Faixa a faixa: “Home”, Eric Assmar

introdução por João Paulo Barreto
faixa a faixa por Eric Assmar

Na entrevista concedida ao Scream & Yell na ocasião do lançamento de “Home” (2022), seu terceiro disco, Eric Assmar falou sobre o processo de criação das 11 faixas em uma reflexão aprofundada no modo como cada uma refletiu de maneira diferente os momentos de sua vida desde o seu trabalho anterior, “Morning”, lançado em 2016.

Dentro de uma conversa mais informal que deu origem à longa e densa matéria, o músico pôde trazer diversas de suas impressões acerca deste processo, relacionando-o à fase pandêmica; à perda de seu pai, Álvaro Assmar; à homenagem ao músico baiano Marcos Arcuri, também falecido de modo súbito, além de falar seu próprio lugar como artista e músico de Blues.

A pedido do Scream & Yell, Eric foi além. Aqui, em um faixa-a-faixa exclusivo, ele traz uma série de 11 relatos falando sobre a construção de cada uma das composições que fecham este novo ciclo na sua vida pessoal e profissional. Leia abaixo!

Faixa a faixa por Eric Assmar
Transcrição e edição por João Paulo Barreto

01) “Home” – A faixa título do álbum surgiu exatamente dessa inspiração do lar enquanto um refúgio simbólico. Enquanto uma… Não aquela coisa material da minha casa, da minha posse, mas um lugar onde posso ter esse sentimento de acolhimento. E um acolhimento que é diretamente ligado ao lado criativo. Ligado à possibilidade de fazer música, de criar, de me envolver com o processo de produção, de tocar instrumentos, de gravar, de experimentar possibilidades. Então, todo esse processo criativo ligado à concepção de uma nova faixa e de novas faixas no caso do álbum “Home”, me trouxe essa sensação de acolhimento. Foi um refúgio que esteve comigo durante esse período logo depois que a pandemia e o isolamento começaram e eu me vi forçado a parar uma rotina atribulada de shows ao vivo que eu tinha, de agenda, e de repente a gente se vê em casa, então, “Home” é uma música que fala um pouco sobre esse sentimento de se sentir acolhido pela possibilidade de você criar, pela possibilidade de você fazer música. E é uma canção, é uma música que comunica pela via da canção. Muito dessa referência que tenho, sobretudo dos Beatles, mas também com mestres da canção que sempre escuto. James Taylor, David Gates, do Bread, Simon & Garfunkel, enfim. Até chegar a nomes mais contemporâneos, digamos assim, como John Frusciante, Jeff Buckley. Sou um entusiasta da canção. É um formato que me agrada muito e que essa influência vem através da música. Embora seja um álbum em que tenha um compromisso mais consistente com o blues, acho que as canções também estão presentes nesse meio e o blues vem muito através do fraseado da guitarra, da expressão. E é isso. “Home” é a consequência dessa sensação. Nessa faixa e em “Bad Dream”, tive o órgão Hammond de André T, que foi o cara que assumiu a mixagem e a masterização do álbum. Ele fez as gravações dessas faixas. Foi um presente que ele me deu. E os Hammonds que ele gravou deram uma liga sensacional aos arranjos. Enfim, fiquei muito feliz com essa participação.

