Música: A Place to Bury Strangers mantém o cetro de banda mais barulhenta da atualidade com “See Through You”

texto por Luciano Ferreira

Depois de Jimi Hendrix, a maneira de tocar guitarra nunca mais foi a mesma. Ao “tratar” o instrumento sem a reverencia característica, mas explorando sem pudor e ao máximo as possibilidades, aliado à sua técnica singular de tocar, o músico acabou por abrir portas que viriam a ser exploradas no correr das décadas seguintes. Adentrariam por elas as experimentações de vanguarda, iniciadas ainda na década de 60 pelo Velvet Underground, a visceralidade dos Stooges, e prosseguiriam na década de 70 através do não convencionalismo de guitarristas como Robert Fripp e Adrian Belew, ou nas orquestras de guitarras de Glenn Branca e Rhys Chatam. Somado a isso, a evolução dos pedais e o avanço tecnológico dos estúdios de gravação mostraram possibilidades quase infinitas para as seis cordas.

A primeira metade da década de 80 viu a continuidade do despudor iniciado nos 60, via muralhas de noise construídas por bandas como Sonic Youth (a partir de “Sister”, 1986) e The Jesus and Mary Chain (em “Psychocandy”, 1985 e “Automatic”, 1988) e que ganhariam um reforço de peso na obsessão pelo barulho dos irlandeses do My Bloody Valentine.

Discípulo de algumas dessas “escolas”, o guitarrista Oliver Ackermann tem uma história no mundo do barulho e na exploração da guitarra que data de sua primeira banda, o Skywave, pontapé inicial para a concretização do que viria a se tornar o petardo sônico A Place to Bury Strangers. Parte disso tem como ponto chave a criação da Death By Audio – empresa de sua propriedade e fabricante dos pedais que o guitarrista utiliza -, responsável pelas distorções colossais de Fuzz (Apocalypse e Armageddon são os nomes de algumas das caixinhas) criadas sob medida para seus intentos. Quem já esteve num show da banda atesta a enormidade de barulho gerada pelo APTBS em seus shows.

See Through You” (2022) é o retorno do monstro sonoro de Ackermann com uma nova formação, que conta com John Fedowitz (baixo) e Sandra Fedowitz (bateria). . De volta aos momentos mais barulhentos da discografia, mesclando o pós-punk de bandas como Joy Division e New Order (linhas de baixo a la Peter Hook) com o noise perpetrado pelos irmãos Reid em “Automatic” (1989), com vocais mergulhados em efeitos de eco e a distorção/microfonia elevada ao quadrado nos momentos mais absurdamente destruidores de tímpanos, que poderiam ganhar o subtítulo de “canções para aporrinhar a vizinhança”.

Em sua própria gravadora, a Deadstrange Records – que reúne um pequeno número de bandas, todas afeitas ao barulho em suas mais diversas formas – após três álbuns pela Dead Oceans, a despeito das mudanças, Ackermann demonstra estar confortável. O novo álbum atesta isso de forma eficaz, seja nos aspectos técnicos, que mostra uma sonoridade mais encorpada, e também no quesito composição, onde é possível perceber uma trilha ligeiramente diferente do que se viu em “Pinned” (2018), ainda que marcadamente ligados aos mesmos paradigmas de outrora: pós-punk e noise-rock sangrentamente barulhento.

Recomenda-se aquela limpada básica nos ouvidos e preparação prévia para 52 minutos de inquietação. Ainda que haja bastantes espaços vazios nos arranjos, quando o pós-punk assume o comando (vide as faixas iniciais, como “Let’s See Each Other”, acima), a geral é de camadas de distorção com níveis diversificados de sujeira e volume com tendência a deixar um certo zumbido antes mesmo do fim do disco, pois a coisa fica bem séria a partir da sequência iniciada em “So Low”, com baixo distorcido, e no noise estilo moto-serra de “Dragged In a Hole”, “Ringing Bells” e “Anyone But You”, a que mais faz jus ao termo. No entremeio desse carnaval, uma pausa de menor intensidade na marcante “I Disappear (When You’re Near)”, cujos versos trazem a sensação de perda e baixa auto-estima ao falar de alguém que sente tão pequeno diante da outra pessoa que parece desaparecer.

O encerramento com “Love Reaches Out” chega a soar como uma releitura de “Ceremony” (do Joy Division/New Order) chicoteada por efeitos que mais parecem apitos e uma guitarra que soa propositadamente mal executada, enquanto Ackermann canta como se tivesse sem vontade alguma. A faixa poderia estar lá no início, com a trinca que abre os trabalhos no humor mais para pós-punk.

Se ali pelo início dos anos 2000 havia um punhado de bandas disputando o título de mais barulhenta e em 2006 e 2015 a disputa foi bem acirrada com o Cosmicdust e Spectres (de Bristol), respectivamente, em 2022 o ATBS mantém com júbilo o cetro conquistado já há alguns anos. E por aqui a guitarra segue sendo tratada com o devido respeito: destroçada e até desfigurada, como um dia Hendrix o fez lá nos idos anos 60, na relação que o guitarrista tem com o instrumento, de amor sem pudor.

– Luciano Ferreira é editor e redator na empresa Urge :: A Arte nos conforta e colabora com o Scream & Yell.

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