Entrevista: diretor Ed Lachman fala sobre filme-concerto perdido de Lou Reed e John Cale em homenagem a Andy Warhol

entrevista por Leonardo Tissot

“Então eu vi John Cale. Ele estava com uma aparência ótima. Ele tem vindo ao escritório para se exercitar comigo (…) E ver John me lembrou dos Velvets (…) Não entendo aquele primeiro álbum do Velvet. Quer dizer, eu fiz a capa, fui o produtor, sempre o vejo sendo relançado e nunca ganhei nem um centavo com ele (…) E então eu vi Lou. Estou tão bravo com ele. Lou Reed se casou e não me convidou (…) Eu o vi no show da MTV, ele estava a uma fileira de distância e nem mesmo me deu ‘oi’”.

As frases acima são trechos dos diários de Andy Warhol (que viraram série da Netflix), mas também são parte da letra de “A Dream”, canção que integra “Songs For Drella”, disco lançado em 1990 por Lou Reed e John Cale em tributo ao “pai” da pop art. Os músicos, você sabe, tiveram suas carreiras impulsionadas por Drella (apelido jocoso criado pela dupla para se referir a Warhol, uma simbiose de “Drácula” e “Cinderella”), quando ambos faziam parte do Velvet Underground, nos anos 1960 (se não sabia deve assistir isso daqui também).

Aparentemente se sentindo culpados por terem abandonado Warhol em vida — Reed, especialmente —, os ex-companheiros de banda (que nunca se deram tão bem pós-Velvet) se reuniram não apenas para gravar um novo disco, mas também para fazer alguns shows. E desses shows surgiu um filme-concerto lançado em circuito restrito no começo da década de 90 e prensado no extinto formato laser disc alguns anos depois. Gravado em grande parte durante os ensaios para as apresentações, “Songs For Drella” marca o reencontro entre Reed e Cale após a tumultuada saída do segundo do Velvet Underground, em 1968.

Capa do álbum “Songs For Drella”, de Lou Reed e John Cale

Abalada pela morte de seu mentor três anos antes, a dupla evoca a presença de Warhol em 15 canções que passeiam entre sua infância sofrida numa pequena cidade sem perspectivas (“Smalltown”), trechos de seus diários (a já citada “A Dream”) e pedidos de desculpas (“Hello It’s Me”), na qual Reed canta: “Andy, sou eu. Faz um tempo que não te vejo. Gostaria de ter falado mais com você quando estava vivo”.

Filmado por Edward Lachman (co-diretor do polêmico “Ken Park” e diretor de fotografia de “As Virgens Suicidas”, “Carol” e “Longe do Paraíso” — com indicações ao Oscar pelos dois últimos), “Songs For Drella” revela uma preciosa colaboração entre artistas que não se entendiam muito bem na vida, mas que criaram arte que durará para sempre. Agora restaurado em 4K, o filme originalmente captado em 16mm passou por maus bocados até voltar a ser disponibilizado ao público.

Exceto por apresentações mais recentes em festivais de cinema, “Drella” nunca mais foi visto desde o lançamento original — pelo menos até esta sexta (22), quando a plataforma de streaming Mubi volta a disponibilizar a obra na íntegra, com exclusividade. O filme ficou perdido por cerca de três décadas — os negativos estavam em um laboratório em Nova York, e o áudio nos arquivos da Warner Bros. Há trechos da apresentação no YouTube, embora sem a qualidade da nova cópia restaurada.

Scream & Yell conversou com Lachman, que revela detalhes sobre a filmagem, a forma como a câmera coloca o público “em cima” do palco com os músicos, o tempo que o filme ficou desaparecido e os desafios de trabalhar ao lado dos “difíceis” Cale e Reed.