02) “A Simple Man“ – É um shuffle de blues em temos estruturais, harmônicos. Ela vai para uma estrutura super conhecida dentro do blues. Eu queria que fosse assim. Queria que fosse uma coisa diretamente atrelada ao blues, com esse “shufflezão” mais tradicional. Meio Texas Blues, meio Stevie Ray Vaughan. E é um pensamento meu sobre essas questões de futilidades, que eu entendo como materialismo, em relação a essa coisa do estilo de vida contemporâneo, de uma pessoa inserida nessa sociedade urbana, capitalista, que vai muito para acumulação de posses. As aspirações, os sonhos, muitas vezes são focados para a aquisição de bens materiais, para usufruir do que há de mais extravagante, chique, em termos de bens materiais. Com essa coisa de redes sociais, as pessoas até entram numa que vira uma coisa meio de uma ostentação… E isso gera essa sensação de competição, de comparação entre as pessoas. Isso tem danos psicológicos. Mas, “A Simple Man” é sobre eu reconhecer e me perceber diante desse cenário todo. Sou um cara que está em uma camada privilegiada da população. Tenho plena consciência disso. Tenho tudo o que quero. Sou super feliz em poder ter esse privilégio de ter uma casa, de ter acesso a tudo do bom e do melhor, como tenho. Sou um cara muito grato por isso todos os dias. Mas, mesmo diante dessa realidade, a gente vê aquela coisa de extravagância, de ter acesso a carrões, lanchas, aviões, aquela coisa de vinhos caros, de tudo do bom e do melhor, do mais chique. Falo um pouco disso na letra e ela é exatamente sobre essa percepção. De que, no fim das contas, o dinheiro vira uma armadilha quando você o trata como um fim. O que fica da vida não são essas extravagâncias materiais, mas que você pode ser feliz com a vida que você escolheu. É isso que eu falo. “I’m just a simple man. I’m happy with the life I chose”. Sou feliz com a vida que escolhi. Tenho as coisas que entendo como sendo boas e melhores. E não combina muito comigo essa extravagância. Tenho alergia a frutos do mar, não sou fã de vinho, não bebo café, tenho tudo para não ser um cara chique. Então, dentro da minha realidade privilegiada, sou feliz do jeito que sou. E o que busco da vida, hoje em dia, mais do que bens materiais, são experiências inesquecíveis e coisas que façam sentido para a alma da gente, como, por exemplo, criar música e colocar isso no mundo.

03) “Bad Dream” – Essa é, talvez, a canção mais ligada a esse arquétipo rock and roll, de ter um riff e tal. Ela tem um balanço até meio pop, mas foi uma canção que fiz a partir de uma ideia que havia pintado na minha cabeça na época ainda do “Morning”, quando eu estava fechando o repertório daquele disco. Acabou que ficou só esse riff e não o desenvolvi. E decidi voltar, mudei de tom, e foi uma das primeiras músicas que fiz para o disco “Home” justamente porque era uma ideia de riff que já estava na minha cabeça. A letra fala de uma situação que imaginei dessa questão de um sonho. Tem um pouco de analogia com essa questão da pandemia, com essa ausência de expectativas sobre o futuro, sobretudo, na época em que ela foi escrita, lá em abril de 2020. Estava tudo ainda nebuloso demais nas cabeças das pessoas. Não que agora a gente esteja em um mar de rosas, mas naquela época ainda era tudo muito incerto demais. Havia a sensação do medo do desconhecido ainda mais presente. Então, ela fala um pouco sobre isso, baseado na minha imaginação sobre uma situação que descrevo na letra. E ela tem essa questão, essa veia mais pop, mais rock and roll, com riff e usando bastante dos recursos das harmonias vocais, que é uma coisa de quegosto muito e uma referência que vejo no blues rock da maneira como eles abordam isso é um grupo texano chamado Los Lonely Boys. É um trio de irmãos do Texas que exploram bem essa fusão TexMex, do Texas com o México. Essa origem deles muito ligada à tradição mexicana, embora sejam de San Angelo, no Texas, mas eles exploram bem essa fusão, E é uma música que traz essa referência deles. Essa coisa meio Stevie Ray Vaughan, como elementos das harmonias vocais. No caso do Los Lonely Boys, os três irmãos cantam. Então, é uma referência que acho que aflorou nessa faixa de uma maneira bem natural para mim. Ela nasceu do jeito que as ideias foram pintando e se desenhando na minha cabeça.

