de emergência de um hospital público francês e é nesse cenário que passaremos uma noite ao lado deles.

No hospital ainda seremos apresentados a enfermeira Kim, uma plantonista da emergência que está sobrecarregada de trabalho, mas mesmo assim ainda apoia a greve dos trabalhadores na França. Kim é interpretada por Aïssatou Diallo Sagna, atriz premiada com o César de melhor atriz coadjuvante em 2022, e que fez a sua estreia nesse filme – antes ela trabalhava como cuidadora. “A Fratura” foi indicado em seis categorias do César deste ano e ainda levou o prêmio Queer Palm no Festival de Cannes do ano passado.

O longa francês chega agora aos cinemas brasileiros pela Imovision, mas já havia passado rapidamente por aqui na edição 2021 do Festival MixBrasil. Os prêmios e a boa carreira do filme em festivais têm sua razão: “A Fratura” é um filme soberbo, que consegue envolver o espectador de forma forte e ainda apresenta tópicos políticos e complexos de forma inesperada. Trata-se de uma trama que se passa em uma noite caótica num hospital público enquanto Paris pega fogo sob protestos, mas mesmo assim é um filme engraçado, divertido e comovente. Tragicomédia de Catherine Corsini, “A Fratura” tem aquela estranha energia que se assemelha aos momentos em que o riso toma conta de um velório, é esquisito, mas é quase como um riso perante as impossibilidades da vida.

A história aqui vai basicamente passar por tópicos complexos como luta de classes, direito à greve, exploração dos trabalhadores no capitalismo, saúde pública e violência policial e faz isso com mastreia, amarrando os tópicos na narrativa e na construção dos personagens. Isso tudo sem medo de ser crítico à tensão política estabelecida na França com os últimos embates entre Macron e Le Pen – o filme foi produzido antes da última eleição, mas representa bem as tensões ainda latentes. De todo modo, o que torna o filme de Corsini politicamente tão interessante é que ele é realmente um filme com uma tese e não uma tese que gera um filme; as questões políticas nascem da narrativa e da boa construção dos personagens.

Valeria Bruni Tedeschi e Marina Foïs são Raf e Julie, um casal lésbico com um filho jovem adulto e que tem problemas pequeno burgueses; já Pio Marmaï é Yann, um motorista de caminhão cheio de ideais políticos, mas que ainda assim só pensa na necessidade de voltar ao trabalho mesmo ferido para que não perca o emprego. Já Aïssatou Diallo Sagna, a enfermeira Kim, deixa seu filho febril em casa para fazer mais um plantão em um hospital sucateado e com metade de sua equipe em greve, mesmo assim sua meta da noite é não entregar para a polícia o nome dos grevistas feridos que estão na emergência. Aïssatou é um assombro em tela e sua construção de Kim é surpreendentemente envolvente e real.

Uma das grandes qualidades de “A Fratura” é a construção de personagens reais e humanos. Há no filme de Corsini um respeito pelo outro, pelo olhar do outro, por sua dor, e isso é muito emocionante na tela. Com todos os temas que o filme aborda, seria facil cair no cinismo, optar por desilusões, mas há no roteiro uma insistente esperança, um dever de crença que é surpreendente. Em tempos de tanto desânimo é quase acolhedor poder assistir um filme que esbanja humanidade e sensibilidade. “A Fratura” é um dos grandes filmes do ano a estrear por aqui e merece ser assistido, vivido e depois debatido entre amigos em mesas de bar.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava

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