Você tem falado em entrevistas a respeito de “Songs For Drella”. A ideia de fazer o filme parece ter surgido da gravadora Sire Records em parceria com o Channel 4 (canal de TV britânico), correto? Como surgiu o convite para filmar?
Eu estava envolvido com um projeto chamado “Red Hot + Blue — A Tribute To Cole Porter”. Foi uma iniciativa beneficente voltada ao combate à AIDS na qual pessoas como Jim Jarmusch, Wim Wenders, Neil Jordan e outros cineastas trabalharam. Fiz um vídeo com a Annie Lennox, do Eurythmics, para esse projeto. O vídeo seria dirigido pelo Derek Jarman [diretor britânico], mas infelizmente ele já estava muito doente e não conseguiu [Jarman faleceu de AIDS em 1994]. A imprensa britânica gostou bastante do resultado, eles deram muita atenção ao meu trabalho. Algum tempo depois, o Channel 4 me perguntou se eu queria filmar esse show, uma espécie de homenagem a Andy Warhol, que havia morrido três anos antes [em 1987]. Eles [Reed e Cale] se apresentaram na igreja de St. Ann e depois viriam tocar na Academia de Música do Brooklyn (BAM). Então, é claro, eu precisava da aprovação de Lou e John para fazer o projeto. Eu me encontrei com eles e a primeira coisa que Lou me disse foi: “Não quero nenhuma câmera entre mim e o público, e eu não quero ver nenhuma câmera no palco”. Depois do encontro, fui embora e pensei: “Bem, como vou fazer esse filme sem uma câmera?” [risos] Daí me veio uma ideia. Voltei e disse: “Olhe, você me deixaria filmar uns dois ensaios e um show com as câmeras fora do palco?”. Ele concordou, então foi isso que me permitiu ter muito mais intimidade com eles do que eu jamais poderia ter. Pude usar várias câmeras e fiz movimentos de dolly [movimento de câmera lateral, feito sobre rodas]. Era só eu filmando. E eu pude me sensibilizar com a história, com as letras, com as emoções das músicas. Foi o que eu sempre quis fazer em um show, ter uma câmera em movimento que proporcionasse uma intimidade com os músicos. E como havia apenas duas pessoas, eu pude explorar bem o relacionamento entre eles. Assim, o que era uma desvantagem tornou-se uma vantagem. Então percebi, quando estava filmando nesse palco vazio, apenas com projeções que faziam parte do show, que eu não precisava de uma plateia. O público seria as pessoas que veriam isso pela primeira vez. Outra coisa importante foi que eu conhecia a música bem o suficiente para estar em sincronia com ela. Eu sempre quis fazer algo em que eu pudesse entrar no mesmo ritmo. Eu sinto que as imagens têm um ritmo, tanto quanto a música.

Você já os conhecia antes de filmar “Songs For Drella”? Porque, você sabe, eles tinham uma fama de serem pessoas difíceis de trabalhar.
Sim, estranhamente, uns 20 anos antes, eu tinha feito o vídeo de “Berlin” para Lou. Nessa ocasião, teve um momento quando eu estava configurando a câmera, antes de fazermos o vídeo, que ele chutou a perna do tripé e disse: “faça como Andy”, e depois voltou para o seu microfone. Eu fiquei horrorizado. Tipo, “O que está acontecendo?”. Então eu disse a ele, brincando: “você se lembra quando fizemos o vídeo de ‘Berlin’, que você chutou a câmera embaixo de mim?”. E ele olhou para mim, sorriu e disse: “Eu não me lembro muito daquela época”. E então essa foi minha apresentação a Lou Reed, cerca de 20 anos antes. Mas eu ainda não conhecia John.

O cineasta Ed Lachman

As imagens de “Songs For Drella” foram reencontradas enquanto você pesquisava para o filme de Todd Haynes sobre o Velvet Underground, lançado no ano passado, certo? Como foi essa busca?
As imagens ficaram sob responsabilidade da Warner Bros., que tinha os direitos sobre o filme nos Estados Unidos. Eles chegaram a fazer um laser disc que não ficou muito bom, e sempre achei que deveriam ter lançado em DVD. Mas eles não conseguiam encontrar o material, ninguém sabia onde estava e não davam a mínima. Quando eu comecei a desenvolver “The Velvet Underground” com Todd Haynes, eu mencionei isso a ele. Ele disse que certamente estava interessado, mas acabou tomando a decisão de usar apenas filmagens de quando a banda ainda estava na ativa. Mas uma das produtoras do documentário, Carolyn Hepburn, me disse: “Olhe, eu ajudo você a encontrar o filme”. Procuramos durante um ano, mas não encontramos nada. Até que eu me lembrei, enquanto limpava meu estúdio, do laboratório em Nova York onde originalmente processamos o filme. Entrei em contato com eles e falei: “Enviem-me todo o material com o meu nome”. Então, durante esse tempo todo, a caixa com o negativo original estava a 30 metros do meu quarto. Mas ainda tinha um problema: eu tinha as imagens, mas não tinha o som. Voltei à Warner e eles encontraram a mixagem original do álbum, e não a do show. E então algumas das músicas estavam em uma ordem diferente e tal. Mas acabei encontrando alguém por lá, na área de restauração de som, que era apaixonado pelo Velvet, e essa pessoa me ajudou a achar o áudio. Então, depois de 30 anos, acabamos conseguindo o melhor som e imagem que poderíamos ter. Eu tinha a mixagem de som original para o álbum e os negativos originais. Conseguimos converter a imagem para 4K e obter o melhor som, algo que eu jamais poderia ter sonhado.