04) “Close To Me” – É uma canção de amor. Uma canção em que, para criá-la, primeiro pensei na questão da música, mesmo, na questão da levada dela, da progressão harmônica, das melodias. Isso foi vindo primeiro. A letra veio depois. E eu queria escrever uma coisa que tivesse a ver com o reggae, que tivesse essa referência, mas que não tivesse a pretensão de soar como uma coisa de reggae. Não tenho uma imersão consistente nesse universo, embora seja um fã e escute regularmente artistas de reggae. Foi a ideia de incorporar um reggae a partir da óptica de um guitarrista de blues rock. E aí não dá para não citar o Robert Cray, uma grande referência que tenho e é um cara que faz isso em alguns momentos. Não só com o reggae, mas com soul music, com o funk, ele está sempre flertando com esses gêneros e trazendo o ingrediente bluesy dele, como uma autoridade no assunto que ele é. Então, “Close to Me” é um fruto dessa influência. É uma música que veio a partir dessa minha ideia de trabalhar essa referência do reggae. É uma canção de amor. Uma letra que descreve uma situação que pode ser em um tempo de isolamento ou não. Tem a ver com isolamento, então, de algum modo comunica também com esse sentimento, mas de uma maneira sem que necessariamente tenha que ser assim. A cereja do bolo é que quando ela já estava gravada, com guitarras, baixo e bateria, tive a ideia de chamar o querido Luciano Leães, organista gaúcho, referência do blues aqui do Brasil. Grande fera do piano e do órgão Hammond, para gravar um reggae com um órgão Hammond, que é uma coisa que gosto muito, baseada nessa influência dos Wailers, e Luciano trouxe esse ingrediente para a música de uma maneira fantástica, o deixei totalmente à vontade, e o primeiro take que ele fez já ficou incrível e é o que ficou na gravação. “Close to Me” acabou sendo uma coisa que veio dessa espontaneidade e me deixou muito feliz.

05) “I’m Still Working” – Essa foi provavelmente a primeira música, a primeira ideia que veio quando eu estava escrevendo esse trabalho. E é uma música bem autobiográfica. Passei por algumas reviravoltas na vida nesses últimos anos, desde o “Morning”, de 2016 para cá. Muita coisa aconteceu. Meu pai faleceu daquela forma súbita em 2017. Poucos meses depois eu já estava em uma mesa cirúrgica fazendo uma cirurgia vocal que colocava em xeque a minha possibilidade de voltar a cantar. Por um momento, trouxe uma angústia muito grande. Foi uma cirurgia de muito risco, algo milimétrico. Então, fiquei um tempo sem poder falar. Fiquei um bom tempo sem poder cantar. Por alguns meses. Então, essa situação toda mexeu muito comigo. Perdi 12kg. Foi uma época em que muita coisa da minha vida mudou na minha maneira de pensar, de sentir a vida. Até essa possibilidade de continuar trabalhando, até a minha alimentação, o meu peso, a minha aparência. Foi uma época de muitas reviravoltas na minha vida. E essa transição de 2017 para 2018 chacoalhou comigo, mas o meu pensamento é de que apesar de tudo, e tudo aconteceu da maneira como aconteceu, eu consegui me manter trabalhando. A coisa que se manteve constante nesse período todo foi que, em meio a toda tormenta, eu estava lá e estava trabalhando. Seja cantando ou não, ou tocando guitarra ou fazendo alguma coisa aqui e acolá, resolvendo coisas inerentes ao legado de meu pai, terminando a produção do disco, cuidando do Educadora Blues, fazendo shows em tributo ao Álvaro Assmar. Enfim, estive sempre envolvido com alguma coisa que me mantinha trabalhando. E trabalhando com uma coisa na qual eu acredito. Trabalhando com coisas que fazem sentido para a minha alma. E é isso. Essa música é um desabafo, na verdade. Talvez seja a música mais confessional do álbum todo. Ela é um blues porque tinha que ser um blues. Uma coisa que… para dizer isso, eu precisava ser sincero com a forma de expressão mais natural que eu tenho fazendo música: tocando blues. É um blues de 12 compassos. Em tom menor, nesse caso. E deixando as ideias falarem, deixando a guitarra, a voz e o coração falarem. Essa daí foi a primeira ideia que veio. Quando ela bateu na minha cabeça, já fui mentalmente desenhando tudo porque foi uma ideia feita com muita sinceridade. É realmente uma coisa que aconteceu na minha vida e que fez uma diferença grande em quem eu sou hoje. O Eric de hoje precisou passar por essas experiências. E ele lida com essas experiências, lida com essa sensação, e “I’m Still Working” é uma consequência disso tudo. Essa faixa, inclusive, teve a participação de Jelber Oliveira com o órgão Hammond. Aqui, ele trouxe bastante essa coisa do órgão Hammond que eu já gosto muito quando ele faz. Nós já tivemos a convivência de ter gravado no “Morning” nas faixas “Paradise Highway” e “Time is Mine” com a participação dele. Então, nesse disco trouxe ele de volta. Jelber vai tocar comigo o repertório desse disco em apresentações ao vivo.

