Homenagem: Nunca tivemos um artista como Mark Lanegan (1964 / 2022)

texto por Janaina Azevedo

Ele se despediu de nós com um livro. Em “Devil in a Coma“, lançado em dezembro de 2021, narrou os dias de luta contra uma covid severa, que o deixou hospitalizado por meses, no ano passado. Em 22 de fevereiro deste ano, ele morreu, em casa, na Irlanda, junto da mulher, Shelley Brien. Se a morte teve a ver com a doença, ainda não é confirmado. Dias se passam e a ausência de Mark Lanegan não deixou de pesar no coração dos fãs.

Depois das memórias doloridas de infância, juventude e primeiros anos de vida adulta em “Sing Backwards and Sing” (lançado no Brasil pela Editora Terreno Estranho), Lanegan voltou aos livros para deixar o relato de dias perturbadores, em que descobriu que estava com a doença que matou 6 milhões de pessoas e mudou o mundo nos últimos dois anos, após receber um jornalista para uma entrevista.

“Eu tinha sofrido tempos difíceis por auto-imposição, mas isso [a doença] era inaceitável”, comenta ele nas primeiras páginas de “Devil in a Coma”.

Era março de 2021, e Mark simplesmente acordou um dia surdo, sem forças para se levantar, sozinho em casa. Se recusou a ir pro hospital, e Shelley precisou chamar uma ambulância contra a vontade dele. A doença descrita por especialistas como tempestade de ocitocinas, tão violenta que deixa o sistema respiratório em frangalhos, fez com que um dos melhores cantores de sua geração não conseguisse respirar. Imediatamente, Lanegan foi colocado em coma induzido. Foi intubado, e recebeu do médico o diagnóstico de que precisaria fazer uma traqueostomia. Shelley não permitiu. Seus rins pararam de funcionar. Ele precisou ser mantido em hemodiálise.

Em coma por três semanas, Mark sonhou. Com ex-namoradas, com a casa que deixou na Califórnia, com o cachorrinho já falecido. Sob medicação pesada, teve alucinações que, como conta no livro, poderiam parecer efeito das drogas que ele passou décadas de sua vida tomando.

Quando recobrou a consciência, passou a viver a angústia e o tédio da internação intensiva, sabendo que não havia tratamento ou cura, assistindo de perto as equipes médicas exaustas pela demanda de trabalho, os números da doença subindo, os pacientes do hospital morrendo. “Cada vez mais me parecia uma estadia sem fim em uma prisão que eu não conseguia evitar, com a data final intencionalmente indeterminada, constantemente mudando para me manter lá dentro”.

Era um quadro gravíssimo, mas Lanegan resistiu. Tanto que os médicos avisaram Shelley que ele era o paciente a ficar mais tempo nas condições difíceis em que estava. Mesmo reclamando e querendo ir embora, ele lutou contra a doença com todas as suas forças.

Mais uma vez como em tantos momentos de sua vida, Lanegan estava frente a frente com a morte, resistindo sempre por um fio. Ele descreve no livro que vivia sob um “espectro de morte”. Vários de seus amigos morreram ao longo dos anos. ‘Eu sabia que estava operando em um tempo emprestado”.

De tanto insistir para ir se recuperar em casa, Lanegan teve alta. Tempos depois, voltou. Com o sistema imunológico debilitado, ele teve pneumonia e infecção no sangue. Mais umas semanas, e uma nova alta. O livro termina quando ele recebe finalmente a notícia de que está curado e que sobram somente sintomas da covid longa, o efeito prolongado da doença no organismo que é comum nos casos.

Durante o período em que se passa o livro, ele menciona não ter se imunizado antes da internação. A vacinação na Irlanda havia começado cerca de três meses antes da infecção dele, no fim de dezembro. Se ele se vacinou posteriormente, não é conhecido.

Mark demonstra no livro uma tendência para teorias conspiratórias. Chega a mencionar que acreditava que a pandemia seria fruto da manipulação dos países ricos, para manter a população controlada, com medo e sem liberdades. Mas depois reconhece que outras epidemias, como a da gripe espanhola, já demonstraram o poder destruidor de doenças fatalmente contagiosas.

Entre um relato e outro, em capítulos curtos e repletos com a verve de escritor já exercitada em “Sing Backwards and Weep”, Lanegan escreve poesias tão bonitas e cheias de imagem quando melancólicas e perturbadoras. Agora, servem de testamento e legado após a partida definitiva.

Nunca tivemos um artista como Mark Lanegan. Que mergulhou nos piores sofrimentos do mundo e emergiu de volta, enquanto tecia uma obra artística que toca pela beleza crua. Até que, em uma manhã de terça-feira insuspeita, tudo acabou. Como Dylan escreveu quando Little Richard morreu, é claro que ele vai viver para sempre em suas músicas, mas é como se parte da nossa vida tivesse ido junto. O mundo nunca mais vai ser o mesmo para os fãs de Mark Lanegan. Só nos resta os relatos duros de quem viu o pior da vida, e aguentou até quanto pôde entre nós.

– Janaina Azevedo (www.facebook.com/janaisapunk) é jornalista e colabora com o Scream & Yell desde 2010. A foto que abre o texto é de Steven Friederich.

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4 thoughts on “Homenagem: Nunca tivemos um artista como Mark Lanegan (1964 / 2022)

  1. Gosto muito, muito,muito de Mark lanegan. Mas sempre me incomoda um pouco a questão do gosto pessoal se sobrepor ao resto. Nunca houve um artista como lanegan talvez seja um pouco exagerado. E pelo relato, parece que ele agiu de forma negacionista, como outro artista que muito admiro: van Morrison. Lamentável o mal que isso faz ao mundo. Rest in peace, lanegan, mas com um tiquinho de ressalva.

    1. A mesma sensação por aqui, e mais, esse lance de “viu o pior da vida”. Os caras se drogavam pra se divertir, sabendo que é uma brincadeira perigosa. Vê o pior da vida uma criança negra que nasce numa favela barra pesada no Brasil. Fica parecendo floreio de acadêmico utópico, saca?

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