Você faz ideia de como algo tão precioso pôde se perder durante tanto tempo? E como se sentiu ao recuperá-lo?
Bem, você sabe, era algo que estava sempre guardado em uma gaveta da minha cabeça, mas eu não tinha acesso ao filme. Estava tão ocupado com o trabalho que não pensava muito a respeito. Só agora eu percebo o quão valioso o filme é realmente, sabe — agora que se concretizou e que as pessoas podem assistir. O que gosto no filme é que você nunca tem uma câmera tão próxima à performance quanto conseguimos ter em “Songs For Drella”.

Após a saída de John Cale do Velvet Underground, a relação entre ele e Lou Reed ficou estremecida. Percebeu alguma tensão entre eles durante as gravações? Houve alguma dificuldade para você, como diretor, neste sentido?
Não. Todo mundo me pergunta a respeito, e o curioso é que a música meio que trata disso. Eu realmente não fazia parte disso [das tensões entre os músicos]. Eu tinha meu trabalho a fazer, tinha que pensar em como eu iria gravar essas 15 músicas, com o tempo limitado que eu tinha. E o que aconteceu entre eles, acho que foi uma progressão lenta ao longo do tempo que eles passaram juntos. Então, eu realmente não estava a par disso e não afetou meu trabalho de forma alguma.

O filme se baseia muito fortemente nas performances das canções. Vocês não pensaram em incluir outros elementos, como entrevistas, imagens de bastidores etc.? Há algum material desse tipo que ainda possa surgir em algum momento?
Não, não. Minha posição era que eu queria documentar a performance. Eu não pensei nisso de outra forma, só queria documentar o que estava acontecendo. E achei que a peça se expressava por si só, não precisava fazer nada a mais. Sabe, muito do material vem dos diários de Andy Warhol, e eu senti que estava tudo lá. Você sabe, a peça inteira é uma homenagem, um canto fúnebre, um memorial… E tem um tom bem confessional. É uma reflexão sobre Andy. Então, para mim, foi como um poema narrativo, com versos e música, que traçou a vida de Andy. Seus sonhos, aspirações, medos e decepções. Eu não achei que precisasse fazer nada além do que estava lá.

Qual você acha que foi a principal motivação por trás de “Songs For Drella”, além da homenagem em si? Eu sinto que foi a forma que eles encontraram de pedir desculpas para Andy.
Eu acho que foram muitas coisas. Você sente Andy lá, de certa forma. As pessoas que o conheciam bem pensavam nele como um observador passivo. Ele era muito tímido, muitas vezes viveu através dos outros, e eu sinto que o espírito de Andy está no filme. E isso é algo que eles foram capazes de evocar por meio das letras e da música. Além disso, há uma evolução no tema do filme, que fala sobre crescer em uma cidade pequena, seus primórdios em Nova York e como ele fez amigos na cidade grande. Acho que está tudo nas letras e na apresentação como um todo.

Na época, você teve conversas específicas com eles sobre como cada música deveria ser captada individualmente? Por exemplo, quais cores usar na fotografia e quais cenas seriam filmadas em preto e branco, entre outros aspectos?
Não, eles deixaram isso totalmente comigo. Eles estavam envolvidos em sua música e sua performance e, como Lou disse, era para isso que ele estava lá. Eles confiaram em mim, à medida que fui respeitoso com as necessidades deles. Voltei a ver Lou algumas outras vezes, em restaurantes e outros lugares, e ele sempre foi muito agradável e cordial comigo. Apenas funcionou, sabe? As pessoas que conheciam Lou intimamente vieram até mim e disseram o quanto o filme significava para ele. Então, isso foi o melhor de tudo.

Revivendo esse projeto depois de 32 anos, acredita que faria algo diferente?
Não, eu tive 32 anos para resolver isso. Estou com 76 anos agora. Vejo os trabalhos que fiz, coisas diferentes. Tenho sorte de que parte dele ainda exista. O trabalho é como um diário. Essa foi mais uma página. Acho que não mudaria nada.

– Leonardo Tissot (www.leonardotissot.com) é jornalista e produtor de conteúdo

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