06) “Ainda Existe Sol” – Essa também é uma música meio confessional que traz um testemunho meu. Uma canção em português, pois foi assim que ela apareceu em minha cabeça. Todas as canções do disco são em inglês, com exceção dela. Isso foi feito de uma maneira bem natural. Fui deixando as ideias fluírem com a máxima espontaneidade que pude fazer. É uma canção puxada pelos violões. Ela tem uma banda tocando, mas tem essa camada acústica subjacente dos dois violões. E a minha ideia é que fosse uma canção sobre esperança. Não importa o quão caótica esteja a situação ao redor da sua vida, sempre vai haver um sol. Ainda existe sol. O dia acaba, mas sempre um amanhecer pode lhe trazer uma sensação de esperança sobre alguma coisa. É um pensamento que esteve na minha cabeça durante esse período complicado pessoal que eu passei e que eu falei em relação à faixa “I’m Still Working”, mas também fiz uma articulação mental dessa sensação com o “Ainda Existe Sol” como algo ligado à pandemia. Ligado à situação das pessoas estarem perdendo seus entes queridos, essa situação de caos sanitário, e fora essa situação política atual do Brasil, fora essa situação de a pandemia ter dividido as pessoas. Misturou-se com política, mas muitas vezes a gente constata como as pessoas não conseguem ser solidárias nas mínimas coisas. A incapacidade de colocar uma máscara, a incapacidade de se evitar aglomerações, de zelar pelas pessoas ao seu redor, de exercer uma solidariedade social palpável, real. Então, “Ainda Existe Sol” é uma esperança de que apesar dessas situações todas, a gente precisa ter fé em alguma coisa para seguir em frente e acreditar que esse sol ainda existe.

07) “Childhood Days” – É um blues. Um gospel blues, como chamamos. Algo bem ligado a essa referência do gospel e às referências que sempre destaco aqui, e que estão sempre presentes na minha maneira de tocar. E em relação a esse estilo gospel que me marcam muito, destaco o trabalho de Ray Charles e o mestre Gregg Allman, dos Allman Brothers. Essa canção tem muito dessa referência. É um blues com essa pegada gospel em que falo, também, de questões pessoais. Trato da minha infância, como o próprio título já sugere. E isso com uma letra que traz aspectos mais literais de como enxergo a minha infância, como foi essa memória, são referências diretas ao fato de eu enxergar na figura de um guitarrista uma espécie de super-herói. Eu, quando criança, tive isso convivendo com meu pai. Convivendo com guitarristas aqui. E assistindo a vídeos de mestres da guitarra de modo geral. E tudo isso foi moldando a minha identidade. Essa vinculação com a música e com a guitarra desde muito cedo foi um elemento crucial para ser quem eu sou hoje. Então, “Childhood Days” fala um pouco sobre isso. Sobre a minha sensação. Sobre a influência dos Beatles na minha vida, que foram, talvez, as primeiras referências musicais consistentes que tive, assim, na minha formação como pessoa. E novamente é uma música na qual contei com a participação do mestre Luciano Leães, no órgão Hammond. Algo que me deixou muito feliz. Foi realmente um acréscimo precioso para essa música. Um gospel com um órgão Hammond, acho que traz a coisa ainda mais para essas referências das igrejas e me deixou muito feliz com o resultado. Como citado, nesse disco contei com outros dois convidados gravando órgão. Além do Luciano, o Jelber Oliveira e o André T. O “Home”, assim, é um disco em que o formato de trio com o qual eu sempre vinha me apresentando já não faz tanto sentido porque ele traz mais elementos. Traz essas participações. E muitas das músicas do disco têm camadas de guitarra sobrepostas, têm violões. Então, é um disco com mais elementos do que o “Morning”. Acho que dos três, é talvez o disco mais rico em elementos que tenho. E tive a sorte de poder contar com essas feras me presenteando com seus talentos.

