Música: “Memoria”, de Anders Trentemøller, um álbum que tem tudo para te envolver

texto por Luciano Ferreira

Para além de seu trabalho como produtor e principalmente responsável por remix de canções de outros artistas – numa lista bastante extensa que inclui nomes como Pet Shop Boys (“Sodom”, 2005), Robyn (‘Konichiwa Bitches”, 2007), The Raveonettes (“Lust”, 2008), Franz Ferdinand (“No You Girls”, 2009), The Drums – (“Days”, 2012), Savages (“Surrender”, 2016) e A Place To Bury Strangers (“Never Coming Back”, 2018), entre muitos outros –, o músico dinamarquês Anders Trentemøller, que vive em Copenhage, tem uma carreira musical que infelizmente não consegue o mesmo alcance de suas requisitadas intervenções em composições de outros artistas.

Isso em nada diminui ou tira o brilho de seu trabalho de composição, que vem desde 2003, através de singles e EP’s, mas somente em 2006 chegou ao seu primeiro álbum, “The Last Resort”, totalmente instrumental e com ênfase na eletrônica. A mudança de selo ocorrida em 2010 veio acompanhada de novas abordagens, e “Into the Great Wide Yonder”, seu segundo álbum – lançado pelo selo próprio – abriu um caminho irreversível para colaborações com outros artistas e para outros elementos musicais, com continuidade em todos os trabalhos posteriores.

Prosseguimento das ideias propostas em “Obverse” (2019), que trazia a participação de um time feminino luxuoso nos vocais (Rachel Goswell, Jenny Lee, Lisbet Fritze e Lina Tullgren), “Memoria” (2022), seu mais recente trabalho (lançado em vinil duplo, CD, fita cassete e streaming, tudo disponível aqui), “fixa” a guitarrista e vocalista dinamarquesa Lisbert Fritze (da banda Giana Factory) como vocalista principal e única no álbum, ao mesmo tempo em que segue mergulhado em atmosferas imersivas.

De duração e quantidade de faixas incomum para os dias atuais (a mais “curta” das 14 faixas tem pouco mais de 4 minutos de duração num álbum cuja média é de 5 minutos), “Memoria” é um trabalho diversificado ao abrigar variados estilos e que consegue coesão a partir da similaridade de ambiências oníricas que recobrem quase todas as composições, seja quando elas assumem um lado voltado para o eletrônico com tendência para a ambient music ou outro de camadas de guitarras envolventes e vocais indolentes comuns ao shoegaze e dreampop.

Do primeiro grupo podem ser citadas as faixas instrumentais “Darklands”, “Glow”, “Rise” enquanto o segundo grupo destaca canções como “Veil of White”, “No More Kissing in the Rain”, “All Too Soon” e a inefável “Like a Daydream”, que remetem a bandas como Cocteau Twins, conectadas pelas guitarras etéreas e vocais oníricos de Fritze. Para ficar no ano presente, somam-se tranquilamente ao lado sonhador do álbum mais recente do Beach House.

Estudioso da música em suas mais variadas vertentes, Trentemøller adiciona elementos do krautrock e drone Music na instrumental “When The Sun Explodes”. “Dead or Alive”, por sua vez, tem um quê de pós-punk com timbres orientais. O álbum fecha com os climas altamente envolventes de “Linger”, mais uma faixa que resvala para o ambient emoldurada por guitarras texturizadas e teclas melódicas.

Fã declarado de pós-punk e shoegaze, o músico alcança aqui resultados impressionantes somando estilos, mas não se filiando a nenhum deles. O resultado é um conjunto de canções construídas com tamanho esmero que faz com que tudo soe perfeitamente encadeado e executado em sua proposta principal de envolver e segurar o ouvinte, um desafio e tanto para um álbum de 72 minutos de música. Faça o teste e volte aqui pra contar!

– Luciano Ferreira é editor e redator na empresa Urge :: A Arte nos conforta e colabora com o Scream & Yell.

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