08) “It’s Only My Blues” – É um shuffle de blues justamente pensando sobre essa minha condição de um cara branco, baiano, classe média alta, no topo da pirâmide de privilégios, mas fazendo blues, uma canção que vem de um contexto de escravização negra, uma canção que resistiu ao tempo, resistiu a todo tipo de sofrimento e opressão aos quais esses protagonistas foram submetidos. E, enfim, por caminhos diversos da história o blues se globalizou, o blues se tornou uma música interracial. Tornou-se uma música praticada por pessoas dos mais diversos perfis étnicos, raciais, sociais e culturais. Eu, nessa música, faço uma auto-observação. Me coloco como uma pessoa que não tem uma pretensão de assumir um protagonismo que não é meu nessa história. Mas eu, singelamente, estou apenas… “It´s Only My Blues”. Estou apenas contando a minha história. Estou partindo dessa referência que fala muito comigo, com meu coração. É uma música (o blues) pela qual eu me apaixonei ainda criança. E fazendo do meu jeito. Não estou contando a História. Estou apenas contando histórias minhas. Estou apenas dividindo o que eu vivi. Dividindo o que está na minha cabeça. E não é um blues. É um apenas um blues do Eric. Essa música fala disso. Eu me coloco nesse meu lugar e eu falo com esse propósito de… enfim, é o meu jeito de fazer a coisa. Eu identifico isso na música. E conta, também, com a participação do mestre Jelber Oliveira no Hammond, que também realçou bem essa característica meio Allman Brothers que essa música tem com relação a ser um shuffle de blues inspirado nos shuffles típicos dos Allman Brothers.

09) “Heart of Mine” – É uma canção, uma balada que tem a ver com um pouco de rock and roll. Tem um pouco de Stones nela. E foi uma canção que eu fiz bem com o violão na mão. Ela surgiu através de um violão. Eu a queria meio como uma canção de rock. E ela foi surgindo de uma maneira bem espontânea. Ela fala de amor. Ela fala dessa cumplicidade que uma pessoa pode ter na outra. E que é uma coisa importante. No final das contas, é o que apega a gente. Seja no amor de mãe e filho, seja no amor conjugal. Eu acho que ela pode transitar entre esses universos. E em termos de guitarra, eu pensei muito nessa coisa, além dos Stones, uma referência muito presente nessa faixa é o grupo Boston, que ouvi bastante, também. Uma banda de rock and roll que fez muito sucesso no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980. Uma banda dos Estados Unidos que usava muito dessas harmonias na guitarra. Dessas linhas dobradas de guitarra. Com aberturas em terças, essas guitarras tocando juntas e fazendo harmonias. Então, uso muito isso nessa canção. É uma coisa que eu gosto muito. Alguns acham que é brega, que é datado, enfim. O Boston, às vezes, é rotulado como sendo aquele rock já meio ultrapassado. O pessoal às vezes rotula assim essas bandas do chamado AOR – Adult Oriented Rock. É uma coisa que eu gosto muito, que cresci ouvindo. Sou um fã de hard rock, de bandas de metal, também. Não é o caso do Boston, mas eu também sou fã. E essa música é um fruto sincero, também, dessas referências que eu tenho.

10) “Abraço” – É um instrumental que surgiu para mim poucos dias após eu receber a notícia do falecimento do querido amigo Marcos Arcuri, um cantor de hard rock bem legal aqui da cidade de Salvador. Um cara querido. Querido por mim e querido por muita gente. Ele teve uma parada cardíaca, faleceu de repente. E em uma circunstância muito parecida com a que meu pai faleceu. Foi uma coisa meio súbita que pegou todo mundo de surpresa. E foi no meio da pandemia. Não tivemos nem chance de irmos ao enterro e nos despedir. Um cara novo, um cara da minha geração. E eu fiquei pensando na última vez que eu encontrei Marquinhos Arcuri, alguns meses antes da pandemia começar. Foi entre um show e outro. Eu estava tocando em um show da Cavern Beatles, se não me engano, que teve uma banda dele tocando antes. A gente se encontrou no intervalo, nos falamos. Aquela coisa: “oh, meu velho. Nunca mais nos falamos. Que massa lhe encontrar.” A gente se deu um abraço apertado, aquele abraço de amigos que se reencontram. Que gostam muito um do outro, embora não se vejam sempre. E eu fiquei com isso na cabeça. O potencial do abraço enquanto um gesto que sintetiza um carinho sincero que uma pessoa tem pela outra. E muitas vezes a gente não sabe quando esse abraço será o último que a gente vai dar na pessoa. Eu passei por isso com ele. Passei por isso com meu pai. Dois dias antes dele falecer, fizemos o último show juntos, nos abraçamos e eu entrei em um avião para viajar para tocar. E só voltei para Salvador já com a notícia dois dias depois do súbito falecimento dele. Então, “Abraço” é uma coisa que tem um significado simbólico muito grande. Também nessa época de pandemia e também nessa época em que a gente está fragilizado por ter perdido um amigo, por estar procurando respostas para uma partida súbita. Respostas essas que não vêm. Respostas que simplesmente a vida prega essas peças na gente e ficamos completamente impotentes a esse acaso. E o abraço na música vem como uma forma simbólica da pessoa. Essa música é uma tentativa de dar esse abraço em quem está ouvindo. É uma tentativa de ser um ponto de conforto para a pessoa se sentir acolhida diante desses sentimentos de tristeza e de incertezas e falta de respostas para as coisas da vida. E é uma canção que eu gravei aqui em casa, também, tal como todas as outras. Ela tem uma linha de slide. É uma melodia toda em cima dessa coisa do slide. E referências sonoras que sempre me levam para essa sensação de acolhimento, naturalmente, eu não posso deixar de falar do Pink Floyd e do mestre guitarrista David Gilmour, sobretudo. Essa música tem muito dessa influência dele, agora tocando com o slide. Um slide em que eu vou para uma técnica talvez menos ligada à referência do blues do Duane Allman, mas mais para um slide na pegada do George Harrison. Um slide mais focado na melodia. Essa música tem uma confluência entre Gilmour e Harrison nesse sentido.

11) “Can You Hear Me” – É uma canção acústica. Foi a primeira canção que escrevi na pandemia, já quando começou. E era uma canção diretamente confessional e de saudade de meu pai. É uma canção que escrevi para ele, mesmo. Ela foi escrita com violões aqui. Toquei todos os violões e gravei aqui no meu home studio. É uma conversa minha com o meu pai no plano em que ele está agora, no plano espiritual. Eu conversando sobre essa situação e pensando se ele ouve a gente. Questionando sobre essas coisas. O que poderia ser essa conversa com ele. E a vontade que tenho de dizer coisas, de conversar com ele. A saudade que sinto nos momentos em que você precisa conversar com uma pessoa, você precisa ouvir uma palavra. Você precisa fazer uma pergunta e discorrer sobre determinado assunto. E a falta que essa pessoa específica com quem você pode ter essa conversa, a falta que você sente dessa pessoa por ela não estar lá, simplesmente. Então, trago um pouco desse sentimento para essa música. É uma música totalmente ligada a essa minha relação com meu pai. E é talvez a canção mais pessoal. É um presente meu para ele. E tem uma coisa bem de canção, também. Tem uma coisa bem dessa referência de canção no estilo Gregg Allman, que a gente gostava, com solo de slide, com o resonator dele. Foi gravada no instrumento que era dele mesmo. Então, para fechar o disco, eu decidi colocar essa canção como a última justamente porque ela traz essa coisa mais acústica. É a mais pessoal de todas as músicas desse álbum.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog Película Virtual. As fotos de Eric Assmar são de Uanderson Brittes / Divulgação.

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